Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Kirsten Stewart

‘Atitude nas escolas é permissiva com o bullying’, diz escritora

0

Autora do best-seller “Fale!”, que acaba de ganhar edição brasileira, Laurie Anderson fala sobre o tema abordado na obra
Publicado nos Estados Unidos em 1999, livro já vendeu mais de três milhões de cópias

Autora usou experiências vivênciadas na adolescência como inspiração Divulgação / Joyce Tenneson

Autora usou experiências vivênciadas na adolescência como inspiração Divulgação / Joyce Tenneson

Eduardo Vanini em O Globo

RIO – Para a escritora nova-iorquina Laurie Halse Anderson, a literatura é o melhor caminho para que os jovens estejam prontos para enfrentar o mundo real. E é através de um romance que ela tem ajudando milhares deles. Lançado em 1999, “Fale!” conta a história de Melinda, estudante do ensino médio que precisa lidar com problemas como bullying, abuso sexual, depressão e mudanças físicas, tão comuns a jovens de todo o mundo.

Finalista do disputado National Book Award, o livro já vendeu mais de três milhões de cópias e rendeu uma versão cinematográfica em 2004, com o filme “O silêncio de Melinda”, estrelado por Kirsten Stewart. Quase 15 anos após o lançamento, a obra acaba de ganhar uma edição brasileira pela editora Valentina. Em entrevista concedida ao GLOBO, a escritora garante que, apesar do hiato, a história está mais atual do que nunca.

O GLOBO: Já se passaram quase 15 anos desde que ” Fale!” foi publicado pela primeira vez. Por que o livro ainda é tão atual?

LAURIE ANDERSON: Infelizmente, é mais atual hoje do que quando foi publicado pela primeira vez. Com os celulares e a internet, há mais maneiras para os adolescentes praticarem o bullying. Nos EUA, tivemos vários casos trágicos de meninas que ficaram tão bêbadas em festas que perderam a consciência. Enquanto estavam neste estágio, elas foram estupradas por garotos que filmaram o crime e postaram o vídeo na internet. Em seguida, essas meninas foram perseguidas, expostas a situações vexatórias e insultadas on-line. Algumas ficaram tão aterrorizadas e angustiadas que cometeram suicídio. Este tipo de ataque é revoltante e tem que parar.

De onde veio a ideia para o livro?

Quando minha filha mais velha estava começando no ensino médio, tive um pesadelo com uma jovem chorando. Quando acordei, não sabia quem era aquela menina e nem por qual motivo ela estava chorando. Então, decidi escrever sobre ela para descobrir essas coisas. Além disso, parte da história vem do meu passado. Quando tinha 14 anos, fui estuprada e tinha muito medo de contar a alguém. Para construir a história, lancei mão da minha própria experiência com a depressão e a luta para falar sobre o assunto e pedir ajuda.

Desde que “Fale!” ganhou reconhecimento em todo o mundo, você começou a receber e-mails e cartas de milhares de adolescentes. Já foi procurada por brasileiros ? O que eles relataram?

Já ouvi relatos de meninas e meninos brasileiros, que se identificaram muito com Melinda. Em boa parte dos casos, algo de ruim havia acontecido com eles numa festa. O trauma e a memória do ataque os deixa muito deprimidos e vulneráveis. Mesmo assim, eles sentem medo de pedir ajuda.

Os modelos tradicionais de escola contribuem para o bullying? O que precisa mudar?

As turmas e as escolas devem ser pequenas o suficiente para que comportamentos prejudiciais, como o bullying, possam ser notados e combatidos. Professores e administradores devem desenvolver políticas anti-bullying consolidadas também. É preciso que os valentões sofram sérias consequências, quando machucam outras crianças. Além disso, é necessário ensinar as crianças a respeitarem e cuidarem umas das outras desde o primeiro dia em que entram na escola. Se fizermos isso, e reforçararmos estas lições a cada ano, teremos uma geração de jovens mais fortes, emocionalmente mais saudáveis e mais bem preparados para vencer na vida.

Desde que lançou o livro, notou alguma mudança neste sentido?

A boa notícia é que há menos vergonha associada ao fato de ser vítima de estupro. Acredito que essa vergonha está sendo taxada agora aos meninos que praticam o estupro. Em vez de esta atitude ser vista como uma coisa legal ou ‘de macho’, nos EUA, ela está ficando mais fortemente reconhecida como algo repugnante. Também estamos ficando mais ágeis em prender e punir garotos e homens que abusam sexualmente de meninas. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

Por que as escolas ainda têm dificuldade em ouvir seus alunos da forma adequada?

Acho que existem duas razões: não há professores suficientes e a atitude nas escolas ainda é permissiva em relação ao bullying. Embora seja caro para contratar mais professores e diminuir o número de alunos por classe, não custa nada para mudar as atitudes. Só é preciso coragem.

Por que os pais ainda têm dificuldade para perceber os problemas enfrentados pelos adolescentes na escola?

Parte do problema é que os adolescentes se afastam de seus pais como se isso fosse parte natural do processo de crescimento. Eles querem ser independentes antes de estarem prontos para isso. Além disso, muitos adolescentes não contam a seus pais sobre o bullying, porque têm medo de que o assédio se torne ainda pior, se os pais reclamarem na escola.

Como os pais devem agir?

Os pais que descobrem que seus filhos estão sendo intimidados devem reagir, antes de tudo, com amor. Eles devem confortar e tranquilizar seus filhos. Em seguida, é preciso exigir que a perseguição seja interrompida imediatamente, envolvendo polícia e advogados, se necessário. Adultos nunca tolerariam intimidações por parte de outros adultos no local de trabalho ou no shopping, por exemplo. Então, não há razão para permitirmos que nossos filhos sejam tratados pior do que gostaríamos.

Por que tantos estudantes, como Melinda, têm dificuldade em se adaptar à rotina escolar?

É difícil ser um adolescente! Seu corpo está mudando, sua cabeça ainda está se desenvolvendo, e a vida pode ser muito confusa. No meio de tudo isso, eles têm que acordar mais cedo do que gostariam, ir à escola e tentar aprender alguma coisa. Acho que alguns aspectos da escola poderiam ser modificados para tornar tudo isso um pouco mais fácil. Mas os adolescentes também precisam perceber que a vida adulta exige fazer coisas que você não quer, como o dever de casa.

Como os livros podem ajudá-los? Que tipo de literatura eles precisam?

Os adolescentes precisam ler livros pelos quais eles possam se conectar, e não apenas os velhos clássicos empoeirados de centenas de anos atrás. Eles podem ler os clássicos na faculdade e quando se tornarem adultos. A literatura é a melhor maneira de aprender sobre o mundo e desenvolver empatia por pessoas que são diferentes umas das outras.

O que você sabe sobre adolescentes brasileiros ? Você tem algo especial para dizer a eles?

Adoro viajar, mas não tive a oportunidade de visitar o Brasil ainda. Minhas informações sobre adolescentes brasileiros é apenas o que eu sei de leitura, e peço desculpas se não compreendo a cultura do país. Acredito que os brasileiros são, em geral, mais amigáveis, extrovertidos que os americanos. Há também mais respeito pelos idosos, o que gostaria de ter no meu país. Acredito também que os adolescentes brasileiros têm mais liberdade do que os americanos. Falo sobre ir a uma boate e a festas que entram pela madrugada, por exemplo. Num mundo perfeito, as noites seriam feitas para dançar, conhecer novas pessoas e ter ótimos momentos. No mundo real, no entanto, alguns adolescentes acabam se machucando, estuprados ou atacados de outras formas. Então, peço aos jovens que cuidem dos seus amigos e certifiquem-se de que todo mundo tenha uma diversão segura.

Autora da saga ‘Crepúsculo’ fala sobre sua segunda série de livros

0

Versão para o cinema de ‘A hospedeira’ estreia no Brasil na próxima sexta-feira

A escritora Stephenie Meyer, autora da milionária saga “Crepúsculo” Divulgação

A escritora Stephenie Meyer, autora da milionária saga “Crepúsculo” Divulgação

Eduardo Graça, em O Globo

Maquiagem forte, cabelo jogado para o lado, Stephenie Meyer se senta na beira do sofá da suíte do hotel de luxo como se estivesse pronta para sair do local a qualquer momento. Pudera. Em “A hospedeira”, que chega aos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira, sob a direção de Andrew Niccol (“Gattaca — experiência genética” e “O show de Truman”), ficam em segundo plano a protagonista Saoirse Ronan, indicada ao Oscar por “Desejo e reparação”, e o veterano William Hurt, que vive o tio da mocinha na adaptação do livro de ficção científica centrado em uma invasão alienígena à Terra num futuro próximo. Todos querem entender a cabeça da dona de casa mórmon do Arizona, mãe de três filhos, uma das maiores best-sellers dos últimos oito anos. Sua série “Crepúsculo” vendeu mais de 100 milhões de exemplares, embalada pelo romance adolescente de Bella Swan e Edward Cullen, vividos na tela grande por Kirsten Stewart e Robert Pattinson. Combinados, os cinco filmes da franquia fizeram, entre 2008 e o ano passado, US$ 3,3 bilhões, um dos maiores sucessos da produção contemporânea de Hollywood. “A hospedeira”, por sua vez, ficou 26 semanas na lista dos mais vendidos do “New York Times”. No Brasil, a saga dos vampiros, lançada pela editora Intrínseca, vendeu quase 6 milhões. E “A hospedeira”, da mesma editora, já passa dos 418 mil livros vendidos.

— Confesso que tinha uma fantasia sobre minha vida de escritora. Pensava em trabalhar de casa, mais reclusa. Qual o quê. Hoje, constantemente me pego nervosa quando autografo meus livros, por conta das meninas que não param de chorar. Ainda não sei bem o que fazer, é estranhíssimo — conta, em entrevista ao GLOBO, a escritora de 39 anos, que abandonou o projeto de se tornar advogada ao receber um adiantamento milionário para repovoar a ficção contemporânea com vampiros e lobisomens.

Meyer diz que “Crepúsculo” nasceu de um sonho. Ela acordou com a imagem límpida de uma adolescente conversando com um vampiro sobre as dificuldades do relacionamento amoroso dos dois. “A hospedeira”, por sua vez, deve sua existência a um tique da escritora: contar histórias, em alto e bom som, para si mesma, quando dirige sozinha pelas autoestradas americanas.

— Estava muito cansada, acompanhando a edição do primeiro filme da franquia “Crepúsculo”, quando peguei a estrada do Arizona para Utah. Fui refletindo sobre o fenômeno em torno de personagens que originalmente representavam, para mim, uma saída da minha rotina. Mas, naquele momento, eles estavam se tornando algo muito maior, cheios de pressão. Decidi então criar novamente algo só para mim, sem expectativas de fãs ou editores — diz.

Temas morais e discurso político

Meyer jura que “A hospedeira”, como “Crepúsculo”, não foi pensado originalmente para chegar ao público. A primeira série só foi descoberta por editores por conta do entusiasmo de uma de suas irmãs, que a convenceu a procurar alguém para publicá-la. Já o manuscrito final de “A hospedeira” só foi parar nas mãos da editora quando Meyer percebeu que os personagens, mais uma vez, “pareciam ter vida própria”.

Mórmon devota, que não bebe nem fuma e proclama repetidamente sua “criação cristã”, Meyer surgiu para o grande público como a inventora de Bella, uma adolescente apaixonada por um vampiro de pele alvíssima, tão boa-pinta quanto interessado em manter a castidade da amada. Críticos logo detectaram mensagens caras aos conservadores sociais americanos, como a promoção da abstinência sexual entre jovens e a condenação do aborto. Num dos momentos mais dramáticos da saga, Bella decide ter a filha que gerou com Edward, mesmo com os riscos de um parto para lá de delicado.

— Não pensei em temas morais ou em embutir um discurso político nos meus livros. Honestamente, a reação foi uma surpresa para mim. Eu me inspirei em minha história para imaginar a situação de Bella, que se recusa a considerar a opção do aborto. Os médicos me disseram que eu estava perdendo meu primeiro filho. O pior não aconteceu, ele tem hoje 15 anos, mas aquelas foram as semanas mais difíceis da minha vida. Essa experiência deixou uma marca permanente em mim. E minha história acabou vazando para o personagem. Era Bella quem dizia: eu quero ter esta criança. Simples assim, sem mensagem política — se defende.

Não ajuda o fato de a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias ser uma das principais financiadoras da oposição a movimentos de cunho liberal, como a luta pelos direitos civis dos gays nos EUA. Meyer, por sua vez, diz que percebeu na crítica especializada uma tentativa de estereotipá-la por conta das especificidades de sua fé.

— Por muito tempo, fui apresentada como a escritora mórmon mãe de três crianças. Mas você não vê o Jon Stewart (comediante político, apresentador do “The Daily Show”, na TV americana) ser chamado de pai judeu de duas crianças. E eu não tenho a menor ideia de que religião J.K. Rowling professa. Aliás, ninguém parece ligar para isso, não é? — pergunta.

Foi justamente ao estabelecer uma comparação entre a autora de “Harry Potter” e a de “Crepúsculo” que o escritor Stephen King, em entrevista ao jornal “USA Today”, ofereceu uma das mais notórias críticas a Meyer, então festejada por parte da indústria editorial como uma das responsáveis pela reinvenção da literatura de fantasia adolescente nos EUA. O autor de “O iluminado” afirmou que, ao contrário de Rowling, “Meyer não é apta a escrever”.

Como o brasileiro Paulo Coelho — “tenho ‘O Alquimista’ separado em casa e só não comecei a ler porque a pessoa que me indicou foi a mesma que me deu uma dica furada”, diz —, Meyer recebeu uma saraivada de críticas negativas, intensificada após a explosão de “Crepúsculo”.

— O engraçado é que, quando lancei o primeiro livro, fui recebida com algum carinho. Depois que fui parar na lista dos mais vendidos, os mesmos críticos passaram a me destruir. Os mesmos! Percebi uma determinação maior de se encontrar falhas nos meus livros. Tudo bem, concordo com eles, há mesmo vários pecadilhos na minha produção literária. Tenho consciência de que sou uma contadora de histórias muito melhor do que escritora. Mas tenho melhorado — diz.

Continuação a caminho

“A hospedeira”, diz Meyer, que tem formação em Língua Inglesa, é seu livro mais bem-acabado, sua história favorita. Nele, a jovem Melanie é obrigada a conviver com Wanda, a forma alienígena que toma seu corpo. As duas vivem em estado de permanente tensão, com Melanie buscando proteger o que restou de sua família e Wanda inicialmente interessada em assegurar o domínio do planeta por seres mais avançados. No filme, Saoirse Ronan resolve bem a difícil tarefa de viver duas personagens dividindo um mesmo invólucro.
Mas não é possível deixar de perceber que os vilões intelectualizados criados por Meyer são também ecologicamente corretos e contrários à violência. No clímax da história, uma personagem se vê na iminência de, como Cristo, se sacrificar para salvar a Humanidade.

— Quando escrevi, não pensei nisso. Mas foi inevitável pensar que o amor da personagem era maior do que o desejo de se manter viva. Se a história de Bella era sobre um primeiro amor que a consumia, a de Melanie e Wanda é uma narrativa de sobrevivência, centrada na defesa da raça humana, diz Meyer, no momento escrevendo, “em um ritmo bem lento”, a continuação de “A hospedeira”.

Go to Top