Contando e Cantando (Volume 2)

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Escrever bem é escrever como música: o conselho viral que circula há 30 anos

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Escritor americano dá dicas de como escrever bem e e um de seus conselhos virou um viral na internet

Jaime Rubio Hancock, no El País

“Esta frase tem cinco palavras.” Assim começava o texto que o jornalista argentino Axel Marazzi compartilhou no Twitter nesta segunda-feira. Marazzi dizia que nada na sua vida havia lhe ensinado tanto sobre a escrita quanto esses três parágrafos. Dois dias depois, a mensagem havia sido replicada mais de 5.000 vezes.

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Trata-se dos três parágrafos muito curtos abaixo, que há anos vêm sendo compartilhados nas redes sociais. Além de pipocar no Twitter, os vemos também no Imgur, Pinterest, Flickr e Tumblr, por exemplo. E alguns blogs e sites sobre escrita, como o Antorquía, o traduziram ao espanhol.

Esta frase tem cinco palavras. Aqui há mais cinco palavras. Usar cinco palavras é legal. Mas várias juntas ficam monótonas. Escute o que está acontecendo. A leitura se torna tediosa. O som começa a zumbir. É como um disco riscado. O ouvido pede mais variedade.

Agora ouça. Vario o comprimento de cada frase, e crio música. Música. A escrita canta. Tem um ritmo agradável, uma cadência, uma harmonia. Uso frases curtas. E uso frases de comprimento intermediário. E às vezes, quando estou certo de que o leitor está descansado, o envolvo com uma frase de comprimento considerável, uma frase que arde com energia e que sobe com todo o ímpeto de um crescendo, do rufar de tambores, do choque dos címbalos – sons que dizem: ouça isto, é importante.


Portanto, escreva com uma combinação de frases curtas, médias e longas. Crie um som que agrade ao ouvido do leitor. Não escreva apenas palavras. Escreva música.

O texto é assinado por Gary Provost, um escritor norte-americano que viveu entre 1944 e 1995. Escreveu livros para jovens, três deles com sua esposa, Gail. Também é autor de livros sobre crimes reais: um dos quais serviu de base para o telefilme Fatal Judgement (1988).

Mas o fragmento de que estamos falamos foi extraído de 100 Ways To Improve Your Writing (“100 maneiras de melhorar sua escrita”), publicado em 1985. É um das seis manuais de escrita que Provost publicou em vida.

Os 100 conselhos de escrita são distribuídos em 10 capítulos. Neles se fala sobre erros gramaticais e de pontuação. Também se ensinam alguns métodos para evitar que o leitor nos odeie, e são dadas recomendações para que os leitores sejam fisgados pelo texto desde o começo. Aliás, a primeira frase do livro é um bom exemplo de início poderoso: “Este livro vai ensinar você a escrever bilhetes de sequestro melhores”. Em seguida esclarece que também serve para escrever livros, artigos, sermões, canções, trabalhos escolares e até listas de compra.

O fragmento que é compartilhado há anos na Internet tem como título “Varie o comprimento das frases”. É a quarta recomendação do quinto capítulo, no qual Provost explica 10 formas de desenvolver seu estilo.

No texto original são só dois parágrafos em vez de três (o primeiro vai até “é importante”). Mas isso provavelmente não importaria a Provost, porque o livro também recomenda o uso de parágrafos curtos – é o terceiro conselho do quarto capítulo (“Como poupar tempo e energia”).

Nem todos os conselhos são escritos de forma tão engenhosa, claro: são na maioria propostas mais ortodoxas, num estilo muito claro e direto. Mas há um ou outro trecho semelhante. Por exemplo, o segundo conselho do décimo capítulo, “evite os clichês”:

Clichés are a dime a dozen. If you’ve seen one, you’ve seen them all. They’ve been used once too often. They’ve outlived their usefulness. Their familiarity breeds contempt. They make the writer look as dumb as a doornail, and they cause the reader to sleep like a log. So be sly as a fox. Avoid clichés like the plague. If you start to use one, drop it like a hot potato. Instead, be smart as a whip. Write something that is fresh as a daisy, cute as a button, and sharp as a tack. Better safe than sorry.

Naturalmente, tudo aqui é um tremendo lugar-comum. Tento traduzir:

Clichês são carne de vaca. Se viu um, viu todos. Já foram usados demais da conta. O prazo de validade deles venceu. Eles são um arroz de festa. Por causa deles o escritor parece burro feito uma porta, e o leitor dorme a sono solto. Então, seja astuto feito uma raposa. Fuja dos clichês como da peste. Se você sentir que vai usar um, caia fora; é uma batata quente. Fique esperto! Escreva algo que seja fresco como a rosa, lindo de morrer, e ardido feito pimenta. É melhor prevenir do que remediar.

Esta recomendação recorda a lista de conselhos irônicos que, em diferentes versões, circula pelo menos desde os anos 1970. Ela recomenda “ser mais ou menos específico” e evitar os exageros, porque “exagerar é um milhão de vezes pior do que minimizar”. A versão de William Safire diz, com relação aos lugares comuns: “Finalmente, mas não menos importante, fuja dos clichês como da peste. Eles são mais velhos que Matusalém. Procure alternativas viáveis”.

Provost também recomenda o uso ocasional de citações, num texto que começa assim:

As citações conhecidas – escreveu Carroll Wilson no prefácio a um livro de citações – são mais que conhecidas, são parte de nós.

Um último conselho de Provost que também vale a pena ler é o que fecha o livro: “Use o bom senso”. Ele recorda que “escrever é uma arte, não uma ciência, e quando termino um texto não reviso cada um de meus conselhos. Eu me pergunto se comuniquei bem o que queria dizer, se os meus leitores gostaram, se lhes dei algo agradável de ler. Eu os diverti, informei, persuadi ou deixei claras as minhas ideias? Dei a eles o que queriam? E estas são as perguntas que você deveria se fazer sobre tudo o que escrever”.

Após dez anos, Flip volta a ter uma mulher na curadoria

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A jornalista Joselia, nova curadora da FLIP. Foto: Arquivo pessoal

A jornalista Joselia, nova curadora da FLIP. Foto: Arquivo pessoal

 

A edição 2017 da festa literária será comandada pela jornalista Josélia Aguiar, autora de biografia de Jorge Amado com lançamento previsto para o mesmo ano

Jamyle Rkain, na Brasileiros

A Festa Literária Internacional de Paraty terá uma mulher no comando da 15ª edição. Nesta sexta-feira (07), o nome de Josélia Aguiar foi anunciado para curadoria da FLIP 2017. Depois de dez anos tendo homens à frente do evento, a presença de uma mulher é extremamente importante para a organização, que foi acusada de ser machista e racista nas últimas edições.

Josélia é uma jornalista e historiadora nascida em Salvador. Vive em São Paulo há alguns anos, onde cursou o mestrado e agora o doutorado. Como jornalista especializada em literatura, com passagens pela revista mensal EntreLivros e os jornais Folha de S.Paulo e o Valor Econômico, marca presença na FLIP desde a primeira edição da festa, realizada em 2003. Entregou recentemente o livro Jorge Amado – uma biografia, o qual levou cinco anos para conceber, entre pesquisas e escrita. “A estreia mundial terá de ser em Salvador”, diz, bem-humor da, à Brasileiros. O livro sairá pela Editora Três Estrelas e está previsto para 2017, antes da FLIP.

A primeira e, até então, única mulher a comandar a FLIP foi Ruth Lanna, em 2005 e 2006. Em uma de suas curadorias, Ruth convidou a jornalista para mediar uma mesa no evento. “É mais fácil para uma mulher ver a outra naquela posição”, referindo-se ao fato de que a curadoria e a mediação são posições altas na hierarquia de grandes eventos literários, geralmente condicionadas aos homens.

Para além da questão de gênero, Josélia acredita que existem outras demandas de representação na FLIP, como as pautas do movimento negro, dos nordestinos, dos LGBTs, entre outros. Na edição deste ano, por exemplo, o evento foi acusado de racismo e elitismo ao não escalar autores negros para as mesas mais importantes. Josélia aborda essas questões desde sempre em sua carreira, por isso acredita que não será um desafio. “Até porque sou baiana e mulher”, pontua.

Para ela, o maior desafio será trazer novidades à FLIP. No começo, pelo ineditismo de feiras e festas literárias pelo Brasil, o trabalho era mais fácil: “O desafio é tentar inventar coisas interessantes para que a festa continue sendo referência”. Diante da atual diversidade de eventos com a mesma finalidade, Josélia imagina que a escolha curatorial da edição de 2017 contribuirá para que haja pontos de vistas diferentes.

A FLIP deve anunciar o homenageado de sua 15ª edição no próximo mês. Josélia não esconde seu preferido: Lima Barreto. Enquanto fazia as pesquisas para a biografia de Jorge Amado, a jornalista descobriu o amor do autor de Capitães da Areia pela obra de Barreto. Decidiu, então, conhecer um pouco mais sobre o autor e ficou fascinada pela história do carioca, pois em meio a situação adversa do preconceito que encarava por ser negro e pobre, conseguiu manter-se firme e construir uma obra imponente, que a baiana considera genial. “Ele achava que o fato de ser negro e pobre impediria que ele acontecesse. Era a imagem da pessoa deslocada na sociedade”, comenta. Em 2013, quando passaram a especular os nomes da edição de 2014, Josélia fez uma campanha no Twitter para que Lima Barreto fosse o autor homenageado. Segundo ela, foi apenas uma brincadeira, mas ganhou grande repercussão com a ajuda de outros jornalistas e escritores. Josélia segue na torcida por seu favorito, mas pretende fazer um lindo trabalho, independentemente de quem seja o escolhido – ou a escolhida, claro.

Jornalista italiano declara ter descoberto a verdadeira identidade da escritora Elena Ferrante

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Anita Raja, a mulher por detrás do pseudónimo Elena Ferrante

Anita Raja, a mulher por detrás do pseudônimo Elena Ferrante

 

A escritora Elena Ferrante, que nunca aceitou revelar a sua identidade, pode ter visto o seu anonimato desfeito. O jornalista italiano Claudio Gatti garante que descobriu o verdadeiro nome da autora.

João Francisco Gomes, no Observador

A misteriosa escritora italiana Elena Ferrante, autora da tetralogia A Amiga Genial, de quem nunca se viu uma fotografia ou se soube o verdadeiro nome, pode agora ter visto a sua identidade revelada. Apesar de ter dado várias entrevistas nos últimos anos — todas por escrito, e através da mediação da Edizione e/o, a editora que publica os seus livros –, Ferrante sempre preferiu o anonimato para poder escrever em liberdade. Agora, num artigo publicado na The New York Review of Books, o jornalista italiano Claudio Gatti garante que a verdadeira identidade de Elena Ferrante é Anita Raja, uma tradutora ligada à editora que publica os livros da escritora.

De acordo com Gatti, Anita Raja trabalhou durante anos como tradutora de literatura alemã para a Edizione e/o, e chegou a coordenar uma coleção que incluiu obras de Ferrante. Um porta-voz da editora explicou ao jornalista italiano que a tradutora trabalhava como freelancer, não sendo funcionária da casa. N0 entanto, Gatti teve acesso aos registos dos pagamentos feitos pela editora a Anita Raja, que terão aumentado exponencialmente ao longo dos últimos anos, correspondendo aos lançamentos de sucesso dos livros de Ferrante.

Registos imobiliários consultados pelo jornalista italiano mostram que em 2000, depois da adaptação ao cinema do primeiro livro de Ferrante, Anita Raja comprou um apartamento de luxo em Roma. Um ano depois, comprou uma casa de campo na Toscânia. Já depois do sucesso comercial dos romances de Ferrante, que só chegou em 2014 e 2015 quando os livros foram traduzidos para dezenas de línguas e vendidos em vários países, o marido de Raja, Domenico Starnone (que, aliás, tinha sido apontado como um dos possíveis nomes por detrás do pseudónimo de Ferrante), comprou um apartamento em Roma, avaliado em cerca de dois milhões de dólares.

Já em relação aos rendimentos de Raja, referidos pelo jornalista italiano, parecem estar diretamente relacionados com o sucesso das obras de Ferrante. Em 2014, os rendimentos da tradutora subiram 65% em relação ao ano anterior, ultrapassando os três milhões de euros. No ano seguinte, a subida foi de 150%, passando dos 7,5 milhões de euros. De acordo com Claudio Gatti, a editora não teve, nesses anos, outros bestsellers de sucesso comparável com os de Ferrante. Além de estes valores não se enquadram com os pagamentos habitualmente feitos aos tradutores, e correspondem aos direitos de autor arrecadados pelos livros de Ferrante naqueles anos.

Nem Anita Raja nem o seu marido, Domenico Starnone, responderam aos pedidos do jornalista italiano para confirmar a história. Sandro Ferri, um dos donos da editora, disse a Gatti que “se este é um artigo que pretende fazer revelações sobre a identidade de Ferrante, digo-lhe desde já que não daremos respostas”.

Anita Raja, uma napolitana de 63 anos, é filha de Golda Frieda Petzenbaum, uma judia alemã, que teve de fugir para Milão em 1937 com a família. Já em Itália, após Mussolini ter entrado na Segunda Guerra Mundial, a família acabou por ser enviada para um campo de concentração. Os pais de Golda ainda conseguiram, contudo, enviar a filha para a Suíça. No fim da guerra, a mulher foi viver para Nápoles, onde conheceu um magistrado italiano, Renato Raja. Os dois tiveram Anita em 1953, e mudaram-se para a capital italiana em 1956. Desde que escreveu o primeiro romance, em 1992, que a autora nunca aceitou desfazer o seu anonimato.

Os livros favoritos de Juca Kfouri

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Um dos principais nomes do jornalismo esportivo, Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP e tem, entre seus livros favoritos, obras de Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Leornado Padura

Um dos principais nomes do jornalismo esportivo, Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP e tem, entre seus livros favoritos, obras de Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Leornado Padura – Foto: Arquivo Pessoal

 

Publicado no Nexo

O Homem que Amava os Cachorros
Leonardo Padura

“Uma extraordinária biografia de Leon Trotsky sobre os bastidores da Revolução Russa e a traição de seus princípios, além de uma visão original e crítica da Revolução Cubana.”

A Dança dos Deuses
Hilário Franco Júnior

“Tratado sociológico, antropológico, psicológico e histórico sobre o futebol brasileiro, num texto fácil e nada acadêmico, embora o autor seja um respeitado medievalista da USP.”

Memórias do Cárcere
Graciliano Ramos

“O estilo seco, mas afetuoso, cortante e sem adjetivos de um dos melhores escritores da literatura mundial. Se você jamais foi preso, mas tem curiosidade de saber como é, leia.”

Grande Sertão: Veredas
João Guimarães Rosa

“A mais bela viagem que se pode fazer pela língua portuguesa, num romance que é um poema ou num poema que é um romance.”

Fernando Pessoa, Uma Quase Autobiografia
José Paulo Cavalcanti

“A brilhante sacada de um autor não menos, que consegue se investir do papel do genial português para produzir uma obra repleta de fatos inéditos sobre alguém tão pesquisado.”

9 lições que ‘Spotlight’ te ensina sobre o jornalismo

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Flávia Marreiro, no El País

Não chega a ser uma heresia usar o formato consagrado pelo BuzzFeed, o símbolo do reino da Internet, para falar sobre Spotlight, o indicado ao Oscar de melhor filme em 2016 que já nasce um clássico do jornalismo. O filme é uma homenagem às redações de jornal, esses lugares românticos e duros e tão deliciosamente século 20, mas traz também lições perenes para jornalistas de todas as épocas e para os milhões de ombudsmen da imprensa nas redes sociais. CONTÉM SPOILERS.

1 – É o sistema, estúpido

1453227211_733111_1453491176_sumario_normal_recorte1Chega ao Boston Globe Marty Baron (Liev Schreiber), um diretor de fora com fama de cortador de vagas, e ele poderia ser só isso mesmo. Mas o filme recorda o poder de armas imprescindíveis para o jornalismo: desnaturalização e distanciamento. Quando o editor resolve revisitar um tema com novo ângulo e novos recursos é que a mágica acontece. O maior dos especialistas e cavador de notícias exclusivas vai sempre precisar de alguém para fazer as perguntas básicas e não tão básicas. O “follow the money” (siga o dinheiro), a lição clássica do Todos os Homens do Presidente (1976) para o escândalo que derrubou Richard Nixon, se soma ao “get the system” (mostre os problemas do sistema). Poderia ser mais uma história sobre maçãs podres na Igreja Católica e virou uma reportagem sobre o sistema corrompido da instituição com impacto mundial. Reflita: quem está na cadeia de comando das atrocidades que vemos por aí?

2 – Agradeça a essa gente mal vestida e monotemática

JLHGw5Raramente há grandes reportagens com informações exclusivas – por definição, algo que alguém poderoso não queria que viesse a público – se não há por trás um jornalista que se obcecou por um tema, ficou até mais tarde, provavelmente brigou com familiares e amigos por causa disso, encheu o saco de alguém, talvez o do próprio editor. Enfim, virou monotemático. De quebra, o filme revela ainda outra dura verdade: somos uma classe que se veste mal. Pobre da atriz Rachel McAdams com 1453227211_733111_1453484588_sumario_normal_recorte1essas pantalonas horrendas (descontado o custo fim dos 90, aqui o que New York Times escreveu sobre isso). Seja como for, uma salva de palmas para esses bravos pelo mundo, e uma reflexão da ombudsman da Folha, Vera Guimarães: jornalismo investigativo é o mais caro e o que mais sofre com a crise do modelo de negócios do setor.

3 – Os cínicos não servem para essa profissão

Se você, como eu, saiu do cinema frustrado por nunca ter feito uma reportagem que abalasse a República, console-se pensando que o sol nasce para todos. Há os que veem as árvores, há os que veem as florestas – o jornalismo precisa dos dois. A equipe do Spotlight tinha o Mike Rezendes (Mark Ruffalo) no braço investigativo, mas tinha Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) na rua. Sem ela, sua entrega e seu esforço de empatizar com o entrevistado, faltaria uma peça importante. Pfeiffer lembra, como diria o jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, que os cínicos não servem para essa profissão.

4 – Vai mesmo ignorar o doido de redação?

l5c1UEO filme redime um personagem típico: o doido da redação. Todo veículo enfrenta milhares de telefonemas e e-mails prometendo o furo (a notícia exclusiva) do milênio, assim como ativistas e especialistas (verdadeiros e fakes) nos mais variados temas. O filme prova que o Boston Globe errou ao ignorar o insistente Phil Saviano e sua pequena associação das vítimas de abuso. Jornalismo requer paciência e curiosidade, mesmo quando isso é um desafio.

5 – Há mudanças e mudanças

Já no final do filme, os jornalistas comemoram poder publicar na Internet a cópia dos documentos sobre os casos de abusos e pedofilia e o efeito multiplicador que isso teria. É um índice do que a Internet ofereceria ao jornalismo já naquele longínquo 2001. Além de bagunçar o modelo de negócios do jornalismo do século 20, a rede trouxe muito mais gente para a conversa, novos formatos e possibilidades. Há temas que, não adianta torcer o nariz, vão ficar melhor em listas tipo BuzzFeed: dos dez mandamentos às melhores cenas de gatos. E para outros não há como escapar da reportagem. Marty Baron, o diretor do jornal filme, agora comanda mudanças no Washington Post.

6 – Que notícia você leu sobre a Assembleia de São Paulo?

Exibido nos cinemas, o trailer alternativo é uma meta-homenagem: diretores e atores comentam da importância do jornalismo para a democracia, comentam que o Boston Globe é apenas metade do que era em 2001 e falam do perigo da morte dos jornais locais nos EUA, que fazem um tipo de jornalismo insubstituível. Pense com eles: qual a foi a última notícia que você leu sobre a Assembleia de São Paulo?

7 – O charuto, às vezes, é apenas um charuto

É tarefa do leitor saber o que está lendo, onde está lendo e como as características políticas e ideológicas de quem publica pode influenciar o material. Dito isto, um título que você achou um acinte ou a ausência daquela pauta que ninguém viu, só você diferentão, podem ser apenas produto de um mau dia de um jornalista ou incompetência mesmo. Como diria Freud, o charuto às vezes, é só um charuto. A cara do personagem de Michael Keaton quando descobre que ele mesmo deixou a pauta dos abusos sistêmicos passar sob seu nariz quando era editor é desoladora (e reveladora).

Spotlight capa

8 – Bom repórter tem sorte

Alguém alguma vez me disse que bom repórter tem sorte. Se você for obcecado e persistente, você multiplica as chances de sorte, de a fonte amolecer e resolver te contar algo, como em algum momento o ótimo advogado faz com o repórter interpretado por Mark Ruffalo. De acordo. Mas, às vezes, sorte é sorte mesmo. Você disse a palavra certa, na hora certa, estava no lugar certo e fica se sentindo tocado pelo deus do jornalismo.

9 – Independência é melhor que engajamento

A real equipe do furo do 'Boston Globe'.

A real equipe do furo do ‘Boston Globe’.

 

O editor Baron vai até ao poderoso cardeal da Igreja em Boston e diz: é melhor para o jornal ser independente do que seguir na relação de compadrio com a instituição. Deveria ser o básico, mas não é, especialmente em uma época em que muitos leitores cobram adesão às mais diversas causas e partidos e estrilam quando confrontados com qualquer abordagem crítica se o assunto em questão for o de sua predileção.

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