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Qual o verdadeiro significado dos contos de fadas?

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Qual o verdadeiro significado dos contos de fadas?

, na BBC Brasil

Era uma vez um estúdio de animação chamado Walt Disney Company, que lançou um feitiço que o permitiu assumir o controle do reino dos contos de fadas e se tornar uma corporação de mídia multinacional maior que o pé-de-feijão de João.

Desde então, gerações de crianças de todo o mundo cresceram assistindo a versões animadas de histórias que durante séculos não estavam nem no papel, e muito menos vinham acompanhadas de uma infinidade de brinquedos caros.

Malévola, a mais recente aposta da Disney na caixa registradora das bilheterias, tenta recuperar o lado negro da história da Bela Adormecida. Com um orçamento de mais de US$ 175 milhões, o filme traz Angelina Jolie no papel da fada má cuja perversidade é realçada por chifres, vestidos vampirescos e bochechas pontiagudas. A narrativa é contada sob o ponto de vista dessa sedutora anti-heroína, e descreve como um coração puro se transformou em pedra por causa de uma dura traição.

Os contos de fadas eram lendas contadas verbalmente. Em seu ensaio Breaking the Disney Spell, o professor de literatura Jack Zipes afirma que essas narrativas abordam temas como “iniciação, adoração, informação e doutrinação”. Por isso, se caracterizam por uma simplicidade superficial. São apenas histórias, livres de passagens descritivas e monólogos interiores, e povoadas por personagens que podem parecer unidimensionais. Os bonzinhos são sempre bonzinhos e os malvados, malvados. As imagens que essas fábulas conjuram costumam ser pouco sofisticadas e suas descrições beiram o banal: florestas são densas, princesas são bonitas e por aí vai. Como definiu o escritor Philip Pullman, “não há psicologia em um conto de fadas”.

Bem, diga isso a Freud ou a Jung. As histórias podem até não ter uma psicologia explícita, mas observe mais de perto e verá que seus traços psicológicos são difíceis de serem ignorados.

Pense no uso de sonhos em A Bela Adormecida. E isso é apenas o começo no que se refere a essa fábula, em particular. A princesa virginal, a picada da agulha, a cerca espinhosa que brota em torno da jovem e que floresce para o príncipe: a história está embebida em simbolismo psicológico. Se a roca simboliza a penetração, o sangue derramado sugere a menstruação e a cerca viva é a vagina. Uma vagina com dentes pronta para emascular qualquer príncipe que tentar atravessá-la apressadamente.

Para analistas, 'A Bela Adormecida' traz uma série de simbolismos sexuais

Para analistas, ‘A Bela Adormecida’ traz uma série de simbolismos sexuais

Os contos de fadas mais conhecidos hoje foram recolhidos e recontados em livros por entusiastas como os Irmãos Grimm, E.T.A. Hoffman e Hans Christian Andersen. Ao fazer isso, esses autores codificaram histórias que sempre foram fluidas, passando de uma pessoa a outra, e ganhando ou perdendo detalhes a cada nova narrativa, como em uma brincadeira de telefone sem fio. Mas, uma vez que passaram a ter uma existência escrita, tornaram-se textos que especialistas podiam analisar. E para Freud e Jung, eram tão produtivas quanto a Galinha dos Ovos de Ouro.

Os dois tinham suas teorias sobre por que essas histórias ressoam tão profundamente na psique humana. Para Jung, os personagens são arquétipos, e o motivo pelo qual parecem unidimensionais é porque cada um representa diferentes facetas de nossas personalidades. Para Freud, os contos de fadas têm origem no mesmo lugar que os sonhos, e imagens como florestas e espinhos indicam desejos reprimidos e fantasias não-realizadas. E sendo Freud quem era, tudo tem um fundo sexual.

As ideias de Freud influenciaram fortemente o psicólogo austro-americano Bruno Bettelheim, cujo livro A Psicanálise dos Contos de Fadas se tornou um sucesso no fim dos anos 70. Suas visões continuam populares até hoje, definindo metamorfoses, como a transformação do sapo em príncipe e da menina em pássaro, como uma alusão ao distúrbio da personalidade múltipla, ou ainda as tarefas impossíveis enfrentadas pelos protagonistas como exemplos das relações ambíguas encontradas em famílias problemáticas. Isso sem falar nas figuras paternas dos contos de fadas, geralmente homens fracos, monstruosos ou simplesmente ausentes.
Clássicos recontados

É sempre animador ver essas histórias surradas pelo tempo serem usadas como ponto de partida para novas narrativas, como Malévola.

Michael Cunningham, ganhador do prêmio Pulitzer por As Horas, faz uma referência a Hans Christian Andersen no título de seu mais novo romance, The Ice Queen, que conta a história de um músico batalhador, seu irmão gay e sua namorada terminal. O próximo livro de Cunningham, que deve ser lançado em 2015, reúne histórias curtas que recontam as fábulas mais tradicionais.

“Aqueles que cresceram assistindo às versões da Disney muitas vezes se assustam ao ver tanta morte e violência nos contos originais, e que foram cortadas das animações comerciais. Os contos de fadas são, na realidade, bem obscuros, intensos e estranhos”, diz o escritor.

Se voltar às origens é perturbador, as fontes que as inspiraram deveriam vir com alertas. Charles Perrault é o responsável por boa parte do que conhecemos hoje de A Bela Adormecida, mas sua primeira inspiração foi uma fábula italiana na qual uma jovem virgem cai em um sono tão profundo que não acorda nem ao ser estuprada por um rei que passava pelo local, engravidar e dar à luz gêmeos. Ela só desperta quando um dos bebês acidentalmente suga seus dedos em vez de seu peito. Uma cena forte o suficiente para mandar um leitor desavisado para a terapia.

O trabalho de auto-conhecimento através dos contos de fadas

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O conto de fada numa abordagem Junguiana

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Marilene Tavares de Almeida, na Biblioteca Virtual da Antroposofia

“Os contos são mais do que ensinamentos, são uma verdadeira iniciação, misteriosa e mágica, quase sagrada. Como todas as obras de arte tradicionais, eles são sóbrios, em meios, mas ricos em símbolos e arquétipos. Os contos são um enigma cuja resolução deve ser procurada no nosso interior e não neles mesmos, são formas simbólicas pelas quais a psique se manifesta e que podem contribuir para a formação harmoniosa da criança. Há saídas para o ser humano, não somente a partir da coletividade, mas, sobretudo, a partir das metamorfoses de cada um – o caminho a que Jung chamou o “processo de individuação”. Para Jung, “individuação” significa tornar-se um ser único, dar a melhor expressão possível às nossas características pessoais e intrínsecas.”

A cada dia me encantam mais e mais as histórias dos contos de fadas, talvez porque adoro ler entrelinhas e descobrir pontos de vista diversos. Com eles desato nós, desfaço (pré)conceitos. Aprendo que as histórias têm outras feições, outros jeitos, outras formas. Aprendo sob uma ótica diferente a reescrever a minha história ou histórias.

Para Jung os contos de fada têm origem nas camadas profundas do inconsciente, comuns à psique de todos os humanos, “dão expressão a processos inconscientes e sua narração provoca a revitalização desses processos restabelecendo assim a conexão entre consciente e inconsciente”.

Pertencem ao mundo arquetípico. O arquétipo é um conceito psicossomático, unindo corpo e psique, instinto e imagem. Para Jung isso era importante, pois ele não considerava a psicologia e imagens como correlatos ou reflexos de impulsos biológicos. Sua asserção de que as imagens evocam o objetivo dos instintos implica que elas merecem um lugar de igual importância.

Os arquétipos são percebidos em comportamentos externos, especialmente aqueles que se aglomeram em torno de experiências básicas e universais da vida, tais como nascimento, casamento, maternidade, morte e separação. Também se aderem à estrutura da própria psique humana e são observáveis na relação com a vida interior ou psíquica, revelando-se por meio de figuras tais como anima, sombra, persona, e outras mais. Teoricamente, poderia existir qualquer número de arquétipos.

Os mitos seriam como sonhos de uma sociedade inteira: o desejo coletivo de uma sociedade que nasceu do inconsciente coletivo. Os mesmos tipos de personagens parecem ocorrer nos sonhos tanto na escala pessoal quanto na coletiva. Esses personagens são arquétipos humanos. Os arquétipos são impressionantemente constantes através dos tempos nas mais variadas culturas, nos sonhos e nas personalidades dos indivíduos, assim como nos mitos do mundo inteiro.

Histórias representativas do inconsciente coletivo, oriundas de tempos históricos e pré-históricos, retratando o comportamento e a sabedoria naturais da espécie humana.

Os contos de fadas apresentam temas similares descobertos em lugares muitíssimo separados e distantes em diferentes períodos. Lado a lado com as idéias religiosas (dogmas) e o mito, fornecem símbolos com cuja ajuda conteúdos inconscientes podem ser canalizados para a consciência, interpretados e integrados.

São histórias desenvolvidas em torno de temas arquetípicos. Jung tinha como hipótese que sua intenção original não era de entretenimento, mas de que viabilizavam um modo de falar sobre forças obscuras temíveis e inabordáveis em virtude de sua numinosidade, que arrebata e controla o sujeito humano, e seu poder mágico. Os atributos dessas forças eram projetados nos contos de fadas lado a lado com lendas, mitos e, em certos casos, em histórias das vidas de personagens históricas. A percepção disso assim levou Jung a afirmar que o comportamento arquetípico poderia ser estudado de dois modos, ou através do conto de fadas e do mito, ou na análise do indivíduo.

Por isto seus temas reaparecem de maneira tão evidente e pura nos contos de países os mais distantes, em épocas as mais diferentes, com um mínimo de variações. Este é o motivo porque os contos de fada interessam à psicologia analítica.

Os contos de fadas, os mitos, a arte em geral, são formas simbólicas pelas quais a psique se manifesta e que podem contribuir para a formação harmoniosa da criança. Apesar das contingências externas, das conjunturas sócio-político-económicas, há saídas para o ser humano, não somente a partir da coletividade, mas, sobretudo, a partir das metamorfoses de cada um – o caminho a que Jung chamou o “processo de individuação”.

Para Jung, “individuação” significa tornar-se um ser único, dar a melhor expressão possível às nossas características pessoais e intrínsecas.

A criança ouve a história e ela pode levá-la a uma mudança pessoal, não porque a entenda (usando, portanto, o intelecto), mas sim porque as imagens que ela contém vão diretas ao seu inconsciente, vão “trabalhar” os seus conteúdos e resolver algum problema eventual.

Apesar das suas características ditas “universais”, o conto de fadas tem sofrido alterações ao longo do tempo, de acordo com os gostos conscientes ou inconscientes de cada geração. Tal como o mito, também o conto de fadas apresenta seres e acontecimentos extraordinários, mas, em contrapartida e tal como a fábula, tende a desenrolar-se num cenário temporal e geograficamente vago, iniciando-se e terminando quase sempre da mesma forma: “Era uma vez…” e “Viveram felizes para sempre.”

Devido ao poder e à simplicidade das suas imagens, são formas de nos ajudar a despertar e operam a diversos níveis da consciência. A análise do conto propõe-nos um atalho atraente para o interior de nós mesmos, e convida-nos a efetuar um verdadeiro trabalho de auto-conhecimento e de transformação.

Os contos são mais do que ensinamentos, são uma verdadeira iniciação, misteriosa e mágica, quase sagrada. Como todas as obras de arte tradicionais, eles são sóbrios, em meios, mas ricos em símbolos e arquétipos. Os contos são um enigma cuja resolução deve ser procurada no nosso interior e não neles mesmos.

No conto A Bola de Cristal, por exemplo, o príncipe parte em busca de sua princesa que espera ser libertada. Mas quando a encontra, ela parece-lhe abominável. Então ela diz: “O que vês não é o meu verdadeiro rosto. O Grande Mágico tem-me em seu poder. Por causa dele, os homens só podem ver-me sob esta forma horrível. Se quiseres contemplar a minha verdadeira aparência, vê-me no espelho. O espelho não se deixa enganar e mostrar-te-á a minha verdadeira face”. O herói olha para o espelho e vê nele o rosto, cheio de lágrimas, da moça mais bela do mundo.

O conto é um espelho mágico no qual somos convidados a mergulhar, a fim de nos reconhecermos. Não no sentido de nos afogarmos numa auto-contemplação estéril, como Narciso, mas antes no de nos observarmos tal e qual somos, para além das aparências.

Existe em cada um de nós uma princesa encantada que achamos feia e abominável: são os nossos recalques, que vivemos sob a forma de vergonha, inveja, cólera e desencorajamento, entre outros. Se aprendermos a ver esses instintos nesse espelho de verdade que são os contos, poderemos contemplar as verdadeiras belezas que habitam em nós e que choram enquanto aguardam a sua libertação.

Essas princesas só têm um herói: nós mesmos. É a nós que compete libertar o nosso reino interior e a princesa belíssima que nos espera. É a parte mais íntima do nosso ser que encontramos no espelho dos contos e que nos conduz à libertação e ao desabrochar pleno. Existe uma identidade perfeita entre nós e o conto. O conto é a nossa história. É a encenação metafórica de aspectos nossos que ignoramos, recusamos, ou que não sabemos ver tal e qual são. Se conseguirmos penetrar no espelho e reconhecer a nossa imagem, se escutarmos o conto para nele encontrarmos aspectos concretos da nossa existência, bastar-nos-á pôr em prática as suas propostas e viver a nossa vida segundo esse modelo de verdade.

Somos feitos da mesma maneira que os contos são feitos e a função dos contos é lembrar-nos isso mesmo. Se não nos lembramos, é porque estamos sob o feitiço de um Grande Mágico, que nos subjuga, seja através de condicionamentos mentais, seja através das representações falseadas da realidade.

O conto tem por fim acordar a nossa estrutura de verdade profunda, levar-nos a experimentá-la e a pô-la em movimento, a fim de que possamos harmonizá-la com o arquétipo ideal. É ele a chave de acesso a um maior auto-conhecimento.

dica da Dy Luz

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