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Andréa Pachá, a cronista dos dramas das salas de audiência

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Vocação literária. Andréa Pachá: “Essas histórias (da série da TV) podem ajudar as pessoas a pensarem melhor sobre seus papéis” - Leo Martins / Leo Martins

Vocação literária. Andréa Pachá: “Essas histórias (da série da TV) podem ajudar as pessoas a pensarem melhor sobre seus papéis” – Leo Martins / Leo Martins

 

Juíza usa sua experiência para exercer a vocação literária e vê suas histórias virarem uma série de TV

Simone Candida, em O Globo

RIO – Era a década de 1980, e a jovem de 21 anos, filha de um desembargador e uma professora, havia acabado de sair da faculdade de direito. Ela adorava a carreira jurídica, mas percebia que ainda lhe faltava algo essencial no currículo: vivência. Decidiu, então, investir num plano B e matriculou-se num curso de roteiro cinematográfico na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). A partir daí, viveu um período de imersão no mundo de “humanas”: frequentou grupos de leitura de textos clássicos, virou sócia de um centro cultural, escreveu o roteiro de um longa-metragem e abraçou a profissão de produtora teatral.

Um ciclo que se encerrou quando, passados quase cinco anos, achou que era o momento de retomar o papel de advogada. Quem conhece a formação da juíza Andréa Pachá, de 52 anos, há 22 na magistratura — 15 como titular de Vara de Família —, não tem dificuldade de entender de onde vem sua intimidade com as palavras.

— Ali (na CAL) aconteceu a grande transformação das minhas escolhas e da minha profissão. Tínhamos um grupo heterogêneo, com gente de cinema, teatro, médico, professor de educação física. Deu tão certo que, mesmo depois do curso, continuamos semanalmente nos encontrando na casa do Alcione Araújo (escritor e dramaturgo), trabalhando as leituras — recorda ela, que, mesmo depois de ter se tornado juíza, manteve o hábito de conversas frequentes com o amigo, que assinou a apresentação de seu primeiro livro, “A vida não é justa”, de 2012, e morreu no mesmo ano.

Ao viver intensamente essa espécie de período sabático, ela acredita que ganhou experiência para enxergar, nas histórias testemunhadas em mais de 20 mil audiências, dramas que pareciam extraídos de obras de Nelson Rodrigues e Shakespeare.

— Havia momentos nas audiências de família em que aquilo parecia ficção. Porque é muito rico o que a gente tem de contradição na hora de viver o fim de um relacionamento — diz a juíza-escritora, que, em 2014, lançou “Segredo de Justiça”, mais uma coletânea de crônicas sobre os dramas nos tribunais.

SÉRIE PODE TER SEGUNDA TEMPORADA

A escolha da profissão de juíza se baseou num critério pragmático: ela queria estabilidade financeira. Atualmente, Andréa, que é divorciada e tem dois filhos, vive uma fase em que sua porção artística volta a medir forças com sua versão jurídica. “A vida não é justa” ganhou as telas da TV aberta, dando origem a cinco episódios da série “Segredos de Justiça”, que estreou no “Fantástico”, da Rede Globo, no domingo passado. A atriz Glória Pires interpreta Andréa.

— Acho que essas histórias podem ajudar as pessoas a pensarem melhor sobre seus papéis, suas representações — diz a juíza, que já foi sondada para uma segunda temporada da série.

O ator Marcos Breda, colega de Andréa desde os tempos da CAL, não se surpreendeu quando viu a chamada na TV:

— Andréa sempre teve o dom da palavra e escreve com consistência, de forma simples. O tempo só fez depurar um talento que naquela época se insinuava.

Para a juíza, o sucesso de séries e filmes baseados em livros sobre pendengas judiciais familiares tem uma explicação simples: as pessoas conseguem se colocar no lugar dos personagens. Andréa ressalta que as histórias contadas nos livros são misturas de vários casos que presenciou. E que o papel do juiz nada tem a ver com o de psicólogo ou psicanalista. Mas, depois que ficou conhecida como autora de crônicas sobre divórcios e por causa de seu programa semanal na rádio CBN, muita gente passou a encará-la como terapeuta. Recebe dezenas de e-mails com desabafos:

— Dava para publicar outro livro só com as histórias que me contam.

Há quatro anos, ela assumiu a 4ª Vara de Órfãos e Sucessões da capital e já planeja um livro sobre a velhice. Integrante do Conselho Nacional de Justiça, de 2007 a 2009, ela criou o Cadastro Nacional de Adoção e foi responsável por implantar, em todo o país, as varas especializadas em violência contra a mulher. Diz que, de forma geral, os relacionamentos evoluíram:

— O direito de família tem avançado para prestigiar os afetos, reconhecendo a paternidade socioafetiva, a possibilidade de casais homoafetivos e de adoção de crianças por homossexuais. Esses modelos que temos de novas famílias são interessantes. Porque hoje vivemos um clima de intolerância, de intransigência. As redes sociais viraram campos de batalha.

Ex-detento apresenta TCC para juíza que o permitiu estudar

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2016-06-28-banca avaliadora Lincoln

Acadêmico convidou a magistrada que, na época, concedeu-lhe liberdade condicional

Natalia Uriarte Vieira, na Univale

São José – Um reencontro emocionou quem estava presente e provou que a educação é capaz de transformar vidas. O formando do curso de Direito da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Lincoln Gonçalves Santos, ex-detento, defendeu seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) no dia 22 de junho, no Campus Kobrasol, em São José. Para compor a banca avaliadora, o aluno convidou a juíza Denise Helena Schild de Oliveira, titular da Comarca da 3ª Vara Criminal da comarca da Capital, que concedeu, na época, liberdade condicional a Lincoln em razão da progressão de regime, para ele estudar.

2016-06-28_Juiza participa de banca de TCC

O trabalho defendido pelo acadêmico intitula-se “O sistema prisional brasileiro e a possibilidade de responsabilização internacional do país, por violação de documentos internacionais de proteção dos direitos humanos”. De acordo com o professor do curso de Direito e orientador de Lincoln, Rodrigo Mioto dos Santos, desde o início da orientação eles falavam sobre a possibilidade de convidar a magistrada, ideia aprovada em comum acordo entre aluno, orientador e coordenação do curso.

“Precisamos acreditar que a educação transforma. Neste caso, a educação mudou uma vida. A universidade e todo e qualquer professor, ao meu ver, tem esta missão. Demos a nossa contribuição, agora o futuro está nas mãos do Lincoln”, afirmou o orientador.

2016-06-28-banca Lincoln

A banca avaliadora concedeu nota 10 ao trabalho realizado pelo formando em Direito. A juíza ficou muito satisfeita com o convite e, de forma emocionada, enfatizou: “Nem sempre se tem ideia do quanto é gratificante fazer justiça, abrindo caminhos e oportunizando a ressocialização de quem esteve à margem da sociedade”.

Mais informações: (48) 3211-2011, na coordenação do curso de Direito Campus Kobrasol.

Fotos: Assessoria do TJSC 

De empregada doméstica a juíza: conheça a história da magistrada que chegou a dormir na rua

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marina faleiros

Publicado no Amo Direito

Com 12 anos, a menina Antônia Marina Faleiros, trabalhava em um canavial no interior de Minas Gerais e nem sonhava quem um dia fosse se tornar juíza de Direito. Aos 21, a jovem Antônia, filha de um trabalhador rural e uma dona de casa, foi correr atrás de uma vida melhor em Belo Horizonte. Na cidade grande, a moça da roça chegou a dormir oito meses em um ponto de ônibus porque não tinha onde passar a noite, enfrentando o frio e o perigo da capital mineira.

Para conseguir aprovação em seu primeiro concurso, de oficial de justiça do Tribunal de Justiça de Minas, ela catava, no lixo, folhas borradas de um mimeógrafo onde eram feitas apostilas de um cursinho preparatório. “Gosto de contar essa história para reafirmar: a filha de uma dona de casa simples e de um trabalhador rural pode sim alcançar o que quer. Todos nós podemos”, se orgulha ela.

Hoje, aos 52 anos, casada, a juíza procura fazer a diferença por onde passa. Ela ajuda projetos sociais com crianças em Lauro de Freitas, Bahia, onde exerce o cargo de juíza da 1ª Vara Criminal da cidade. Dra Antônia também desenvolveu um projeto voltado para o resgate da cidadania dos carvoeiros e de seus familiares da cidade de Mucuri, na Bahia, ganhando prêmio no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). “A minha história de superação serve para eu ter a certeza de que, com a minha profissão, eu tenho que dar espaço para quem não tem espaço”, pontua.

Filha mais velha de outros cinco irmãos, a mulher vencedora guarda uma triste lembrança no Estado do Espírito Santo. Um dos seus irmãos, Edésio, morreu em um trágico acidente em Água Doce do Norte, no ano de 1997: ele estava na carroceria de uma caminhonete quando o veículo capotou.
Leia a entrevista do portal Gazeta Online com a juíza:

Como foi a sua infância?

Sou a primeira filha de uma sequência de 5 irmãos que sobreviveram, já que alguns faleceram no parto. Vim do interior de Minas Gerais, há 52 anos. O que eu me lembro e gosto de repetir é que olhando os fatos para trás, no filtro do passado e da saudade, a história parece até bem bonita, mas na época, para ser sincera, não tinha graça nenhuma. Tivemos todos que trabalhar cedo, como uma imposição da necessidade, não por exploração dos pais. Eles não tinham como proporcionar boas condições e tínhamos que trabalhar, era uma realidade dos jovens da roça.

Por que você teve que trabalhar tão cedo?

Bem pequena,como filha mais velha, acabei assumindo a responsabilidade de cuidar dos irmãos mais novos porque meus pais tinham outras obrigações. Com mais idade, vendo as dificuldades do meu pai de colocar comida em casa, já que ele era um trabalhador braçal e ganhava muito pouco, e da minha mãe, costureira, tomei a consciência do trabalho. Antes desse trabalho mais duro, do canavial, já trabalhava lavando roupas para os outros. Juntava dinheiro para comprar caderno para os irmãos e para mim mesma. Com 12 anos, recebi esse convite para trabalhar no canavial, através de “gatos”, que são recrutadores de mão de obra para fazer esse trabalho na divisa entre Minas e São Paulo.

Desde pequena você já era uma pessoa esforçada, que gostava de estudar?

Sempre gostei de estudar. Fui alfabetizada pela minha mãe com 4, 5 anos e sempre fui adepta da leitura. Devo isso aos meus pais, especialmente minha mãe, que era uma pessoa que não tinha uma formação acadêmica apurada, que estudou até a quarta série primária, mas tinha muita curiosidade e vontade de adquirir conhecimento, além de ler muito. Era uma mãe muito exigente com o desempenho dos filhos. Ela sempre dizia uma frase que eu repito para os meus sobrinhos: quem tem a cama feita pode se contentar com o razoável. Quem não tem a cama feita, deve ser muito bom no que faz.

Por que você teve que dormir por oito meses em um ponto de ônibus?

Eu fui para a cidade grande procurar um emprego com 22 anos e nos primeiros dias tive que ficar na casa de parentes, fingindo que estava de passeio. Fiquei um período, mas chegou um momento que ficou insustentável, não dava para ficar de favor. Tive que me arrumar. Arrumei um emprego de empregada doméstica, mas a patroa não gostava que a funcionária dormisse na casa dela, porque ela achava que tirava a liberdade dos donos da casa. Para não ser obrigada a retornar para o interior, para a roça, e ter que abrir mão do meu sonho de fazer um curso superior e trilhar um caminho diferente daqueles que moravam na minha terra, eu mentia para minha mãe que dormia na casa da patroa e fingia para a patroa que dormia na casa de parentes. Mas na verdade eu não dormia na casa de ninguém porque eu não tinha onde morar. Eu passava a noite sentada fingindo que estava esperando ônibus. Como era um ponto muito movimentado, dava para enganar.

Você não tinha medo de dormir no ponto?

Era um lugar movimentado e havia uma outra particularidade: lá no prédio perto de onde dormia, funcionava o posto central da telefonia e, naquele tempo em que não havia celular, as pessoas usavam o posto para fazer as ligações interurbanas. Para me ajudar ainda mais, o preço era mais barato entre 23 horas e 5 da manhã. Ou seja, tinha sempre movimento, havia gente entrando e saindo do posto toda agora. Acontecia de eu notar que tinha alguém me olhando muito e aí eu entrava no posto como se eu fosse fazer uma ligação para disfarçar.

Aquela menina lá do interior imaginava que um dia poderia ser juíza?

Não tinha nem noção do que era um tribunal e muito menos da função de um oficial. Aos domingos, a gente comprava o jornal para ver os anúncios de emprego e em um deles havia o anúncio do concurso, patrocinado por um curso preparatório, com os cargos e as exigências. O de oficial me atraiu porque as matérias eram apenas três: português, matemática e noções de direito.

(mais…)

Em novo romance, Ian McEwan explora mundo jurídico e religioso

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Juíza precisa decidir sobre caso de jovem com leucemia cujos pais religiosos recusam transfusão de sangue

Premiado escritor britânico leu várias sentenças judiciais para escrever novo livro e diz que descobriu nelas um “subgênero literário” - André Teixeira / Agência O Globo

Premiado escritor britânico leu várias sentenças judiciais para escrever novo livro e diz que descobriu nelas um “subgênero literário” – André Teixeira / Agência O Globo

Maurício Meireles em O Globo

RIO – É bem possível que Ian McEwan, em 66 anos de vida, tenha entrado mais vezes na lista final do Man Booker Prize do que em uma igreja. Embora seja ateu, ele, que é um dos maiores romancistas britânicos em atividade, botou as testemunhas de Jeová no centro do conflito legal — e moral — atravessado pela protagonista de seu novo livro: “A balada de Adam Henry”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Jorio Dauster. Enquanto escrevia o romance, McEwan se lembrava de algumas vezes ter feito a seguinte pergunta a membros dessa religião, que batiam à sua porta para convertê-lo: você deixaria seu filho de 8 anos morrer, se para salvá-lo fosse preciso uma transfusão de sangue?

Todos diziam sim, que era a lei de Deus. O romancista rebatia dizendo que muita gente acharia tal resposta estarrecedora: tudo bem um adulto morrer por suas crenças, mas fazer o mesmo com uma criança não é correto, argumentava.

— Para eles, eu só pensava assim porque não entendia a morte. Diziam que a morte não é o fim, mas o começo. O começo da vida no Paraíso — lembra McEwan. — Eles estão convencidos não só de que Deus existe, mas de que conhecem os desejos d’Ele. O que na verdade é só uma versão dos seus próprios desejos.

Testemunhas de Jeová se opõem, por dogma religioso, a transfusões de sangue. E é com isso que Fiona, personagem principal do livro, precisa lidar. Juíza de uma Vara de Família com uma crise no casamento — o marido sai de casa para viver um romance —, ela precisa julgar o caso de Adam Henry. Com 17 anos, sofrendo de leucemia, o rapaz precisa de uma transfusão, mas os pais se recusam a permiti-la. O hospital recorre ao Judiciário para fazer o procedimento de forma compulsória. Assim, em “A balada de Adam Henry” vai buscar a dimensão literária do mundo da lei.

— Há poucos juízes na literatura. Normalmente, quando a ficção encontra a lei é para tratar de criminosos, detetives, espiões, advogados e vítimas. Mas o juiz é uma figura central nesse mundo — afirma Ian McEwan.

‘Às vezes, a lei é muito estúpida. Mas, quando bem aplicada, ela traz uma prosa límpida e precisa.’

– Ian McEwansobre o efeito da lei na literatura

Reconhecido como um mestre da engenharia e da arquitetura do romance, o autor britânico pesquisou muito para escrever o livro — algo comum em seu processo de criação. Ian McEwan conversou com amigos juízes. Leu sentenças judiciais. Foi quando impressionou-se com a qualidade filosófica, histórica e legal dos argumentos dos homens de toga.

— Às vezes, a lei é muito estúpida. Mas, quando bem aplicada, ela traz uma prosa límpida e precisa. Descobri (nas sentenças) um subgênero literário — diz o escritor. — A lei aplicada tem uma dose de racionalidade e compaixão. O direito da família me interessou porque é o mais próximo dos problemas cotidianos, em oposição ao direito penal. Há muito em comum entre a boa literatura e as sentenças judiciais. E, na Vara de Família, os julgamentos envolvem crianças, divórcios, o fim do amor.

Assim, Fiona é um personagem que usa sua racionalidade para organizar a vida alheia — mas que não consegue resolver seus próprios conflitos. Ela escreve muito bem, mas em casa não encontra as palavras para discutir sua vida sexual com o marido. Numa virada da trama, a juíza vai a um quarto de hospital encontrar Adam Henry a fim de clarear seu julgamento sobre o caso. Nesse encontro, ela recita um poema de W. B. Yeats para o jovem, que a partir daquilo começa a questionar suas crenças e depois compõe uma balada — daí o título do romance. O final da história é dúbio.

— Não é uma reflexão sobre a leitura como um todo, mas sobre minha própria experiência ao ler Yeats pela primeira primeira vez, aos 16 anos. Foi o poema que abriu a porta de toda a poesia para mim. Yeats tem esse efeito em adolescentes. Por isso, a balada que Adam compõe é influenciada por ele e tem a mesma métrica do poema — diz Ian McEwan.

CONDIÇÃO HUMANA

Além de ateu, Ian McEwan foi amigo próximo do escritor e jornalista Christopher Hitchens — um crítico sempre virulento da religião. Por isso, poderia surpreender o tratamento humano que o autor britânico dá às testemunhas de Jeová. Mas isso é o resultado de seu amadurecimento. Mais jovem, Ian McEwan escreveu livros conhecidos pela dimensão sombria. Agora, diz ele, sua escrita mudou para uma exploração mais profunda da condição humana.

— Acho que aprendi a perdoar, fiquei mais generoso e tolerante. Por isso, quis tratar as testemunhas de Jeová de modo mais terno. Se eu fosse mais jovem, talvez tivesse agido de forma mais agressiva contra eles, em vez de tentar entendê-los. Seria fácil fazer piada sobre a crença em relação ao sangue, mas não quis desenvolver uma tese ateísta — afirma o escritor. — Sim, meu trabalho mudou, até porque comecei muito jovem. Mas ainda estou interessado em conflitos, dilemas morais e em tentar entender quem nós somos.

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