Contando e Cantando (Volume 2)

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Julio Cortázar será publicado pela Companhia das Letras

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O escritor argentino Julio Cortázar na sua casa em Paris – Ulf Andersen / Getty Images

 

Primeiro título será caixa com todos os contos do argentino, inédita no Brasil

Emiliano Urbim, em O Globo

RIO — O Grupo Companhia das Letras anunciou nesta segunda-feira que vai republicar toda a obra de Julio Cortázar (1914-1984), considerado um dos maiores escritores argentinos do século XX. Após meses de negociação, a editora paulista adquiriu os direitos de publicação, que eram da Civilização Brasileira, selo do Grupo Editorial Record.

O primeiro título, inédito no Brasil, chega em 2019: uma caixa em dois volumes com todos os contos do autor. Em seguida será a vez do romance experimental “O jogo da amarelinha” (1963), considerado sua obra-prima. Também está prevista a publicação de “Os autonautas da cosmopista” (1983), de Cortázar com Carol Dunlop (sua última mulher), fora de catálogo em português desde 1991.

As capas das novas edições brasileiras foram encomendadas para o americano Richar McGuire, capista da revista “The New Yorker” e autor da graphic novel “Aqui”.

“Cortázar começa a ser lido de um jeito novo, menos automático e reverente”, diz o editor Emilio Fraia em um comunicado da Companhia das Letras. “Às vezes é preciso que surja uma nova geração de leitores para enxergar um escritor com certa distância. É o que vamos ter a oportunidade de fazer agora com Cortázar.”

Nova biografia de Cortázar faz aflorar debates polêmicos sobre sua vida

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Livro de Miguel Damau mostra a relação asfixiante do escritor com sua mãe, relações incestuosas com a irmã e as obsessões sexuais do autor de ‘Jogo de amarelinha’

Publicado no El País

“Não posso ser o que vê em mim. E não posso ser outra coisa em liberdade, porque em seu espelho de sorriso suave está a imagem que esmaga, o filho verdadeiro e a medida da mãe, o bom pinguim rosa vendo e vivendo e tão valente até o fim, a forma que me disse em seu desejo: honrado, carinhoso, feliz, desmaiado”. Foi o que escreveu Julio Cortázar já adulto em uma carta-poema que nunca se atreveu a enviar para sua mãe, com a qual, no entanto, manteve correspondência ininterrupta durante 30 anos.

O peso desse matriarcado é a ponta do iceberg de uma asfixia familiar insuportável, uma provável relação incestuosa com a irmã, o menor peso na sua vida e obra da viúva Aurora Bernárdez, um tratamento hormonal para o seu gigantismo, cujos efeitos colaterais converteram-no em um predador sexual quase aos 60 anos, e a morte por leucemia, sim, embora o golpe de misericórdia tenha sido a aids contraída em uma transfusão de sangue, são os aspectos principalmente freudianos do grande escritor argentino que Miguel Dalmau faz aflorar em Julio Cortázar. O cronópio fugitivo (Edhasa), volumoso (640 páginas) e um polêmico retrato do autor de O jogo da amarelinha.

Cortázar buscava em sua obra (e, por extensão, em sua vida) abandonar uma realidade que lhe parecia incompleta, saltá-la, cruzar a porta, o que explicava suas desconexões e sua tendência a ficar distraído. “Estado de paisagem: quando estou distraído, eu escapo com isso”, dizia. “Eu me limitei a colocar uma lanterna no outro lado dessa porta, seguindo as pistas que os demais biógrafos haviam abandonado”, disse Dalmau, em Barcelona, aonde o garoto Cortázar chegou com sua família em junho de 1917 e aprendeu o que eram os traumas (um galo o despertou no meio da noite e o libertou de seus pesadelos) e onde um trencadís (mosaico) do dragão de muitas cores do Park Güell gaudiniano marcou sua vida, inconscientemente, com imagens desconexas de azulejos coloridos e seu fascínio pelos caleidoscópios reais e literários.

Para Dalmau (Barcelona, 1957), autor da controversa biografia de Gil de Biedma (2004) e da completa Los Goytisolo (1999) e que investiu três anos de trabalho e a dissecação de meio século de obras sobre o autor de Historias de cronopios e de famas, o peso do gineceu argentino marcou toda a vida do escritor. “A mãe, dona Hermínia, era filha ilegítima, e tanto ela quanto a irmã de Cortázar, Ofelia, viveram dele durante toda a vida, porque o pai as abandonou rapidamente: até um mês antes de morrer, enviava cheques da Europa, mas acontece que quem teve que exercer as funções de pai de família desde muito jovem era uma criança introvertida, com problemas de gigantismo e que ficava lendo escondido no sótão o dia inteiro”, afirma o biógrafo, que não hesita em classificar o escritor como “homem bloqueado pelos tabus e um escravo da sua mãe”.

Dalmau (que não pode usar fotos nem trechos dos livros do escritor e que viu como Circe relutava a publicar a biografia) une a tudo isso um fator delicado: em 15 de outubro de 1951, Cortázar instalou-se em Paris. Oficialmente, era porque não poderia suportar a asfixia da ditadura, mas Perón estava no poder desde 1946 e havia acabado de ser publicado, naquele mesmo mês, seu primeiro livro de contos, Bestiario, que no começo (mais…)

28 livros que são diamantes para o cérebro de crianças e adolescentes

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Euler de França Belém, no Jornal Opção

Bons livros para crianças e adolescentes — a chamada literatura infanto-juvenil — são eternos e, mais, podem ser lidos por adultos com igual prazer. Muitos livros, mesmo de qualidade mediana, se tornaram clássicos. As obras de Monteiro Lobato, Alexandre Dumas, Irmãos Grimm, Ruth Rocha, Lygia Bojunga, Ana Maria Machado, H. C. Andersen não morrem jamais. São para sempre. “Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Mólnar, para ficar num exemplo, é um clássico universal e atemporal.

“O que me diz, Louise?”, de Slade Morrison e Toni Morrison
O que me diz Louise

Nobel de Literatura, a americana Toni Morrison é uma escritora notável. O livrinho “O Que Me Diz, Louise?” é uma celebração da leitura, da cultura, do aprendizado. Sobretudo, do prazer e não da obrigação de ler. Mesmo num dia chuvoso, Louise sai de casa em busca de um refúgio quase secreto: a biblioteca, espécie de porta aberta para todas as coisas do mundo. A biblioteca, com seus vários livros, transforma os seres humanos e, daí, o mundo. Ah, o livro nada tem de chato. (Glo­binho, 32 páginas, tradução de José Rubens Siqueira, ilustração de Shadra Strickland)

 

“O Pequeno Nicolau”, de Sempé-Goscinny

O Pequeno NicolauCom ilustrações de Jean-Jacques Sempé, o livrinho aparentemente despretensioso escrito pelo francês René Gos­cin­ny, criador de Asterix, que viveu em Buenos Aires durante a infância e parte da juventude, narra em primeira pessoa as aventuras do menino Nicolau. Contando suas experiências na escola, em casa com os pais e com os amigos, Nicolau diverte e ao mesmo tempo apresenta uma narrativa de como uma criança percebe o mundo ao seu redor. Para os interessados pela língua francesa, vale a pena ler o livro no original. A prosa da obra é fluente, precisa e acessível (Mar­tins Fontes, 136 páginas).

 

“20 mil léguas submarinas”, de Júlio Verne

20 mil leguas submarinasA edição contém o tex­to integral e 30 ilustrações originais. Um dos criadores da ficção científica, Júlio (Jules) Verne é uma espécie de Nos­tradamus da literatura e, mesmo, da ciência. Invenções às quais não teve acesso, pois morreu em 1905, foram anunciadas em seus livros. Prisioneiro do capitão Nemo, o professor Aronnax e Ned Land vivem a bordo do submarino Náutilus. Sem o didatismo de alguns autores, privilegiando a imaginação, a sua e a dos leitores, Verne mostra a riqueza do mundo marinho. (Zahar, 472 páginas, tradução de André Telles)

 

“O Jardim Secreto”, de Frances Rodgson Burnett

O Jardim SecretoO romance “O Jardim Secreto”, de Frances Rodgson Burnett, é sobre o encontro entre uma menina e um menino, sobretudo é uma celebração da amizade entre dois seres e a descoberta, por assim dizer, do mundo. O garoto vive numa cama, mais morto do que vivo, até a chegada de uma menina esperta que injeta vida em seu ser e o retira do quarto. Juntos, descobrem um jardim secreto e uma história, que, como o belo jardim, não pode mas é devassada. (Há duas traduções de qualidade pela Editora 34, de Marcos Maffei, e pela Companhia das Letras/Penguin, de Sônia Moreira. Há uma bela edição, em pop art, da Publifolha)

 

“4 Contos”, de e. e. cummings

4 ContosNão estranhe: é assim mesmo — e. e. cummings. É como o poeta assinava seus livros, com minúsculas. Todos conhecem cummings como um poeta extra­or­dinário, traduzido no Brasil por Augusto de Campos. No seu único livro para crianças, o bardo mostra que tem a imaginação adequada. Os contos versam sobre nascimento, amor. Quem aprecia Tolkien não se espantará com o elfo criado pelo vate americano. Imagine um elefante que tem carinho por uma borboleta e uma casa, meio solitária, que se declara apaixonada por um passarinho. Há duas meninas, Eu e Você. Lúdico e inteligente. (Cosac Naify, 48 páginas, tradução de Cláudio Alves Marcondes, ilustrações de Eloar Guazzelli)

 

“Vozes no Parque”, de Anthony Browne

Vozes no ParqueAnthony Browne ganhou o prê­mio Hans Chris­­­tian An­dersen, o No­­bel da literatura infanto-juvenil. O li­vro convida o leitor para pensar sobre a diversidade do mundo, sobre a interpretação dos fatos. Um passeio, feito num parque, é relatado por quatro vozes diferentes, com suas nuances. Resulta que um passeio pode ser muitos passeios, ao incorporar vozes diversas. “Um convite para nos colocarmos no lugar do outro, para ampliarmos nosso horizonte e para pensarmos sobre algumas questões como o isolamento, a amizade e as coisas estranhas em meio ao familiar”, segundo a editora. Atente-se para as ilustrações. (Zahar, 32 páginas, tradução de Clarice Duque-Estrada)

 

“Huckleberry Finn”, de Mark Twain

Huckleberry FinnPense em Mark Twain como o Mon­teiro Lobato dos Estados Uni­dos, com uma pitada a mais de humor. O menino Huck Finn é esperto, inteligente e até malandrinho. Suas histórias divertidas sempre levam o leitor a sorrir. É quase um romance de formação, preciso e enxuto. O menino amadurece durante suas peripécias. Fica-se com a impressão, às vezes, de que Huck Finn é um menino-adulto ou um adulto-menino. É o mais importante livro da literatura juvenil (ou infanto-juvenil) dos Estados Unidos, inclusive adaptado para o cinema. (L&PM, 320 páginas, tradução de Rosaura Eichenberg. Há outra edição. A leitura em inglês talvez seja mais proveitosa)

 

“As aventuras de Robin Hood”, de Alexandre Dumas

As aventuras de Robin HoodRobin Hood é um clássico da literatura universal (poucas pessoas não sabem quem é). As histórias estabelecidas por Alexandre Dumas são as mais bem cuidadas e são ambientadas nos séculos 12 e 13, sob o reinado de Ricardo Coração de Leão. O criminoso que rouba dos ricos para doar aos pobres é admirador do rei Ricardo e batalha para que volte ao trono. Nas matas de Sherwood e Barnsdale, Robin Hood e seus aliados, como João Pequeno, lutam contra o xerife de Nottingham e os soldados do rei usurpador. Há também a bela Lady Marian, paixão de Robin Hood, e o frei Tuck, seu aliado. (Zahar, 472 páginas, tradução de Jorge Bastos)

 

“Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár

os Meninos da Rua PauloO húngaro Ferenc Molnár escreveu um dos mais belos livros juvenis (que todo adulto lê com prazer). Paulo Rónai, húngaro que veio para o Brasil fugindo do nazismo, é o exímio tradutor desta obra-prima. Ele escreveu o prefácio e o poeta e tradutor Nelson Ascher é autor do posfácio e das notas. Brigas de meninos, nas ruas de Budapeste, no século 19, poderiam render uma reportagem de jornal. Nas mãos de Ferenc Molnár resultaram num romance delicioso, escrito com graça e grande compreensão do universo dos garotos. (Cosac Naify, 70 páginas)

 

“Os três mosqueteiros”, de Alexandre Dumas

Os três mosqueteirosUma das graças do livro do escritor francês Alexandre Dumas é saber que os três mosqueteiros são, na verdade, quatro — Athos, Por­thos, Aramis e D’Artagnan. O romance de capa e espada se tornou universal. A versão brasileira, integral, contém mais de 100 ilustrações originais. A editora disponibiliza duas edições — uma mais barata e outra mais sofisticada. Os quatro heróis permanecem encantando os leitores. Não só. A história, levada ao cinema, encanta os espectadores. (Zahar, 688 páginas, tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda)

 

“O Pequeno Príncipe”, Saint-Exupéry

O Pequeno PrincipeHá um preconceito intelectual contra este belo livro, so­bretudo no Bra­sil. Crianças e adolescentes (se não tiverem ab­sorvido a ranzinzice dos adultos) podem lê-lo com proveito. As mensagens podem soar piegas, num mundo feito de racionalismo consumista e sempre apressado, mas a história, com suas frases (dizem que moralistas), é bonita. Vale ler a tradução, mais madura e precisa, de Ferreira Gullar. O livro, na pena do maior poeta brasileiro vivo, ficou mais adulto. (Agir, 96 páginas)

 

“Grande Sertão: Veredas”/graphic novel, de Guimarães Rosa

42749000“Grande Sertão: Veredas, dirão, não é romance para crianças e adolescentes. De fato, não é. Porém, “Grande Sertão: Ve­redas”/graphic novel, de tão bem adaptado e, até, facilitado, pode ser lido por jovens atentos. O roteiro é de Eloar Guazzelli e a arte, de Rodrigo Rosa. O livro de Guimarães Rosa é uma das obras realmente imperdíveis da literatura brasileira. (Globo Livros, 180 páginas. O único problema é o preço: 199,90 reais)

 

“Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato

cacadas de pedrinhoO Brasil está cada vez mais urbano, com espaço cada vez menor para a área rural. Crianças, adolescentes e mesmo adultos sabem cada vez menos sobre assuntos que tenham a ver com o campo. O belo “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, se torna, portanto, mais interessante do que nunca. Porque põe seus leitores em contato com a natureza, com um garoto que inventa coisas para se divertir. Hoje, tirar uma criança das teclas de computadores e smartphones não é fácil. Monteiro Lobato, com sua rica imaginação, às vezes pecando por certo didatismo, provavelmente ainda consegue encantar as crianças e, até, os adolescentes. (Globinho, 72 páginas)

 

“O Menino e o Tuim”, de Rubem Braga

O Menino e o TuimO cronista Rubem Braga prova que sabe escrever para crianças com a história “O Menino e o Tuim”. O livro mostra a relação de uma criança com um passarinho. “Além de todo encantamento e alegria de ter um bichinho, o menino é forçado a lidar com as obrigações, necessidades e dilemas que vêm junto com o animalzinho quando ele é domesticado. Com uma linguagem sensível e poética, Rubem Braga capta toda a emoção de uma amizade pura e sincera e outras experiências transformadoras da infância”, sintetiza a editora. (Galerinha Record, 24 páginas)

 

“Andira”, de Rachel de Queiroz

AndiraAndira é uma criança? Não, Andira é uma andorinha-criança, quer dizer, um filhote. Pequena, e como não sabe voar, as demais andorinhas, que se preparam para migrar no inverno, deixam-na para trás. Como muitas andorinhas, Andira nasceu numa igreja e, na ausência dos parentes, é criada por morcegos. Estes se tornam seus mestres. (José Olympio, 64 páginas, ilustrações de Cláudio Martins)

 

“Marcelo, Marmelo e Martelo”, de Ruth Rocha

Marcelo Marmelo e MarteloRuth Rocha conhece como poucos o que se passa pela cabeça das crianças e adolescentes. Ela escreve com uma clareza impressionante e não subestima seus leitores. Por isso seus livros são tão lidos e adorados. Em “Marcelo, Marmelo e Martelo”, a escritora explora a vida de meninos que moram na cidade. São garotos espertos e ativos. Marcelo é um criador de palavras novas. Nas livrarias podem ser encontradas as belas e precisas adaptações que Ruth Rocha fez para a “Ilíada” e a “Odisseia”, de Homero”, e “Tom Sawyer”, de Mark Twain. Crianças ganham, muito, se lerem as adaptações. (Salamandra, 64 páginas, ilustrações de Mariana Massarani)

 

“A História de Emília”, de Monteiro Lobato

42127738Talvez seja possível dizer que Monteiro Lobato inventou a literatura infantil e infanto-juvenil no Brasil. Suas histórias não perdem vitalidade e permanecem modernas, ou, diria Carlos Drummond de Andrade, eternas. O escritor era um homem sisudo, mas tinha uma capacidade de imaginação imensa e, principalmente, não menosprezava a capacidade de entendimento de crianças e adolescentes. A história de Emília, uma boneca falante, é uma de suas principais criações Mexe com a percepção criadora das crianças. O curioso é que a personagem, com sua irreverência, agrada tanto meninas quanto meninos. É tão moleca, esperta e divertida quanto qualquer criança. (Globinho, 32 páginas)

 

“Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcelos

Meu Pé de Laranja LimaO romance “Meu Pé de Laranja Lima” não deixa de ser piegas e, em alguns momentos, até primário. A exploração do sentimentalismo ganharia se incluísse, de modo mais incisivo, o humor, o riso (o mundo infantil raramente é tão lamentoso). Mas uma coisa é certa: José Mauro de Vasconcelos sabe comover crianças, pelo menos as do meu tempo de menino (entre as décadas de 1960 e 1970). A história do menino e do Portuga tem um quê de Mark Twain? Um quê, no caso, significa uns 20%. (Melhoramentos, 192 páginas)

 

“O estribo de prata”, de Graciliano Ramos

O estribo de prata“Vidas Secas” é, cla­ro, um roman­ce adulto. Mas a história de Fabiano e da cachorra Baleia pode ser lida com proveito por jovens perceptivos. “O Estribo de Prata” é, ao contrário, um livro mesmo para garotos. Trata-se de um causo contado por Alexandre, um misto de caçador e vaqueiro. Simples, direto e muito bem escrito. Menos seco que a prosa tradicional de Graciliano Ramos. Há, por assim dizer, um pouco mais de emoção. (Galerinha Record, 24 páginas, ilustrações de Simone Matias)

 

“A Menina Cláudia e o Rinoceronte”, de Ferreira Gullar

A Menina Cláudia e o RinoceronteAo criar colagens, o poeta Ferreira Gullar decidiu escrever “A Menina Cláudia e o Rinoceronte”. A garota, brincando com papel picado, “cria um rinoceronte. Ela toma gosto e logo faz vários outros, um de cada cor, era muita alegria inventar todo aquele novo e fantástico universo. Até que sua própria criação a surpreende obrigando a menina a embarcar numa incrível jornada e tanto pelos recortes de papel. Toda a história é contada por Gullar através de poemas leves e divertidos. Um livro lindo, uma verdadeira obra de arte visual com texto sensível e envolvente”, anota a editora. (José Olympio, 48 páginas)

 

“Raul da Ferrugem Azul”, de Ana Maria Machado

Raul da Ferrugem AzulGanhadora do Prêmio Hans Chris­tian Andersen, Ana Maria Machado é autora de livros de alta qualidade, como “Raul da Ferrugem Azul”, “História Meio ao Contrário?” e “Bisa Bia Bisa Bel”. Raul aparece com manchas azuis em todo o corpo. Depois de se lavar, usando xampu, álcool e detergente, conclui que tem ferrugem azul. A escritora conta a história com graça e sempre levando em consideração que o leitor é inteligente e perspicaz. (Salamandra, 64 páginas, ilustrações de Rosana Faria)

 

“A Bolsa Amarela”, de Lygia Bojunga

A Bolsa AmarelaLygia Bo­junga é uma escritora de livros infanto-juvenis? Consagrou-se assim. Acima de tudo, é uma grande escritora. Em conflito com a família e consigo mesma, uma menina esconde na sua bolsa “três grandes vontades”: “a de crescer, a de ser garoto e a de se tornar escritora”. Afinal, criança tem vontade ou sua vontade é a dos adultos? A garota relata como é seu cotidiano, intercambiando o mundo real, no qual vive com a família, e seu próprio mundo, no terreno da imaginação. (Casa Lygia Bojunga, 134 páginas)

 

“Histórias da Velha Totônia”, de José Lins do Rego

Histórias da Velha TotôniaJosé Lins do Rego tem livros magníficos sobre a infância. “Me­nino de Enge­nho”, às vezes subestimado, é um belíssimo romance. O es­critor paraibano escreve muito bem sobre meninos. “Quisera que todos eles (os meninos) me ouvissem com a ansiedade e o prazer com que eu escutava a velha Totônia do meu engenho”, disse o autor paraibano. A linguagem coloquial, oralizada, torna o livro extremamente acessível, divertido e delicioso. (José Olympio, 120 páginas)

 

“17 É Tov!”, de Tatiana Belinky

17 e TovTatiana Belinky nasceu na Rússia e veio cedo para o Brasil. Traduziu para o português Gógol e Tchekhov, sempre com mestria. Ao mesmo tempo, escreveu belos livros no campo infanto-juvenil — com a percepção de que a criança e o adolescente são inteligentes e dispensam didatismos excessivos. “Em ‘17 É Tov!’ ela descreve os primeiros 17 anos em São Paulo, por meio de crônicas divertidas e bem-humoradas. Desde a chegada no bairro paulistano de Hi­gienópolis até o casamento de seu irmão com uma prima, a autora narra casos que marcaram sua vida e sua experiência em um novo país”. Suas memórias, escritas com leveza, são divertidas e atentas. (Cia das Letrinhas, 88 páginas, ilustrações de Maria Eugênia)

 

“A Árvore dos Desejos”, de William Faulkner

a-arvore-dos-desejos-william-faulkner-14710-MLB169456628_8539-OO escritor americano William Faulkner é mais conhecido por seus romances mais complexos, como “O Som e a Fúria”, “Luz em Agosto”, “Absalão, Absalão” e “Enquanto Agonizo”. “A Árvore dos Desejos”, ao contrário dos chamados livrões, é escrito numa prosa mais simples e acessível. O menino Maurice convida a garota Dulcie para saírem em busca da Árvore dos Desejos. Eles vão para a floresta, ao lado de outras crianças. O Nobel de Literatura manipula bem o entrelaçamento entre o real e o fantástico. (Cosac Naify, 56 páginas, tradução de Leonardo Fróes, ilustrações de Eloar Guazzelli)

 

“Os Gatos de Copenhague”, de James Joyce

os-gatos-de-copenhague-james-joyce-8573214112_200x200-PU6eb479c3_1O autor de “Ulysses”, James Joyce, escrevendo para crianças? Sim e, melhor, o faz muito bem. “Os Gatos de Copenhague”, com qualificada tradução de Dirce Waltrick do Amarante, é divertido. O autor de “Ulysses” envia, da Dinamarca, uma carta para seu neto Stephen Joyce, na qual conta a história de que não há gatos em Copenhague. Que o leitor não se assuste: a história é simples, sem as firulas experimentais dos outros textos do escritor irlandês. (Iluminuras, 24 páginas, ilustrações de Michaella Pivetti)

 

“Discurso do urso”, de Júlio Cortázar

discurso-de-urso-julio-cortazar-emilio-urberuaga-450O escritor argentino Julio Cor­tázar é mais conhecido por “O Jogo da Amarelinha”, romance para adultos. O conto poético “O Discurso do Urso”, seu primeiro texto infantil, versa “sobre a vida e os seres humanos, vistos através dos olhos de um ursinho que vive passeando pelos canos dos prédios. Neste vai e vem ele ouve conversa e explora” o “cotidiano” das pessoas — “e suas qualidade e imperfeições — com curiosidade, deslumbre e audácia”, ressalta a editora. (Galerinha Record, 28 páginas, tradução de Léo Cunha)

 

“Caninos Brancos”, de Jack London

CapaJack London é um escritor brilhante, porém, como pouco dado a firulas experimentais, às vezes é sugerido como do segundo time. O autor de “O Cha­mado Selvagem” é responsável, em larga medida, pela formação e ampliação do número de leitores. Sua prosa é de qualidade, densa e, ao mesmo tempo, simples. Pode ser lida, com igual prazer, por crianças, adolescentes e adultos. “Caninos Brancos” é um de seus mais belos romances. Um lobo do Yukon, aprisionado, é utilizado como puxador de trenó e como cão de rinha. Resgatado por um homem “não-selvagem”, readquire, por assim dizer, sua “dignidade” e, aos poucos, volta à natureza. As relações homem-natureza são mostradas com rara felicidade por Jack London. A história foi adaptada para o cinema, mas nada substitui a leveza contagiante do texto do escritor americano (há pelo menos duas traduções de qualidade. Sônia Moreira é responsável pela da Companha das Letras/Penguin, com 296 páginas, e Rosaura Eichenberg fez a da L&PM, com 232 páginas)

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Morre Aurora Bernárdez, viúva de Cortázar e peça-chave da sua literatura

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Aurora Bernárdez em uma exposição em 2005. / ricardo gutierrez

Aurora Bernárdez em uma exposição em 2005. / ricardo gutierrez

Ela foi responsável por revitalizar a obra do grande autor com sua amiga Carmen Balcells

Juan Cruz Ruiz, no El País

Aurora Bernárdez, viúva de Julio Cortázar, tradutora literária de Camus, Sartre, Durrell…, morreu no sábado aos 94 anos em um hospital em Paris. Tinha sofrido uma queda na sexta-feira, ao sair de uma consulta médica, como consequência de um acidente vascular cerebral. Foi casada com Cortázar desde os anos cinquenta, foi relevante na escrita de seus primeiros livros mais importantes, incluindo O Jogo da Amarelinha; aparece em outros, como companheira fiel, como uma memória inteligente e infatigável. Depois de sua separação, nos anos setenta, o escritor viveu com outras mulheres, a agente Ugné Kurvelis e a fotógrafa e escritora Carol Dunlop; depois da morte desta última, em 1983, Cortázar adoeceu gravemente. Foi Aurora Bernárdez quem cuidou dele até o final.

Depois do falecimento do autor de Todos os Fogos o Fogo, foi Bernárdez quem se encarregou de revitalizar a obra do grande cronópio, que continua sendo lido em todo o mundo de idioma castelhano como se nunca houvesse desaparecido. Esta e outras admiráveis traduções (de William Faulkner, por exemplo) são suas melhores obras, assim como sua capacidade para lembrar e para contar com todo detalhe o que viveu junto a Cortázar e outros grandes escritores do século XX.
mais informações

Bernárdez foi a inteligente alegria, a força de uma memória prodigiosa; conseguiu a publicação das cartas de Cortázar, memorável esforço editorial que agora é um tesouro, sobre a vida do autor de O Jogo de Amarelinha; também foi sua mão que seguiu até o último instante a revitalização necessária da obra desse escritor relevante na vocação literária ibero-americana de nossos dias.

Tudo o que aconteceu com Julio Cortázar como autor, depois da morte triste em 1984, tem a ver com essa mulher miúda e sorridente, que deixava de sorrir quando se diziam tolices ou equívocos ao seu redor. Perseguiu com sensatez a verdade sobre Julio, contra aqueles que alimentaram, com boas intenções às vezes, falsidades que ela considerou pouco felizes. Queria que as pessoas soubessem realmente quem foi Julio, desde que o conheceu nos anos 50 do século passado até que se separaram, surpreendentemente, e até que depois, nos últimos tempos do autor de O Jogo de Amarelinha, voltou a ficar ao seu lado para cuidar dele depois de perder sua última mulher, Carol Dunlop, e de, além disso, perder a saúde.

Em todo esse trânsito não se ouviu dela nenhuma palavra mais alta sobre sua convivência com Julio, e de maneira milagrosa recordou não apenas os períodos que se manteve ao seu lado, mas que tinha viva ciência de coisas que aconteceram a Cortázar quando já não estavam juntos. Com uma constância que se deve ao amor, nunca interrompido, ela retomou (com a agente literária Carmen Balcells), nos anos 90, a presença de Cortázar nas livrarias, empreendeu reedições de livros que voltaram a ter vida e resgatou do esquecimento (por exemplo, o livro sobre Yeats) manuscritos perdidos ou edições que se tornaram impossíveis de encontrar quando na Espanha e no mundo a curta memória literária havia condenado Cortázar a ser, unicamente, o autor daquele famoso romance.

Simbolicamente, ela acompanhou muitos jovens escritores e leitores, em Madri, em torno de 1994, quando a editora Alfaguara começou a fazer essas reedições de resgate, que puseram outra vez Cortázar ao alcance de todos os gostos e de todo mundo. Nos últimos tempos, pelas mãos de Carles Álvarez e de seus amigos do Centro de Arte Moderno de Madri, essa obra passada e presente assumiu uma extraordinária atualidade; na Casa do Leitor, do Matadero Madrid, se pode ver uma exposição que expressa a vida de Cortázar como leitor, montada pelo citado centro de Arte Moderna; lá está Cortázar lendo e escrevendo, e vivendo depois de ter sido declarado, estupidamente, morto para a atualidade literária.

A pessoa que tornou possível esse resgate que dura até hoje e que perdura é Aurora Bernárdez, a inteligência alegre que contava, sem perder jamais nem um ponto e vírgula, a vida de Julio. Quando se recuperou Cortázar, depois dos anos de esquecimento após sua morte, se divulgou um slogan, Amamos tanto Julio; à frente desse pelotão numeroso e inapreensível estava Aurora Bernárdez.

Alessandro Garcia resenha seu conto predileto: ‘O perseguidor’, de Julio Cortázar

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Sérgio Tavares, no Homo Literatus

-Alessandro-PB

1.
Em matéria do O Globo, por ocasião do centenário de Julio Cortázar, o editor catalão Carles Álvarez Garriga relembra o que diz Holden Caulfield em O apanhador no campo de centeio. Há dois tipos de escritores preferidos: os clássicos, que se lê com grande atenção, mas com um pouco de distância; e aqueles com os quais se gostaria de conversar por telefone. Tal qual Garriga, Cortázar é aquele com quem eu gostaria de conversar por telefone.

2.
Em primeira instância, a literatura de Cortázar tende a ser classificada como fantástica. No entanto, como a própria declaração do autor, no livro Conversas com Cortázar, de Ernesto Gonzáles Bermejo, definir o fantástico encobre em si uma gama demasiada de possibilidades. Mas, se for inevitável rotular sua obra, a melhor definição provavelmente esteja como narrativas de estranhamento. Estranhamento, este, presente desde a vertigem que se abate sobre o leitor de Casa Tomada, obra-prima de seu livro em que estreia na prosa, Bestiário: neste, e no melhor de sua obra, é o sentimento de estranhamento que, aos esbarrões, vai se ajeitando onde menos se espera e surgem, então, os encontros fora de hora ou de lugar, as brechas e os interstícios mais insuspeitos no cotidiano mais banal.

3.
Um trecho, de Reunião com um círculo vermelho, do livro Alguém que Anda por Aí, é perfeito para ilustrar este estranhamento, ajeitando-se aos esbarrões: “Você, como acontece tantas vezes, não teria podido precisar o momento em que acreditou entender; também no xadrez e no amor há esses instantes em que a névoa se levanta e então se realizam os lances ou os atos que um segundo antes teriam sido inconcebíveis.”

4.
Como o vampirismo, tema do conto acima, Cortázar nutria algumas obsessões, elementos constantes em seus textos: estruturas e meios de passagem, tais como metrôs, bondes, barcos e pontes; o jogo — como um instrumento revelador de potencialidades que desviam da normalidade repetitiva; e as possibilidades/impossibilidades espaço-temporais.

5.
Em suas tramas, todos estes elementos remetem a outra coisa. São como válvulas para instantes epifânicos. E um destes temas, as possibilidades/impossibilidades espaço-temporais, é centro do meu conto preferido: O perseguidor, do livro As Armas Secretas. Um conto cuja conclusão pode ser: existem dois tipos de tempo — o do relógio e aquele que vivemos de verdade. O segundo é o que está em nossa cabeça, sem obedecer às regras da física.

6.
Dedicado a Charlie Parker, este conto é considerado o divisor de águas da carreira de Cortázar. O próprio autor considera que, a partir daí, o personagem deixa de ser um joguete a serviço da trama e passa a ser o centro da narrativa. Ele se realiza, e se concretiza, pela busca do que Cortázar chamou de “fato humano essencial”. Publicado em 1959, tem como personagem principal Johnny Carter, saxofonista virtuose inspirado na figura daquele a quem o conto é dedicado. A partir do narrador, Bruno, um crítico musical, Cortázar nos faz acompanhar o desespero de Johnny, angustiado não só pelo abuso de drogas, mas por um desejo de romper barreiras, de fazer o tempo — do relógio — trabalhar a seu favor, estendê-lo de tal modo como o tempo de sua cabeça, de forma que pudesse viver “mil vezes mais do que estamos vivendo por culpa dos relógios.”

7.
Mesmo que a angústia em relação ao tempo fosse o único cerne deste conto — nos jogando na fronteira de compreender o que é delírio e o que é genialidade naquele músico —, já teríamos a melhor realização de Cortázar para uma de suas obsessões. Além disso, no entanto, O perseguidor faz do jazz (paixão e outro elemento recorrente do autor) a forma perfeita de questionar a problemática da linguagem artística, questão fundamental em sua obra. Cortázar ambicionava na literatura a liberdade criativa do jazz. E se temos uma história onde este ecossistema é perfeita e fascinantemente apresentado — com o universo noturno cool de bares e de ensaios, o cotidiano repleto de mulheres e colegas de banda igualmente envolvidos com drogas, e mesmo o crítico musical, um branco que pretende compreender a obra de Johnny, traduzindo para outros brancos o universo genial e indescritível do jazz —, também temos um conto que reúne as características fundamentais da prosa cortazariana, em sua visão da arte como busca constante e como rebelião. Com a criação de Johnny e seus delírios cotidianos — com sua mente que percorre dias e meses entre duas estações de metrô separadas por minutos — , Cortázar reflete em seu personagem o artista que era, buscando extravasar os limites e escrever com invenção constante, improvisando através de trajetos labirínticos. Uma busca que podia levar à destruição, mas que tal qual Johnny, fez de Cortázar um constante perseguidor.
 

Trecho do conto ‘O perseguidor’, de Julio Cortázar

Nesse momento tenho certeza de que Johnny diz alguma coisa que não nasce somente do fato de estar meio louco, tenho certeza de que a realidade escapa dele e deixa nele uma espécie de paródia que Johnny transforma em esperança. Tudo que Johnny me diz em momentos assim (e faz mais de cinco anos que Johnny me diz e diz a todo mundo coisas parecidas) não se pode escutar prometendo a si mesmo que depois pensará de novo no assunto. Assim que voltamos para a rua, assim que é a lembrança e não Johnny quem repete as palavras, tudo se torna uma invenção da maconha, um monótono agitar de mãos (porque há outros que dizem coisas parecidas, toda hora encontramos depoimentos parecidos) e depois da maravilha nasce a irritação, e pelo menos comigo acontece de sentir como se Johnny tivesse estado me gozando. Mas isso acontece sempre no dia seguinte, e não enquanto Johnny está falando, porque então sinto que existe alguma coisa que quer ceder em algum lugar, uma luz que procura se acender, ou ainda como se fosse necessário quebrar alguma coisa, quebrá-la de cima para baixo como um tronco enfiando-lhe uma cunha e martelando até o fim.
 

Trecho do conto ‘As nuances mais opacas’, de Alessandro Garcia

Se durante todo esse tempo, daqui para adiante, eu sentir-me não apodrecido, não-envolvido em pesada e já ressequida lama, se eu conseguir olhá-la com olhos que não sejam mentirosos, se eu já não disser frases com a face voltada em outra direção; se eu não me sentir compelido a confissões, a rasgares de alma para crenças nas quais não creio, se eu não sentir uma culpa infinita e um peso desesperado em cima dos meus ombros – é porque a sujeira terá começado a dissipar-se. E Pablo, assim como eu, começará a sentir-se outro, após longo tempo, depois de passadas as quedas e os retornos para os erros, eu poderei começar a sentir-me limpo.
 

Alessandro Garcia (Porto Alegre, 1979) é escritor e editor da revista Flaubert. Autor de A sordidez das pequenas coisas, finalista do Prêmio Jabuti e do Fundação Biblioteca Nacional, prepara o romance A zona da invisibilidade. Site: alessandrogarcia.com

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