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Como uma investigação para um jornal da escola levou à demissão da diretora

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Reprodução Twitter

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Podia ser o argumento de um filme, mas aconteceu na realidade. O que começou com um simples perfil da nova diretora de um liceu de Pittsburg para o jornal da escola acabou por se transformar numa investigação que levou à demissão da recém contratada

Publicado no Visão

A escola secundária de Pittsburg, Kansas, EUA, contratou, no início de março, Amy Roberstson, para o cargo de diretora, com rasgados elogios à sua “experiência extensa e diversificada”. Menos de um mês depois, no entanto, o liceu anunciava a demissão da recém-contratada, na sequência de uma investigação de um grupo de alunos para o jornal da instituição, o The Booster Redux. Tudo começou quando Maddie Baden, uma das alunas que colabora com o jornal, se propôs escrever um perfil sobre a nova diretora. O que os estudantes não contavam, nem Emily Smith, a professora orientadora, é que o artigo acabasse pôr em causa as credenciais de Amy Roberstson.

Foram as declarações sobre a sua experiência profissional que suscitaram a curiosidade dos estudantes de jornalismo. “Não batia certo”, recorda Emily Smith, ao The New York Times. Depois, a recém-contratada começou a tornar-se cada vez mais evasiva e os jovens perceberam que os seus relatos não coincidiam com a realidade: “Faziam-lhe perguntas diretas, mas ela não respondia diretamente”, acrescenta.

Entre os pontos que levarantaram dúvidas aos estudantes estavam as declarações sobre o seu mestrado e o seu doutoramento obtidos, alegadamente, na Universidade de Corllins, que não disponibiliza nenhum endereço onde se possam consultar as acreditações.

Se até aqui os alunos já suspeitavam da veracidade das suas declarações, outros detalhes acentuaram as dúvidas, como foi o caso do bacharelato em Belas Artes que Roberstson alegava ter tirado na Universidade de Tulsa. Após uma investigação, os estudantes concluíram que a universidade não conferia esse grau académico.

Uma vez publicado, o perfil chamou a atenção dos principais órgãos de comunicação social dos EUA e a diretora acabou por se demitir do cargo que acabara de estrear e pelo qual ia receber quase 87 mil euros por ano.

O superintendente da escola, Destry Brown, elogiou o trabalho dos alunos: “Eu acredito fortemente nos nossos jovens que questionam coisas e não acreditam apenas no que lhes dizem.”

Um Nobel para o jornalismo ou por que você deveria ler Svetlana Alexievich

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JOEL SAGET/AFP/Getty Images)

JOEL SAGET/AFP/Getty Images)

 

Maurício Santoro, no Brasil Post

O Nobel de Literatura de 2015 foi para uma jornalista nascida na antiga União Soviética, cujos livros de não-ficção são uma excelente crônica das guerras e catástrofes que marcaram o declínio do comunismo.

Natural da Bielorússia, Svetlana Alexievich dá voz às pessoas comuns que refletem sobre suas experiências em lutas épicas ou cotidianas, refletindo a respeito dos combates contra a Alemanha nazista, do desastre nuclear em Tchernóbil e do desmantelamento do Estado soviético. A Companhia das Letras começou a publicá-la no Brasil e a autora veio ao Brasil para participar da Festa Literária de Paraty.

Svetlana Alexievich escreve em russo e seu trabalho como jornalista ecoa a extraordinária tradição literária nesse idioma, com seus valores humanistas, olhar sensível para a vida diária e uma pungente avaliação dos destinos nacionais.

Sua obra-prima é “Vozes de Tchernóbil”, uma crônica da explosão de um reator nuclear na Ucrânia que se tornou a pior calamidade atômica depois das bombas contra Hiroshima e Nagasáki, e um símbolo do colapso soviético.

Svetlana narra essa história por meio de entrevistas com moradores locais que sobreviveram ao desastre, parentes das vítimas fatais e pessoas cujas vidas foram de algum modo alteradas pela tragédia – incluindo habitantes de países vizinhos, como a Bielo-Rússia, que tiveram que ser evacuados de suas casas por conta dos efeitos da radiação.

Svetlana não usa o estilo convencional das entrevistas com perguntas e respostas – ela dá voz a seus entrevistados por meio de monólogos ou declarações mais longas do que o habitualmente encontrado na imprensa. Naturalmente, as falas são editadas pela autora, mas a sensação geral é de escutarmos pessoas que em geral não aparecem nas narrativas oficiais. Romances corais ou polifônicos, como às vezes são definidos. Um exemplo:

“Não sou escritor. Não sou capaz de descrever isso. Minha mente não é capaz de entender. Nem meu diploma universitário. Aí está você: uma pessoa comum. Uma pequena pessoa. Você é exatamente como qualquer um – você vai trabalhar, você volta do trabalho. Você recebe um salário mediano. Uma vez por ano você sai de férias. Você é uma pessoa normal! E aí um dia você é subitamente transformado numa pessoa de Tchernóbil. Em um animal, alguma coisa na qual todos estão interessados, mas sobre a qual ninguém sabe nada.”

Outra ilustração dessa abordagem é “A Guerra não tem rosto de mulher”, o outro livro de Svetlana Alexievich lançado no Brasil. Trata-se de um conjunto de entrevistas com veteranas soviéticas da II Guerra Mundial – o Exército Vermelho recrutou 1 milhão de integrantes femininas, inclusive em diversas posições de combate, de franco-atiradoras a pilotos de caças:

“A vila de minha infância depois da guerra era feminina. Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que isso ficou comigo: quem conta a guerra são as mulheres. Choram. Cantam enquanto choram.”

Elas contam à jornalista histórias de heroísmo, perdas, traumas e sacrifício, como a experiência de matar, a morte de amigos e parentes, o medo da violência sexual.

Mas narram também episódios de beleza ou humor, como casos de amor, o esforço por cuidar da aparência e por manter a capacidade de horror diante da brutalidade da guerra e de compaixão, mesmo diante dos inimigos alemães:

“Mas parece que, nesse território pequeno e cômodo para o olhar – o espaço de uma alma humana – tudo é ainda mais incompreensível, menos previsível do que na história.”

Svetlana Alexievich é autora de outros livros ainda não publicados no Brasil, mas já disponíveis em diversas línguas, inclusive em português. O Fim do Homem Soviético é um tocante balanço do declínio e queda da URSS, identificando a guerra e a prisão como as duas experiências definidoras daquele Estado comunista. Zinky Boys é uma denúncia da invasão soviética do Afeganistão por meio de relatos dos veteranos daquele conflito, ou dos parentes e amigos dos que lá morreram.

Nobel Svetlana Alexievitch faz a mesa mais intensa da Flip

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Foto: Walter Craveiro / Divulgação / Divulgação

Foto: Walter Craveiro / Divulgação / Divulgação

 

Autora de “Vozes de Tchernóbil” falou sobre sua experiência ouvindo pessoas comuns para montar parte da história do século 20

Carlos André Moreira, no Zero Hora

Devido ao caráter vetusto do prêmio mais que centenário, não é sempre que se espera intensidade de um Prêmio Nobel de Literatura. Portanto, talvez tenha sido surpresa para alguns que a mesa mais intensa desta 14ª Festa Literária Internacional de Paraty tenha ocorrido na tarde deste sábado, pela voz da jornalista Svetlana Alexievitch – e que essa voz tenha sido calma e lúcida, instrumento que a autora de Vozes de Tchernóbil usa para se transformar, em suas próprias palavras, em um ouvido a serviço de seus personagens. Além de ter lotado o espaço da tenda dos autores, a Nobel também reuniu mais de 1,8 mil pessoas interessadas em ver sua palestra no telão que transmite as sessões para quem não comprou o ingresso.

Svetlana já teve dois livros lançados por aqui: sua obra mais conhecida no mundo (embora pouco conhecida em lugares como o Brasil antes do Nobel), Vozes de Tchernóbil, e A Guerra não tem rosto de mulher. Ambos, bem como os demais livros da autora ainda não publicados por aqui, são montados como uma coleção de depoimentos em primeira pessoa em que a autora limita a breves comentários sua participação, preferindo apresentar monólogos de gente comum que montam um panorama único da história russa por meio de seu testemunho. Respondendo a uma pergunta do mediador Paulo Roberto Pires, jornalista e editor da Serrote, ela datou na infância em uma aldeia na Bielorrússia, no imediato pós-Segunda Guerra.

— Fui criada numa aldeia em que quase não havia homens, e as mulheres eram maioria. Por meus pais serem professores, tínhamos livros em casa, mas eu preferia sair para a rua e ouvir as mulheres reunidas contando suas histórias. Achava que ouvi-las contar como haviam se despedido de seus maridos indo para a guerra me ensinaria muito mais do que os livros – contou.

Depois de haver se formado em jornalismo e exercido a profissão por 10 anos, Svetlana voltaria a esse fascínio pelas vozes comuns até como uma forma de escapar do que considerava um problema no ofício, a superficialidade e o hábito de se focar em banalidades. Começou então seu longo projeto no qual cada livro demora muito tempo.

— Para escrever O Declínio do Homem Soviético (seu quinto livro sobre a história da União Soviética, publicado em 2014 e ainda inédito no Brasil), levei 17 anos. Porque eu entrevisto muita gente e gravo tudo. Porque no papel você tem dificuldade de mostrar a personalidade daquela pessoa. E de um depoimento de cem páginas, posso usar quatro ou cinco, e assim vou montando esse panorama.

Para ganhar a confiança de tanta gente a ponto de elas abrirem suas histórias e experiências mais íntimas, Svetlana tem um método também responsável pela demora em concluir seus livros:

— Eu não faço entrevistas. Eu converso. Como estou conversando com você aqui agora – disse ela ao mediador. – Não me aproximo querendo tirar algo, mas como um ser humano se aproximando de outro. Conversamos sobre tudo. Se estou falando com uma mulher que lutou na Segunda Guerra, não vou perguntar só disso, a gente fala da blusa nova, de como vão os filhos.

Segundo ela, o exemplo de uma mulher não é gratuito. Para ela, as mulheres são sempre as fontes dos depoimentos mais ricos, principalmente em uma cultura tão impregnada de violência como a russa. Algo que talvez fique mais claro se, a exemplo de Svetlana, preservarmos um pouco sua palavra por mais do que uma citação de três linhas:

— Os homens falam de um modo diferente sobre a guerra. Os jornais falam de outro modo. As mulheres, se você conversar com elas, aos poucos elas contam coisas de sua vida que dão outra dimensão ao relato. Estava conversando com uma mulher que havia lutado na guerra e que era uma mulher muito bonita, e perguntei a ela se havia sido muito difícil passar por aqueles anos, naquela frente de combate. Ela me perguntou como eu sabia disso, e eu disse que outras pessoas já haviam dito algo parecido. Perguntei então se ela teve medo de morrer. Ela me disse que morrer teria sido ruim, mas não era o pior, o pior foi ter que passar quatro anos usando cuecas masculinas. Ela estava pronta para morrer, mas não queria morrer vestindo cuecas de homem. Uma coisa é a verdade da guerra, outra é a verdade do ser humano. Essa mesma mulher em um momento se virou para mim e me disse: ¿Você quer saber como eu casei com meu marido¿? Eles estavam combatendo em Berlim, já diante do Portão de Brandenburgo, e ela disse que, quando ele a pediu em casamento, ela quis matá-lo. ¿Como assim ele me pede casamento aqui, nunca tivemos tempo de ele me dar flores, ele me pede em casamento no meio deste sangue?¿. O marido dela tinha metade do rosto queimado, e, ao dizer isso, ela viu uma lágrima escorrendo pelo rosto queimado dele, e ali ela aceitou casar com ele. E de repente ela parou de falar e me disse: ¿Nunca contei isso para ninguém, por que contei isso para você? Acho que porque você tem olhos de uma pessoa boa¿. Você tem de ser um pouco ingênuo ao falar com as pessoas, porque todos vemos nossa vida e o que amamos com uma certa ingenuidade.

Depois, Paulo Roberto Pires levou a conversa para o tema do livro Vozes de Tchernóbil, uma coleção de depoimentos sobre as consequências do acidente nuclear de 1985. Segundo ela, a tragédia inaugurou uma nova era humana, a era das catástrofes, depois da qual nada mais foi o mesmo, um horror que, segundo ela, vai além do Holocausto e os gulags soviéticos.

— A pior guerra pela qual passamos foi a Segunda Guerra, e, mesmo no caso dela, muitos dos que voltaram, mesmo tendo passado pelo horror dos campos, sentiam uma necessidade de a vida continuar. Quando fui a Tchernóbil depois do acidente, um local abandonado pelas pessoas, eu cheguei à conclusão: ¿Nunca mais o ser humano vai voltar aqui¿. Os nucleotídeos radioativos vão continuar lá por séculos, ninguém mais vai viver lá. Foi uma tragédia também que violou a noção de amigo e inimigo. Não havia inimigos. Durante sete dias depois do acidente, as abelhas se esconderam. E os humanos continuaram andando por lá, ninguém sabia nada, não se sabia que uma usina como aquela, que muitos falavam que deveria ter sido construída na Praça do Kremlin, era tão perigosa. A humanidade não estava pronta para o que aconteceu.

Svetlana reforçou que Tchernóbil deveria ser um alerta que o ser humano não soube ainda compreender ou seguir. E que a humanidade deveria ter avançado mais em alternativas à energia atômica, mas nada foi feito.

— Quando o livro foi lançado no Japão há alguns anos, estive por lá e alguns leitores vieram conversar comigo em meu hotel, e muitos deles, mesmo cientistas, diziam que aquilo só poderia ter acontecido em Tchernóbil, porque os russos não sabiam fazer as coisas direito, mas aqui a gente calculou tudo. Aumentamos a cobertura do reator, estamos preparado para tudo. E eu cheguei a dizer que não havia como prever o resultado de terremotos ou tsunamis frequentes no Japão, e eles insistiram que estavam prontos, que haviam calculado. E, poucos anos depois, tivemos Fukushima.

Por mais de uma vez ao longo do encontro, Svetlana foi interrompida por aplausos. No fim da conversa, compartilhou uma melancólica conclusão sobre os rumos da política e da democracia na Rússia de hoje, país ao qual ela voltou em 2011 depois de mais de uma década vivendo em cidades diferentes da Europa, como Paris e Gotemburgo. Ela partiu por perseguições políticas e, ao retornar, concluiu que as coisas estavam ainda piores.

— Chegamos à conclusão de que nós, os democratas, fomos derrotados. Conversávamos sobre a democracia em nossas cozinhas, mas, quando a União Soviética caiu, a população queria roupas novas, geladeira nova… Os bandidos logo tomaram o poder, eles estavam prontos para isso, mas nós, não. Se o ser humano vive um certo tempo preso em um campo, você abre a porta e diz que ele está livre, mas ele não sabe ser livre.

As experiências embrutecedoras que testemunhou depois de tanto tempo escrevendo sobre guerra também a afetaram. Hoje, de acordo com ela, ela não conseguiria mais acompanhar ou testemunhar coisas como as que viu no passado.

— Não consigo mais nem ir aos lugares de crianças abandonadas. Não fui à Chechênia porque sabia que não conseguiria mais entrar em hospitais com homens desmembrados, coisa que eu fiz muito antes. Não consigo mais fazer isso. E tudo o que tinha para escrever sobre guerras, já escrevi nos meus livros.

Svetlana terminou recebendo uma longa saudação do público, que aplaudiu de pé durante um bom tempo a mesa mais intensa desta Flip.

9 lições que ‘Spotlight’ te ensina sobre o jornalismo

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Flávia Marreiro, no El País

Não chega a ser uma heresia usar o formato consagrado pelo BuzzFeed, o símbolo do reino da Internet, para falar sobre Spotlight, o indicado ao Oscar de melhor filme em 2016 que já nasce um clássico do jornalismo. O filme é uma homenagem às redações de jornal, esses lugares românticos e duros e tão deliciosamente século 20, mas traz também lições perenes para jornalistas de todas as épocas e para os milhões de ombudsmen da imprensa nas redes sociais. CONTÉM SPOILERS.

1 – É o sistema, estúpido

1453227211_733111_1453491176_sumario_normal_recorte1Chega ao Boston Globe Marty Baron (Liev Schreiber), um diretor de fora com fama de cortador de vagas, e ele poderia ser só isso mesmo. Mas o filme recorda o poder de armas imprescindíveis para o jornalismo: desnaturalização e distanciamento. Quando o editor resolve revisitar um tema com novo ângulo e novos recursos é que a mágica acontece. O maior dos especialistas e cavador de notícias exclusivas vai sempre precisar de alguém para fazer as perguntas básicas e não tão básicas. O “follow the money” (siga o dinheiro), a lição clássica do Todos os Homens do Presidente (1976) para o escândalo que derrubou Richard Nixon, se soma ao “get the system” (mostre os problemas do sistema). Poderia ser mais uma história sobre maçãs podres na Igreja Católica e virou uma reportagem sobre o sistema corrompido da instituição com impacto mundial. Reflita: quem está na cadeia de comando das atrocidades que vemos por aí?

2 – Agradeça a essa gente mal vestida e monotemática

JLHGw5Raramente há grandes reportagens com informações exclusivas – por definição, algo que alguém poderoso não queria que viesse a público – se não há por trás um jornalista que se obcecou por um tema, ficou até mais tarde, provavelmente brigou com familiares e amigos por causa disso, encheu o saco de alguém, talvez o do próprio editor. Enfim, virou monotemático. De quebra, o filme revela ainda outra dura verdade: somos uma classe que se veste mal. Pobre da atriz Rachel McAdams com 1453227211_733111_1453484588_sumario_normal_recorte1essas pantalonas horrendas (descontado o custo fim dos 90, aqui o que New York Times escreveu sobre isso). Seja como for, uma salva de palmas para esses bravos pelo mundo, e uma reflexão da ombudsman da Folha, Vera Guimarães: jornalismo investigativo é o mais caro e o que mais sofre com a crise do modelo de negócios do setor.

3 – Os cínicos não servem para essa profissão

Se você, como eu, saiu do cinema frustrado por nunca ter feito uma reportagem que abalasse a República, console-se pensando que o sol nasce para todos. Há os que veem as árvores, há os que veem as florestas – o jornalismo precisa dos dois. A equipe do Spotlight tinha o Mike Rezendes (Mark Ruffalo) no braço investigativo, mas tinha Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) na rua. Sem ela, sua entrega e seu esforço de empatizar com o entrevistado, faltaria uma peça importante. Pfeiffer lembra, como diria o jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, que os cínicos não servem para essa profissão.

4 – Vai mesmo ignorar o doido de redação?

l5c1UEO filme redime um personagem típico: o doido da redação. Todo veículo enfrenta milhares de telefonemas e e-mails prometendo o furo (a notícia exclusiva) do milênio, assim como ativistas e especialistas (verdadeiros e fakes) nos mais variados temas. O filme prova que o Boston Globe errou ao ignorar o insistente Phil Saviano e sua pequena associação das vítimas de abuso. Jornalismo requer paciência e curiosidade, mesmo quando isso é um desafio.

5 – Há mudanças e mudanças

Já no final do filme, os jornalistas comemoram poder publicar na Internet a cópia dos documentos sobre os casos de abusos e pedofilia e o efeito multiplicador que isso teria. É um índice do que a Internet ofereceria ao jornalismo já naquele longínquo 2001. Além de bagunçar o modelo de negócios do jornalismo do século 20, a rede trouxe muito mais gente para a conversa, novos formatos e possibilidades. Há temas que, não adianta torcer o nariz, vão ficar melhor em listas tipo BuzzFeed: dos dez mandamentos às melhores cenas de gatos. E para outros não há como escapar da reportagem. Marty Baron, o diretor do jornal filme, agora comanda mudanças no Washington Post.

6 – Que notícia você leu sobre a Assembleia de São Paulo?

Exibido nos cinemas, o trailer alternativo é uma meta-homenagem: diretores e atores comentam da importância do jornalismo para a democracia, comentam que o Boston Globe é apenas metade do que era em 2001 e falam do perigo da morte dos jornais locais nos EUA, que fazem um tipo de jornalismo insubstituível. Pense com eles: qual a foi a última notícia que você leu sobre a Assembleia de São Paulo?

7 – O charuto, às vezes, é apenas um charuto

É tarefa do leitor saber o que está lendo, onde está lendo e como as características políticas e ideológicas de quem publica pode influenciar o material. Dito isto, um título que você achou um acinte ou a ausência daquela pauta que ninguém viu, só você diferentão, podem ser apenas produto de um mau dia de um jornalista ou incompetência mesmo. Como diria Freud, o charuto às vezes, é só um charuto. A cara do personagem de Michael Keaton quando descobre que ele mesmo deixou a pauta dos abusos sistêmicos passar sob seu nariz quando era editor é desoladora (e reveladora).

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8 – Bom repórter tem sorte

Alguém alguma vez me disse que bom repórter tem sorte. Se você for obcecado e persistente, você multiplica as chances de sorte, de a fonte amolecer e resolver te contar algo, como em algum momento o ótimo advogado faz com o repórter interpretado por Mark Ruffalo. De acordo. Mas, às vezes, sorte é sorte mesmo. Você disse a palavra certa, na hora certa, estava no lugar certo e fica se sentindo tocado pelo deus do jornalismo.

9 – Independência é melhor que engajamento

A real equipe do furo do 'Boston Globe'.

A real equipe do furo do ‘Boston Globe’.

 

O editor Baron vai até ao poderoso cardeal da Igreja em Boston e diz: é melhor para o jornal ser independente do que seguir na relação de compadrio com a instituição. Deveria ser o básico, mas não é, especialmente em uma época em que muitos leitores cobram adesão às mais diversas causas e partidos e estrilam quando confrontados com qualquer abordagem crítica se o assunto em questão for o de sua predileção.

Soninha está certa: vestibular é uma prova cretina

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Marcelo Rubens Paiva, no Estadão

SONINHA FRANCINE foi vítima da intriga política polarizada.

A ex-vereadora do PPS, ligada ao PSDB, que ocupa o cargo de coordenadora de Políticas Públicas para a Diversidade Sexual do governo do Estado, formada em Comunicações, teria dito depois de prestar vestibular para Gestão de Políticas Públicas neste ano e ser reprovada:

“Como sempre, a prova da Fuvest foi sem cabimento. Eu não fazia a mais puta ideia de como responder metade da prova. As perguntas olhavam para mim como se fossem escritas cuneiforme. Em algumas delas, mal havia um sinal, um signo, um vocábulo que eu reconhecesse. Não faz sentido.”

Saiu em todo lugar na quarta-feira antes do Carnaval. Até eu ironizei.

Minha caloura da ECA-USP de 1988 desabafou depois que não passou.

Hahaha…

As redes sociais se esbaldaram

Acontece que Soninha NÃO fez a prova. Estava trabalhando. Fez a primeira fase, passou e comentou.

Seus inimigos acompanharam a lista de aprovados da Fuvest, não monitoraram direito e passaram a nota falsa.

Quer saber?

Gafe jornalística. E ela tem toda razão.

A Fundação Universitária para o Vestibular é uma fundação sem fins lucrativos criada para realizar o vestibular da USP e outras.

Seu primeiro vestibular, em 1977, foi também meu primeiro vestibular.

Podia-se escolher entre opções do mesmo curso de três universidades diferentes, USP, Unicamp e Unesp.

Entrei em engenharia na Unicamp. No primeiro dia de aula, Cálculo, o professor anunciou: “Sabe o que vocês vêm estudando na escola para o vestibular? Esqueçam. É uma bobagem que não serve pra nada. Isso aqui é matemática.”

E escreveu na lousa Cálculo Diferencial e Integral.

Descobri que de fato a matemática ensinada nas escolas era uma perda de tempo; um resumo tolo do que realmente interessa.

Como quase tudo que se ensina nas escolas [as frequentamos por 13 anos e saímos sem falar fluentemente uma língua estrangeira]

Há 40 ANOS, o vestibular é o mesmo: uma primeira fase de múltipla escolha em dezembro faz um corte para uma segunda fase escrita em janeiro.

E atesta a incompetência ou preguiça da USP arrumar um jeito melhor e mais justo de selecionar seus alunos há 40 ANOS!

Unicamp e Unesp já saíram fora dessa anomalia curricular.

Se são em média 120 mil estudantes/ano que fazem a Fuvest, 4,8 milhões de pessoas já a fizeram. Se a taxa média de inscrição é de R$ 145 [tem isentos], é um negócio que já faturou quase R$ 700 milhões.

A pergunta é se ela é um mal necessário ou um achaque.

A melhor universidade do país se acomodou e ainda os obriga a ler obras secundárias da literatura mundial como Viagens na Minha Terra (Almeida Garrett), Til (José de Alencar), e A Cidade e as Serras (Eça de Queirós).

O sujeito que faz vestibular para Educação Física lê os mesmos autores que o que presta para Geologia, Física, Filosofia, Letras e Áudio Visual.

E não lê, nunca foi exigido, Shakespeare, Voltaire, Cervantes, Vitor Hugo, Melville, Flaubert, Rimbaud, Dostoievski, Tolstoi, Kafka, Conrad, Hemingway, Beckett…

Quem tem matemática pela frente, tem de responder:

No plano cartesiano Oxy, a circunferência C tem centro no ponto P = (2,1), e a reta t é tangente a C no ponto Q = (-1,5). Determine o raio da circunferência C, encontre uma equação para a reta r, calcule a área do triângulo PQR, sendo R o ponto de interseção de t com o eixo Ox.

A prova de português não é ruim. Mas o aluno que leu os NOVE livros pedidos respondeu nem sobre a metade deles. Leu à toa.

As provas em geral são bem-feitas.

Fala-se de energia, poluição, saneamento de água, Cantareira, Plutão, feminismo, Malvinas, Oriente Médio.

Mas Soninha está certa.

E se defendeu como pôde na sexta-feira de Carnaval:

“Vejam que aula de jornalismo. A Mônica Bergamo escreveu na Folha de São Paulo que eu fui reprovada na Fuvest. Só que eu não fiz a segunda fase. Teria de faltar três dias no serviço e, se passasse, não iria ter a disponibilidade necessária para cursar uma faculdade pública como se deve. Escrevi pra Folha, e ela logo publicou online, com o título teimoso de ‘Soninha diz que não passou porque não fez a prova’. Só faltou escrever ‘alega’.”

“Na sequência um professor de jornalismo me detonou no G1 dizendo que minha crítica ao vestibular – uma prova CRETINA, digo isso todo ano – demonstra meu preconceito e orgulho de ser ignorante. Os comentários ao post dele são ótimos – ‘se eu não sei calcular cosseno, sou burra’; ‘o pessoal de humanas despreza exatas e tem mais preguiça de estudar’. Mas quem tem preconceito, diz o professor no título, sou eu.”

“Agora a revista Forum avança e diz que eu fui reprovada e reclamei da prova… Isso é jornalismo, não é o ‘vale tudo’ de internet… Talvez todos tenham diploma da USP, o que significa que um dia passaram na Fuvest (como eu, em 1988). Sabem cosseno, mas não sabem apurar matéria e têm dificuldades com interpretação de texto.”

SONINHA fez 51 pontos na primeira fase da Fuvest. “Podia ter feito 90 e ia continuar achando uma prova ridícula, anacrônica, inútil, contraproducente.”

Concordo totalmente.

É ridícula, cretina, anacrônica, inútil e contraproducente.

Devemos desculpas a ela.

E engolir esse vexame da USP por mais quantos anos?

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