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Escritores que (provavelmente) foram mortos por causa de seus livros

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Fabio Mourão, no Dito pelo Maldito

Para a maioria das pessoas, o trabalho de um escritor é sempre visto como uma posição confortável atrás de um teclado, digitando histórias perigosas de um lugar bem seguro. Claro que, às vezes, alguns jornalistas precisam ir a campo, e até encarar zonas de combate, para compor suas pesquisas. Mas realmente a maior parte dos autores de ficção não precisam muito se preocupar com um bom seguro de vida.

Mas as ideias contidas em uma escrita podem alcançar uma plenitude que nenhum poder político ou militar é capaz de destruir completamente. Ao longo da história, muitos escritores perderam suas vidas por que se atreveram a escrever sobre algo que não deviam. Mesmo atualmente, existe pelo menos meia dúzia de escritores pelo mundo sob ameaças diretas de execução por causa de seus trabalhos.

Aqui estão alguns autores que poderiam ter vivido um pouco mais se não tivessem tido a teimosia de escrever seus livros.

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Anna Politkovskaya
Pode parecer engraçado ver o presidente russo, Vladimir Putin como um meme divertido de internet, mas quando você considera que ele provavelmente tenha mandado assassinar a jornalista Anna Politkovskaya pela sua oposição declarada à sua administração e a guerra na Chechénia,… Ele não parece uma piada.

Politkovskaya foi encontrada morta a tiros em um elevador (justamente no dia do aniversário de Putin), depois de ter sobrevivido a pelo menos nove outras tentativas documentadas contra a sua vida. Embora cinco homens tenham sido condenados pelo assassinato, eles confessaram que o fizeram apenas sob ordens expressas, mas a identidade do mandante permanece desconhecida.

livroUm Diário Russo
Em 7 de Outubro de 2006, Anna Politvoskaya foi morta a tiro à porta da sua casa, a meio de uma investigação que estava a levar a cabo para o jornal Novaya Gazeta sobre a tortura na Chechénia. Em 24 de Novembro de 2006, dois colegas do mesmo jornal que investigavam o seu assassinato receberam ameaças de morte. Alexander Litvinenko, muito crítico do regime de Vladimir Putin e dissidente dos serviços de informações russos, foi envenenado com tálio enquanto investigava, a morte da jornalista Anna Politkovskaya.

O assassinato de Anna Politkovskaya foi objecto de condenação internacional e levantou preocupações sobre a estabilidade política da Rússia. Em Dezembro de 2006, o Comité Executivo do Instituto Internacional de Imprensa (IPI) decidiu nomear a jornalista russa como Heroína da Liberdade de Imprensa Mundial. Recentemente, as autoridades russas detiveram 10 suspeitos formalmente acusados de envolvimento no assassínio.

Politkovskaya foi a 13ª jornalista a ser assassinada a soldo desde que Vladimir Putin chegou ao poder, no ano 2000. Apesar das reiteradas ameaças de morte que recebeu até esse dia, Anna sentiu que era seu dever continuar a denunciar o sofrimento de milhões de russos sob a governação de Vladimir Putin e recusou ter um guarda-costas ou dar ouvidos aos pedidos da sua família para deixar o país.

Um Diário Russo inclui entrevistas a pessoas cujas vidas foram devastadas pelas polícias de Putin, incluindo as mães das crianças cujos filhos morreram no cerco de Beslan, as vidas dos soldados russos estropiados na Chechénia e depois abandonados pelo Estado e de todos os jovens homens e mulheres dados como “desaparecidos”. (Editora Rocco)

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Giordano Bruno
Durante um período da história em que a prática da ‘inquisição’ corria solta nos lábios de homens poderosos da igreja que viam heresia em quase tudo, o gênio Giordano Bruno recusou-se a medir as suas palavras, escolhendo escrever livremente sobre as suas crenças panteístas e outras ideias consideradas blasfêmia pela igreja. Ele foi preso, e, depois de um longo julgamento, queimado vivo pelas coisas que escreveu. Bruno era um astrônomo notável e criou teorias que ainda hoje são usadas no campo da filosofia.

81nlbq4df0l-sl720Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos
Os enigmas do universo ainda não foram completamente desvendados, mesmo no século XXI, e dificilmente serão. Isso graças à constatação, séculos atrás, de um pensador que expôs pela primeira vez a infinitude do universo e a possibilidade de haver vidas inteligentes em outros mundos. Seu nome era Giordano Bruno, que, estimulado pela introdução do sistema heliocêntrico de Copérnico e tomado de um profundo gosto pela controvérsia, defendeu a idéia da pluralidade dos mundos.

É evidente que suas ideias não foram prontamente aceitas, já que o homem tem em sua natureza, talvez para se sentir seguro, a tendência de acreditar naquilo que é comprobatório ou palpável. Entretanto, isso não foi empecilho para o desenvolvimento de sua teoria.

Seu ponto de partida foi contestar com veemência as posições aristotélicas, favoráveis ao geocentrismo e à ideia da existência de um único mundo.”Giordano Bruno – Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos” é uma obra que contribuiu sobremaneira para a Astronomia, pois, em razão de sua conclusão, hoje estamos cientes da amplitude do universo e, mesmo que novas descobertas caminhem a passos lentos, é inegável que seu conteúdo nos legou a base necessária para explorarmos novas ocorrências. (Editora Madras)

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Isaac Babel
Por outro lado, você deve entender porque as pessoas sempre levam Joseph Stalin a sério. Stalin era atarracado, tinha o braço esquerdo atrofiado e graves cicatrizes no rosto devido a um ataque de varíola na infância. O que não é exatamente a aparência assustadora que se espera de alguém que se tornaria um dos maiores assassinos em massa de todos os tempos. Issac Babel decidiu parar de escrever quando Stalin forçou todos os escritores russos a seguirem os seus preceitos do “Realismo Socialista”, convencido de que sua autoridade logo dominaria a classe. Ele selou o seu destino quando escreveu e tentou apresentar a sua peça Maria que, não só foi contra as preferências artísticas de Stalin, mas também era carregada de referencias a corrupção do estado. O NKVD (a antecessora da KGB) fechou o teatro durante os ensaios, prendeu Babel o declarando como traidor, mataram o escritor a tiros, e jogaram o seu corpo em uma vala comum.

babel_maria_2015102171717Maria:Uma Peça e Cinco Histórias
Lançada no Brasil recentemente, Maria é a última peça criada pelo escritor russo Isaac Bábel. Escrita em 1935, a peça nunca foi encenada diante da repressão política que vigorava na URSS stalinista. De teor polêmico, Maria trata da vida numa ordem cada vez mais autoritária, onde o espaço para o romantismo dos bandidos (tema presente em diversas obras de Bábel) é cerceado pelas próprias engrenagens do Estado soviético.

Além disso, essa edição acompanha alguns dos principais contos do escritor, incluindo o conto “Mamãe, Rimma e Alla”, seu primeiro texto publicado na revista de Máximo Gorki (a quem ele dedica o também publicado “História do meu pombal”).

Uma leitura recomendada a todos aqueles que desejam conhecer o pensamento de um escritor comprometido com a revolução e que se vê gradualmente enredado e assombrado por ela. (Cosac & Naify)

10 clássicos da literatura russa além de Tolstói, Dostoiévski e Nabokov

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Luiz Guilherme, no Literatortura

Não descartando os papeis de escritores fabulosos que contribuíram para a divulgação da literatura russa, como Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói e Vladimir Nabokov, o leste europeu pode ficar lisonjeado pelas obras que possuem em seu acervo, haja vista que ela apresenta uma riqueza de livros extremamente importantes para a compreensão da sociedade russa, seja nos tempos do império ou da União Soviética.

Infelizmente muitas destas obras não possuem tradução em português, o que dificulta o seu acesso somado com o fato de que a antiga União Soviética censurou e até puniu alguns escritores que ousassem retratar, criticar ou satirizar o país. Com o fim da Guerra Fria, tais livros paulatinamente foram recebendo a atenção de pessoas de diversas partes do mundo. Hoje a literatura russa não se resume apenas em “Crime e Castigo” ou “Guerra e Paz”, sendo muito mais peculiar, ampla e rica do que isto. Acompanhe alguns livros:

Um Dia na Vida de Ivan Denisovich – Alexander Soljenítsin

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O escritor russo e ganhador do Prêmio Nobel de 1970, Alexander Soljenítsin, foi sem dúvida um dos grandes escritores da literatura russa do século XX. Alexander foi um dos primeiros escritores a denunciar veemente a situação das “gulag” (campos de trabalhos forçados) da União Soviética. Um Dia na Vida de Ivan Denisovich foi uma destas brilhantes manifestações contra a política das “gulag”, haja vista que o livro descreve com detalhes a situação destas prisões. Na obra, Ivan Denisovich é acusado de apoiar os alemães através de táticas de espionagem, levando-o a um campo de trabalhos forçados da URSS. Apesar da vasta crítica dirigida ao regime soviético, Nikita Kruschev apoiou a divulgação do livro para impulsionar o processo de desestalinização que ocorria no país.

Timur and His Squad/ Timur and His Team– Arkady Gaidar

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Haveria sentido afirmar a congruência e harmonia de estilos de Arkady Gaidar em vista de outros escritores infantis oriundos da América ou Europa Central. Todos eles enaltecem a vida infantil com suas particularidades e desafios, deixando transparecer assuntos mais sérios como o patriotismo. A obra centraliza a história de um garoto e de sua turma que se dedicavam a ajudar mulheres e crianças cujos maridos e pais estavam na guerra. Além de ter sido um memorável livro da literatura infantil soviética, Gaidar contribuiu para o início o Movimento Timurite na ex-URSS, que consistia em levar o orgulho à pátria aos jovens soviéticos.

O Exército de Cavalaria/Cavalaria Vermelha – Isaac Babel

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Assim como Alexander Soljenítsin, o judeu de origem soviética, Isaac Babel dirigiu grandes críticas ao regime da URSS. Os seus livros formavam a sua crítica, visto que observava a política do Leste Europeu com grande ceticismo, o que culminou na sua pena de morte por fuzilamento. Em o Exército de Cavalaria, também conhecido sob o título de Cavalaria Vermelha, Isaac babel relata a brutalidade do exército vermelho durante a guerra russo-polonesa que ocorreu em um período em que a Europa ainda estava fragmentada pela Primeira Guerra Mundial.

Coração de um Cão e Outras Novelas – Mikhail Bulgakov

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Após ser recolhido pelo cirurgião, o senhor Preobrazhenski, Sharik, um antigo cão de rua recebe os órgãos de um homem falecido. Sharik torna-se um cão-homem, recusando-se a aprender os hábitos da Russa imperial, ilustrando o czarismo em detrimento do bolchevismo. Bormental se preocupa com os resultados do experimento. A sátira de Stálin se inicia quando Sharik ingressa na política soviética e passa a exercer práticas dignas de um ditador. Coração de um Cão e Outras Novelas foi proibido na URSS, pelo fato de que as denúncias da política soviética no livro de Mikhail Bulgakov eram realizadas por meio de sátiras.

12 cadeiras – Iliá Ilf e Evguêni Petroff

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Outro retrato satírico da sociedade soviética posterior a Revolução Russa. Ipolit Matveyevich Vorobyaninov está à procura de um tesouro escondido em uma cadeira, o qual foi recolhido pelo governo da URSS. O vigarista Ostap Bender se junta na caça às jóias, no entanto, para alcançá-las terão de primeiro passar por inúmeros obstáculos. Uma excelente recomendação para quem gosta de aventuras e deseja conhecer melhor o leste europeu e os soviéticos em si.

Propaganda Monumental – Vladimir Voinovich

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O título do livro é oriundo de uma estratégia elaborada nos primeiros anos da União Soviética, que tinha como finalidade a divulgação do pensamento revolucionário por meio de monumentos, panfletos e slogans ligados ao comunismo e à Revolução Russa para buscar o apoio de todo o restante da população que estivesse afastada dos ideais do movimento. O livro mostra Aglaia Riévkina, que para exteriorizar o seu fanatismo por Stálin, constrói uma estátua representando o ditador para ser colocada em uma praça. Com a desestalinização motivada por Nikita Krushchev, não existem mais motivos para a colocação da peça monumental na praça. Logo, ela resolve colocar a estátua dentro de seu apartamento.

Doutor Jivago – Boris Pasternak

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Boris recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1958 após ser acusado pelo governo soviético e quase ser enviado para um campo de trabalhos forçados. O romance Dr. Jivago, que posteriormente tornou-se um filme, é um grande clássico não só da literatura russa como também compõe o catálogo de livros que contribuíram para a história da literatura mundial. Infelizmente acabou sendo censurado pela URSS por apresentar ideais contra o socialismo. Nele o médico e poeta, Yuri Jivago, descreve suas aventuras profissionais e amorosas durante o período da Revolução Russa.

Uma Noite Antes do Natal (Christmas Eve) – Nikolai Gogol

Em Uma Noite antes do Natal, um diabo rouba a lua e esconde no bolso, passando a cometer atos de maldade em uma aldeia no leste europeu. Vakula, pintor de retratos, é um morador desta comunidade e apaixonado por Oksana que, entretanto, não o ama. Vakula percebe que a única forma de conquistar Oksana será derrotar o vilão.

Nikolai Gogo é bastante comparado com o escritor dos Estados Unidos, Edgar Allan Poe, ora pela mesma época em que viveram, ora pelos assuntos que tratavam em suas histórias, os quais envolvem eventos e personagens macabros. Até a maneira de escrever em forma de contos tinham como similaridade.

Contos – Mikhail Saltykov Shchedrin

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Uma coletânea de histórias retratando a decadência da sociedade russa antes da revolução. A premissa do livro é oriunda da experiência que Mikhail Saltykov Shchedrin teve quando era funcionário público e se deparava com vários casos envolvendo corrupção e um excesso de burocracia para casos simples de serem resolvidos.

Contos de Odessa – Isaac Babel

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Em Contos de Odessa, Isaac Babel registra o dia a dia das classes sociais mais baixas, bem como de judeus que eram perseguidos em meio aos tempos de intensas modificações promovidas pela Revolução Russa, mostrando vários personagens tentando sobreviver em uma cidade com crises. O realismo com que os seus contos focam o cotidiano dos mais pobres e perseguidos da sociedade russa valeram-no a fama de contista, contudo, rendeu-lhe também a pena de morte.

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