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Estudante descobre sozinha desvio de bolsas dentro de universidade

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(FOTO: WIKIPEDIA/MORIO)

(FOTO: WIKIPEDIA/MORIO)

 

Júlio Viana, na Galileu

Uma estudante de jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) descobriu sozinha um sistema que desviava dinheiro destinado a bolsas universitárias. Débora Sögur Hous, de 25 anos, iniciou sua pesquisa no final de 2014, utilizando os dados disponibilizados no portal de transparência da universidade, e passou, em janeiro, as informações coletadas para o jornal Gazeta do Povo, de Curitiba.

A operação, batizada de Research (“pesquisa” em inglês), foi deflagrada pela Polícia Federal (PF) no dia 15 de fevereiro e já prendeu 27 pessoas suspeitas de participarem do esquema que, segundo a PF, o TCU e a Controladoria-Geral da União chegou a desviar quase 7,3 milhões de reais em recursos para bolsas.

Os desvios teriam ocorrido entre os anos de 2013 e 2016. A polícia e o TCU chegaram a classificar como grosseiras as ilegalidades ocorridas na receita da universidade. A UFPR afirma, porém, que já havia inciado as apurações assim que o TCU encaminhou as denúncias para a instituição, em outubro.

Esquema revelado
Débora passou pelo menos dois anos entrando no site da UFPR, tentando entender os números ali apresentados. Tudo começou quando ela fazia parte do centro acadêmico da faculdade. A estudante entrou no sistema pela primeira vez, no fim de 2014, em busca de informações sobre a remuneração de um professor que não estava dando aulas. Interessada, ela começou a explorar o sistema e acabou parando na aba de discriminação de bolsas-auxílio, para monitorar o próprio recebimento de benefício.

Ela explica que demorou um pouco para entender como o esquema de pagamentos era feito. Mas conseguiu compreender, baseando-se na própria experiência, que os depósitos eram sempre feitos ao mesmo tempo. Ou seja, uma bolsa-auxílio para estudantes de 400 reais, por exemplo, era sempre dada para mil a duas mil pessoas de uma só vez.

Débora notou, porém, que alguns benefícios de valor anormal eram pagos apenas para algumas pessoas em particular. Alguns chegavam ao valor de 14 a 17 mil reais por mês, sendo que a maioria das bolsas para estudantes ou pesquisadores chegava no máximo a dois mil reais. Foi quando ela ficou curiosa e iniciou as investigações.

“A princípio, eu não encarava aquilo como irregularidade. Eu imaginava que era algo do serviço público, algum tipo de erro”, explica Débora à GALILEU. Ela começou então a verificar os nomes das pessoas que recebiam os benefícios. Alguns realmente possuíam pesquisas, mas outros nada tinham a ver com a UFPR.

Débora então foi atrás dessas pessoas, buscando-as no Google e no Facebook. Foi nessas pesquisas que começou a comprovar cada vez mais que algo estava errado. Alguns dos investigados não viviam no Paraná, outros não tinham ensino superior. O mais curioso porém era a ligação que alguns deles pareciam ter. “Fui olhando e percebendo algumas conexões familiares ou de amizade. Pessoas que eram amigas uma das outras, comentavam nas fotos e tudo o mais”, conta ela.

Para se certificar de que os nomes constados não eram simples erros do portal, mas recebiam, sim, os benefícios da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Débora solicitou à universidade uma relação dos nomes dos bolsistas entre 2011 e 2015. A UFPR negou o pedido, afirmando que a informação era de cunho privado.

A estudante então fez um recurso no portal e-SIC, o Sistema Eletônico do Serviço de Informação ao Cidadão, onde qualquer pessoa pode solicitar dados sobre o poder público. O pedido foi encaminhado à CAPES, que aceitou a requisição. “Eles consideraram a informação como pública e me passaram a relação de todos os bolsistas. Eu bati com o portal e eram os mesmos nomes. Isso me confirmou que não eram pesquisadores recebendo o auxílio”, explica Débora.

Então, a estudante de jornalismo tentou traçar como a verba podia ter chegado em tais pessoas. Foi quando ela chegou na Pró-Reitoria de Pós Graduação da universidade. Mais especificamente, na chefe da unidade de controle e execução orçamentária, Conceição Abadia de Abreu Mendonça, uma das indicadas pela operação. Ela notou que alguns dos nomes marcados como beneficiados pelas bolsas eram amigos dela no Facebook, alguns inclusive comentavam em suas fotos.

Só mais para frente, ela entenderia a relação real entre aquelas pessoas. Após chegar a 30 nomes suspeitos, Débora percebeu que não conseguiria tocar a investigação a fundo sem ajuda. Por isso, foi até a Gazeta do Povo. Lá, a redação fez um trabalho exaustivo de rechecagem, que apenas confirmou as informações obtidas por Débora.

Segundo o jornal, alguns dos beneficiados sabiam da origem do dinheiro. Outros, porém, diziam não fazer ideia do que estava acontecendo. A hipótese é de que a funcionária, além de repassar o dinheiro, também usava o sistema para pagar comerciantes e prestadores de serviço.

A operação porém, seria desfraldada um pouco antes da reportagem da Gazeta do Povo ser publicada. Segundo a universidade, o TCU já havia encaminhado as denúncias sobre as irregularidades em outubro, levando a instituição a ativar a polícia em dezembro. Segundo Débora, faltava pouco para o término das apurações quando a PF inciou a operação, no dia 15.

Débora afirma que os cursos que fez a ajudaram bastante a conseguir entender o processo de busca e organização de dados. Principalmente na questão de reivindicação de informação. “Mesmo com a Lei de Acesso à Informação, aprendi que aqui nada é realmente transparente a não ser que você peça. Aprendi, portanto, como abrir recursos e argumentar o porquê de algo não ser de informação privada” diz.

Segundo ela, a quantidade de dados públicos é imensa, mas não há pessoas o suficiente para verificá-los, o que leva a casos como esse. “O desvio pode ser óbvio mas na verdade não é. Neste exato meomento existem milhares de dados e números em milhares de bancos de orgãos publicos. Está tudo lá, o problema é quem vai olha-los e tirar algo deles”, coclui Débora.

(com supervisão de Nathan Fernandes)

9 lições que ‘Spotlight’ te ensina sobre o jornalismo

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Flávia Marreiro, no El País

Não chega a ser uma heresia usar o formato consagrado pelo BuzzFeed, o símbolo do reino da Internet, para falar sobre Spotlight, o indicado ao Oscar de melhor filme em 2016 que já nasce um clássico do jornalismo. O filme é uma homenagem às redações de jornal, esses lugares românticos e duros e tão deliciosamente século 20, mas traz também lições perenes para jornalistas de todas as épocas e para os milhões de ombudsmen da imprensa nas redes sociais. CONTÉM SPOILERS.

1 – É o sistema, estúpido

1453227211_733111_1453491176_sumario_normal_recorte1Chega ao Boston Globe Marty Baron (Liev Schreiber), um diretor de fora com fama de cortador de vagas, e ele poderia ser só isso mesmo. Mas o filme recorda o poder de armas imprescindíveis para o jornalismo: desnaturalização e distanciamento. Quando o editor resolve revisitar um tema com novo ângulo e novos recursos é que a mágica acontece. O maior dos especialistas e cavador de notícias exclusivas vai sempre precisar de alguém para fazer as perguntas básicas e não tão básicas. O “follow the money” (siga o dinheiro), a lição clássica do Todos os Homens do Presidente (1976) para o escândalo que derrubou Richard Nixon, se soma ao “get the system” (mostre os problemas do sistema). Poderia ser mais uma história sobre maçãs podres na Igreja Católica e virou uma reportagem sobre o sistema corrompido da instituição com impacto mundial. Reflita: quem está na cadeia de comando das atrocidades que vemos por aí?

2 – Agradeça a essa gente mal vestida e monotemática

JLHGw5Raramente há grandes reportagens com informações exclusivas – por definição, algo que alguém poderoso não queria que viesse a público – se não há por trás um jornalista que se obcecou por um tema, ficou até mais tarde, provavelmente brigou com familiares e amigos por causa disso, encheu o saco de alguém, talvez o do próprio editor. Enfim, virou monotemático. De quebra, o filme revela ainda outra dura verdade: somos uma classe que se veste mal. Pobre da atriz Rachel McAdams com 1453227211_733111_1453484588_sumario_normal_recorte1essas pantalonas horrendas (descontado o custo fim dos 90, aqui o que New York Times escreveu sobre isso). Seja como for, uma salva de palmas para esses bravos pelo mundo, e uma reflexão da ombudsman da Folha, Vera Guimarães: jornalismo investigativo é o mais caro e o que mais sofre com a crise do modelo de negócios do setor.

3 – Os cínicos não servem para essa profissão

Se você, como eu, saiu do cinema frustrado por nunca ter feito uma reportagem que abalasse a República, console-se pensando que o sol nasce para todos. Há os que veem as árvores, há os que veem as florestas – o jornalismo precisa dos dois. A equipe do Spotlight tinha o Mike Rezendes (Mark Ruffalo) no braço investigativo, mas tinha Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) na rua. Sem ela, sua entrega e seu esforço de empatizar com o entrevistado, faltaria uma peça importante. Pfeiffer lembra, como diria o jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, que os cínicos não servem para essa profissão.

4 – Vai mesmo ignorar o doido de redação?

l5c1UEO filme redime um personagem típico: o doido da redação. Todo veículo enfrenta milhares de telefonemas e e-mails prometendo o furo (a notícia exclusiva) do milênio, assim como ativistas e especialistas (verdadeiros e fakes) nos mais variados temas. O filme prova que o Boston Globe errou ao ignorar o insistente Phil Saviano e sua pequena associação das vítimas de abuso. Jornalismo requer paciência e curiosidade, mesmo quando isso é um desafio.

5 – Há mudanças e mudanças

Já no final do filme, os jornalistas comemoram poder publicar na Internet a cópia dos documentos sobre os casos de abusos e pedofilia e o efeito multiplicador que isso teria. É um índice do que a Internet ofereceria ao jornalismo já naquele longínquo 2001. Além de bagunçar o modelo de negócios do jornalismo do século 20, a rede trouxe muito mais gente para a conversa, novos formatos e possibilidades. Há temas que, não adianta torcer o nariz, vão ficar melhor em listas tipo BuzzFeed: dos dez mandamentos às melhores cenas de gatos. E para outros não há como escapar da reportagem. Marty Baron, o diretor do jornal filme, agora comanda mudanças no Washington Post.

6 – Que notícia você leu sobre a Assembleia de São Paulo?

Exibido nos cinemas, o trailer alternativo é uma meta-homenagem: diretores e atores comentam da importância do jornalismo para a democracia, comentam que o Boston Globe é apenas metade do que era em 2001 e falam do perigo da morte dos jornais locais nos EUA, que fazem um tipo de jornalismo insubstituível. Pense com eles: qual a foi a última notícia que você leu sobre a Assembleia de São Paulo?

7 – O charuto, às vezes, é apenas um charuto

É tarefa do leitor saber o que está lendo, onde está lendo e como as características políticas e ideológicas de quem publica pode influenciar o material. Dito isto, um título que você achou um acinte ou a ausência daquela pauta que ninguém viu, só você diferentão, podem ser apenas produto de um mau dia de um jornalista ou incompetência mesmo. Como diria Freud, o charuto às vezes, é só um charuto. A cara do personagem de Michael Keaton quando descobre que ele mesmo deixou a pauta dos abusos sistêmicos passar sob seu nariz quando era editor é desoladora (e reveladora).

Spotlight capa

8 – Bom repórter tem sorte

Alguém alguma vez me disse que bom repórter tem sorte. Se você for obcecado e persistente, você multiplica as chances de sorte, de a fonte amolecer e resolver te contar algo, como em algum momento o ótimo advogado faz com o repórter interpretado por Mark Ruffalo. De acordo. Mas, às vezes, sorte é sorte mesmo. Você disse a palavra certa, na hora certa, estava no lugar certo e fica se sentindo tocado pelo deus do jornalismo.

9 – Independência é melhor que engajamento

A real equipe do furo do 'Boston Globe'.

A real equipe do furo do ‘Boston Globe’.

 

O editor Baron vai até ao poderoso cardeal da Igreja em Boston e diz: é melhor para o jornal ser independente do que seguir na relação de compadrio com a instituição. Deveria ser o básico, mas não é, especialmente em uma época em que muitos leitores cobram adesão às mais diversas causas e partidos e estrilam quando confrontados com qualquer abordagem crítica se o assunto em questão for o de sua predileção.

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