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Convidado da Flip, Daniel Alarcón visitou presídios peruanos para escrever novo romance

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Um dos mais celebrados autores de sua geração, escritor criado nos EUA lança no país ‘À noite andamos em círculos’

Maurício Meireles em O Globo

RIO – Ele já passou uma noite na cadeia. Reincidente, voltou a ela várias vezes — por meses. Viu como os presos se organizam atrás das grades e ouviu sobre suas vidas. Depois disso, Daniel Alarcón virou uma celebridade no mundo do crime no Peru. Os presos lhe confiavam seus e-mails e manuscritos, na esperança que ele contasse suas histórias — afinal, ele estava lá como jornalista e não como detento. As reportagens que Alarcón fez nos presídios — especialmente em Lurigancho, o maior deles — são a principal fonte de pesquisa de seu novo romance, “À noite andamos em círculos” (Objetiva), que acaba de chegar às livrarias brasileiras.

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Aos 37 anos, Alarcón, que nasceu no Peru, mas vive desde criança nos Estados Unidos, onde é considerado um dos maiores escritores de sua geração, vem ao Rio no fim do mês como convidado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece de 30 de julho a 3 de agosto. Participará da mesa “Romance em dois atos”, no último dia do evento, ao lado de Fernanda Torres.

— A primeira vez em que estive num presídio peruano foi há cinco ou seis anos, e volto sempre que estou em Lima, porque é muito fascinante — conta Alarcón. — Foi surpreendente o quanto aprendi e gostei. Fiquei surpreso com o quão abertas as pessoas podem ser com suas histórias, e como os presos se organizam em comunidades dentro da cadeia. Como jornalista, gosto muito daquele momento em que é como se você ficasse invisível num lugar.

Uma pátria em duas línguas

Alarcón foi escolhido, pela revista “New Yorker”, um dos melhores autores com menos de 40 anos nos EUA e, pela “Granta”, um dos melhores jovens escritores do país. Mas “escritor americano” não o define bem, porque sua pátria são duas línguas. O inglês é a que mais domina, mas em casa só fala espanhol com os filhos. Por isso, ele se diz “um latino-americano que escreve em inglês e um americano que escreve sobre a América Latina”. Alarcón mudou-se com os pais para os Estados Unidos aos 3 anos, em 1980, quando começou o conflito que opôs grupos terroristas e forças do governo em seu país, deixando um saldo de mais de 60 mil mortos e incontáveis desaparecidos, incluindo um tio do hoje escritor.

A guerra é o tema mais marcante da literatura de Alarcón. Seu primeiro romance, “Rádio cidade perdida” (Rocco), se passa durante o conflito, e o novo, depois dele. “À noite andamos em círculos” cruza as histórias de Nelson e Henry. O primeiro é um ator frustrado que foi deixado pela namorada; o segundo, um dramaturgo de um grupo de teatro que, durante a guerra, foi considerado subversivo e enviado para uma das prisões mais violentas do país. Tempos depois do conflito, o grupo de teatro se prepara para uma nova turnê de sua peça mais famosa, e Nelson é escalado como ator. Embora não se passe todo nele, o presídio é um dos principais elementos do romance. O livro é narrado por um jornalista, que conta a história depois que ela já aconteceu — criando a suspeita de que algo trágico ocorreu aos protagonistas. A pergunta que fica é: se Alarcón só viu a guerra de longe, escrever sobre ela vem de alguma espécie de culpa por ter sobrevivido?

— Penso sempre no fato de eu ter tido uma vida e os outros (peruanos) não — afirma o autor. — Culpa de sobrevivente talvez seja um pouco dramático, mas sempre penso em versões diferentes da minha vida. No Peru, ela teria sido outra. Eu não seria o mesmo escritor. Só posso falar do Peru como falo porque não vivi lá.

O distanciamento rendeu críticas a Alarcón. Já houve quem dissesse que ele tenta “anglicizar” a América Latina em seus livros.

— Necessariamente, eu a estou anglicizando por escrever em inglês. Mas não há nada errado nisso. É apenas um fato da minha vida. Nasci no Peru e me mudei para os EUA. O inglês é uma das línguas que eu tenho à disposição — diz.

Talvez a crítica seja mesmo injusta, porque Alarcón mantém uma relação de grande proximidade com a América hispânica. Além de colaborador da premiada revista peruana “Etiqueta Negra”, ele é produtor executivo da Rádio Ambulante, uma rádio on-line criada por ele e pela mulher para encontrar histórias e personagens pela América Latina. Ele também costuma escrever reportagens sobre questões latinas para algumas das principais revistas dos EUA.

Não à toa, sua maior influência é a mesma de nove em cada dez escritores latino-americanos: Roberto Bolaño, morto em 2003. Como no universo do chileno, o romance de Alarcón tem os artistas no centro da trama.

— Bolaño tem a figura do poeta super-herói. Sua versão da Cidade do México e de Barcelona tem os artistas no cerne de tudo. Fui muito influenciado pelas descrições que Bolaño faz desses mundos de artistas boêmios de grandes cidades latino-americanas — diz.

“A culpa é do Felipão”

Como muitos latino-americanos, Alarcón adora futebol — quando era criança, sonhava ser “o Maradona peruano” — e deve ter muito assunto com o público brasileiro na Flip. Assumindo seu lado técnico, ele aproveita a entrevista para comentar a derrota do Brasil para a Alemanha:

— Estou completamente chocado. E a culpa é do Felipão — aponta. — Como você pode perder um zagueiro e o time entrar em colapso? Não é um time bom. Parecia que eles nunca tinham jogado juntos. Era como se não soubessem nem quem eram. Sei que o Thiago Silva é um zagueiro de primeira classe, mas, meu Deus, eles jogaram como se estivessem treinando!

O que aprendi com Gabriel García Márquez

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Ao participar da última turma da oficina Como Contar um Conto, do escritor colombiano, me inspirei para escrever um romance. Levei ainda oito anos para concluir ‘A cabeça do santo’

Publicado na Época

SOCORRO ACIOLI, EM DEPOIMENTO A LUÍS ANTÔNIO GIRON

Das muitas utopias de juventude do escritor colombiano Gabriel García Márquez, a paixão pela ideia de um cinema latino-americano tão pleno de identidade quanto sua literatura talvez tenha sido a mais arrebatadora. Por um golpe da sorte, fiz parte dessa utopia quando fui aluna da última turma da oficina Como Contar um Conto, idealizada e ministrada por ele, dedicada à formação de roteiristas de cinema.

Há muito a aprender quando se convive, mesmo que por apenas seis dias, com um homem cuja história de vida é conduzida pela paixão.

O mundo conhece García Márquez como autor do romance Cem anos de solidão (1967) e de outras obras repletas da mistura eficaz entre o mágico e o amor. Seu legado como diretor e roteirista apaixonado por cinema é pouco conhecido. Deixou o curta-metragem A lagosta azul, de 1954, dirigido por ele, e alguns roteiros filmados, como A viúva de Montiel, em 1959, e Erendira, em 1983.

ROTEIRO DE ESCRITOR Socorro Acioli em sua casa. Ela aprendeu com o mestre a planejar as histórias (Foto: Jarbas Oliveira/ÉPOCA)

 

Socorro Acioli (Foto: ÉPOCA)

 

Em 1984, quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, García Márquez pôde realizar a maior obra de sua utopia: a Escuela de Cine y TV de San Antonio de Los Baños, em Cuba. Construída num terreno imenso, hoje cercada por um perfumado pomar de laranjeiras, a escola alimentava o ideal de formar novos cineastas, oriundos de países latino-americanos, caribenhos e africanos.

Além da idealização e do alto investimento financeiro, García Márquez deixou a marca de seu pensamento na escola com a oficina Como Contar um Conto, comandada por ele uma vez por ano, de 1986 a 2006, com o objetivo de orientar pessoalmente um grupo seleto de jovens escritores imbuídos da bendita mania de contar.

Quando decidi tentar fazer parte dessa oficina, exatamente em 2006, não imaginava que aquele seria o último ano, minha última chance. Soube do curso por meio do livro Como contar um conto, que nada mais é que uma das oficinas transcritas, palavra por palavra, um dia por capítulo, e publicada em livro.

Foram meses de tentativas. O curso com García Márquez era para convidados, amigos dele, indicados por seus amigos. Nada disso estava a meu alcance. Jamais teria qualquer chance de fazer parte desse curso se, naquele ano, ele não tivesse apenas nove indicados para as dez cadeiras que a oficina comportava. Diante dessa vaga, o que eu precisava fazer para ter a honra de ocupá-la era mandar uma proposta de história para contar, em um parágrafo. A coordenadora responsável pela organização da oficina imprimiria o papel enviado por e-mail e colocaria nas mãos do mestre – que tomaria a decisão.

Eu precisava escolher a melhor história possível para conquistar o interesse de um prêmio Nobel de Literatura. E o que é a melhor história possível? Esta foi a primeira lição que aprendi com García Márquez: para que o tema arrebate o leitor, o autor precisa ser arrebatado primeiro. A melhor história que um autor pode escrever é a que mais o apaixona.

Diante de um caderno cheio de ideias que eu poderia propor para a oficina, a história da cabeça gigante do Santo Antônio abandonada no sertão do Ceará era a que mais me fascinava, assustava e me fazia pensar. Escolhi pela paixão, e funcionou. Ele me escolheu.

No dia 4 de dezembro de 2006, estava diante dele, em sua escola de cinema, ouvindo seus conselhos sobre a arte de criar mundos. Foram cinco dias de aula, das 9 da manhã às 2 da tarde.

A metodologia era simples: falávamos nossas histórias, e ele dizia o que achava de cada uma. Sem disfarces ou piedades. Impaciente com rodeios e com detalhes acrescidos a tramas sem consistência, ele me deu a segunda lição: um ficcionista deve conhecer e saber resumir sua história tanto quanto conhece o conto da Chapeuzinho Vermelho.

Quem cria, brinca de ser Deus e precisa praticar a consciência da onipresença em seu universo ficcional. Sem titubeios. “Qual é sua história?”, ele nos perguntava, todo o tempo. Se um de nós vacilava em responder, ele nos pedia que pensássemos na Chapeuzinho Vermelho mais uma vez.
E seguíamos assim, tentando. Ele nos interrompia constantemente, explorando as possibilidades narrativas, indagando sobre os personagens, nos levando ao limite. Talvez a maior qualidade de García Márquez como professor de escrita criativa seja a capacidade de identificar as falhas de cada proposta. Ele defende uma ideia que ainda é controversa entre escritores: o conhecimento prévio do eixo, do arco dramático completo da história.

Esta foi a terceira lição que aprendi com o mestre: só devemos sentar para escrever quando soubermos o que acontecerá com os personagens, até o fim.

 

Esta foi a primeira lição: para que o tema arrebate o leitor, o autor precisa ser arrebatado primeiro. A melhor história que um autor pode contar é a que mais o apaixona  (Foto: Arq. pessoal)

 

Muitos autores descrevem as decisões sobre o processo criativo como algo que acontece enquanto se escreve. Jorge Amado dizia que foi Dona Flor que escolheu ficar com os dois maridos, segundo me contou sua filha, Paloma.

Para García Márquez, o método não funciona – e isso de método criativo é pessoal e intransferível. Adotei a ideia de procurar pelo eixo antes de escrever, custe o tempo que custar.

Seguimos por cinco dias ouvindo conselhos e opiniões sobre nossos projetos e sobre o ato de escrever. Encerramos a oficina no dia 8 de dezembro de 2006, exatamente 22 anos depois da noite em que García Márquez recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em Estocolmo. Nós, os alunos escolhidos, somos amigos até hoje. Formamos uma espécie de confraria, herdeiros de uma partilha única, última, a derradeira oficina do Gabo (apelido carinhoso de García Márquez).

Meus colegas vivem em países distintos. Uns escrevem novelas para a televisão, roteiros de cinema, de filmes publicitários. A maioria já ganhou prêmios em seus países. Temos a marca de García Márquez na vida. Isso não se apaga nunca.

Aquele parágrafo que enviei a Cuba, em 2006, transformou-se no romance A cabeça do santo (Companhia das Letras, 75 páginas, R$ 37), publicado em março no Brasil e a sair em outubro no Reino Unido, pela editora Hot Key Books, de Londres.

Com o livro em mãos, oito anos depois daquele dezembro que mudou tudo, suspeito que a pergunta repetitiva do mestre, “qual é sua história?”, tenha um sentido mais profundo do que parecia.
Talvez não seja apenas um instrumento de técnica narrativa ou um caminho para a clareza na construção ficcional. Essa pergunta, desde então, conduz minha vida. Qual é minha história? Eu me pergunto todos os dias, diante das decisões que preciso tomar. Ainda não tenho o eixo completo, felizmente. Pretendo demorar muito para chegar ao fim. Mas há uma marca, uma força, que segura o passo da escritora em formação que sou e sempre serei. Minha história é a de uma aluna de Gabriel García Márquez, herdeira de todas as suas utopias.

 

“Não deixe que suba à cabeça”, aconselha McEwan a jovens escritores

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Ian McEwan
Divulgação

Publicado originalmente no Primeira Edição

O escritor inglês Ian McEwan, um dos principais nomes da décima edição da Flip, disse ontem, durante entrevista em Paraty, que os jovens escritores brasileiros selecionados pela revista literária “Granta” não deveriam deixar a fama subir a cabeça.

Em 1983, McEwan foi ele próprio selecionado para uma edição da “Granta” com os melhores jovens romancistas britânicos.

“Não deixe que isso suba à cabeça”, disse, em resposta a que conselho daria aos jovens colegas.

“É importante o que você continuará a fazer na manhã de quarta-feira. Elimine o barulho de prêmios, entrevistas, listas. O mundo moderno adora listas.”

“Tenho um conselho de duas palavras: compareça, esteja lá todo dia, não importa se estiver mal, você tem que estar na sua mesa de trabalho todo dia às dez da manhã”, declarou.

McEwan –que neste sábado (7) participa de um debate na Flip com a americana Jennifer Egan– esteve, na última quinta-feira, no coquetel de lançamento da edição brasileira da “Granta” em Paraty.

“Senti-me fora de lugar e com inveja. Adoraria estar nos meus vinte e tantos, trinta e poucos anos. Lembro que, em 83, eu tinha publicado quatro ou cinco livros, não era um novato completo. E foi muito interessante, porque muitos dos 20 escolhidos já eram meus amigos.”

Além dele, nomes como Salman Rushdie e Martin Amis ampliaram sua projeção ao publicar na “Granta”, uma das mais influentes revistas literárias do mundo, que no Brasil é editada pela Alfaguara.

Indagado sobre a importância de cursos de escrita criativa, ele declarou que “é muito difícil ensinar literatura”.

“Você pode ensinar técnicas, mas é importante dar às pessoas a moldura, o contexto. A maioria dos bons escritores que fizeram esses cursos normalmente já chegaram bons escritores.”

O autor inglês está lançando o romance “Serena” (Companhia das Letras) mundialmente no Brasil –só depois sairá nos países de língua inglesa.

McEwan explicou que se tratou de uma “grande sorte e maravilhosa oportunidade”. Como havia a Flip em julho, o seu editor brasileiro pediu que ele corresse e ele diz ter ficado feliz.

O romancista contou que está próximo do Brasil desde que seu filho o acompanhou à Flip em 2004, se encantou com o país e, ao voltar para a Inglaterra, arranjou uma namorada brasileira e aprendeu português.

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