Por Fabiene Secches, na Época

Faz um ano que estamos de quarentena, privados de nossas vidas sociais, confinados às nossas casas e atividades essenciais;
como poderíamos estar enfrentando um período repleto de desafios se não fosse a ajuda da literatura, do cinema, da música e de outras expressões de vida?

Faz um ano que tentamos ficar em casa sempre que possível, um ano que usamos máscara sempre que precisamos sair. Um ano que estamos assustados, alarmados e coletivamente enlutados, quando não pessoalmente devastados por perdas de pessoas próximas a nós. São tempos impensáveis, que testam limites e nos colocam em uma condição extrema. Ninguém pode suportar bem uma dor aguda que se transforma em crônica, mas não deixa de doer com a mesma intensidade de antes.

Faz um ano que compartilho nas minhas redes sociais algumas notícias que considero imprescindíveis e um ano que tento me proteger do excesso de informação dessas mesmas redes, que mais nubla o pensamento do que ajuda a pensar. Também faz um ano que agradeço diariamente por ter boas companhias nessa jornada, as que estão por perto todos os dias e as que estão de longe, através das telas, em cada aula que frequento ou que ministro e em cada encontro on-line, com quem tenho trocas tão enriquecedoras. Se não fosse a literatura, o cinema e a música, se não fossem os bichos e as plantas, não sei como estaria sobrevivendo.

É muito importante não se alienar e não se acostumar ao absurdo, principalmente quando estamos diante de um vírus que não é resultado de uma mera fatalidade biológica, mas sim consequência do nosso modo de vida predatório. Apesar disso, muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Basta observar a curva de contágio no mundo: enquanto lá fora os números começam a diminuir, no Brasil, continuam aumentando. Nós, que tínhamos tudo para nos tornar uma referência com nosso Sistema Único de Saúde (SUS), que poderia assegurar a vacinação em massa de modo exemplar se tivéssemos insumos, ficamos reféns de um governo que tem a morte como política — e isso, desde antes das eleições de 2018. Infelizmente, Bolsonaro e os seus só fizeram escalonar o que ele já prometia em campanha.

De outro lado, se é muito importante que a gente possa se revoltar e possa expressar essa revolta, que a gente possa se indignar e expressar essa indignação, ninguém pode sobreviver ao que se desdobra diante de nossos olhos falando apenas de morte e de doença. A realidade nos convoca para uma morbidez de proporções inéditas, guiada por aquilo que o pensador camaronês Achille Mbembe chamou de “necropolítica”. Mas nós precisamos de alguma pulsão de vida, de alguma esperança — nos termos que Caetano Veloso propõe a esperança, acompanhada de responsabilidade e de implicação.

Precisamos ler, escrever, desenhar, bordar, cantar, dançar, rir, conversar, encontrar pequenas alegrias no meio de tanto cansaço e desalento. São votos de fé, que longe de expressões alienadas, são expressões de vida. Escrevo esta coluna para puxar conversas sobre o que pode nos ajudar. O instrumento mais valioso, sem dúvida, é o nosso voto. E, para exercê-lo bem, precisamos nos lembrar de um embate descrito pelo psicanalista alemão Sigmund Freud: o princípio do prazer versus o princípio da realidade. Quando votamos, nem sempre podemos escolher o nosso candidato ideal, temos que nos confrontar com as opções reais e com as limitações que cada uma delas oferece. Alianças que desaprovamos, características que rechaçamos, políticas das quais discordamos. Uma delas vencerá as eleições, uma delas decidirá sobre tantas vidas, e a que está em curso não pode continuar.

Enquanto estivermos coletivamente embriagados pela ficção da falsa equivalência, não enxergaremos as diferenças abissais que existem entre o governo atual e qualquer outro governo democrático que o Brasil já teve ou poderia ter. É preciso que estabeleçamos um limite do que é intolerável. Se 30 mil mortes não eram (como Jair Bolsonaro mencionou numa entrevista bem anterior às eleições), será que 300 mil serão?

Mas, até 2022, quando teremos a oportunidade de escolher novamente, como vamos atravessar? Pode ajudar se abrirmos portas que nos permitam visitar outros mundos, que nos permitam sair da catástrofe em que estamos vivendo. Agora que essas portas estão concretamente fechadas, a literatura e o cinema se tornam ainda mais valiosos. É pelas páginas dos livros e pelas telas do celular, do computador e da televisão que podemos viajar, encontrar momentos de trégua, intervalos para o sofrimento, ou mesmo compreensão para o nosso sofrimento. Cada um pode escolher o que pode e precisa ler ou ver para se restabelecer minimamente, para que possa voltar a se sentir capaz de sonhar e de amar.

Nessa quarentena prolongada, tive oportunidade de assistir e de ministrar dezenas de aulas e de participar de outros tantos encontros para falar de literatura. Nessas ocasiões, as pessoas que estiveram comigo à distância pareciam vivissimas, repletas de assuntos e afetos, ávidas para ouvir e para compartilhar impressões, interpretações, questões suscitadas pelas obras discutidas, que foram desde a Antiguidade Clássica, com Medeia, do dramaturgo grego Eurípedes, até a contemporaneidade, com obras que tratam de questões próprias do nosso tempo, como o ótimo romance Sobre os ossos dos mortos, da escritora polonesa Olga Tokarczuk.

Há também quem não esteja conseguindo sequer encontrar a concentração necessária para a leitura, o que é mais do que compreensível. Nesse caso, recomendo se proteger um pouco das notícias — ninguém precisa ser informado de hora em hora, não é mesmo? — e do ambiente muitas vezes fatalista das redes sociais. Se puder, reduza o tempo de exposição a esses meios e escolha um livro que não se coloque como um obstáculo, começando por uma obra que tenha vontade de ler por puro entretenimento, independentemente da qualidade literária. Ou, quem sabe, busque um clube de leitura, com cronograma estabelecido, para que isso e as trocas com colegas possam funcionar como estímulos. Pode ser uma boa forma de quebrar a barreira.

Recentemente, a escritora brasileira Giovana Madalosso compartilhou no seu perfil do Twitter: “Finalmente entendo o que ia dentro daquelas pessoas que bebiam, cantavam, amavam e trepavam, mesmo durante a guerra”. No mesmo clima, acrescentaria que finalmente entendo aqueles que escolhiam ler literatura. São os livros, e também os filmes e as séries, essas produções absolutamente “desnecessárias”, que estão salvando a minha vida e a de tanta gente, assim como as máscaras e as vacinas.

Viva a ciência, que prospera em meio a tanta obscuridade e está nos oferecendo uma porta de saída. E viva a força das histórias, que por vezes funcionam como bóias às quais podemos nos agarrar, enquanto aguardamos socorro. E, por vezes, são elas mesmas barcos que permitem a travessia, nos levando a outros lugares, mais ou menos sãos, mais ou menos salvos.