Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Jorge Luis Borges

O namoro telefônico de Borges e outros segredos da Biblioteca Nacional da Argentina

0
Trabalho de restauração na Biblioteca Nacional da Argentina. Ricardo Ceppi

Trabalho de restauração na Biblioteca Nacional da Argentina. Ricardo Ceppi

 

Restauradores, ‘detetives’ e inventores trabalham às sombras para preservar o patrimônio bibliográfico

Mar Centenera, no El País

Uma bala perdida em uma publicação periódica, o namoro telefônico que Jorge Luis Borges manteve durante mais de dois anos com uma mulher, mapas que apagaram a presença indígena no país e o fantasma de Evita Perón são alguns dos segredos ocultos na face invisível da Biblioteca Nacional da Argentina. Ao cruzar suas portas, abre-se um universo de prateleiras, elevadores de carga, escadas, salas com temperatura e umidade controladas, oficinas e máquinas, habitado por especialistas apaixonados que catalogam, restauram, ordenam, pesquisam, microfilmam e digitalizam o patrimônio bibliográfico nacional. É também uma viagem no tempo, na qual é possível se deslumbrar – frente a livros do século XV, fotografias do XIX e registros audiovisuais do princípio do XX.

O acervo da biblioteca consta de três milhões de peças, entre livros, jornais, partituras, mapas, fotografias, discos e outros, e cresce de forma constante. Os recém-chegados são recebidos na seção de Aquisições, onde são carimbados e dotados de alarme. Logo passam para o Departamento de Processos Técnicos, para serem catalogados e ordenados por tamanho, antes de continuarem rumo ao depósito geral. Ali, distribuídos em três porões – que ocupam 19.000 metros quadrados do edifício desenhado por Clorindo Testa –, as publicações posteriores a 1940 aguardam o chamado de algum leitor para serem subidas em elevadores de carga até as salas de leitura.

O itinerário habitual está cheio de exceções. Se o material chegar em mau estado – ou se for descoberto deteriorado no depósito – vai direto para o pronto-socorro: a Conservação Preventiva. “Há livros que chegam muito destruídos, muito manuseados, com péssimas intervenções e depois de serem constantemente golpeados pelo tempo”, descreve Pablo Cortez, um dos 36 integrantes do departamento. Eles já viram de tudo: mapas dobrados e furados, exemplares sem lombada, com folhas soltas que tinham que ser montadas como um quebra-cabeça, páginas rasgadas e consertadas com fita adesiva e até um jornal que chegou com um projétil dentro. A missão desses técnicos é estabilizar o material e conter a degradação.

Caso precise de mais cuidados, o paciente é internado na Preservação e Restauração. Nessa oficina, com paciência infinita, mãos especializadas e detalhistas reparam os danos peça por peça. Alguns dos livros que chegam aqui se esfarelam ao toque, o que obriga a extremar as precauções sobre o objeto e pode prolongar o trabalho por semanas ou mesmo meses. Para a limpeza são usados pinceizinhos de cerda suave e borracha ralada; para remendar folhas rasgadas, papel japonês e uma cola natural feita de água e amido de trigo. “Os critérios de conservação são o respeito ao original e a reversibilidade de todos os tratamentos. Por isso se usa esta goma, porque com um pouquinho de umidade se pode retirar o papel japonês”, explica um dos restauradores.

Negativos escondidos num trem

O trabalho minucioso se repete na fototeca e na mapoteca. No dia da visita do EL PAÍS, a conservadora fotográfica Denise Labraga se dedicava aos negativos do jornal Notícias, que circulou em 1973 e 1974, até ser fechado por um decreto da Isabel Perón. “O material foi escondido em uma sacola num trem que fazia o percurso Buenos Aires-Tucumán. Passou alguns anos fazendo essa viagem escondida”, detalha Labraga. Depois, os negativos passaram 30 anos perdidos, até chegarem à biblioteca “em estado impecável”.

Perto dela, o historiador fotográfico Abel Alexander, descendente de daguerreotipistas pioneiros procedentes da Alemanha, descreve uma das joias mais antigas do acervo: uma fotografia de Buenos Aires tirada pelo italiano Benito Panunzi em 1867 ou 1868. “Mostra uma cidade achatada, não havia nenhum edifício com mais de dois andares, com ruas de pedras e transporte a tração animal. Era uma cidade tranquila, quase colonial, mas já despontava como uma grande capital da América Latina.”

Os primeiros mapas desta instituição remontam ao século XVIII, quando cartógrafos franceses, ingleses e espanhóis chegaram ao continente americano em diversas expedições, segundo Graciela Funes, chefa do departamento. Entre os mapas mais importantes dessa época estão os cadastrais, que estabeleciam onde cada pessoa morava. “Aí se pode ver como as pessoas se adaptam às circunstâncias, às guerras…”, diz Funes, citando como exemplo as mudanças ocorridas em 1880, por causa da campanha oficial do Governo argentino para povoar territórios: “Nos primeiros mapas, onde havia diaguitas [um grande grupo indígena que habitava o noroeste da Argentina] puseram índios diaguitas. Em 1880, onde havia diaguitas colocam arvorezinhas, para que as pessoas não se assustassem”.

Os restauradores da biblioteca, orgulhosos do seu trabalho, defendem as virtudes do material sobre o qual labutam: “A era digital nos dá acesso rápido à informação, mas o suporte que tem mais durabilidade é o papel. Há hoje livros do ano 1000 que estão em bom estado, ao passo que um DVD não dura 20 anos”. Os microfilmes, que contêm cópias do acervo bibliográfico, supostamente conservam-se por 500 anos em condições ótimas. A duração do suporte digital, ao qual a instituição começou a converter todo o seu catálogo, ainda é um mistério. Para facilitar essa tarefa titânica, a Biblioteca Nacional conta com um inventor, Rubén Barbei, ex-funcionário da Canon, que está atualmente em pleno processo de fabricação da máquina digitalizadora Biblos II.

Não há na biblioteca nenhum livro milenar, mas sim 21 incunábulos – os primeiros livros impressos – do século XV, entre eles uma página de uma Bíblia de 1454 e um exemplar comentado da Divina Comédia, de Dante Alighieri, de 1484. Eles ficam no coração da instituição, a sala do Tesouro. “Estão em um depósito fortificado e com câmaras de segurança”, diz María Etchepareborda, responsável por esse espaço. Lá também são conservados alguns dos primeiros livros impressos na Argentina, como um Vocabulário da Língua Guarani, de 1772, procedente de uma missão jesuítica do norte do país. “A Argentina não tinha autorização [da Espanha] para fazer uma imprensa, e os jesuítas fizeram a sua própria prensa de tipos móveis”, conta Etchepareborda. Manuscritos, livros estranhos e primeiras edições também são guardados neste depósito custodiado.

A história da Biblioteca Nacional ajuda a entender o amor pelos livros que ainda hoje os argentinos professam, como provam as inumeráveis livrarias da capital. Sua antecessora direta, a biblioteca pública de Buenos Aires, foi criada por decreto pela Primeira Junta em 1810, seis anos antes de o país declarar sua independência. Desde então, teve como diretores intelectuais de grande prestígio, em especial Paul Groussac (1885-1929) e seu sucessor mais célebre, Jorge Luis Borges (1955-1973).

“Ele passeava sozinho pela Biblioteca e quase nunca falava em castelhano. Falava em inglês ou em francês”, recorda Héctor Sigales, um dos funcionários mais antigos, que trabalhou com Borges em seus últimos dois anos como diretor, quando a Biblioteca ainda ocupava a sede anterior, no bairro de San Telmo. “Em cada livro que lia colocava uma crítica”, acrescenta Sigales.

Essas notas manuscritas são o objeto do desejo dos pesquisadores Laura Rosato e Germán Álvarez. Depois de anos de busca dentro e fora da Biblioteca, reuniram 800 livros com anotações e grifos de Borges, que forneceram pistas sobre os processos de leitura e escrita do genial contista. Mas nesse trabalho detetivesco ainda surgem surpresas, como as notas encontradas numa tradução espanhola dos quatro evangelhos. “Achávamos que era um manuscrito, mas nos enganamos. Registram seu namoro telefônico com, supomos pela data, Estela Canto. Está anotado, de forma quase obsessiva, todas as vezes que liga para ela dia após dia, durante dois anos e meio”, relata Álvarez. Se não houver imprevistos, no ano que vem os detalhes virão à luz. Muitas outras histórias, ainda inéditas, aguardam sua vez.

Discípulo de Borges, Alberto Manguel exalta a curiosidade em novo livro

0

Adolescente, Alberto Manguel lia em voz alta para o escritor cego Jorge Luis Borges. Essa convivência mudou sua vida – e o fez descobrir a vocação para a literatura

Ruan de Sousa Gabriel, na Época

Na manhã de 30 de agosto, uma terça-feira, o escritor e bibliófilo argentino Alberto Manguel, de 68 anos, releu o primeiro canto de A divina comédia, o poema épico de Dante Alighieri (1265-1321). Manguel mergulhou nos versos rimados que narram como um amedrontado Dante, recém-saído de uma selva tenebrosa, é repelido de volta para a escuridão por uma loba magra e cobiçosa. Um vulto, porém, o impede. Era o poeta latino Virgílio, autor da Eneida. No poema, Virgílio diz a Dante que a cobiça da loba nascia da inveja: Tem tão má natureza, é tão furente,/Que os apetites seus jamais sacia. “Nessa manhã, ocorreu-me que a cobiça é o pior dos pecados e está associada à fome da loba”, diz Manguel. “A cobiça nasce quando não nos satisfazemos com o que temos e queremos o que os outros têm.”

Manguel lê um canto de A divina comédia todas as manhãs. Doze anos atrás, uma doença que o condenou a ficar em casa despertava-o do sono logo cedo. Ele decidiu aproveitar essas horas mortas para ler, pela primeira vez, os versos de Dante. “Eu conhecia A divina comédia como todos nós a conhecemos: sabia que era um livro importante, de reputação universal, mas só então decidi lê-lo”, diz. “E o que descobri foi um mundo extraordinariamente rico.” Ao revisitar os versos de Dante a cada manhã, Manguel encontra novas formulações para as velhas perguntas que atormentam os poetas e os filósofos desde a invenção da linguagem. Essas perguntas conduzem os ensaios – meio filosóficos, meio literários – de seu novo livro, Uma história natural da curiosidade (Companhia das Letras, 488 páginas, R$ 79,90). Assim como Virgílio guia Dante pelos nove círculos do Inferno, o poeta florentino conduz Manguel por um purgatório de questões como “O que é verdade?”, “Como raciocinamos?” e “Quem sou eu?”.

043_aur_manguel_12

O objetivo de Manguel não é responder a essas questões. Ele mobiliza seu vasto repertório de leituras – que vai de David Hume a Tomás de Aquino, da Bíblia a Lewis Carroll – para fazer novas perguntas, propor reflexões e aventar hipóteses. Tudo isso movido pelo desejo fervoroso pelo conhecimento que Dante chamou de ardore. O mesmo desejo que levou Ulisses, o herói da Odisseia, a se arriscar em sua última e fatal jornada. Manguel nasceu em Buenos Aires, em 1948, mas cresceu em Israel, onde seu pai era diplomata. Não foi uma dessas crianças que vivem perguntando o porquê das coisas. Era tímido. Foi educado em inglês e alemão por uma preceptora germânica que respondia de modo lacônico às raras perguntas do menino. Quando descobriu os livros, interessou-se menos pelas respostas e mais pelas questões que a literatura formulava. A literatura são as perguntas menos as respostas, já dizia o filósofo francês Roland Barthes.

Na adolescência, Manguel voltou à Argentina, onde se tornou íntimo do espanhol e aprendeu, com um professor do Colégio Nacional de Buenos Aires, a procurar na literatura as chaves para sua identidade. Ele gastava com livros o salário que ganhava na distinta Livraria Pygmalion. O mítico escritor Jorge Luis Borges (1899-1986) perambulava pela livraria à procura não de livros, mas de leitores. “Acontece que minha mãe já está beirando os 90 anos e se cansa muito”, repetia Borges, que vinha perdendo a visão e não podia mais esperar que a mãe velhinha lesse para ele. Borges encontrou um leitor naquele livreiro adolescente e poliglota. Entre 1964 e 1968, Manguel ia duas ou três vezes por semana à casa do escritor e lia, em voz alta, os clássicos em inglês que ele queria revisitar. Também acompanhava Borges ao cinema e lhe descrevia as imagens projetadas na tela. “Eu era um adolescente que, com aquela arrogância típica da juventude, acreditava estar fazendo um favor a um velho cego e não me dava conta de quanto eu aprendia lendo para Borges”, afirma Manguel – que, enquanto lia, era interrompido pelos comentários do escritor.

A convivência com Borges ensinou a Manguel que não havia nada de errado em passar a vida perdido nos livros. “Era difícil para um adolescente da minha geração se entregar a uma paixão intelectual. Nossos pais nos queriam médicos, advogados ou engenheiros, no máximo arquitetos. As letras eram para diletantes, não eram uma carreira”, diz. “Mas Borges, com grande generosidade e inteligência, dizia-me para persistir s nos livros, se era isso o que me fazia feliz. E ele estava certo.”

Seguindo à risca o conselho de Borges, Manguel dedicou sua vida aos livros. Amealhou uma biblioteca de 40 mil títulos abrigados na casa onde viveu em Mondion, um vilarejo medieval no sul da França. Deu aulas em universidades americanas e trabalhou como leitor de originais para editoras europeias. Assim como outros escritores argentinos – Ricardo Piglia, Beatriz Sarlo e o próprio Borges –, elegeu o leitor como protagonista dos livros que escreveu. “Ler literatura é meter o nariz no mais profundo da realidade”, diz Manguel, numa defesa de que se encerrar na biblioteca não implica recusa do mundo. “Sem a literatura, somos como surdos-mudos, e é isso o que querem os políticos”, diz ele. “As autoridades querem que não façamos perguntas e que não sejamos curiosos. Elas nos querem longe da literatura para que passemos a vida nos ocupando com jogos idiotas.”

Em junho deste ano, os destinos de Manguel e Borges voltaram a se cruzar. O presidente Mauricio Macri convidou Manguel para dirigir a Biblioteca Nacional da Argentina, comandada por Borges entre 1955 e 1973. Manguel, que descreve o trabalho como “aterrador e maravilhoso”, assumiu o cargo em meio a protestos. Macri prometeu “desideologizar” as instituições culturais argentinas e ordenou a demissão de centenas de intelectuais simpáticos à ex-presidente Cristina Kirchner. Mais de 200 funcionários da biblioteca foram demitidos, mas parte deles acabou reincorporada. “Toda biblioteca – seja em Buenos Aires, seja em Alexandria – é uma instituição social e política, mas nosso desafio é fazer com que a biblioteca funcione independentemente do caos político argentino”, diz.

Páginas e páginas de teologia já foram escritas alertando contra os perigos da curiosidade que levou Eva a comer do fruto proibido e condenar toda a humanidade a viver sob o jugo do pecado. Os ensaios de Manguel, porém, sugerem que a curiosidade também pode nos conduzir a alguma forma de redenção. Afinal, Dante foi capaz de atravessar o Inferno porque tinha um poeta como guia.

Argentina exibe manuscrito de Jorge Luis Borges encontrado no Brasil

0
Jorge Luiz Borges em imagem de 1981 na Cidade do México (foto: Upi Sabetta/AFP)

Jorge Luiz Borges em imagem de 1981 na Cidade do México (foto: Upi Sabetta/AFP)

 

Originais do conto ‘A biblioteca de Babel’, do escritor argentino, podem ser vistos na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires

Publicado no UAI

O manuscrito do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) usado para o famoso conto A biblioteca de Babel, encontrado no Brasil, começou a ser exibido em Buenos Aires, revelou o escritor Alberto Manguel, diretor da Biblioteca Nacional argentina.

“O documento estava em um ambiente lotado de papéis, quadros, fotos, mapas, cartas de rainhas e próceres como San Martín e Rivadavia. Me surpreendeu que, em uma pasta suja, tenha aparecido algo de tanto valor. Fiquei com a voz trêmula, foi uma emoção muito grande”, disse Manguel.

O original está escrito em letra minúscula. A obra pode ser observada na Biblioteca Nacional, que é dirigida há alguns meses por Manguel, um escritor que desenvolveu grande parte de sua carreira fora do país.

Borges foi autor de obras lidas e estudadas em todo o mundo como O Aleph. É considerado o maior escritor argentino da história e um dos grandes da literatura do século 20, mas não recebeu o Nobel.

Manguel trabalhava em uma livraria quando conheceu Borges e iniciaram uma amizade. O autor de História universal da infâmia, afetado pela cegueira, pediu a Manguel que lesse para ele em seu apartamento e isto aconteceu por quatro anos na década de 1960. Borges também foi diretor da Biblioteca Nacional.

Manguel levou o manuscrito para Buenos Aires como um empréstimo. Ele o encontrou quase ao acaso com um colecionador particular em São Paulo.

A biblioteca de Babel foi um dos contos incluídos no livro Ficções (1944), um dos pilares da obra borgeana. A ideia apresentada por Borges é a de um universo com uma biblioteca que contém todos os livros. É considerado uma metáfora sobre o infinito e foi objeto de estudos, inclusive do ponto de vista científico.

“É um autêntico tesouro. Estes papéis têm um valor material indiscutível e, por outro ladom um valor simbólico. Há poucos elementos que formam a simbologia universal e devemos a Borges um destes elementos: o conceito da biblioteca de Babel, que hoje podemos associar a Internet”, disse Manguel.

O valor material do manuscrito é avaliado em US$ 500mil.

Nesta livraria é proibido usar tablets e smartphones: somente livros podem ser abertos

0

livraria-londres-capa

Daia Florios, no Green Me

Em um mundo dominado pelo e-book e pela internet, ainda existem pessoas que preferem o livro de papel. Em Londres, os arquitetos espanhóis José Selgas e Lucía Cano projetaram a New London, uma livraria que proíbe o uso de quaisquer dispositivos eletrônicos, principalmente os celulares.

O interior da biblioteca se assemelha a um labirinto em que os leitores podem entrar e se perder entre as centenas de volumes. Os arquitetos se inspiraram no conto A Biblioteca de Babel do escritor argentino Jorge Luis Borges, onde o mundo é constituído por uma biblioteca infindável.

livraria-londres-2

Na New London, as prateleiras são feitas de materiais reciclados, são irregulares e posicionadas ao lado de espelhos que criam um efeito óptico particular. A única tecnologia presente, um computador, é utilizada para o inventário de livros porque para todo o resto, a palavra de ordem é no-tech.

livraria-londres-3

“Acreditamos no valor dos livros e da literatura, mas hoje muitas coisas são mortas pelo digital. Mas uma das maiores alegrias é comprar um livro de papel e as bibliotecas são o melhor lugar para encontrar novas ideias”, explica o co-fundador da biblioteca Rohan Silva, para o site Dezeen.

“O projeto da livraria enfatiza seja o artesanato seja a alegria da descoberta. As linhas suaves das prateleiras parecem refletir-se umas sobre as outras, que por suas vezes se refletem nos espelhos interiores. Isso permite que se encontre facilmente um livro, passando rapidamente os olhos para cima e expandindo o seu horizonte”, diz o outro fundador, Sam Aldenlton.

livraria-londres-1

Se você por acaso estiver em Londres e quiser se desligar da rotina tecnológica, a New London está localizada no número 65 da Hanbury Street.

Entrevista inédita com Borges: “Sou um anarquista conservador”

0
Claudio Pérez Míguez e Jorge Luis Borges em 1982 em Buenos Aires.

Claudio Pérez Míguez e Jorge Luis Borges em 1982 em Buenos Aires.

 

Em 1982, por conta de um trabalho escolar, um menino de 15 anos pediu um encontro com o escritor, que, para sua surpresa, aceitou o convite

Claudio Pérez Míguez, no El País

Quando eu cursava o terceiro ano do ensino secundário, em Don Bosco, distrito de Quilmes, na província de Buenos Aires, com quinze anos de idade, a professora de literatura, uma espanhola radicada desde pequena na Argentina e grande admiradora da obra de García Lorca, Josefa Iglesias de Fanelli, deu como trabalho prático que escolhêssemos alguém para entrevistar.

A literatura e a figura de Borges, tão polêmica naqueles anos, já tinham chamado a minha atenção, por isso tive a ideia de fazer a reportagem com ele. Nem eu nem as pessoas com quem eu convivia tínhamos contatos no meio literário, daí a ideia de ver se encontrava o número dele na lista telefônica. Procurando por Borges, vi que o telefone ainda estava em nome da mãe dele, Leonor Acevedo de Borges, que já era falecida. Lembro-me do número até hoje: 42-2801. Liguei imediatamente e fui atendido por Fanny Úbeda, a mulher que cuidava da casa, que me disse que Borges estava em viagem.

Como havia um prazo para entregar o trabalho, tentamos outras pessoas para cumprir a tarefa, mas, quando faltavam dois dias, ocorreu-me a ideia de tentar novamente. Fui de novo atendido pela senhora Fanny, e quando já esperava falar com alguma outra pessoa para explicar minha ideia para que esta então a transmitisse para Borges, ela passou o aparelho diretamente para ele, que, depois de ouvir a minha solicitação, disse: “Venha amanhã ou depois de amanhã, entre 10 e 10 e meia”. Naquela mesma noite, preparei as perguntas. Mostrei-as ao meu pai, para que me desse a sua opinião sobre o questionário, e ele me sugeriu que eu, em vez de tentar fazer uma entrevista imitando as que eram feitas pelos jornalistas em busca de uma declaração bombástica para dar um bom título, tentasse encará-la do meu ponto de vista, focando naquilo que poderia ser do meu interesse, com a idade que eu tinha. Pareceu-me um bom conselho, e procurei mudar as perguntas nesse sentido.

Como se tratava de um trabalho em grupo, convidei meus colegas e vários deles me acompanhavam quando cheguei à casa de Borges, é claro, às 10 horas da manhã do dia seguinte.

Esse encontro possibilitou que eu passasse a visita-lo com frequência na sua casa, levando-o a falar com os alunos na minha escola, a visita a minha casa, em um grande número de encontros que certamente moldaram o meu gosto pelos livros e pelo universo da literatura. Mas isso já outra história. Voltando ao que nos diz respeito: a entrevista foi feita no apartamento de Borges, na rua Maipú, 994, em Buenos Aires, no dia 29 de julho de 1982, mais de um ano antes da volta da democracia à Argentina. O resultado é este que transcrevemos a seguir e que permanecia inédito até agora. “Para mim, nem parece” que já se passaram mais de três décadas desde a sua morte. “O tempo que os mármores desgasta” muda muitas coisas, outras não. Suas palavras continuam a iluminar o meu caminho.

Poderia nos contar como era formada a sua família?

Sim. Minha mãe era descendente de europeus, católica, mas católica da maneira argentina, ou seja, mais por uma questão social do que teológica. Minha avó inglesa era de tradição protestante, de pastores metodistas. Sabia a Bíblia de cor. Você recitava um versículo qualquer, e ela dizia, sim, Livro de Jó, capítulo tal, versículo tal, e assim em diante. Entre os protestantes, tem muita gente que conhece a Bíblia de cor. Nos hotéis, por exemplo, na Inglaterra, na Escócia e também em Nova York, tem sempre uma Bíblia na gaveta do criado-mudo. Além, disso, as citações bíblicas, que podem soar pedantes em castelhano, são muito comuns em inglês. As pessoas estão sempre fazendo citações de versículos da Bíblia ou de frases bíblicas, e não soa nada pedante. Em contrapartida, nos países católicos, pareceria uma coisa forçada. De forma que minha avó era muito religiosa, metodista.

A família de minha mãe era católica, como eu dizia, à maneira dos países latinos, de uma forma superficial. Meu pai era agnóstico, quer dizer, um livre pensador, e todos nos dávamos muito bem; isso jamais foi motivo de discórdia.

O que mais posso dizer sobre a minha família? Meu pai era professor de Psicologia no Colégio de Línguas Vivas, e lembro muito bem o quanto ele ganhava, era também advogado, assessor cível. Tinha de dar duas aulas de Psicologia por semana no Colégio e lhe pagavam 100 pesos por mês. Cem pesos por mês era um bom dinheiro na época, sendo que hoje em dia diz mais respeito à literatura fantástica. Hoje, 100 pesos não significam nada. Naquele tempo sim; tudo era muito mais barato do que agora. Lembro que o dólar valia 2 pesos e cinquenta centavos. Acho que hoje o valor dele subiu bastante, não? Acho que a nossa moeda é a mais barata do mundo.

Do lado do meu pai e minha mãe, era uma família militar. Meu avô, o Coronel Francisco Borges, morreu, realmente, na batalha de La Verde, que aconteceu perto do vilarejo de 25 de Maio, na província de Buenos Aires. Meus avós participaram da campanha pela independência, depois das guerras civis, da guerra com o Brasil, tudo isso.

Agora, do lado da minha avó inglesa, não. Eram pastores e professores.

Quais estudos o senhor fez?

Poucos. Estudei no Collège de Genebra, estudei e tenho o meu diploma. Ali havia duas matérias principais, que eram o francês e o latim. Eu logo percebi que, se estudasse bastante o francês e o latim, poderia prescindir das outras matérias, o que fez com que me tornasse uma pessoa extremamente ignorante, pois tive aulas de física, botânica, mineralogia, zoologia, música, ginástica, química, e não sei absolutamente nada sobre esses assuntos. História, sim, disso eu gosto. Mas, na Suíça, a aula de história não era obrigatória, e sim opcional. Se quiser, você pode estudar História suíça, se não quiser, não estuda. Eu tinha muito interesse em conhecer a história da Suíça, pois vivia ali, , por isso estudei. São obrigatórias a história antiga, a moderna etc; mas a suíça, não.

Esse é o único diploma que eu tenho. Todos os outros são títulos Honoris Causa, que são apenas fruto de generosidades. Sou Doutor Honoris Causa de Tucumán, de Nova York, de universidades italianas, colombianas, mexicanas, também de Harvard, de Oxford, da Sorbonne, mas acredito que posso ser chamada do doutor, já que esses títulos de Honoris Causa são um favor que outorgam a algumas pessoas, e é claro que agradeço a eles, pois é uma honra, embora eu não saiba se realmente a mereço.

Pessoalmente, posso dizer apenas que sou formado no Collège de Calvino de Genebra.

Com que idade o senhor tomou consciência de sua vocação literária?

Eu não sei. Não me lembro de uma época em que não lesse ou escrevesse. Eu sempre estava lendo e escrevendo. Mas meu pai me disse para só ler aquilo que me interessasse, que não lesse um livro pelo sentimento de dever, porque era famoso. Que eu lesse apenas quando me interessasse, e que só escrevesse quando tivesse necessidade de fazê-lo. Que eu escrevesse muito, que descansasse muito e que não me apressasse para publicar, já que publicar não é parte necessária do destino de um escritor.

Como conseguiu publicar seu primeiro livro?

Meu primeiro livro foi publicado tardiamente. Eu tinha 24 anos. Chamava-se Fervor de Buenos Aires e foi publicado aqui, em Buenos Aires. Meu pai me deu 300 pesos, que me permitiram imprimir 300 exemplares. Não foi colocado à venda. Reparti entre meus amigos. Me agradava muito. Mas, na realidade, era o quarto livro que eu escrevi. Tinha escrito três antes que, curiosamente, destruí. Talvez devesse ter destruído esse também.

Como surgem suas obras? O senhor se senta para escrever sistematicamente ou o faz quando sente a necessidade?

Isso é muito complexo. Eu sinto que há algo que quer que eu escreva sobre (mais…)

Go to Top