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Coletânea e edição comemorativa de ‘Morte e vida Severina’ revelam outro João Cabral de Melo Neto

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Poema completa 60 anos e filha escreve suas memórias sobre a vida da família no exterior

Leonardo Cazes, em O Globo

O poeta sorri: Hiroto Yoshida, fotógrafo da montagem original de “Morte e vida” (abaixo), registrou raro sorriso de Cabral no lançamento de “Poesias completas” em 1968 - Divulgação / Hiroto Yoshida

O poeta sorri: Hiroto Yoshida, fotógrafo da montagem original de “Morte e vida” (abaixo), registrou raro sorriso de Cabral no lançamento de “Poesias completas” em 1968 – Divulgação / Hiroto Yoshida

RIO – Durante um jantar da família na Suíça, em 1965, o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999) abriu uma carta vinda do Brasil. O diretor Silnei Siqueira pedia autorização para encenar uma versão musicada do poema “Morte e vida Severina” com o grupo de teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o Tuca. A música ficaria a cargo de um jovem compositor, Francisco Buarque de Hollanda. A cineasta e tradutora Inez Cabral lembra que o pai ficou preocupadíssimo ao saber que seu poema, publicado em 1956, ganharia música. Contudo, seguiu a postura que mantinha em relação à própria obra: uma vez impressa em livro, poderiam fazer o que quisessem. Os versos deixavam de ser do poeta e passavam a pertencer ao mundo.

— A gente estava jantando quando ele leu a carta pedindo para montar a peça. Ficou uma arara, só se acalmou quando autorizou a peça e a música, se a métrica de seus versos não fosse modificada. Quando Chico conseguiu a proeza, ganhou seu fã número um — conta Inez.

Esse episódio é lembrado em “A literatura como turismo” (Alfaguara), seleção de poemas de Cabral que falam das cidades onde viveu em sua trajetória de diplomata. Os textos, escolhidos por Inez, são intercalados com suas memórias sobre o período passado em cada local, revelando a intimidade do poeta. A coletânea chega às livrarias junto à edição comemorativa de “Morte e vida Severina” (Alfaguara), que completa 60 anos.

“ERA IMPOSSÍVEL MUSICAR AQUELES VERSOS”

A nova edição de “Morte e vida” traz um depoimento de Chico Buarque à revista “Porandubas”, da PUC-SP, em 1980, sobre a peça. O cantor lembra que ainda estudava Arquitetura na Universidade de São Paulo (USP) quando recebeu o convite do psicanalista Roberto Freire, amigo de sua irmã Miúcha. Chico diz que sentiu medo e que não tinha, na época, o conhecimento musical exigido pelo trabalho. A missão foi hercúlea.

“Tinha horas em que eu via que era impossível colocar música naqueles versos, e não consegui musicar mesmo algumas partes. Teve até uma cena em que cortei alguns versos e depois o João Cabral me cobrou aquilo, perguntando se seria devido a outros problemas. Ah! Agora lembro, que foi naquela hora, em que ele falava dos ‘sociólogos do lugar’, e João Cabral perguntou se eu queria poupar Gilberto Freyre. Acontece que ‘sociólogos do lugar’ é um verso imusicável, e tive que cortá-lo. Agora, você pode ver um Manuel Bandeira é muito musical, mais que o Drummond, o qual, comparado com João Cabral, é Beethoven”, diz o compositor no depoimento.

João Cabral não era fã de música. Desafinado, era dispensado das aulas de solfejo na escola para jogar bola. Vivendo na Suíça, primeiro em Genebra e depois em Berna, o poeta só assistiu à montagem de “Morte e vida” quando o Tuca se apresentou no IV Festival de Teatro Universitário de Nancy, na França, em maio de 1966. A esposa Stella e a filha Inez o acompanharam. A preocupação, então, deu lugar à alegria de ver o seu poema no palco, conta a filha.

— Ele adorou a montagem como um todo, os atores, a cenografia, a direção e sobretudo, eu acho, a música. Ele ficou muito emocionado ao ver seu trabalho executado de maneira fiel à sua percepção da peça. E claro, ficou orgulhoso também ao sentir a resposta do público.

A única paixão musical do poeta foi o flamenco. Cabral conheceu o gênero espanhol nos seus primeiros anos no Rio, para onde se mudou em 1943 após ser aprovado em um concurso público. Foi nesse período que se integrou às rodas literárias e ficou amigo de Vinicius de Moraes e Rubem Braga. Em 1947, já no Itamaraty, o poeta lembrou sua paixão ao lhe perguntarem onde gostaria de servir: Espanha. No país, fez amizade com diversos artistas, como Joan Brossa, Antoni Tàpies e Joan Miró.

A sua cidade espanhola favorita era Sevilha. Foi para lá que o diplomata foi enviado em 1956, ao ser reintegrado à diplomacia depois de quatro anos afastado pelo governo Getúlio Vargas. Em “A literatura como turismo”, Inez conta que Cabral sofreu uma “metamorfose total”, tornando-se “uma figura alegre, boêmia, simpática”. Para Sevilha, ele dedicou muitos versos: “A cidade mais bem cortada/ que vi, Sevilha;/ cidade que veste o homem/ sob medida./ Justa ao tamanho do corpo/ ela se adapta,/ branda e sem quinas, roupa/ bem recortada.”, escreveu em “Sevilha”.

Esse Cabral solar e sorridente é pouco conhecido do público. A imagem do poeta é a de um homem soturno. Um retrato nas últimas páginas da nova edição de “Morte e vida”, entretanto, prova o contrário: lá está ele sorrindo. O raro registro fotográfico foi feito por Hiroto Yoshida, que iniciou sua carreira clicando a montagem histórica do Tuca. Yoshida conta que a fotografia de Cabral sorridente foi feita em 1968. O escritor veio ao Brasil lançar “Poesias completas” no teatro da PUC-SP. O elenco de “Morte e vida” compareceu.

— Cabral ficou muito contente, emocionado. Abriu o sorriso e foi uma festa que tive a felicidade de clicar. A própria Inez me disse que era difícil ver uma foto do pai sorrindo — conta Hiroto.

Aplicativo mapeia locais em Recife eternizados por Clarice, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto entre outros

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Estátua de João Cabral de Melo Neto na Rua da Aurora, centro do Recife

Estátua de João Cabral de Melo Neto na Rua da Aurora, centro do Recife

 

Rodney Eloy, no Pesquisa Mundi

Os recifenses e turistas que visitam a capital pernambucana já podem trocar os Pokémons por autores da literatura brasileira. Idealizado pelo cineasta Eric Laurence e realizado por meio do Funcultura, o aplicativo Ruas literárias do Recife tem como objetivo aproximar as pessoas do espaço urbano e da cultura literária da cidade. Com 150 pontos de localização e 82 autores de diferentes épocas e estilos, as ruas da cidade são mapeadas montando um roteiro literário e poético no qual a população pode descobrir como as ruas e suas edificações foram descritas e representadas por escritores pernambucanos. Dentre os autores pesquisados e citados no aplicativo estão nomes como Clarice Lispector, Raimundo Carrero, Ronaldo Correia de Brito, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Carneiro Vilela. O aplicativo é gratuito e está disponível para Android e iOS.

via Publishnews

Filha de João Cabral de Melo Neto organiza livro sobre vivências do poeta mundo afora

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Carlos Wrede | Agência O Globo/ 03-09-1990

Carlos Wrede | Agência O Globo/ 03-09-1990

 

Mariana Alvim, em O Globo

Como diplomata, João Cabral de Melo Neto viveu na Inglaterra, Equador, França, Suíça, Senegal e, sobretudo, na Espanha — e escreveu poemas sobre esses países.

Em Marselha, por exemplo, João Cabral conheceu as cabras mediterrâneas que inspiraram o célebre “Poema(s) da cabra”.

Em agosto, sai pela Alfaguara “A literatura como turismo”, uma coletânea organizada por Inez Cabral, sua filha.

São 80 desses poemas, entrelaçados com textos curtos escritos por Inez com suas memórias da vida com o pai.

Como a doença influenciou a obra final do poeta João Cabral

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Como a doença influenciou a obra final do poeta João Cabral

(Foto: Eder Chiodetto/Folhapress)

Um livro analisa os últimos trabalhos de João Cabral de Melo Neto e conclui que, mesmo cego e deprimido, ele manteve sua excelência literária

Marcelo Bortoloti, na Época
Quando morreu, em 1999, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto estava cego. Passava os dias com as janelas fechadas em seu apartamento no Rio de Janeiro, ouvindo o noticiário do rádio. Não gostava de música. Havia muito tempo não saía de casa e estava afastado de seu principal prazer, a leitura. Deprimido, não podia beber por proibição médica. Tomava dezenas de medicamentos, que atrapalhavam sua dicção. Mesmo ateu, dizia ter medo da morte, impressionado com a imagem do inferno que descobrira criança num colégio de padres. Para amigos próximos, falava do receio de ver sua obra esquecida depois que se fosse.

O fim dele foi o ponto mais triste de uma trajetória marcada por transtornos físicos e psicológicos nas duas últimas décadas da vida. Nesse período turbulento, ele produziu cinco livros que compõem sua produção menos conhecida e estudada. Naquela época, rechaçado pela nova geração de poetas (que o considerava formalista demais), desacreditado pelos críticos (que supunham que sua poesia se esgotara nos anos 1960), ele escreveu livros como Auto do frade, que quase ninguém leu. Quinze anos após sua morte, o principal especialista em sua obra, Antônio Carlos Secchin, lança um livro que pode fazer justiça à fase final. Publicado pela editora Cosac Naif, Uma fala só lâmina analisa criticamente cada um dos 20 livros de João Cabral, incluindo os últimos, que Secchin põe no mesmo patamar dos demais. É um convite para voltar às obras derradeiras e também a seus anos finais de vida, cujo drama seguramente influenciou os rumos de sua poesia.

João Cabral ainda é pouco lido. Foi o escritor brasileiro que teve mais chances de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1992. Grande parte do público não conhece mais que seu poema Morte e vida Severina, musicado por Chico Buarque e transformado em filme e peça de teatro. Mestre do rigor formal e das sobreposições de imagem, produziu uma obra que exige grande concentração e raciocínio do leitor. Isso afastou o público acostumado à poesia mais leve e emotiva. “Existem escritores que produzem em função de uma expectativa do público. Cabral estava completamente fora disso. Ele quis fazer uma obra coerente até o final, quem quiser que o acompanhasse. Muita gente não acompanhou”, diz Secchin. Essa poesia que não transige tem relação com o temperamento de João Cabral. Ele foi um diplomata pouco sociável. Por causa da profissão, passou 40 anos longe do Brasil e escreveu a maior parte de sua obra fora do país. Em razão da distância, não frequentou as rodas literárias de sua geração. Dizia ter horror a escrever cartas e se correspondeu com poucos amigos. Nos postos diplomáticos que ocupou, tinha aversão a festas e badalações. Vivia recolhido a sua casa, lendo e escrevendo. “Me interessava escrever minha obra, não conhecer paisagens”, disse, em sua última entrevista, ao cineasta Bebeto Abrantes.

O ponto alto de sua carreira aconteceu na segunda metade dos anos 1960, quando o poema Morte e vida Severina foi adaptado para o teatro. Nesse mesmo período, ele entrou para a Academia Brasileira de Letras e publicou A educação pela pedra, considerada sua obra-prima. Muitos críticos consideravam que Cabral não tinha mais para onde avançar.

OLHAR FEMININO Marly de Oliveira, a segunda mulher de João Cabral, em foto de 1987. Ela lia para ele, mas João Cabral só acompanhava textos curtos (Foto: Agência O Globo)

OLHAR FEMININO
Marly de Oliveira, a segunda mulher de João Cabral, em foto de 1987. Ela lia para ele, mas João Cabral só acompanhava textos curtos (Foto: Agência O Globo)

Em 1972, ele partiu para um posto no Senegal, onde ficou mais de sete anos. Vivia numa mansão com 14 empregados para servi-lo, à mulher e a um filho. Sua rotina era de clausura. “Ele voltava a 1 da tarde do trabalho e ficava a tarde inteira lendo. Sete da noite, trocava de roupa e continuava lendo”, diz seu filho, João Cabral de Melo. Na correspondência com o editor Daniel Pereira, depressão e doenças se tornaram tema constante. Em 1975, escreveu: “Tenho andado ocupado, ocupadíssimo e, para variar, doente. Doenças acumuladas: polineurite, seguida de crises hepáticas, seguidas de alergia”. O resultado desse período foi A escola das facas, recebido friamente pela crítica. Secchin defende o livro. Diz que inaugura um viés histórico e mais autobiográfico. João Cabral dificilmente punha suas emoções ou experiências particulares nos poemas que escrevia. Nesse livro, estão presentes com força suas vivências de infância. A partir daí, sua escrita foi ficando rara e difícil. João Cabral costumava dizer que escrever lhe era doloroso. Ele anotava suas ideias em pequenos papéis que guardava no bolso. Depois, se trancava no escritório para desenvolvê-las em forma de poema, num trabalho exaustivo de lapidação. Um poe­ma poderia levar anos para atingir a forma final. “Posso dizer que, de livro para livro, o fazer poético torna-se mais difícil. Meus primeiros livros saíam com mais facilidade”, disse em entrevista na época.

Em 1984, transferido para Portugal, escreveu ao editor Daniel Pereira. “Gostaria de nunca ter escrito uma linha, pois a poesia só me tem dado aporrinhações”, dizia. No ano seguinte, lançou Agrestes, cuja produção o deixou esgotado. Nesse livro, com 14 poemas sobre a morte, ele se despede do leitor em forma de verso. Mas não parou de escrever. Um novo choque tumultuou sua vida em 1986, com a morte de Stella, a primeira mulher, vítima de câncer. Durante 40 anos, ela cuidara de todos os aspectos práticos da rotina de João Cabral. Datilografava seus poemas e ajudava na organização dos papéis. Deixava seu terno, calças e sapatos prontos, do lado de fora do banheiro, para que ele vestisse ao sair do banho. Quando a mulher morreu, ele perdeu o rumo. Passou meses deprimido no Rio de Janeiro. Foi quando conheceu a poeta Marly de Oliveira. Apaixonou-se no meio do luto.

Marly era uma mulher bonita, inteligente e refinada. João Cabral era considerado o maior poeta brasileiro. Tinha 15 anos a mais e parecia ainda mais velho, por causa das doenças. Não foi uma conquista fácil. João Cabral voltou para seu posto em Portugal. Ligava diariamente para ela, muitas vezes embriagado, pedindo que o acompanhasse. Acabaram se casando. Hoje, as duas famílias avaliam negativamente o casamento. “Minha mãe se tornou uma espécie de enfermeira dele e acabou com a mesma depressão do João. Ela anulou sua carreira para cuidar dele”, afirma Mônica Moreira, filha do primeiro casamento de Marly. “Marly estava acostumada a que tomassem conta dela. Passava o dia inteiro fechada no quarto, lendo literatura clássica. Meu pai ficou entregue às traças”, diz Inez Cabral, filha de João Cabral.

Aposentado, ele não conseguiu se adaptar à vida no Rio de Janeiro. A sacada de seu apartamento tinha uma vista maravilhosa da Baía de Guanabara, e ele não achava graça. “Essa natureza opulenta do Rio não me interessa”, disse na época. Pouco saía de casa, com medo da violência. Começou a fumar aos 69 anos. Fumava até ficar com os dedos amarelados. Foi proibido de beber depois da operação da úlcera, mas não cumpria a ordem. Marly tentava esconder as bebidas de casa. Ele saía em silêncio para o botequim da esquina, onde comprava vodca ou cachaça de má qualidade. A mistura da bebida com remédios era explosiva. Várias vezes João Cabral caiu dentro de casa e se cortou. Embora escrevendo com sofrimento e dificuldade, a poesia ainda lhe dava sentido à vida. Reuniu uma nova leva de poemas e lançou seu último livro, Sevilha andando, em 1990. João Cabral declarou que pretendia continuar escrevendo, mas o problema da visão interrompeu seus planos. Começou a sofrer uma degeneração macular, que gradativamente o impediu de ler e escrever. Ficou cada vez mais recolhido e deprimido. “Nunca fiz outra coisa na vida senão ler. Ficar cego foi um castigo violento que Deus me deu”, disse. Marly e sua filha Inez liam em voz alta para ele, mas João Cabral só conseguia acompanhar textos curtos. A televisão lhe dava dor de cabeça. Só restava o rádio. Os poucos amigos que frequentavam seu apartamento encontravam um cenário melancólico. “Estou sem vontade, sem razão de viver”, disse ao escritor e crítico José Castello, autor da biografia João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma. Num derradeiro esforço para continuar produzindo, tentou ditar versos para Marly. O último poema que escreveu na vida, usando esse método, fala da impossibilidade da escrita sem visão: Pedem-me um poema,/um poema que seja inédito,/poema é coisa que se faz vendo,/como imaginar Picasso cego? Com esses versos melancólicos, se despedia. O livro de Antônio Carlos Secchin mostra que conseguiu concluir com dignidade e talento suas obras finais.

A grande literatura brasileira numa colecção de referência

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Livros de Machado de Assis, Euclides da Cunha, João Cabral de Melo Neto e Alfredo Bosi abrem colecção lançada pela editora Glaciar e pela Academia Brasileira de Letras.

Machado de Assis aos 57 anos / DR

Machado de Assis aos 57 anos / DR

Luís Miguel Queirós, no Público

A editora portuguesa Glaciar e a Academia Brasileira de Letras (ABL) lançaram esta segunda-feira na Fundação Gulbenkian os primeiros quatro volumes da colecção Biblioteca de Academia, um projecto editorial que se propõe lançar em Portugal, ao longo dos próximos anos, 25 obras fundamentais da literatura e cultura brasileiras.

Os quatro títulos já lançados – aos quais se juntará ainda este ano O Ateneu, de Raul Pompeia, uma notável singularidade impressionista na ficção brasileira do final do século XIX – mostram bem as ambições desta colecção, que aposta em edições de referência, volumosas, muito cuidadas e bastante caras.

O primeiro volume é uma monumental compilação dos dez romances de Machado de Assis, precedidos de uma extensa apresentação do ensaísta e professor de literatura brasileira Luís Augusto Fischer, igualmente responsável pela fixação do texto. Se os romances da chamada trilogia realista de Machado de Assis – o genial Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borbas (1891) e Dom Casmurro (1899) – foram sendo regularmente publicados em Portugal, já os seus primeiros livros, como Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874) ou Helena (1876), dificilmente se encontram nas livrarias, e ainda menos em edições fiáveis.

O editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá / PAULO PIMENTA

O editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá / PAULO PIMENTA

Com mais de 1500 páginas e capa dura, o livro custa quase 80 euros. Os restantes volumes já lançados são mais pequenos e mais baratos, com preços que andam entre 30 e os 50 euros. “Os livros são caros, não vou dizer que são baratos”, reconhece o editor da Glaciar, Jorge Reis-Sá, mas afirma que preferiu “editar obras que podem durar 20 anos”, e não pensadas para a cada vez mais vertiginosa rotação das novidades nas livrarias. “Em 15 anos como editor [co-fundou a Quasi e esteve depois no grupo Babel], nunca fiz uma coisa tão interessante”, diz.

E a verdade é que quem não tiver condições económicas para comprar estes livros tem pelo menos a garantia de que os poderá ler sem ter de se afastar demasiado de casa, já que a Academia Brasileira de Letras encarregou a Glaciar de distribuir exemplares não apenas às poucas bibliotecas que beneficiam de depósito legal, mas a todas as bibliotecas municipais do país.

O ensaísta e poeta Antônio Carlos Secchin, membro da ABL desde 2004 e coordenador da colecção, explicou ao PÚBLICO que “no acordo feito com a Glaciar, a Academia quis ter a certeza de que todas as bibliotecas públicas portuguesas receberiam um exemplar”. Secchin, que esteve esta segunda-feira na Gulbenkian a apresentar a colecção, recorda que o projecto nasceu de uma proposta da Glaciar que a ABL adoptou. “A Academia é uma instituição privada, com recursos próprios, e assume nos seus estatutos o compromisso de difundir a língua e a literatura nacional, e é isso que está fazendo com esta colecção”, diz ainda Secchin.

Cinco títulos por ano
Embora não sejam ainda conhecidos os volumes que sairão a partir de 2015 – a ideia é publicar cinco títulos por ano até 2018 –, o académico brasileiro adianta que “a colecção vai incidir em grandes nomes já falecidos da literatura brasileira”, em “livros clássicos, como os romances de Machado de Assis, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha, que passaram pela prova do tempo, mas que nunca tiveram em Portugal a repercussão que justificariam”.

A única e “grata excepção” à regra de não incluir autores vivos, acrescenta Secchin, é justamente o segundo volume da colecção, a Dialética da Colonização, do historiador e crítico Alfredo Bosi, que esteve também na sessão da Gulbenkian, a falar deste seu livro originalmente publicado em 1992. A edição tem prefácio da ensaísta portuguesa Graça Capinha, autora que já desde meados dos anos 90 vem chamando a atenção para a importância das abordagens interdisciplinares de Bosi ao discurso literário. Num conjunto que será dominado pela criação literária em sentido mais estrito, a escolha de Dialética da Colonização é também um modo de mostrar que a colecção pretende ter um âmbito mais latamente cultural e não exclui o ensaísmo.

Um dos quatro volumes já lançados é, de resto, uma das mais inclassificáveis obras da literatura de língua portuguesa de todos os tempos: o extraordinário Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, que é uma emocionante história da Guerra de Canudos e uma epopeia da vida sertaneja no final do século XIX, mas que também pertence de pleno direito à literatura científica, com a sua detalhada informação geográfica, histórica e sociológica.

Todos os livros da colecção têm prefácio de um especialista na obra e no autor – no caso de Os Sertões, Leopoldo M. Bernucci – e uma breve nota biográfica no final. Esta edição da obra-prima de Euclides da Cunha inclui ainda fotografias e, tal como o livro de Bosi, um índice onomástico.

Queremos dar “chaves de acesso aos leitores”, justifica Secchin, e foi justamente isso o que fez no volume que ele próprio organizou, a edição da obra poética completa de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), igualmente lançada na sessão da Gulbenkian.

Partindo da edição que ele próprio organizara em 2008 para a Nova Aguilar, Secchin acrescentou-lhe o livro póstumo Ilustrações para Fotografias de Dandara, com poemas que João Cabral de Melo Neto (que foi cônsul-geral do Brasil no Porto na década de 80) escreveu quando estava colocado, como diplomata, no Senegal.

“Fiz também questão de incluir notas explicativas”, diz, porque o cosmopolita poeta pernambucano era, ao mesmo tempo, alguém “muito vinculado à cultura do Nordeste”, cujos textos incluem “referências geográficas e linguísticas que são difíceis mesmo para leitores brasileiros”. Jorge Reis-Sá acrescenta que decidiram acrescentar a esta edição da obra poética dois ensaios do autor, nos quais este “fala da sua poesia e da dos outros”: Poesia e Composição e Sobre a Função Moderna da Poesia. Com perto de mil páginas, o livro inclui ainda uma cronologia do autor redigida por Antônio Carlos Secchin e reproduz uma entrevista que este fez nos anos 80 ao autor de Morte e Vida Severina (1955) ou Educação pela Pedra (1966). Secchin resume: “É a melhor edição disponível, em Portugal ou no Brasil, da obra poética de João Cabral de Melo Neto.”

Não se sabe quem serão os próximos autores a publicar, mas há alguns autores brasileiros já desaparecidos e de qualidade mais do que reconhecida que ficam excluídos à partida: aqueles que, por vontade própria ou alheia, nunca chegaram a entrar na Academia Brasileira de Letras, como Carlos Drummond de Andrade.

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