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O arraial da branca atitude

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Público foi grande para assistir pelo telão à Nobel Svetlana Alekiévitch - Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Público foi grande para assistir pelo telão à Nobel Svetlana Alekiévitch – Alexandre Cassiano / Agência O Globo

 

Esta deveria ser a questão central: por que não há mais negros nas plateias?

José Eduardo Agualusa, em O Globo

Estou em Paraty. Dei-me conta, no momento em que me sentei para escrever esta coluna, de que já se passaram doze anos desde a primeira vez que visitei a Flip, para participar num debate com Caetano Veloso, moderado por Cacá Diegues. Foi um desses momentos intensos e maravilhosos, que ficam ecoando em nós pela vida afora e, nesse sentido, nunca se transformam em passado. Lembro-me que regressei a Luanda mesmo a tempo de assistir ao nascimento da minha filha. Desde esse dia até hoje a menina cresceu, lindíssima, e a Flip também. Muitos dos escritores que passaram pela Flip acabaram criando uma ligação com o festival e com a cidade que o acolhe. Comigo aconteceu algo semelhante. Confesso que as críticas ao evento, mesmo as mais justas, me irritam um pouco, como se fossem dirigidas a um familiar ou amigo próximo.

Uma crítica que sempre escuto tem a ver com a ausência de escritores negros. Este ano a acusação repetiu-se, com mais motivos do que em edições anteriores. O próprio curador do evento, Paulo Werneck, reconheceu a falha. Sou amigo da maior parte dos escritores africanos que participaram no evento ao longo dos últimos anos. Em 2008, aliás, moderei um debate entre a Chimamanda Adichie e Pepetela. Em conversa com Chimamanda, Teju Cole e Uzodinma Iweala, em diferentes ocasiões, e em diferentes lugares do mundo, todos eles manifestaram surpresa, e até alguma indignação, não tanto pelo fato de haver poucos escritores negros nas mesas, mas sim por terem falado para uma plateia quase exclusivamente branca, num país onde a maioria da população possui ascendência africana.

Esta deveria ser a questão central: por que não há mais negros nas plateias? A verdade é que continua a existir uma linha de cor separando aqueles que no Brasil têm acesso ao livro e a vasta maioria da população. Para formar escritores é preciso primeiro formar grandes leitores. Se queremos formar bons escritores negros teremos primeiro de formar muitos milhões de bons leitores negros.

Participei há poucas semanas num outro festival literário, muitíssimo menos badalado do que a FLIP, mas não menos interessante — a FLUPP, Festa Literária Internacional das Periferias. O debate decorreu no Teatro Mário Lago, na Vila Kennedy, no Rio de Janeiro. Teju Cole e Uzodinma Iweala teriam gostado de estar ali, diante daquela plateia, constituída por uma forte maioria de jovens de ascendência africana. Foi uma experiência gratificante. Não é muito comum encontrar leitores tão interessados e informados. A sofisticação de uma plateia avalia-se pela qualidade das perguntas. Aquela foi uma plateia particularmente interessante, cujas questões, em alguns casos, me apanharam desprevenido, levando-me a reavaliar convicções. Uma plateia assim é tudo o que um escritor pode ambicionar.

Júlio Ludemir, escritor, produtor cultural e um dos criadores da FLUPP, explicou-me que muitos daqueles jovens integram oficinas de literatura. Foi de um desses núcleos que emergiu, por exemplo, o escritor Jessé Andarilho, autor de “Fiel”, um romance, com a precisão de um testemunho, que conta a ascensão e queda de um menino no tráfico carioca. Foi também do mesmo ambiente que surgiu Yasmin Thayná, a jovem autora revelação de “Kbela”, um filme que discute a identidade da mulher negra através da sua relação com o cabelo. Yasmin deve lançar em breve o seu primeiro livro.

São experiências como a FLUPP que poderão mudar (provavelmente já estão a mudar) a FLIP. O curador de um festival literário não pode ser uma espécie de fiscalizador de raça, como os que existiam na África do Sul no tempo do apartheid. Quando me falam em raças lembro-me sempre da história de um pianista de jazz, nos Estados Unidos, que anunciou, durante uma conferência de imprensa, ter contratado um novo contrabaixista. “Esse novo contrabaixista é negro?” — quis saber um dos jornalistas. “Não sei.” — Respondeu o pianista. — “Nunca lhe perguntei.”

Eu próprio faço a curadoria de um festival literário, o Fólio — Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, que acontecerá em setembro. Enquanto escrevia esta coluna decidi fazer contas e descobri que dos 40 autores que teremos este ano em Óbidos, nas mesas principais, 17 são mulheres e oito têm origem africana ou asiática. Os dois escritores mais conhecidos, V. S. Naipaul e Salman Rushdie, são de origem indiana. Nada disto foi premeditado, evidentemente. Aconteceu assim. Não perguntei a raça a ninguém. Não me interessa. A verdade, contudo, é que o resultado final importa, e importa muito. Não existindo um equilíbrio, isso não significa que o festival deva ser condenado como racista ou machista. Mas é uma indicação de que a sociedade, no seu conjunto, está doente.

As belas coisas inúteis que nos salvam a vida

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Ou olhamos para a poesia como algo inútil, ou exigimos que nos salve a nós e ao mundo

José Eduardo Agualusa, em O Globo

A poeta portuguesa Matilde Campilho foi este ano uma das estrelas da Flip. “A poesia não salva o mundo, mas salva o minuto”, disse, a determinada altura. A frase foi muito citada em Paraty. Acho isto curioso: ou olhamos para a poesia como um exercício inútil, ou exigimos à poesia que nos salve a nós e ao mundo. Nunca ouvi ninguém fazer o mesmo tipo de pergunta a um gramático ou a um geólogo: “A gramática já lhe salvou a vida?” Ou: “Acha que é possível alcançar Deus através da geologia?”

Matilde tentou, de forma elegante, permanecer poeta sem parecer demasiado doida. Devia ter optado pela doidice. Se é para ser poeta, não há que temer a loucura. Se é para ser louco, que seja com poesia.

Na verdade, acho muito mais provável a poesia salvar vidas do que a gramática. Posso imaginar a história de um tipo desesperado, disposto a lançar-se da janela de um décimo andar, após ter perdido a fortuna, os filhos ou a mulher amada. É então que surge alguém que o faz mudar de opinião declamando versos de (cada leitor pode colocar aqui o nome do poeta que o impediria de saltar). Já no caso de uma criança prestes a afogar-se não me parece sensato atirar-lhe com versos. Mais vale atirar-lhe uma boia.

Vamos então pela loucura: sim, eu acredito que se não for a poesia a salvar o mundo, o mundo está perdido.

A poesia é uma intuição e na história da ciência a intuição tem um papel fundamental. Os ingleses chamam serendipity aquelas descobertas felizes, que parecem acontecer por acaso, mas que, na realidade, obedecem às mesmas leis misteriosas da poesia. Como acontece com a poesia, a serendipidade não resulta do acaso — implica um talento particular.

O termo serendipity foi criado pelo escritor britânico Horace Walpole em 1754, a partir de um conto tradicional cingalês, “Os três príncipes de Serendip”. Os príncipes do conto tendiam a fazer grandes descobertas por acidente. Serendip é o antigo nome dado pelos comerciantes árabes à ilha de Ceilão, a Taprobana a que se refere Camões nos “Lusíadas”.

Exemplos clássicos de serendipidade são a descoberta da penicilina, por Alexander Fleming, ou a elaboração da teoria da gravidade por Newton, depois que uma maçã lhe caiu na cabeça.

Cientistas propensos a esta particular forma de epifania tendem a orientar-se por uma lógica poética, revelando particular vocação para estabelecer relações entre objetos aparentemente distantes e desconexos. Retiro um livro ao acaso da estante de poesia: A “Nova antologia poética”, de Vinicius de Moraes. Abro-o e leio: “Pensem nas feridas/ como rosas cálidas”. Retiro outro: “O escriba acocorado”, do moçambicano Rui Knopfli. Leio: “Ao longe um latir de cães estilhaça o sereno/ espelho do horizonte em que trêmulas casuarinas/ perfilam a distância.” No primeiro exemplo, Vinicius aproxima as feridas resultantes das queimaduras por radiação de rosas cálidas. No segundo, onde a maioria das pessoas veria apenas a linha do horizonte, Rui Knopfli viu um espelho estilhaçado pelo súbito latir de cães.

A poesia pode, pois, salvar o mundo, ao estabelecer um outro tipo de pensamento no qual a intuição seja mais relevante do que a lógica linear.

Posto isto, parece-me que questionar a utilidade da poesia é tão absurdo quanto questionar a serventia da música, da beleza ou do amor. Certa noite, numa aldeia perdida no meio do mato, em Angola, ouvi um menino perguntar ao avô: “Para que servem as estrelas?” O velho encolheu os ombros, suspirou e disse: “Não são ocorrências de servir, meu neto. Estão lá só para fazer bonito.” A beleza é inútil e isso é tão lindo.

Uma outra excelente resposta à questão da utilidade da poesia escutei-a, há anos, na Livraria da Travessa, de Ipanema, durante um encontro de Ferreira Gullar com os seus leitores. Questionado por uma moça, sentada no chão, diante dele, Gullar contou que, nos tempos do exílio, no Chile, costumava almoçar todas as semanas com um grupo de outros expatriados latino-americanos. Havia nesse grupo um economista argentino, namorado de uma brasileira, que sempre se sentava junto de Gullar e ficava o almoço inteiro falando de economia. Um dia perdeu a namorada. Nesse dia sentou-se, como de costume, ao lado de Gullar mas não falou de economia. Falou apenas de poesia. Durante o almoço inteiro não falou senão de poesia. “Quando a morena vai embora”, concluiu Gullar, “a economia não tem serventia alguma. Quando a morena vai embora só a poesia nos pode ajudar.”

dica da Sonia Junqueira

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