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Brasileira cria biblioteca com livros apanhados no lixo

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Publicado no Boas Notícias

 

Brasileira cria biblioteca com livros apanhados no lixo

Parece uma daquelas histórias de Hollywood com um final feliz. Uma brasileira que vive da reciclagem de objetos deitados ao lixo, na cidade de Marissol, estado de São Paulo, foi, ao longo dos anos, resgatando das lixeiras centenas de livros. Agora, Cleuza Oliveira disponibiliza todas as obras a quem as quiser ler numa associação local.

Segundo relata o jornal Folha de S. Paulo, Cleuza Aparecida Branco de Oliveira, de 47 anos, era quase analfabeta quando começou a vasculhar o lixo em busca de objetos que pudesse reaproveitar.

Nas lixeiras, começou a encontrar obras de autores famosos como Machado de Assis, José Saramago e outros escritores. Cleuza levava sempre os livros consigo para depois os ler em casa.

Agora, depois de muitos anos a acumular livros de diversos autores, Cleuza realizou o seu sonho de disponibilizar estas obras a outras pessoas que não tenham dinheiro para comprar livros.

A biblioteca com as obras recuperadas do lixo foi inaugurada no espaço da associação local de ‘catadores’ (apanhadores) de lixo e conta já com um acervo de 300 títulos.

A biblioteca não cobra pelo empréstimo das obras, mas quem quiser pode compras os títulos que estiverem repetidos por um valor simbólico. Esse pequeno rendimento reverte a favor da associação.

[Notícia sugerida por Patrícia Caixeirinho]

O fim do mundo em 10 livros

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Veja como o apocalipse foi retratado na literatura por autores como Stephen King, José Saramago e Cormac McCarthy

Publicado no IG

Se a profecia se confirmar e o mundo realmente acabar nesta sexta-feira (21), quantos livros você terá deixado fechados na estante ou empilhados na mesa de cabeceira? Um número considerável, talvez, mas não desanime: se o apocalipse da vida real for minimamente semelhante aos narrados na literatura, há uma chance de você ser o único ou um dos poucos sobreviventes.

Nesse caso, você ainda terá tempo para ler, e personagens criados por autores como Richard Matheson e Cormac McCarthy poderão dar algumas dicas sobre como encontrar alimentos e combater canibais em um planeta destruído.

 

Reprodução

“O Último Homem”, de Mary Shelley

 

 

Pensando nisso, o iG separou uma lista de livros sobre o fim do mundo – que também valem a leitura mesmo se nada acontecer.

“Apocalipse”, livro final do Novo Testamento (45 e 90 d.C.): É intitulado e iniciado pela palavra “apocalipse” que, no grego, significa “revelação”, “descoberta”. O autor, identificado como o apóstolo João, descreve eventos futuros que foram revelados a Jesus Cristo, que passou tal conhecimento aos seus discípulos.

“O primeiro anjo tocou a trombeta. Granizo e fogo misturados de sangue foram jogados sobre a terra. A terça parte da terra virou brasa, a terça parte das árvores e toda erva verde. O segundo anjo tocou a trombeta. Foi lançada no mar como que uma grande montanha ardendo em chamas e a terça parte do mar se converteu em sangue. Morreu a terça parte das criaturas que vivem no mar e foi destruída a terça parte dos navios.”

“O Último Homem”, de Mary Shelley (1826):Da mesma autora de “Frankenstein”, o livro se passa no ano 2100. Lionel Verney, filho de uma família nobre lançada à pobreza, é o único sobrevivente de uma praga que, gradualmente, destruiu a humanidade.

“Enquanto isso, meu pai, esquecido, não conseguia esquecer. Ele lamentava a perda daqueilo que para ele era mais necessário do que ar ou comida – a excitação do prazer, a admiração dos nobres, a vida luxuosa e polida dos grandes. A consequência foi uma febre nervosa, durante a qual ele recebeu os cuidados da filha de um camponês pobre, que lhe ofereceu abrigo.”

“Eu Sou a Lenda”, de Richard Matheson (1954): Adaptado três vezes para o cinema, conta a história do único sobrevivente de uma epidemia de um vírus. Em Nova York, ele continua lutando por sua vida, ameaçada por humanos infectados que se transformaram em criaturas semelhantes a vampiros.

“Ele se deitou na cama e respirou a escuridão, torcendo para conseguir dormir. Mas o silêncio não ajudou muito. Ele ainda podia vê-los lá fora, os homens de rosto branco rondando sua casa, incessantemente procurando um jeito de entrar e chegar até ele. Alguns deles, provavelmente, agachados como cães, os olhos vidrados na casa, os dentes se mexendo devagar; indo e vindo, indo e vindo.”

“Na Praia”, de Nevil Shute (1957): Depois de a Terceira Guerra Mundial devastar a maior parte do planeta com ataques nucleares, alguns sobreviventes na Austrália são ameaçados por nuvens radioativas que se movimentam em sua direção. Quando um capitão de um submarino detecta um sinal vindo da região onde antes se encontrava uma cidade americana, tem início uma busca por possíveis sobreviventes.

“O tenente-comandante Peter Holmes, da Marinha australiana, acordou pouco depois do amanhecer. Ele ficou deitado, sonolento, por um tempo, embalado pelo quente conforto de Mary, que dormia a seu lado. Ele sabia, pelos raios de sol, que era por volta de 5h: muito em breve a luz iria acordar sua filha Jennifer, no berço, e eles teriam de levantar e começar os afazeres. Não havia motivo para começar antes disso; ele podia ficar deitado um pouco mais.”

 

Reprodução

J.G. Ballard, autor de “O Mundo Submerso”

 

“Um Cântico para Leibowitz”, de Walter M. Miller Jr. (1960): Centenas de anos após uma guerra nuclear acabar com a maior parte da Terra, monges em um monastério no deserto americano tentam preservar livros que podem salvar o que sobrou da humanidade.

“Fervorosamente, Paulo rezara para que esse momento fosse como uma ponte sobre o abismo de doze séculos – e para que, através dele, o último cientista martirizado de uma era remota pudesse dar a mão ao porvir. Havia, na verdade, um abismo. Isso era claro. O abade sentiu de repente que não pertencia à era presente, que ficara encalhado num banco de areia ao longo do rio do Tempo, e que nunca houvera uma ponte.”

“O Mundo Submerso”, de J.G. Ballard (1962): A sacada do escritor britânico foi criar um protagonista que, ao contrário dos presentes na maioria dos livros sobre o apocalipse, não se sente perturbado, mas, sim, fascinado pelo caos que se instaurou sobre a Terra após uma catástrofe ambiental.

“Do balcão do hotel pouco após as oito horas, Kerans viu o sol despontar além das densas matas de gigantescas gimnospermas crescendo sobre os telhados das lojas de departamento abandonadas, a quatrocentos metros dali, do lado leste da lagoa.(…) O disco solar já não era há muito uma esfera bem definida, mas uma elipse, saltando no horizonte ocidental como uma colossal bola de fogo, seu reflexo tornava a superfície morta do lago em um escudo brilhante de cobre.”

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Memorial de Saramago

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Imagem Google

Publicado originalmente no Valor Econômico

Saramago em Lanzarote: “O heroico de um ser humano é não pertencer a um rebanho”, disse uma vez o escritor, que construiu uma literatura defensora de causas.

Na semana em que a chanceler alemã, Angela Merkel, foi recebida com protesto em sua visita a Portugal para saber como vai o plano de austeridade imposto pela União Europeia e o FMI ao país, e também de uma greve geral convocada pelos principais sindicatos portugueses, há ainda algum espaço para celebrações. Nesta sexta-feira, José Saramago, o único Prêmio Nobel da língua portuguesa, completaria 90 anos. Morto em junho de 2010, o escritor receberá uma série de homenagens não apenas em Portugal, mas também na Espanha, onde morou nos seus últimos anos, e no Brasil. À frente dos festejos está a Fundação José Saramago (FJS), criada em 2007 e hoje presidida por Pilar del Río, companheira do escritor por mais de 20 anos.

“Quanto mais conhecemos José Saramago, quanto mais o lemos, mais ele se incrusta em nós. Saramago morreu há mais de dois anos, mas não morreu, continua vivo e cada vez maior”, disse Pilar ao anunciar a série de atividades em homenagem ao autor de “Ensaio Sobre a Cegueira”. Uma delas é a criação do Dia do Desassossego. Saramago disse, em várias ocasiões, que escrevia para “desassossegar” seus leitores. Nesta sexta-feira, a entidade que cuida de sua obra convoca seus admiradores a sair por Lisboa munidos de livros, de preferência “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, e a ler trechos pela cidade – ou simplesmente levá-los a passear para que os leitores identifiquem uns aos outros. É um ato inspirado no Bloomsday, dia em que amantes da literatura de James Joyce percorrem a capital da Irlanda, Dublin, lendo extratos de seu livro mais conhecido, “Ulisses”.

Leituras coletivas, encenações teatrais, exposições fotográficas e concertos serão realizados nesta sexta em Lisboa, Mafra, Azinhaga (terra natal do escritor) e no Porto para recordar o autor “Memorial do Convento”. Em São Paulo, no Teatro Eva Herz, serão exibidas cinco horas de imagens inéditas do documentário “José e Pilar” (2010), dirigido pelo realizador português Miguel Gonçalves Mendes. Em ambos os países os livros de Saramago serão vendidos com desconto neste fim de semana. A festividade também se estende ao mundo virtual. Via Twitter, amigos e admiradores do Nobel português prepararam uma “invasão” de tuítes com suas frases e pensamentos.

“Hoje em dia há demasiada tristeza em Portugal. Se a função da obra de Saramago é, por um lado, desassossegar, por outro lado é levar um sorriso a quem lê”, diz a espanhola naturalizada portuguesa Pilar del Río, de 62 anos.

As homenagens pretendem celebrar a obra de um dos maiores romancistas da língua de Camões, mas não só isso. Uma vertente talvez menos conhecida, a do Saramago “político”, vem ganhando importância nos últimos anos por causa da extrema crise e falta de esperança que atravessam a Europa. “Acho que, cada vez mais, esse lado crítico de Saramago, os textos e ensaios políticos e as colunas opinativas publicadas nos jornais ganharão relevância. Fico curioso para saber como isso será absorvido”, afirma Sérgio Machado Letria, de 36 anos, diretor da FJS.

O romancista foi uma “cabeça lúcida”, alguém muito atento às contradições do mundo e capaz de antecipar as fissuras que hoje já são impossíveis de ser escondidas, na visão do escritor e museólogo Fernando Gómez Aguilera, de 50, autor do livro “Saramago nas Suas Palavras”. “O que hoje está acontecendo no seio da União Europeia foi antecipado em artigos e intervenções públicas ainda nos anos 80, quando Portugal estava imerso no processo de integração europeia. Em seu discurso contra a Comunidade Econômica Europeia, que estava sendo construída, assinalou o poder hierárquico da Alemanha e França frente aos subordinados do Sul.”

Uma vertente talvez menos conhecida do autor, a do “político”, vem ganhando importância em razão da enorme crise por que passa a Europa

É justamente do que hoje se queixam, nas ruas, cidadãos gregos, italianos, espanhóis e portugueses. Não é raro que frases do Prêmio Nobel de 1998 sejam exibidas em cartazes, ou citadas em discursos, durante os recentes protestos no continente. De acordo com Aguilera, a existência de uma Europa dos “mercadores”, a falta de diálogo e de “vínculos políticos reais” foram alguns dos problemas sobre os quais Saramago, em um momento em que a União Europeia era só otimismo, já havia advertido. Para o crítico espanhol, o autor de “Ensaio Sobre a Lucidez” era um intelectual clássico, alguém disposto a colocar o dedo na ferida e provocar debates. “Ele foi um escritor que intervinha na realidade, que tinha suas ideias e não as guardava. Era capaz de agitar, de fazer as ideias circularem. Sempre optou por incomodar o poder, formular perguntas impertinentes, causar mal-estar, e essa é a função de um intelectual.”

Em 2003, em discurso que fez em Madri contrário à guerra no Iraque, Saramago disse que a sociedade civil tinha de ser a mosca que incomoda o poder. Ele mesmo desempenhou ao longo da vida esse papel de impertinente. “Saramago não receou descer à arena e sujar as mãos, tomando posição pública, como o fizeram os grandes intelectuais portugueses”, diz o crítico literário e escritor Miguel Real, de 59 anos. Para ele, o Nobel português era uma espécie de comunista da ordem “do coração e do sentimento”, um homem que manifestou seu desejo de aniquilação da pobreza, da desigualdade e das injustiças em cada página de seus livros. Seu comunismo “hormonal”, como ele próprio denominava, não o impediu de dirigir reiteradas críticas à esquerda.

Uma delas, também em 2003, foi feita na carta aberta em que declarava: “De agora em diante Cuba segue seu caminho, eu fico”. Era uma crítica ao regime de Fidel Castro por ter executado três dissidentes. “Cuba não ganhou nenhuma heroica batalha fuzilando esses três homens, mas, isso sim, perdeu minha confiança, estragou minha esperança e ilusão”, sentenciou o escritor, que disse certa vez: “O heroico de um ser humano é não pertencer a um rebanho”.

Antes de tudo, Saramago era alguém que defendia os direitos humanos, aponta Pilar. “Ele tinha verdadeiro pânico de pessoas de um só livro, fosse esse livro ‘O Capital’, a ‘Bíblia’, o ‘Corão’ ou qual você quiser. E era assim porque normalmente quem tem um só livro nem o lê, mas sim o usa para agredir os demais.”

Zeferino Coelho, publisher da Caminho, editora que publica Saramago em Portugal, defende que essa vertente política do escritor permeia toda a sua produção. “A obra de José Saramago, toda ela e não apenas os textos propriamente políticos, é profundamente política. Ele tinha não só uma preocupação permanente sobre tudo o que se passava no mundo como tinha uma representação desse mundo e uma vontade de agir sobre ele.” Coelho pondera que esse engajamento não fazia dos romances de Saramago algo panfletário.

Para Miguel Real, a principal característica da obra de Saramago é seu caráter ensaístico. “Ele disse isso várias vezes, que escrevia romances porque não sabia escrever ensaios. Foi autor de uma literatura de ideias, isto é, uma literatura que, iluminando os grandes temas do presente à luz de um novo horizonte e de novas interpretações, nasce tanto para interrogar e duvidar quanto para esclarecer e afirmar.” O crítico português avalia que o reconhecimento mundial e a atribuição do Nobel a Saramago se devem a três fatores: escrevia para um “leitor universal”, que poderia ser erudito ou popular; criou um novo estilo na língua portuguesa; e construiu uma literatura “empenhada”, defensora de causas e “denunciadora de situações políticas opressivas”. Ao anunciar o vencedor do Nobel de 1998, a Academia Sueca destacou: “Mediante parábolas sustentadas com imaginação, compaixão e ironia, [Saramago] nos permite continuamente captar uma realidade fugitiva”.

Exposição sobre o escritor na fundação que leva seu nome: em discurso que fez em Madri, Saramago afirmou que a sociedade civil tinha de ser a mosca que incomoda o poder.

Gómez Aguilera aponta a “força da linguagem” e a “capacidade para integrar imaginação e consciência na ficção” como as principais marcas literárias do romancista. “Merece também ser destacada a energia poética e moral de suas fabulações, seu poder de emoção e representação, e seu compromisso com a realidade em que vivia, sem trair a autonomia da literatura”, completa.

Em sua extensa obra, Saramago questionou o poder, a história, a verdade, a justiça e também a Igreja Católica. E foi em razão de seu ateísmo confesso e de sua abordagem sobre temas religiosos que o escritor acabou por ir morar na Espanha. Em 1993, depois de seu romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” ser impedido de representar Portugal em um concurso literário, Saramago mudou-se para Lanzarote, nas Ilhas Canárias, Espanha. Mantinha uma casa em Lisboa, mas seu descontentamento com o episódio da censura era evidente e declarado. O escritor morreu em 18 de junho de 2010, em Lanzarote, e exatamente um ano depois suas cinzas foram depositadas em frente da Casa dos Bicos, onde funciona a fundação que administra seu legado.

Para muitos foi a reconciliação após o exílio voluntário do autor. “Não houve reconciliação porque não houve briga. Ele nunca esteve brigado com o país. Sua questão foi com algumas pessoas que estavam no poder naquela época. O próprio Saramago deixou isso claro”, pondera Sérgio Letria. “Saramago é muito adorado aqui, é uma figura imprescindível para o país”, completa o diretor da FJS.

Se é que houve alguma rusga entre Portugal e Saramago, ela ficou no passado. Hoje o Nobel português é leitura obrigatória nos colégios, e mesmo quem não é fã de sua narrativa acaba por reconhecer seu valor como pessoa. É o caso da advogada Ana Lúcia Gonçalves, de 31 anos: “Nunca gostei muito do modo como ele escrevia. Mas um dia ele foi à minha aldeia. Havia pagado do próprio bolso a restauração de um órgão de tubo antiquíssimo que havia no convento. Mesmo fraquinho, fez questão de estar no dia em que iam reinaugurar o instrumento. Então alguém perguntou o porquê daquele gesto, se ele era ateu. Ele respondeu que fazia aquilo pelo homem que havia construído o órgão, pela beleza da obra humana que deveria ser preservada. Achei maravilhoso isso e passei a admirá-lo”.

No Brasil, Saramago acumulou leitores – já vendeu mais de 1,5 milhão de livros no país – e amigos, entre eles figuras como Chico Buarque, Sebastião Salgado e Jorge Amado. A proximidade com o escritor baiano, que neste ano completaria 100 anos, foi motivo de uma exposição temporária na Fundação José Saramago. “Os brasileiros que nos visitam ficaram emocionados ao ver tantas fotos de Jorge e José”, comenta Pilar, que brinca que é o Brasil que sustenta a FJS (a maioria de seus visitantes estrangeiros é brasileira). Em uma das tantas visitas do casal ao país, ela registrou assim o deslumbramento com Salvador e a maneira como foram recebidos: “Até José, pouco dado a reuniões grandes, que em situações como estas mais parece um cão perdido, esteve à vontade, descontraído, deixando correr o tempo, sem experimentar a terrível sensação de perda irreparável que tantas vezes, em ocasiões assim, se apodera dele. (…) Custa-nos deixar a Bahia.”

No primeiro andar da Casa dos Bicos, prédio quinhentista que hoje abriga a Fundação José Saramago, no centro de Lisboa, há uma exposição permanente com documentos, fotos e vídeos que contam a vida do escritor. Há imagens raras da infância de José em Azinhaga com o avô Jerônimo, homem que no discurso de recepção do Nobel foi homenageado com as seguintes palavras: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”.

Ao fim do percurso e após ver algumas preciosidades, como a primeira máquina de escrever do romancista ou a agenda na qual, equivocadamente, marcou o nome da jornalista que iria conhecer dias depois (“Pilar de los Ríos”) e seria, como mais tarde escreveu, “o seu pilar”, o visitante depara com um painel enorme de uma instantânea feita pela fotógrafa Helena Gonçalves, em 2007. Vestido de negro e com o semblante desafiador, Saramago traz atado ao corpo um cinturão, como o de um suicida, mas no lugar de bombas o que carrega são livros. Feliz representação de um escritor capaz de fazer verossímil uma cegueira branca e coletiva de todo um país ou o descolamento da Península Ibérica do restante da Europa transformando-a numa jangada de pedra. Usou as palavras como armas e morreu sendo a mosca que incomodava.

 

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Catadora cria biblioteca com obras encontradas no lixo no interior de SP

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A catadora de recicláveis Cleuza Branco de Oliveira, 47, lê obra na cooperativa de Mirassol
A catadora de recicláveis Cleuza Branco de Oliveira, 47, lê obra na cooperativa de Mirassol, no interior de SP

Augusto Fiorin, na Folha de S.Paulo

A catadora de recicláveis Cleuza Aparecida Branco de Oliveira, 47, sempre cultivou o sonho de ter uma biblioteca em sua casa, em Mirassol (455 km de São Paulo). Apaixonada por leitura, queria poder emprestar livros a pessoas sem condições de comprá-los.

De tanto ver obras jogadas no lixo de escritores como Machado de Assis, José Saramago e Érico Veríssimo, Cleuza, então semianalfabeta, passou a lê-las e pôde, neste ano, realizar seu sonho.

Foi guardando livros e inaugurou a biblioteca não em casa, mas na associação de catadores, da qual participa, localizada no centro de triagem do lixo.

O acervo já conta com 300 títulos. Criado e administrado por 11 catadores, o espaço tem um canto de leitura, uma brinquedoteca, uma área para discos, brechó e, claro, os livros.

A biblioteca não cobra pelo empréstimo das obras, mas quem quiser comprá-las -há títulos repetidos-, paga R$ 0,50 por livro. A renda vai para a própria associação. O local também faz trocas.

“Não tem burocracia e não precisa preencher nada. Alguns levam para casa e outros optam por ler no próprio barracão”, afirmou o biólogo Luiz Fernando Cireia, 31, incentivador e usuário do projeto.

Empresas de Mirassol também têm feito doações, que vão possibilitar, inclusive, a ampliação da área, de acordo com Cleuza.

Com salário de R$ 500 mensais, os catadores terão um pequeno acréscimo de renda, ainda não calculado, graças à venda de alguns títulos.

Mas Cleuza garante que o objetivo não é financeiro, é dar aos colegas a oportunidade de ler esses livros.

foto: Augusto Fiorin/Folhapress

Apple sai na frente na briga pelos e-books no Brasil

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Guilherme Felitti, na Época Negócios

Começou a guerra pelos livros eletrônicos no Brasil. Quem saiu na frente foi a Apple. No começo da semana, os primeiros livros brasileiros já tinham sido avistados na iBookstore. Nesta quinta (25), a Distribuidora de Livros Digitais (DLD), consórcio responsável pelos e-books de 6 editoras nacionais, formalizou o acordo com a Apple.

Donos de iPads, iPhones e iPods touch já podem comprar 1,5 mil títulos em português das editoras Objetiva, Record, Sextante, Intrínseca, Rocco e Planeta. Estima-se que um terço dos livros mais vendidos no Brasil venha do consórcio. Mas elas não são as únicas na iBookstore: é possível encontrar títulos de outras editoras não filiadas à DLD, como a Companhia das Letras, Arqueiro e LP&M. Autores como José Saramago, Paulo Coelho, Umberto Eco, Stephenie Meyer (da série “Crepúsculo”) e E.L. James (da série “50 tons de cinza”) estão disponíveis. Os livros ainda são cobrados em dólar.

O anúncio coloca ainda mais pressão na Amazon. Ainda que tenha começado a negociar antes, a gigante de e-commerce ainda enfrenta dificuldades para convencer as editoras nacionais. Há mais de dois anos, seu primeiro contato foi desastroso. A partilha proposta pelo preço dos livros foi considerada abusiva pelas editoras. Tanto que elas se uniram para peitar tais condições, formando a a DLD. A explicação na íntegra pode ser ouvida no meu comentário na CBN na semana passada.

A negociação emperrou e Google e Apple passaram na frente, ainda que tenham começado a conversar quase um ano depois. Tanto que o próximo acordo do tipo a ser anunciado será com o Google. O contrato está prestes a ser finalizado, afirmam editores ouvidos em off pela NEGÓCIOS. Se você tem um Kindle, vai ter que esperar um pouco mais pelos livros em português.

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