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Posts tagged Jonathan Franzen

David Foster Wallace e sua piada infinita

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O norte-americano David Foster Wallace (1962 – 2008) foi um dos escritores mais perspicazes das últimas décadas. Suicidou-se em 2008, após tomar o antidepressivo Nardil por 20 anos e teve suas cinzas jogadas na ilha chilena de Masafuera pelo amigo e também escritor Jonathan Franzen.

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Andrei Ribas, no Homo Literatus

No Brasil, Wallace ganha mais força com a chegada às livrarias de seu maior romance, intitulado Graça infinita (apesar de, aos olhos dos leitores acostumados com o estilo de Wallace, o título dado em Portugal seja melhor: A Piada infinita). Após lançar Breves Entrevistas com Homens Hediondos, com 23 contos, em 2005, a Companhia das Letras publicou em 2012 Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, com ensaios, e lançará, em novembro, a tradução de Infinite Jest. Apontado pela revista Time como um dos cem melhores livros em inglês publicados de 1923 até hoje, Infinite Jest é considerada uma obra extremamente complexa de ser vertida para outras línguas e foi, como registrou em seu blog na editora mencionada, um desafio para seu tradutor, o curitibano Caetano W. Galindo, professor de Linguística da Universidade Federal do Paraná. Mas Galindo tinha as credenciais certas: traduziu Thomas Pynchon, a quem Wallace é comparado, e Ulisses, de James Joyce, quase um tabu entre tradutores. Quanto ao porquê do título ser outro na versão brasileira, Galindo registrou: “Infinite Jest (que a princípio pode querer dizer algo como Piada Infinita) é uma citação. De quando Hamlet, do Hamlet, segura nas mãos a caveira de Yorick, o bobo da corte, e lembra que na sua infância conheceu aquele fellow of infinite jest, um camarada que não parava de brincar… (…) Mas um problema recorrente da tradução de citações é que, a não ser em casos muito óbvios (ser ou não ser), elas tendem a se perder. (…) Segundo, Infinite Jest é também, no livro, o título de quatro filmes que teriam sido feitos (eles são mais um boato que um fato) pelo pai do personagem principal, que, na verdade, foi fazendo um atrás do outro, sempre, como tentativa de completar uma obra perfeita, que nunca o satisfez. Infinite Jest IV é o filme que aparentemente existe e está sendo usado por terroristas, dado o seu potencial infinito de diversão. (…) Terceiro, e bem importante, a escolha do título de uma tradução é sempre conjunta. E, na verdade, quem tem (e deve ter) a palavra final são os editores. Eu mesmo devo ter emplacado menos de 20% dos meus títulos sugeridos até hoje. A minha opinião? Ainda não sei. (…) Meu documento de Word se chama Infinda Graça, que inclusive fica perto da Infinita Graça que o Erico lembra que o Millôr usou no Hamlet. Eu gosto da ligeira dupla leitura fonética com ‘fim da graça’ e gosto, sim, até da leve ressonância religiosa do termo ‘graça’. O livro tem ALTAS ressonâncias no mínimo místico-religiosas. Deve ser isso que eu vou propor. Veremos.”

Dado o título, enfim, resta ao fã de Wallace se esbaldar em sua graça/piada infinita, e àquele que não o conhece, seguem resumos de suas obras lançadas no Brasil, que podem ser lidas, de qualquer forma, antes ou após conhecer sua obra capital:

Breves Entrevistas com Homens Hediondos

Breves Entrevistas com Homens Hediondos foi lançado nos EUA em 1999 e reúne 23 contos. Wallace aborda temas que lhe eram íntimos, como dependência de drogas e depressão, e outros pelos quais ele tinha particular interesse, destacando perversões sexuais, desvios de comportamento, relacionamentos afetivos e o poder nocivo da mídia na vida contemporânea. O autor exercita sua verve satírica e o experimentalismo formal combinando referências eruditas e populares – recorre, a exemplo de Infinite Jest, a extensas notas de rodapé. Companhia das Letras, 2005, R$ 62,00, em média.

Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo

Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo reúne textos de Wallace publicados na imprensa americana – no formato de grandes reportagens, crônicas e ensaios. Entre os relatos, que seguem a vertente do jornalismo literário temperados com o humor irônico do autor, estão suas impressões sobre uma viagem pelo Caribe a bordo de um cruzeiro de luxo, um perfil do tenista Roger Federer, uma palestra sobre Franz Kafka e coberturas de eventos como uma feira agropecuária e um festival da lagosta. Companhia das Letras, 2012, R$ 31,50, em média.

Graça infinita (Infinite Jest)

Romance que projetou Wallace no círculo literário dos EUA, em 1996. Por conta da depressão e dos excessos com drogas e álcool, o autor somou passagens por clínicas psiquiátricas. Refletiu essa turbulência na complexa e fragmentada narrativa do livro, uma projeção futurista ambientada na superpotência resultante da unificação de EUA, Canadá e México. Nessa sociedade, uma atração de TV exerce uma espécie de poder hipnótico sobre os espectadores, espelhando a visão mordaz de Wallace sobre a indústria do entretenimento e a publicidade. Será lançado, pela Companhia das Letras, em novembro, sem preço ainda definido.

Crítica: Autor de “O Caçador de Pipas” força lágrimas em novo livro

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Almir de Freitas, na Folha de S.Paulo

“Então, é isso. Vocês querem uma história, e eu vou contar.” A frase, logo no início de “O Silêncio das Montanhas”, é de Saabor, um aldeão cheio das habilidades narrativas -para deleite dos filhos pequenos, Abdullah e Pari.

A declaração serviria para o próprio Khaled Hosseini, outro grande contador de histórias que, dessa maneira, inicia seu terceiro romance -para deleite dos seus milhões de leitores mundo afora.

Dez anos depois da estreia com o megassucesso “O Caçador de Pipas”, e seis após “A Cidade do Sol”, o escritor afegão volta com um livro tecnicamente mais complexo.

O escritor Khaled Hosseini (Michael Tran/FilmMagic/Divulgação)

O escritor Khaled Hosseini (Michael Tran/FilmMagic/Divulgação)

Na história que se anuncia, haverá pelo menos uma dúzia de personagens centrais, revezando-se com o autor na narração de acontecimentos que se espalham em seis décadas, de 1952 a 2010.

Quatro países servem de cenário, pontes –direta ou lateralmente– para os principais fatos históricos desse período.

Na Afeganistão, a ocupação soviética, o governo talibã e a invasão americana; na França, as manifestações estudantis; na Grécia, a ditadura do coronéis; e nos Estados Unidos, a guerra ao terror.

Épico contemporâneo, lembra um tanto “Liberdade”, romance em que Jonathan Franzen radiografa os impasses do americano médio mais ou menos no mesmo período.

Claro que, sendo Hosseini afegão, os dramas que brotam de “O Silêncio das Montanhas” pouco têm a ver com liberdade ou dilemas medianos.

A saga começa logo após a fábula narrada por Saabor, com a separação forçada de Abdullah e Pari. Quase tudo o que acontece dali em diante remete a esse evento traumático –e quase tudo servirá para reiterar o custo de se perder a inocência.

Não faltarão tragédias. Crianças desfiguradas, adultos inválidos, velhos doentes (sim, sempre no plural). Há fome, frio, exílios, guerras sem fim e injustiças.

REALISMO ANTIGO

É preciso estar preparado: Hosseini não economiza na veia novelesca. Seu desassombro em apelar ao emocional do leitor é notável, mas é inevitável que caia com frequência no lacrimoso.

Como se fossem contrapartidas de tanta crueza, não faltam também capítulos de genuína bondade, amor verdadeiro, afeto sem fronteiras. Muita gente –muita– prefere assim.

O melhor é a filiação a um certo realismo antigo. Nele, o que desencadeia os eventos trágicos, além das catástrofes históricas, são as secretas mesquinharias individuais: a paixão de um pobre motorista pela patroa, a inveja de uma irmã mais feia, o ressentimento de um primo de menos sucesso.

São elementos de uma engrenagem narrativa que confere uma feição mais humana, feia, mas piedosa, às tragédias coletivas em que um romance como “O Silêncio das Montanhas” poderia se perder.

Sim, ainda é um recurso novelesco, e é provável que seja este o grande e bom segredo de Hosseini para cativar tanta audiência com suas histórias.

Busca textual revela diferenças nas literaturas de língua inglesa

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Philip Ball, no The New York Times

Se você associa a nova literatura britânica de ficção aos tons frios e distantes de Martin Amis e Julian Barnes, e a literatura americana aos mundos interiores emocionais de Jonathan Franzen ou ao sentimentalismo de John Irving, parece que você tem bons motivos. Uma análise de documentos digitalizados em língua inglesa do último século concluiu que, desde os anos 1980, palavras com conteúdo emocional se tornaram significativamente mais comuns em livros americanos do que em livros ingleses.

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Se você associa a nova literatura britânica de ficção aos tons frios e distantes de Martin Amis e Julian Barnes, e a literatura americana aos mundos interiores emocionais de Jonathan Franzen ou ao sentimentalismo de John Irving, parece que você tem bons motivos. Uma análise de documentos digitalizados em língua inglesa do último século concluiu que, desde os anos 1980, palavras com conteúdo emocional se tornaram significativamente mais comuns em livros americanos do que em livros ingleses.

O estudo feito pelo antropólogo Alberto Acerbi, da Universidade de Bristol, no Reino Unido, tirou proveito da base de dados com mais de cinco milhões de livros publicados ao longo dos últimos séculos e escaneados pelo Google. Esse recurso já havia sido utilizado para examinar a evolução de estilos e tendências nas expressões literárias do individualismo.

A mineração dos dados culturais disponibilizados pelas novas tecnologias é chamada de ‘culturomia’. Seus defensores acreditam que esse tipo de abordagem pode revelar tendências nas opiniões e normas sociais que acabam escondidas por vastas quantidades de dados.

‘O uso da linguagem em livros reflete o que as pessoas estão falando e pensando em um determinado momento, de forma que os livros escaneados pelo Google fornecem uma fascinante janela para o passado’, afirmou o psicólogo Jean Twenge, da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia.

Os resultados mais recentes parecem mostrar que narrativas familiares sobre os ânimos sociais podem ser vistas na literatura (tanto de ficção quanto de não ficção) do século XX. Acerbi e seus colegas descobriram que as palavras que denotam emoções positivas foram mais utilizadas durante os anos 1920 e 1960, enquanto palavras tristes ganharam destaque durante a Segunda Guerra Mundial.

Contudo, também houve surpresas: a Primeira Guerra Mundial não parece revelar nenhum pico, por exemplo. Da mesma forma, a alegria parece estar em ascensão desde os anos 1990, embora seja cedo para saber se a recessão global irá reverter essa tendência, já que a base de dados só chega até 2008.

Tendências históricas

‘É difícil fazer uma relação entre eventos históricos e os ânimos do momento’, admitiu Acerbi, ‘mas por meio de uma análise relativamente limitada das palavras ligadas a emoções, é possível encontrar tendências que corroboram o que a história nos contou’. O pesquisador espera que outras análises venham a revelar, por exemplo, se a literatura está à frente do tempo ou se reflete lentamente as mudanças ocorridas.

‘É fascinante perceber como duas culturas mudaram ao longo do tempo e especialmente como eventos mundiais podem influenciar a expressão das emoções na literatura’, afirmou Twenge.

Em linhas gerais, o uso de palavras ligadas a emoções em livros de língua inglesa caiu durante o século XX. Mas quando foi feita uma distinção entre livros escritos em inglês americano e britânico (cerca de um milhão e 230.000, respectivamente), pudemos perceber outra realidade.

Os autores descobriram que, apesar do declínio, palavras emotivas se tornaram relativamente mais frequentes em textos americanos que em livros britânicos, desde os anos 1980. Entretanto, antes disso havia apenas diferenças mínimas entre os livros escritos em ambos os lados do Atlântico. Tais mudanças não puderam ser encontradas em palavras comuns escolhidas a esmo. ‘Nossos resultados corroboram a noção popular de que os autores americanos expressam mais emoções que os britânicos’, afirmaram.

Mudança de estilos

Uma mudança similar pode ser vista no uso de palavras ‘vazias’, tais como pronomes e preposições (você, nós, sobre, em). Acerbi e seus colegas interpretam isso como uma indicação de que a mudança no paradigma emocional é acompanhada de uma mudança no estilo. Segundo eles, textos americanos estão se tornando cada vez mais prolixos.

‘A correlação entre os termos relacionados a emoções não é surpreendente, uma vez que as construções mais longas fornecem mais oportunidades para a expressão de sentimentos’, explica o biólogo David Krakauer, da Universidade de Wisconsin-Madison, que buscou mudanças nos estilos literários por meio do Google Books.

‘Geralmente, os autores tendem a ler contemporâneos e competidores em relação a suas respectivas culturas’, acrescentou, ‘portanto, podemos esperar que o inglês britânico e o americano sejam um pouco divergentes’.

Essas mudanças implicam que os americanos expressam mais emoções que os britânicos? Embora isso nem sempre seja verdade – a norma literária frequentemente inverte as tendências do dia a dia, ao invés de espelhá-las –, Acerbi acredita que as descobertas ‘podem refletir uma verdadeira mudança cultural, em vista do tamanho do corpus e porque o Google Books não se resume apenas a livros bem sucedidos ou influentes’.

Contudo, Krakauer admite que as diferenças na expressão literária não representam necessariamente diferenças nas perspectivas emocionais sobre as quais se baseiam. ‘É uma questão aberta e intrigante saber por que culturas diferentes expressam os mesmo sentimentos com um volume diferente de palavras’, afirmou.

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