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11 livros infantojuvenis que todos deveriam ler ao longo da vida

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(Foto: Laura Muntz Lyall)

(Foto: Laura Muntz Lyall)

 

Publicado na Galileu

Aproveitando a nostalgia presente nas redes sociais por conta do Dia das Crianças, perguntamos aos nossos leitores no Facebook e no Twitter quais livros infantis e infantojuvenis eles acreditam ser leituras indispensáveis. Recebemos algumas respostas incríveis, veja abaixo:

1 – O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder: “Nenhum outro livro explica aos jovens de forma tão simples as principais linhas de pensamentos filosóficos. Sem contar que o enredo da história de Sofia prender o leitor até o final, que é arrasador!” (Emeline Boni, via Facebook)

2 – Ponte para Terabítia, Katherine Paterson: “Porque a vida pode ser simples, nossa imaginação pode ser incrível e também porque nem sempre os finais são felizes”. (Geisilaine Paula, via Facebook)

3 – O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry: “É um lindo clássico”. (Ana Paula, via Facebook)

4 – O Mágico de Oz, L. Frank Baum: “É indispensável”. (@sabichãodopãodekeijo, via Twitter)

5 – Desventuras em Série, Lemony Snicket: “É uma série de treze volumes, então podem ser lidos aos poucos ao longo da vida.” (Rodrigo Silva e Silva, via Facebook)

6 – Ei! Tem Alguém Ai?, Jostein Gaarder: “Livro que abre reflexões, distrai e ainda pode mudar suas percepções da vida com simplicidades”. (Samuel Vitor de Souza, via Facebook)

7 – Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos: “O livro narra a visão de uma criança sobre os problemas sociais que a cercam. A pureza é contrastada pela dureza da vida. É uma imersão nos valores humanos através da perspectiva de alguém jovem e com quem podemos nos identificar de imediato”. (@brunajfranco, via Twitter)

8 – Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll: “É uma das obras primas de toda cultura pop, servindo de inspiração/referência para inúmeras obras posteriores. Logo, conhecer esta obra é conseguir intertextualizar com muitas outras (desde Matrix a Batman v Superman). É um texto de várias camadas, podemos interpretar tudo como apenas uma viagem de imaginação ou teoria de multiversos, visto que Lewis Carroll era matemático também. Ou mesmo relevando esta parte matemática, é uma bela história que deixa o antropocentrismo de lado e mostra outro mundo!”. (@cobaki, via Twitter)

9 – O Senhor dos Aneis, J. R.R. Tolkien: “Eu li quando era adolescente e me apaixonei. Tem gente que leu quando adulto e discorda. Mas acho que a ficção encanta a todos”. (@bruxa_paixaoo, via Twitter)

10 – Aruá, o Boi Encantado, Luís Jardim: “Um livro maravilhoso que traz uma reflexão linda sobre ser humilde”. (João Paulo S. Gomes, via Facebook)

11 – Harry Potter, J.K. Rowling: “Além dos exemplos morais seu estilo é leve, fluido e viciante enquanto inocula sua poesia vibrante e mágica”. (@liriofofo, via Twitter)

Livros de youtubers viraram a grande aposta do mercado editorial

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Eles são as principais atrações da Bienal do Livro de São Paulo

Nina Finco, na Época

Era a noite do último dia 7 de julho, uma quinta-feira. Na Livraria Cultura da Avenida Paulista, uma das maiores de São Paulo, uma fila enorme se formava no interior da loja, se estendia para uma rua nas imediações e dobrava o quarteirão do centro comercial onde ela está localizada. Jovens e adultos se amontoavam para conseguir um autógrafo do autor de um novo livro. Das 19 horas até a 1 hora, 800 pessoas obtiveram seus exemplares autografados, mas alguns azarados ficaram do lado de fora. O escritor não era nenhum expoente da literatura nacional, muito menos ganhador de algum prêmio das letras. Na verdade, um dos galardões que ostenta é o Shorty Awards, o Oscar da internet.

Por trás da mesa de autógrafos estava Paulo Cezar Siqueira, o PC Siqueira, de 30 anos, um dos youtubers mais influentes do Brasil, com mais de 2 milhões de inscritos em seu canal. A seu lado estava o jornalista Alexandre Matias, que escreveu o livro PC Siqueira está morto (Suma de Letras, 248 páginas, R$ 29,90). O livro reúne narrativas nas quais PC é o personagem principal, mas é uma ficção que não deixa claro onde acaba a realidade e começa a imaginação. “Eu não queria que fosse mais um livro de youtuber, sobre carreira ou sobre minha vida”, diz PC.

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QUERIDINHA A influenciadora Maju Trindade. A forte presença nas redes sociais conquistou uma legião de fãs (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)

 

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Apesar de ser um dos primeiros youtubers do país, PC está longe de ser pioneiro nessa movimentação rumo ao mundo literário. Desde o ano passado, livros de autoria de youtubers vêm tomando as prateleiras das livrarias a passos firmes. Segundo a Nielsen BookScan, empresa que monitora o mercado editorial, cerca de 33 youtubers lançaram títulos nos últimos 12 meses. Eles seguem a trilha aberta pela youtuber Kéfera Buchmann, do canal 5inco minutos. Seu livro Muito mais do que 5inco minutos (Paralela, 144 páginas, R$ 24,90) vendeu mais de 400 mil exemplares em 2015, o que colocou Kéfera em 6o lugar na lista dos dez autores brasileiros com mais vendas de livros no ano passado.Em média, um lançamento de um autor brasileiro contemporâneo fica em torno de 3 mil exemplares por edição.

Em 2016, no encalço de Kéfera, vieram Julia Tolezano, do canal Jout Jout Prazer, cujo livro Tá todo mundo mal (Cia. das Letras, 200 páginas, R$ 29,90) vendeu 35 mil cópias desde maio, e Karol Pinheiro, cuja biografia As coisas mais legais do mundo figura entre os 20 mais vendidos da lista de não ficção de 2016 da Nielsen. A mais recente integrante do clube das youtubers literárias é a transexual Amanda Guimarães, do canal Mandy Candy, que acaba de lançar a biografia Meu nome é Amanda (Fábrica 231, 136 páginas, R$ 19,50).

O YouTube surgiu como uma plataforma para vídeos amadores em 2005. O mote original era “transmita-se”. Com o tempo, o site tornou-se o palco para todo tipo de criador de conteúdo. A gama de produtos vai de videoblogs a webséries, passando por vídeos de “faça você mesmo”. Munidos de uma câmera e um programa de edição, eles contam causos da vida, comentam acontecimentos do mundo da política e da cultura, fazem piadas de si próprios, criam tutoriais de maquiagem e ensinam receitas culinárias. Tudo ao alcance de um clique.

QUIMERA PC Siqueira em seu apartamento, em São Paulo. Seu livro mistura realidade e ficção (Foto: Anna Carolina Negri)

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PC Siqueira em seu apartamento, em São Paulo. Seu livro mistura realidade e ficção (Foto: Anna Carolina Negri)

 

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Os youtubers evoluíram junto com a plataforma. Alguns canais têm audiências de fazer inveja a programas de televisão e muitos youtubers criaram suas próprias marcas. Passaram a usá-
las como trampolim para turnês, carreiras musicais, aparições em filmes e no teatro. PC, Kéfera Buchmann, Christian Figueiredo e Jout Jout, que também têm contas no Instagram, no Twitter, no Snapchat, no Facebook e em qualquer nova rede social que surgir, tornaram-se estrelas com milhões de seguidores ávidos por consumir qualquer conteúdo produzido por eles. Os fãs pagam para participar de encontros com as webcelebridades na esperança de conseguir um autógrafo ou um selfie.

Não tardou para que as editoras brasileiras passassem a ver nos youtubers uma oportunidade para alavancar os negócios de um mercado com queda nas vendas e alta nos custos de produção. Como grande parte dos livros comercializados é internacional, o dólar mais caro fez com que os preços de aquisição de títulos quadruplicassem. Era preciso focar em algo local e mais barato. Para as editoras, os youtubers se tornaram uma fonte de autores nacionais acessíveis e conhecidos do público. Acabaram virando uma âncora do mercado, depois do fim da febre dos livros para colorir.

NO CONTROLE O gamer Pedro Afonso Rezende Posso. Além de divertir os jovens com seus vídeos, ele quer incentivar a leitura (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)

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O gamer Pedro Afonso Rezende Posso. Além de divertir os jovens com seus vídeos, ele quer incentivar a leitura (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)

 

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“O youtuber é produtor e vendedor do próprio conteúdo e traz consigo um consumidor voraz”, afirma Ismael Sousa, gestor da Nielsen BookScan Brasil. “A matemática é simples: mais conteúdo, plataformas e mídia equivalem a mais fãs e mais receita”, afirma David Craig, especialista em transmídia e professor de comunicação da Universidade do Sul da Califórnia. “Esses livros apelam para os superfãs, que querem um livro físico em suas mãos como prova de que são membros vitais da comunidade do youtuber.”

Por causa desse senso de comunidade existente entre os youtubers e os fãs, as biografias figuram entre os subgêneros mais explorados pelas editoras. No domingo do Dia dos Pais, 14 de agosto, 200 adolescentes se reuniram na praça de alimentação do Botafogo Praia Shopping, no Rio de Janeiro, para a sessão de autógrafos do livro Maju (Paralela, 168 páginas, R$ 29,90), de Maju Trindade. A youtuber fez 18 anos em junho, mas já lançou sua biografia, escrita em parceria com a escritora e ex-VJ da MTV Jana Rosa. Ainda pré-adolescente, Maju publicava vídeos no YouTube nos quais falava sobre o dia a dia na escola e suas crises – ela filmava tudo escondido com a câmera da avó.

Do YouTube, Maju migrou para outras redes sociais como (mais…)

Editoras apostam em biografias e diários de jovens celebridades para atrair novos leitores

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'O diário de Larissa Manoela' se transformou em um verdadeiro best-seller (foto: Reprodução/Instagram)

‘O diário de Larissa Manoela’ se transformou em um verdadeiro best-seller (foto: Reprodução/Instagram)

 

Livros que contam a trajetória de artistas como Larissa Manoela, Kéfera Buchmann e Luan Santana estão entre os mais vendidos do país

Ana Clara Brant, no UAI

O cantor sertanejo Luan Santana tem 25 anos. A vlogueira e apresentadora Kéfera Buchmann tem 23. O astro teen norte-americano Justin Bieber completou 22 anos. Já a atriz e cantora Larissa Manoela, revelação do SBT/Alterosa, tem apenas 15 aninhos.

Mesmo com pouca idade, esses artistas já lançaram biografias ou diários em que relatam suas trajetórias de vida. E o mais curioso é que essas obras se tornaram verdadeiros best-sellers.

O diário de Larissa Manoela, por exemplo, publicado há menos de um mês e que apresenta a história da atriz, as dificuldades pelas quais passou até chegar ao estrelato e seu cotidiano de celebridade, já é um dos livros mais vendidos do país. Até o fim da semana passada, ele tinha alcançado o número de 46.685 exemplares.

Luan Santana – A biografia, do jornalista Ricardo Marques, chegou ao mercado há pouco menos de um ano e já soma 40 mil livros vendidos.

Muito mais que 5incominutos, sobre a sensação da internet Kéfera, foi a publicação mais vendida da Bienal do Rio de 2015, com cerca de 400 mil exemplares, e chegou a ganhar elogios de Paulo Coelho e Gregório Duvivier.

“Há hoje, como nunca antes no Brasil, um público jovem leitor e consumidor. É natural que o mercado editorial tente a atender a esse gosto. E isso é um fenômeno não só daqui, mas de vários países. Livros sobre artistas jovens fazem sucesso no mundo todo. A novidade brasileira é que hoje temos um público para esses lançamentos. Isso, sim, um fenômeno: a garotada, entre 14 e 17 anos, que tem na leitura o principal entretenimento. É mercado novo que se abre. E é também uma chance para que tenhamos, nos próximos anos, um novo público leitor adulto”, comenta Carlos Andreazza, editor executivo de não ficção e ficção nacional da Editora Record, responsável pela biografia de Luan Santana.

Editora da Gutenberg, Silvia Tocci Masini também defende essa tendência e acredita que essas obras aproximam o artista do público.

“Ainda que todas as informações estejam nas redes sociais, você tem bastante informação em um lugar só. O livro meio que eterniza o autor. Ele deixa a sua marca, sua história registrada. As redes sociais permitiram a aproximação dos fãs como ‘amigos’ desses popstars e um movimento de aquisição de qualquer produto ou informação que seja da personalidade em questão. Quando existe o livro, você reúne em um só lugar essas informações e até mesmo de maneira mais aprofundada, eternizando essa personalidade”, opina.

A grande maioria dos leitores dessas publicações é formada por fãs das celebridades, mas isso não impede que outras pessoas possam se interessar ou mesmo estimular a leitura entre essas pessoas. É o que defende Carlos Andreazza.

“É um público composto basicamente de fãs. Mas daí pode surgir interesse em outros livros, daí pode surgir um leitor. Temos de apostar nisso, no óbvio: leitor só se forma com leitura. Se há um jovem lendo, não importa o que, há esperança. Todo mundo tem biografia, eu, você. A questão é saber se essa biografia interessa a alguém”, defende.

Boa parte das jovens celebridades que tem publicado livros é formada pelos youtubers. Muitos deles vão “invadir” a 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que ocorre no fim de agosto, para participar de lançamentos, sessões de autógrafos e debates.

A própria Kéfera Buchmann se prepara para lançar no evento sua segunda obra, Tá gravando. E agora?, novamente pela Editora Paralela, do Grupo Companhia das Letras. Nele, a estrela da web conta como surgiu seu canal 5incominutos, atualmente com mais de 8 milhões de assinantes, e revela detalhes até então inéditos.

Outros astros da internet – Lucas Rangel, Jout Jout e PC Siqueira –, também vão marcar presença na grande feira. Fenômeno de público, o mineiro Marco Túlio Matos Vieira, de 20 anos, é criador do AuthenticGames, canal no YouTube com 6 milhões de seguidores, em que ele mostra seus gameplays de Minecraft, jogo eletrônico que permite a construção usando blocos (cubos) dos quais o mundo é feito.

Em março, Marco fez sua estreia nas letras e lançou Authentic Games – Vivendo uma vida autêntica, em que os leitores ficam sabendo como surgiu o projeto do canal, quem são os amigos da internet que o Authentic levou para a vida real e um pouco da sua trajetória.

O youtuber também estará na bienal paulista lançando seu segundo livro, Authentic games – A batalha da torre, que dará início a uma trilogia. O segundo sairá em novembro, e o terceiro em fevereiro do ano que vem.

Entre os youtubers brasileiros, o primeiro a se aventurar na literatura foi o carioca Felipe Neto (foto: Reprodução/Facebook)

Entre os youtubers brasileiros, o primeiro a se aventurar na literatura foi o carioca Felipe Neto (foto: Reprodução/Facebook)

 

Mudança no consumo
Entre os youtubers, o primeiro a se aventurar na literatura foi o carioca Felipe Neto, de 28 anos, com o livro Não faz sentido – Por trás das câmeras, que chegou às livrarias em 2013.

A publicação conta a história do garoto que saiu do anonimato até sua exposição meteórica, os bastidores envolvendo seus vídeos, os desentendimentos com as celebridades, o processo de criação do Não faz sentido, considerado o primeiro canal em língua portuguesa a atingir a marca de 1 milhão de assinantes.

Felipe faz questão de deixar claro que seu livro não se trata de uma biografia, apesar de dar detalhes de sua vida e de seu dia a dia.

“Meu canal tinha explodido e desde 2011 eu passei a escrever como o cenário do entretenimento tinha mudado, de que maneira as pessoas estavam consumindo o YouTube. Sempre quis mostrar essa história e não necessariamente a minha história. Ela só serviu de pano de fundo porque mostro a origem do meu personagem, do próprio canal”, explica ele, que também descreve como a internet vai moldar uma nova geração.

Felipe Neto é apaixonado por literatura e conta que começou a escrever aos 8 anos. Criava historinhas de ficção que foram se tornando um verdadeiro vício.

“Por isso, acho muito sério essa banalização do livro. A pessoa pega o que publica ou fala na internet e adapta para um livro. O que mais se vê hoje são jovens de 15, 16 anos publicando diários, biografias, sendo que nem conteúdo para isso eles têm”, alfineta.

O vlogueiro ainda lamenta que essas iniciativas partam das própria editoras, que oferecem rios de dinheiro para que as webcelebridades possam escrever suas trajetórias.

“Eu mesmo já passei por isso e não aceitei. Tem livro sendo escrito da noite para o dia, literalmente. E, muitas vezes, como alguns youtubers não sabem escrever direito, a editora contrata um ghost writer (escritor fantasma) para escrever no lugar deles. É uma vergonha e, sinceramente, acho muito triste”, desabafa.

MAÍSA
Outra jovem atriz que está brilhando nas novelas do SBT/Alterosa vai ganhar seu próprio livro. Maísa Silva, de 14 anos, ficou conhecida do grande público com suas hilárias participações quando criança no Programa Silvio Santos.

Ela também estará na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. A obra sairá pela Editora Gutenberg, do Grupo Autêntica, mas não será uma biografia. De acordo com o selo, o livro traz muito da visão e das posições de Maísa, permitindo que o público a conheça a partir desses pontos de vista.

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Também não vão faltar trechos com algumas experiências de sua vida. “O que o livro propõe é apresentar discussões mais aprofundadas da atriz como formadora de opinião, que atualmente se posiciona diariamente nas redes sociais. Ela cita algumas experiências vividas para debater ou levantar um assunto, mas não necessariamente conta sua vida no livro”, esclarece a editora da Gutenberg, Silvia Masini.

Faltam livros nas escolas brasileiras

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EDUCAÇÃO EM DÉBITO Sidineia lê para seu filho Octavio, de 7 anos. Por falta de bibliotecas na rede pública, ela se juntou a outros jovens da região onde mora em São Paulo para fundar uma biblioteca comunitária (Foto: Flávio Florido/ÉPOCA)

EDUCAÇÃO EM DÉBITO
Sidineia lê para seu filho Octavio, de 7 anos. Por falta de bibliotecas na rede pública, ela se juntou a outros jovens da região onde mora em São Paulo para fundar uma biblioteca comunitária (Foto: Flávio Florido/ÉPOCA)

 

A lei determina que cada escola do país tenha uma biblioteca. Apenas 37% delas cumprem essa exigência. São Paulo tem hoje menos bibliotecas do que tinha há quatro anos

BEATRIZ MORRONE E FLÁVIA YURI OSHIMA, na Época

O romance O menino do pijama listrado, de John Boyne, despertou a paixão de Sidineia Chagas, de 25 anos, pela leitura, quando ela cursava, em 2007, o 1º ano do ensino médio na Escola Estadual Professora Renata Menezes dos Santos. Sidineia mora em Parelheiros, região do extremo sul de São Paulo que lidera rankings de violência e de baixo desenvolvimento humano.

O encontro entre Sidineia e a história de Boyne ocorreu quando cada aluno de sua classe recebeu uma caixa com quatro livros. O mesmo encanto com os títulos não aconteceu com boa parte de seus colegas. “Quando a aula acabou, muita gente rasgou os livros”, diz ela. Sidineia viu páginas virar dobraduras ou munição para guerra de bolinhas de papel.

A atitude dos jovens foi um reflexo do descaso com que a própria escola tratava a leitura. Sidineia afirma que as obras foram apresentadas aos alunos sem o respaldo de qualquer atividade pedagógica que destacasse a relevância delas. Além disso, a biblioteca do colégio nunca atraiu frequentadores. Quase sempre fechado, o espaço funcionava mais como um depósito de livros do que como um ambiente de incentivo ao hábito de ler. O mesmo ocorria nas demais escolas da região de Parelheiros.

Essa realidade precária inspirou Sidineia e outros 30 jovens a criar um espaço de leitura que pudessem frequentar à vontade. Nos fundos do Cemitério do Colônia, uma pequena casa antes abandonada abriga a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, fundada em 2009, em parceria com uma ONG, o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac). “O objetivo foi criar um lugar que, além de emprestar livros, fosse um ponto de encontro para a comunidade”, diz Sidineia. Com a ajuda de instituições públicas e privadas, hoje a biblioteca conta com um acervo de 4 mil exemplares.

LIVROS PARA TODOS A Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, de Parelheiros. O espaço foi criado por jovens da região que sentiam falta de um espaço para ler e se reunir (Foto: Flávio Florido/ÉPOCA)

LIVROS PARA TODOS
A Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, de Parelheiros. O espaço foi criado por jovens da região que sentiam falta de um espaço para ler e se reunir (Foto: Flávio Florido/ÉPOCA)

 

Iniciativas como a de Parelheiros surgem para tapar buracos deixados pelas políticas educacionais do estado. Uma lei sancionada em 2010 determina que, até 2020, todas as escolas do Brasil tenham uma biblioteca. Os números, porém, mostram que a obrigatoriedade não será cumprida dentro do prazo – se é que ela será cumprida algum dia. O Censo Escolar de 2015 mostra que somente 37% das escolas públicas e privadas de educação básica (entre a educação infantil e o fim do ensino médio) têm biblioteca. Para que a meta seja alcançada, 84 bibliotecas teriam de ser abertas diariamente, a partir desta semana e pelos próximos 1.389 dias.

Esses números mostram apenas um dos aspectos de como o incentivo à leitura é negligenciado na educação brasileira. As poucas bibliotecas existentes na rede pública costumam funcionar de forma muito deficiente. Entre 11 escolas escolhidas aleatoriamente na cidade de São Paulo, apenas duas bibliotecas funcionam em período integral e três ficam abertas eventualmente. Em seis escolas, alunos não têm livre acesso ao espaço onde ficam os livros. “A sala fica fechada. Os estudantes só podem entrar quando acompanhados por um professor”, afirma o funcionário de uma das escolas, que não quis ser identificado. O motivo mais comum ao acesso restrito é a falta de um supervisor no local.

Isso não ocorreria se a lei fosse respeitada. As bibliotecas escolares devem contar com a presença de um bibliotecário preparado para organizar, abastecer e gerenciar o acervo. Na contramão do que diz a lei, a rede estadual de ensino de São Paulo passou a substituir, em 2009, a instalação de bibliotecas por salas de leitura. Diferentemente das bibliotecas, essas salas são espaços informais, com acervo diminuto, sem preocupação com iluminação ou organização apropriada para atividades relacionadas ao estudo e à leitura. Outra diferença fundamental da sala de leitura é que ela dispensa a presença de um profissional preparado para receber os alunos. “Um dos papéis do bibliotecário é sugerir ações pedagógicas que tornem a biblioteca um espaço convidativo para os alunos”, diz Maria Aparecida Lamas, educadora especializada em formação de leitores.

Em 2012, 13% das escolas estaduais paulistas tinham bibliotecas. Salas de leitura estavam presentes em 75,4% delas. Em 2015, o número de escolas com bibliotecas caiu para 7,4%, enquanto o de salas de leitura aumentou para 78%. Nesse mesmo período, não houve expansão da rede de bibliotecas entre as escolas municipais.

Educadores ouvidos por ÉPOCA afirmam que São Paulo freou a implantação de bibliotecas para economizar dinheiro, tese endossada pelo sindicato dos bibliotecários. “O governo usa a máscara da sala de leitura para extinguir o cargo de bibliotecário em suas escolas”, diz Vera Stefanov, presidente do Sindicato dos Bibliotecários de São Paulo. Questionado, o governo paulista só mencionou a expansão de salas de leitura. São Paulo é o quarto estado com o pior índice de bibliotecas escolares, seguido por Acre (19,3%), Pará (18%) e Maranhão (15%). (Confira o gráfico abaixo.)

A lei que torna obrigatória a existência de bibliotecas baseia-se em evidências pedagógicas e científicas sobre os benefícios da leitura para o cérebro da criança e seu desenvolvimento – como estudante e como cidadão. Um estudo da Universidade York, do Canadá, constatou que crianças expostas a livros têm mais facilidade em lidar com opiniões e sentimentos alheios. Quando mediada por familiares, aponta pesquisa da Faculdade de Medicina de Nova York, a leitura contribui para estreitar vínculos afetivos e estimular o diálogo. Entre seus benefícios, destacam-se também a expansão do vocabulário e o desenvolvimento da memória. A exposição constante à literatura é a forma mais eficiente para combater o analfabetismo funcional, do qual 27% da população brasileira padece. “A dificuldade em interpretar o que leem ocorre basicamente porque as pessoas ainda não automatizaram a decodificação das palavras. Isso ocorre somente com o hábito da leitura”, disse a ÉPOCA Stanislas Dehaene, neurocientista francês que pesquisa distorções cognitivas no aprendizado.

Bibliotecas são espaços férteis para atividades que estimulam a leitura, a narração de histórias e a criatividade. Sidineia e seus colegas da biblioteca já se acostumaram a tirar as histórias das prateleiras e transformá-las numa infinidade de atividades que envolvem toda a comunidade. Poemas de Drummond embalam melodias de baião. Versos de Manoel de Barros inspiram encenações teatrais. Textos de Simone de Beauvoir iniciam discussões sobre violência contra a mulher. “A vizinhança se envolve em discussões sobre política e direitos humanos”, diz Sidineia. Em cinco anos, o Pílulas de Leitura, projeto dessa biblioteca, alcançou 12 mil crianças de Parelheiros. Em um país com 13 milhões de analfabetos, iniciativas como essas são a melhor resposta da população para um exemplo de descaso do poder público com a educação brasileira.

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Bem-formada, nova geração chega mal-educada às empresas, diz filósofo

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Cortella lança o livro "Por que fazemos o que fazemos?" sobre a busca de propósito no trabalho

Cortella lança o livro “Por que fazemos o que fazemos?” sobre a busca de propósito no trabalho

 

Segunda-feira, seis da manhã. O despertador toca e você não quer sair da cama. Está cansado? Ou não vê sentido no que faz?

na BBC Brasil

Na introdução de seu novo livro, o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella coloca em poucas palavras o questionamento central da obra Por que fazemos o que fazemos?. Lançada em julho, ela trata da busca por um propósito no trabalho, uma das maiores aflições contemporâneas.

Em entrevista à BBC Brasil, Cortella, também doutor em Educação e professor, fala como um mundo de múltiplas possibilidades levou as pessoas a negarem ser apenas uma peça na engrenagem.

O filósofo explica como a combinação de um cenário imediatista, anos de bonança e pais protetores fez com que a “busca por propósito” dos jovens seja muitas vezes incompatível com a realidade.

“No dia a dia, eles se colocam como alguém que vai ter um grande legado, mas ficam imaginando o legado como algo imediato.”

Essa visão “idílica”, afirma, transforma escritórios e salas de aula em palcos de confronto entre gerações.

“Parte da nova geração chega nas empresas mal-educada. Ela não chega mal-escolarizada, chega mal-educada. Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela.”

Leia os principais trechos da entrevista abaixo:

BBC Brasil – O que desencadeou a volta da busca pelo propósito?

Mario Sergio Cortella – A primeira coisa que desencadeou foi um tsunami tecnológico, que nos colocou tantas variáveis de convivência que a gente fica atordoado.

A lógica para minha geração foi mais fácil. Qual era a lógica? Crescer, estudar. Era escola, e dependendo da tua condição, faculdade. Não era comunicação em artes do corpo. Era direito, engenharia, tinha uma restrição.

Essa overdose de variáveis gerou dificuldade de fazer escolhas. Isso produz angústia em relação a esse polo do propósito. Por que faço o que estou fazendo? Faço por que me mandam ou por que desejo fazer? Tem uma série de questões que não existiam num mundo menos complexo.

Não foi à toa que a filosofia veio com força nos últimos vinte anos. Ela voltou porque grandes questões do tipo “para onde eu vou?”, “quem sou eu?”, vieram à tona.

Livro de Cortella foi lançado em julho e traz reflexão sobre trabalho

Livro de Cortella foi lançado em julho e traz reflexão sobre trabalho

 

BBC Brasil – Podemos dizer que nesse contexto vai ser cada vez menor o número de pessoas que não tem esses questionamentos?

Mario Sergio Cortella – Cada vez menor será o número de pessoas que não se incomoda com isso. O próprio mundo digital traz o tempo todo, nas redes sociais, a pergunta: “por que faço o que faço?”, “por que tomo essa posição?”. E aquilo que os blogs e os youtubers estão fazendo é uma provocação: seja inteiro, autêntico. É a expressão “seja você mesmo”, evite a vida de gado.


BBC Brasil – No seu livro, você fala da importância do reconhecimento no trabalho. Qual é ela?

Mario Sergio Cortella – O sentir-se reconhecido é sentir-se gostado. Esse reconhecimento é decisivo. A gente não pode imaginar que as pessoas se satisfaçam com a ideia de um sucesso avaliado pela conquista material. O reconhecimento faz com que você perca o anonimato em meio à vida em multidão.

No fundo, cada um de nós não deseja ser exclusivo, único, mas não quer ser apenas um. Eu sou um que importa. E sou assim porque é importante fazer o que faço e as pessoas gostam.

BBC Brasil – Pelo que vemos nas redes sociais, os jovens estão trazendo essa discussão de forma mais intensa. Você percebeu isso?

Mario Sergio Cortella – Há algum tempo tenho tido leitores cada vez mais jovens. Como me tornei meio pop, é comum estar andando num shopping e um grupo de adolescentes pedir para tirar foto.

Uma parcela dessa nova geração tem uma perturbação muito forte, em relação a não seguir uma rota. E não é uma recuperação do movimento hippie, que era a recusa à massificação e à destruição, ao mundo industrial.

Hoje é (a busca por) uma vida que não seja banal, em que eu faça sentido. É o que muitos falam de ‘deixar a minha marca na trajetória’. Isso é pré-renascentista. Aquela ideia do herói, de você deixar a sua marca, que antes, na idade média, era pelo combate.

O destaque agora é fazer bem a si e aos outros. Não é uma lógica franciscana, o “vamos sofrer sem reclamar”. É o contrário. Não sofrer, se não for necessário.

Uma das coisas que coloco no livro é que não há possibilidade de se conseguir algumas coisas sem esforço. Mas uma das frases que mais ouço dos jovens, e que para mim é muito estranha, é: quero fazer o que eu gosto.

'Tsunami tecnológico' gerou volta da busca por um propósito, diz Cortella

‘Tsunami tecnológico’ gerou volta da busca por um propósito, diz Cortella

 

BBC Brasil – Esse é um pensamento comum entre os jovens quando se fala em carreira.

Mario Sergio Cortella – Muito comum, mas está equivocado. Para fazer o que se gosta é necessário fazer várias coisas das quais não se gosta. Faz parte do processo.

Adoro dar aulas, sou professor há 42 anos, mas detesto corrigir provas. Não posso terceirizar a correção, porque a prova me mostra como estou ensinando.

Não é nem a retomada do ‘no pain, no gain’ (‘sem dor, não há ganho’). Mas é a lógica de que não dá para ter essa visão hedonista, idílica, do puro prazer. Isso é ilusório e gera sofrimento.

BBC Brasil – O sofrimento seria o choque da visão idílica com o que o mundo oferece?

Mario Sergio Cortella – A perturbação vem de um sonho que se distancia no cotidiano. No dia a dia, a pessoa se coloca como alguém que vai ter um grande legado, mas fica imaginando o legado como algo imediato.

Gosto de lembrar uma história com o Arthur Moreira Lima, o grande pianista. Ao terminar uma apresentação, um jovem chegou a ele e disse ‘adorei o concerto, daria a vida para tocar piano como você’. Ele respondeu: ‘eu dei’.

Há uma rarefação da ideia de esforço na nova geração. E falo no geral, não só da classe média. Tivemos uma facilitação da vida no país nos últimos 50 anos – nos tornamos muito mais ricos. Isso gerou nas crianças e jovens uma percepção imediatizada da satisfação das necessidades. Nas classes B e C têm menino de 20 anos que nunca lavou uma louça.

BBC Brasil – Quais as consequências dessa visão idealizada?

Mario Sergio Cortella – Uma parte da nova geração perde uma visão histórica desse processo. É tudo ‘já, ao mesmo tempo’. De nada adianta, numa segunda-feira, castigar uma criança de cinco anos dizendo: sábado você não vai ao cinema. A noção de tempo exige maturidade.

Vejo na convivência que essa geração tem uma visão mais imediatista. Vou mochilar e daí chego, me hospedo, consigo, e uma parte disso é possível pelo modo que a tecnologia favorece, mas não se sustenta por muito tempo.

Quando alguns colocam para si um objetivo que está muito abstrato, sofrem muito. Eu faço uma distinção sempre entre sonho e delírio. O sonho é um desejo factível. O delírio é um desejo que não tem factibilidade.

Muitos jovens querem deixar grande legado, mas não tem noção de esforço, diz filósofo

Muitos jovens querem deixar grande legado, mas não tem noção de esforço, diz filósofo

 

BBC Brasil – Muitos deliram nas suas aspirações?

Mario Sergio Cortella – Uma parte das pessoas delira. Ela delira imaginando o que pode ser sem construir os passos para que isso seja possível. Por que no campo do empreendedorismo existe um nível de fracasso muito forte? Porque se colocou mais o delírio do que a ideia de um sonho.

O sonho é aquilo que você constrói como um lugar onde quer conquistar e que exige etapas para chegar até lá, ferramentas, condições estruturais. O delírio enfeitiça.

BBC Brasil – Qual é o papel dos pais para que a busca pelo propósito dos jovens seja mais realista?

Mario Sergio Cortella – Alguns pais e mães usam uma expressão que é “quero poupar meus filhos daquilo que eu passei”. Sempre fico pensando: mas o que você passou? Você teve que lavar louça? Ou está falando de cortar lenha? Você está poupando ou está enfraquecendo? Há uma diferença. Quando você poupa alguém é de algo que não é necessário que ele faça.

Tem coisas que não são obrigatórias, mas são necessárias. Parte das crianças hoje considera a tarefa escolar uma ofensa, porque é um trabalho a ser feito. Ela se sente agredida que você passe uma tarefa.

Parte das famílias quer poupar e, em vez de poupar, enfraquece. Estamos formando uma geração um pouco mais fraca, que pega menos no serviço. Não estou usando a rabugice dos idosos, ‘ah, porque no meu tempo’. Não é isso, é o meu temor de uma geração que, ao ser colocada nessa condição, está sendo fragilizada.

BBC Brasil – Sempre lemos e ouvimos relatos de conflitos entre chefes e subordinados, alunos e professores. Como se explicam esses choques?

Mario Sergio Cortella – Criou-se um fosso pelo seguinte: crianças e jovens são criados por adultos, que são seus pais e mantêm com eles uma relação estranha de subordinação. A geração anterior sempre teve que cuidar da geração subsequente e essa vivia sob suas ordens.

A atual geração de pais e mães que têm filhos na faixa dos dez, doze anos, é extremamente subordinada. Como há por parte dos pais uma ausência grande de convivência, no tempo de convivência eles querem agradar. É a inversão da lógica. Eu queria ir bem na escola para os meus pais gostarem, não era só uma obrigação.

Essa lógica faz com que, quando o jovem vai conviver com um adulto que sobre ele terá uma tarefa de subordinação, na escola ou trabalho, haja um choque. Parte da nova geração chega nas empresas mal-educada. Ela não chega mal-escolarizada, chega mal-educada.

Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela. Obviamente que ela também chega com uma condição magnífica, que é percepção digital, um preparo maior em relação à tecnologia.

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