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Jovens da Fundação Casa no Vale apostam no Enem para mudar de vida

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Inep vai aplicar prova para os adolescentes nesta terça (1º) e quarta (2).
Unidade de Tremembé fez trabalho com internos na preparação para prova.

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Publicado em G1

Se o tráfico de drogas levou um jovem à Fundação Casa, a educação é uma das apostas dele para dar a volta por cima. O adolescente cumpre medida socioeducativa há seis meses e vai prestar nesta terça (1º) e quarta (2), a prova do Exame Nacional do Ensino Médio.

A data foi escolhida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para aplicar a prova à pessoas privadas de liberdade em todo o país. No Vale do Paraíba, 48 adolescentes estão inscritos.

“Eu não quero perder mais tempo. Os professores são ótimos, quero usar tudo que estou aprendendo para ser alguém melhor”, diz. O jovem abandonou os estudos no primeiro ano do ensino médio. Ele quer utilizar o exame para concluir os estudos para seguir na carreira que sonha: mecânico.

“Sempre achei muito interessante mexer com carro, quero fazer um curso e seguir a minha vida, diferente de quando cheguei aqui. O Enem é a oportunidade de realizar meu sonho mais rápido”, acrescentou.

Para realizar o exame, a unidade de Tremembé, visitada pelo G1, trabalhou com os internos conteúdos do Enem das provas dos anos anteriores e aplicou simulados. Na fundação, os internos estudam de acordo com a série que abandonaram. Há turmas de alfabetização, ensino fundamental e médio. As professoras são as mesmas da escola municipal do bairro onde a fundação está instalada.

A professora de língua portuguesa, língua inglesa e artes, Maria Aparecida Vanoni diz que sente a evolução dos internos desde quando eles chegaram.

“Desde o começo do ano eu trabalho com eles a questão do Enem porque temos que trabalhar a cidadania. Os alunos aqui são bem aplicados, mais até dos que eu tenho lá fora. Tinha gente que não conseguia escrever e agora tira nove na prova. É emocionante falar porque é uma conquista. Toda segunda é um trabalho de leitura e interpretação com temas do Enem, se eu não dou eles me cobram”, descreve emocionada a professora que trabalha na unidade há sete anos.

Outro interno, que está recluso há um ano e dez meses por homicídio, se diz arrependido e também se apega a educação para recomeçar. “A prova vai nos ajudar a mudar de vida. A oportunidade que temos não é qualquer um que tem, estamos aproveitando que estamos aqui dentro para tentar nos dar bem lá fora. Passei o ano inteiro estudando”, afirma o adolescente que sonha em ser cabeleireiro.

Troquei o vício em pedra pelo prazer de estudar, diz finalista da Obmep

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Eduardo Schiavoni, em UOL

“Eu posso dizer que troquei o vício em pedra de crack pelo prazer de estudar”. A frase é do adolescente Thiago*, interno em uma unidade da Fundação Casa em Ribeirão Preto que completará 18 anos em 3 de outubro.

Ele é um dos 1.522 mil menores de idade internados em instituições de recuperação a passarem para a final da Obmep (Olímpiada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas) e conta que, graças aos estudos, poderá recomeçar a vida. “Os números me salvaram”, disse.

Há pouco menos de dois anos na unidade de Ribeirão Preto, ele assume ter realizado “mais de 50” roubos e furtos, a maioria deles para comprar pedras de crack. Ex-viciado, o adolescente conta que morou nas ruas por quase um ano e que apenas descobriu a facilidade para a matemática depois que foi apreendido.

“Eu tinha parado de estudar com 15 anos, no primeiro colegial. Vivi na rua e acabei na Fundação Casa com 16 anos. Antes, por dez meses, fui viciado em crack. Aqui, voltei a estudar e percebi que sabia matemática. Enquanto estava na escola, fora daqui, eu não conseguia entender”, disse.

O desempenho escolar de Thiago foi tão positivo que ele está com emprego garantido assim que ganhar a liberdade. “Irei morar em uma república com mais quatro pessoas, todos ex-moradores de rua e que hoje trabalham. Também vou atrás de cursos para fazer e quero continuar a estudar, quem sabe fazer uma faculdade”, disse.

Rotina

A rotina de Thiago e de outros internos incluem aulas no período da manhã, pausas para refeições e oficinas no período da tarde. Atividades esportivas e disciplinares também são ofertadas, assim como os alunos são incentivados a participarem de projetos de estudos de disciplinas específicas, como a matemática.

“Graças a isso, podemos dizer que casos como o de Thiago, longe de serem exceções, hoje já são a regra nas nossas unidades”,. Ele conta que, na unidade Cândido Portinari, que tem 64 internos, 22 prestaram a prova, dos quais dez foram aprovados. Entre eles, quatro já estão em liberdade.

Segundo Márcio de Paula, diretor da regional de Ribeirão Preto da Fundação Casa, dados obtidos junto aos organizadores da Obmep, mostram que o índice de aproveitamento de internos da Fundação Casa chega a ser duas vezes e meia maior que o de estudantes da rede pública. “Foi assim na Olimpíada de Matemática e isso também é observado em outras disciplinas. Isso ocorre porque, como eles estão internados, então seguem uma rotina rígida na qual o estudo é tratado como prioridade”, disse.

A opção é estudar

Outro interno da Fundação Casa em Ribeirão a ter sucesso na Obmep – o adolescente Gabriel* 16, que parou de estudar aos 15 e, menos de um ano depois, acabou apreendido, concorda com o diretor. “Não tem muita opção, a gente tem que estudar. E isso é bom pra gente mesmo”, conta ele, que também foi aprovado e fez a prova da segunda fase da Obmep em 12 de setembro.

Internado depois de uma série de roubos, ele conta que matemática sempre foi a matéria preferida dele. “Eu sempre gostei de resolver os problemas. Parei de estudar e, quando entrei aqui, fiquei feliz por poder voltar a estudar”, disse.

Ele conta que o pai dele, que é pedreiro, foi o responsável por despertar a paixão pelos números. “Ele também estuda, está terminando o ensino médio. Eu chegava em casa e ele falava para eu calcular a área de uma cozinha, por exemplo, para ele saber quanto de piso precisaria comprar”, conta.

Três internos da Fundação Casa estão na final da Olimpíada de Matemática

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Professor Hugo Tortorelli dá aula para finalistas da Obmep na Fundação Casa (Foto: Marlon Tavoni/EPTV)

Professor Hugo Tortorelli dá aula para finalistas da Obmep na Fundação Casa (Foto: Marlon Tavoni/EPTV)

Jovens que estão na unidade de Araraquara (SP) querem voltar para escola.
Para coordenadora pedagógica, prova mostra que adolescentes são capazes.

Stefhanie, Piovezan, no G1

Nesta quarta-feira (16), quando ligarem para casa, Lucas*, de 13 anos, e Ricardo, de 17, vão ter boas notícias para contar. Os dois pretendem usar a ligação à qual têm direito na Fundação Casa de Araraquara (SP) para avisar mães e namorada que foram aprovados para a segunda fase da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) após realizarem a prova no último sábado (12).

Como eles, Maurício, de 16 anos, também não contou a novidade à família. Vai avisar a mãe na visita de domingo (20) e sabe que ela ficará feliz. “Quero continuar estudando para ser alguém na vida, senhora”, afirmou o rapaz, que está na instituição pela terceira vez, todas por tráfico de drogas.

O trio integra o grupo de nove internos da unidade aprovados para a segunda fase da prova. Seis já deixaram o local e os três que permanecem, com saída prevista para os próximos dias, querem levar para fora o que aprenderam. “Vou voltar para a escola”, disse Lucas, que traficava desde os 11 anos e está no local pela primeira vez.

Cursar direito
“Quero realizar meu sonho”, contou Ricardo, na fundação pela terceira vez, a primeira por lesão corporal e as outras duas por tráfico. Ele afirmou que, como os irmãos, quer fazer faculdade e pretende cursar direito. “Se os outros conseguem, por que a gente não?”, questionou. “Eu consigo ir além”.

Os três afirmaram que antes da última apreensão não estavam frequentando a escola. Lucas revelou que não gostava de ir para as aulas, que uma vez foi suspenso e nunca mais voltou, preferia ficar com os amigos. Ricardo contou que também ficava com “más companhias” e Maurício lembrou que, mesmo com os conselhos da mãe e da avó, não queria estudar.

Na unidade, porém, eles não têm outra escolha. A frequência nas aulas é fundamental para a progressão da medida sócio-educativa e, segundo Maurício, ajuda a fazer o tempo passar mais rápido. Também mostra outras possibilidades. “Vi que é bom estudar. Quero fazer engenharia”, disse Lucas, para alegria do professor Hugo Tortorelli.

Responsável pela disciplina de matemática, ele afirmou que esse interesse é o maior retorno. “O mais importante não é a olimpíada, é voltar a estudar. Se, de cada 100 alunos, cinco permanecerem na escola lá fora, já me sinto realizado”, afirmou.

Estudos
Segundo Tortorelli, os adolescentes chegam à unidade com uma defasagem grande e muitas vezes é preciso relembrar o básico, sempre com exemplos concretos.

“Trago do cotidiano para mostrar que não são só fórmulas, teorias, que a matemática está na vida. Ao falar de divisão, explico que precisam saber quanto é um terço de comprimido para poderem dar remédio para um filho. Com curva, o futebol. E aos poucos você vai mostrando que não é tão complicado”.

Mas não só são exemplos de operações. O professor afirmou que apresenta figuras nas quais podem se espelhar, amigos, livros, tudo para mostrar que, sem educação, não é possível evoluir. “Eles não veem que a escola transforma, forma cidadãos. Eles têm que ter ciência de que, se não voltarem a estudar, podem voltar para cá”, disse, lembrando que também é imprescindível ter determinação. “Tem que ter muita força de vontade porque, quando ele chega ao bairro, os amigos não pensam assim”.

Outro ponto que levou ao sucesso dos alunos na prova, na visão do professor, foi o número de estudantes em cada sala de aula da unidade. Quando eles chegam, os profissionais consultam o histórico escolar e avaliam em qual turma devem entrar. Aqueles que estudam pela manhã fazem curso técnico, atividades esportivas e iniciação musical à tarde e vice-versa.

Atualmente, a fundação conta com 10 salas em Araraquara. São cinco turmas pela manhã e cinco à tarde, todas vinculadas aos currículos e professores das escolas Jandyra Nery Gatti (1º a 4º ano) e Letícia de Godoy Bueno Lopes (6º ano ao colegial), mas com uma diferença.

“Trabalho como professor há oito anos e este é o meu primeiro na fundação. Cheguei a ter turma com 56 alunos e aqui são 10, 12. É possível dar mais atenção, sinto que ajudo de verdade”, disse o professor. (mais…)

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