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Scott Turow: ‘A Amazon quer tirar as editoras do mercado’

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Meire Kusumoto, na Veja

O escritor americano Scott Turow, no Brasil para participar do Pauliceia Literária, evento da Associação dos Advogados de São Paulo (Aasp) que teve início nesta quinta e segue até domingo na capital paulista, divide a vida e a carreira entre dois mundos que, com muita frequência, se encontram: o direito e a literatura. Advogado formado em 1970 pela Amherst College, em Massachusetts, e atuante como tal, publicou seu primeiro romance, Acima de Qualquer Suspeita (Record), em 1987, pelo qual alcançou reconhecimento e foi considerado o criador de um gênero novo, o thriller jurídico, em que o tribunal de justiça é o principal cenário de acusações e reviravoltas.

Além de usar o conhecimento prático da profissão para construir suas histórias, Turow também usa o direito para defender seus colegas escritores no que ele chama de “ambiente de guerra”, em que o Google e a Amazon são os principais inimigos, atacados pelo escritor em um artigo publicado no jornal americano The New York Times em abril. “A Amazon quer tirar as editoras do mercado e ser a única ponte entre o autor e o leitor”, disse em entrevista ao blog VEJA Meus Livros. Para ele, autor de onze livros – que venderam 30 milhões de cópias no mundo – e presidente do Sindicato Americano de Autores, as políticas agressivas de redução de preços de livros praticadas pela Amazon e as tentativas do gigante de buscas de digitalizar bibliotecas inteiras não deveriam ser aceitas pela justiça, já que colocam a sobrevivência dos autores em risco.

Apesar do embate contra as gigantes da internet, Turow é adepto da tecnologia e diz levar um iPad durante as viagens que faz, por questão de praticidade. “Eu não considero o papel sagrado, mas as palavras e o texto, sim. Geralmente eu compro o livro digital e o físico, porque uma vez que você termina o e-book, não há nada para você colocar na prateleira”, afirmou. Mas, coerente, não compra livros da Amazon por acreditar que a empresa pode ser o agente exterminador do modo de publicação tradicional. “Eles defendem um modelo em que todos os escritores se autopublicam, negócio que rende à Amazon 30% dos lucros de venda da obra. O risco que vejo é de que, quando a Amazon tiver efetivo controle do mercado, ela pague cada vez menos a autores para vender livros por preços menores para os consumidores.”

Scott Turow participa do Pauliceia Literária na mesa “Advogado, profissão: escritor”, nesta sexta-feira, às 19h, com mediação do jornalista Arthur Dapieve. Confira a entrevista do escritor.

Em 2011, você deu uma entrevista durante a sua passagem pela Bienal do Livro do Rio em que afirmou que o advogado Rusty Sabich era seu alter-ego. Você disse que não sabia se ele seria feliz eventualmente porque, talvez, você mesmo não soubesse como ser feliz. Isso mudou com o tempo? (Risos) É tão engraçado, minha namorada me faz essa pergunta o tempo todo, coisas do tipo: “Você aguenta ser feliz?”. Acho que a resposta é sim, é a recompensa por envelhecer.

Sabich voltará em breve em um de seus livros? Ele precisa aparecer mais alguma vez para ser feliz, também. Mas eu preciso de mais experiência sendo feliz para escrever essa história.

Nos seus livros, você mostra como a justiça pode ser falha. Foi algo que observou na prática do direito? A justiça não é perfeita e escrevi sobre como a lei, mesmo com seu propósito nobre, nem sempre é seguida.

No artigo The Slow Death of the American Author, publicado no jornal The New York Times, você diz que o valor dos direitos autorais está sendo depreciado. Podemos responsabilizar somente o mercado digital por isso? A revolução digital criou um ambiente de guerra de todos contra todos, em que muitos aliados tradicionais já não são mais aliados, como editores e autores, livrarias e autores. Um está no pescoço do outro, todos viraram competidores. As editoras querem pagar valores menores de royalties para autores por e-books. Escritores acadêmicos cujos livros não vendem defendem um mundo em que os livros são gratuitos porque eles são sustentados por universidades. E também temos forças novas, como Amazon e Google, que têm modelos diferentes para o funcionamento do mundo editorial. O Google quer copiar o conteúdo das bibliotecas das principais universidades e depois disponibilizar on-line para buscas, com o risco tremendo de que essa biblioteca seja hackeada. Para mim, o mais ridículo e injusto é que eles querem fazer uso comercial dos trabalhos de autores, lucrando em cima disso. A Amazon quer tirar as editoras do mercado e ser a única ponte entre o autor e o leitor. Eles defendem um modelo em que todos os escritores se autopublicam usando a plataforma da Amazon, negócio que rende à empresa 30% dos lucros de venda da obra. Além de tudo, há o problema muito sério dos livros piratas, distribuídos em vários sites. Meus livros foram pirateados depois de uma semana de publicação e estão sendo distribuídos gratuitamente na internet por sites sustentados por anúncios publicitários. Nem os anunciantes nem os mecanismos de busca que levam as pessoas a essas páginas são punidos por isso.

Você não acha que a autopublicação foi benéfica para novos autores? Os e-books e a Amazon não ajudaram nesse sentido? É ótimo para novos escritores, fico feliz que as dificuldades para entrar no mercado editorial tenham diminuído. Nos Estados Unidos, é difícil publicar um livro por uma editora, então é uma coisa boa que as pessoas consigam vender seu trabalho na Amazon. Não sou contra isso nem um pouco. Meu medo, no entanto, é que a Amazon use o modelo de autopublicação para todos os autores e tire as editoras da jogada. Vários executivos de editoras acreditam que esse é o objetivo da Amazon.

Como você vê o futuro do mercado editorial e de autores, nesse cenário? Sempre vão existir leitores, livros e novos autores. O risco é de que, quando a Amazon tiver efetivo controle do mercado, ela pague cada vez menos a autores para vender livros por preços menores para os consumidores. Vai ser cada vez mais difícil para autores que não os mais famosos ganhar a vida fazendo literatura. Muitos vão sumir em meio aos milhares de livros da Amazon. Com isso, a cultura literária americana será prejudicada, vai haver menos vozes. Essa não é a visão que os fundadores da nação tinham quando eles estabeleceram as regras de direitos autorais, criadas para a proteção do trabalho de um autor.

Você tem um leitor de livros eletrônicos? Tenho um iPad. Leio a maior parte dos meus livros no iPad, tenho três romances carregados no leitor e outros cinco guias turísticos por causa da viagem ao Brasil. É muito mais fácil viajar com o iPad, eu não considero o papel sagrado, mas as palavras e o texto, sim. Geralmente eu compro o livro digital e o físico, porque uma vez que você termina o e-book, não há nada para você colocar na prateleira. Você se cerca do status físico do livro, o que você leu é uma forma de lembrar quem você é. Eu não acho a experiência de leitura diferente, mas a experiência de vida diferente. Eu não sou contra a tecnologia, amo meu iPad, eu escrevo com o auxílio dele, faço compras com ele. Faço compras na Amazon! Compro coisas como a tigela do cachorro e brinquedos para o meu neto, mas não livros. Também não acredito em visitar lojas físicas e depois comprar os produtos na Amazon, os vendedores fizeram um investimento ao comprar e exibir aquilo. Mas os americanos, especialmente, são muito sensíveis ao preço, parece que é a única coisa que importa.

Qual a sua sugestão para proteger autores e editoras? Eu gostaria que as leis mudassem, que as pessoas que anunciam em sites piratas e que mecanismos de buscas que dão link para sites piratas pudessem ser responsabilizados pelo que fazem. É o mesmo quando alguém diz onde comprar heroína, ele está ajudando a vender a droga. É o sistema louco em que as empresas de internet encontraram uma forma de suspender nossas noções legais para benefício próprio.

O que você pode falar sobre seu novo romance, Identical? Vai ser publicado nos Estados Unidos no mês que vem e no Brasil em março (com o título Idênticos, pela Record). A história é sobre gêmeos idênticos, assunto que sempre me fascinou, mal consigo imaginar como é ter alguém idêntico a você. Minha irmã era gêmea, mas meu irmão morreu durante a infância. Como eu era criança, fiquei confuso, cheguei a pensar que, como era um irmão, um menino, ele era de certa forma meu gêmeo, não da minha irmã. O novo livro é baseado no mito de Castor e Pólux, uma releitura moderna de personagens da mitologia grega. Um irmão é um político de sucesso, que está concorrendo a prefeito, enquanto o outro irmão sai da prisão por ter matado sua namorada 25 anos antes. O irmão da vítima acusa o político de ter se envolvido no crime também.

Você está trabalhando em um novo projeto? Estou tentando escrever um livro do gênero young adult (para jovens adultos) baseado vagamente no meu relacionamento com o meu avô. Tive meu primeiro neto no ano passado e isso me fez pensar muito em meu avô. E depois vou voltar para um romance adulto que vai se passar na Corte Penal Internacional de Haia.

A fórmula milionária e repetitiva do sucesso de Nicholas Sparks

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O escritor americano volta ao cinema com ‘Um Porto Seguro’, adaptação de mais um de seus romances açucarados e previsíveis

O autor Nicholas Sparks (Divulgação)

O autor Nicholas Sparks (Divulgação)

Meire Kusumoto, na Veja on-line

Histórias de amor, recheadas de muitos dramas e dificuldades, levando a um final – nem sempre – feliz. É isso o que a maior parte das pessoas procura na vida real? De acordo com Nicholas Sparks, sim. A fórmula do sucesso, repetida à exaustão pelo famoso escritor em obras como Querido John, Diário de Uma Paixão e Um Amor para Recordar volta a ser explorada em Um Porto Seguro, a 18ª adaptação para o cinema de um livro de Sparks, que estreia neste fim de semana.

A bilheteria do filme vai se somar aos números impressionantes que norteiam a carreira do autor. Seus dezessete romances venderam quase 80 milhões de exemplares no mundo inteiro. Enquanto os oito filmes baseados em seus livros arrecadaram, juntos, mais de 720 milhões de dólares. A experiência com o cinema tem sido tão proveitosa para Sparks que, assim que termina uma nova narrativa, ele já envia o texto editado para os produtores de Hollywood ao mesmo tempo em que entrega para sua editora, a Grand Central Publishing. Bom em provocar suspiros e lágrimas no público, suas histórias são cobiçadas pelos estúdios de cinema. Como foi o caso de seu último romance, The Longest Ride, que só deve ser publicado em setembro, mas já foi comprado pelo estúdio Fox 2000 pela bagatela de cinco milhões de dólares. O filme tem previsão de estreia para fevereiro de 2015.

Mas não só o Brasil deve levar, mais uma vez, seu novo livro à lista dos mais vendidos. Mundialmente famoso, o escritor já foi traduzido para 45 idiomas e é figurinha fácil em listas de best-sellers. Por esse motivo, Sparks se agarrou ao seu rentável estilo literário e não deseja abandoná-lo tão cedo. “Na televisão eu exploro diferentes gêneros, mas em literatura estou feliz com o que estou fazendo”. Ele fundou uma produtora em abril de 2012, a Nicholas Sparks Productions, em parceria com sua agente literária, Theresa Park.

Confira a entrevista de Nicholas Sparks ao site de VEJA.

Como explica o sucesso de seus livros? Os livros falam da condição humana, que é provavelmente a mesma em todo o mundo. São pessoas passando por sofrimentos e desafios, lidando com emoções da vida. Elas se conhecem e se apaixonam, algumas vezes o romance dá certo, outras não. Aí estão alguns dos elementos que compuseram ótimas histórias e que estão presentes na literatura desde o começo.

Os leitores se identificam com os personagens? Sim, com certeza. Mas isso depende muito do livro e do leitor. Por exemplo, acho que jovens se identificarão mais com A Última Música, Diário de Uma Paixão ou Um Amor para Recordar, enquanto pessoas em seus 40 e 50 anos, provavelmente, gostarão mais de Noites de Tormenta ou O Melhor de Mim. Depende do momento que estão vivendo.

Acredita que as pessoas desejam viver histórias de amor como as dos seus romances? As pessoas definitivamente querem se apaixonar por alguém especial, que as compreendam. Querem alguém em quem podem confiar, alguém capaz de se comprometer.

As histórias são autobiográficas? Todos os romances têm elementos autobiográficos. Quase todos meus personagens femininos são baseados na minha esposa, por exemplo. Ela é inteligente, engraçada, leal, amável, forte, com um coração de ouro. Boa parcela dos meus personagens acaba sendo assim também. Mas há influência de outros familiares, como a minha mãe, que tem essas mesmas características. Esse é o tipo de mulher com quem eu cresci e com quem gosto de conviver.

Sua família sugere enredos para seus livros? Não, isso fica tudo por minha conta, eles ficam longe disso, não querem participar da criação. Na nossa casa, escrever é apenas meu trabalho, é o que faço para nos sustentar.

Por que começou a escrever? Escrevi meu primeiro romance aos 19 anos e o segundo aos 22, só como teste para saber se eu conseguiria ir até o fim. Aos 28, decidi que eu iria tentar novamente, mas dessa vez levaria a tarefa a sério. Tive a ideia para o romance, mas parte de mim também queria obter um resultado bom o suficiente para, talvez, continuar a escrever, no futuro.

De onde veio a ideia para esse primeiro livro, Diário de Uma Paixão? Essa história foi inspirada nos avós da minha esposa, é basicamente a vida deles contada nas páginas. Eles se conheceram quando eram crianças, mas a mãe dela não gostava dele e os afastou, levando a menina embora. Ele escrevia-lhe cartas, que não eram entregues pela mãe. Anos mais tarde, ela ficou noiva de outro rapaz, mas decidiu procurar o antigo namorado. Enfim, a maior parte dos elementos dessa história é real. O livro foi vendido à editora por um milhão de dólares. Quando ele finalmente chegou às prateleiras, ficou por mais de um ano na lista de livros mais vendidos do jornal The New York Times. Foi um grande sucesso desde o início.

Por que prefere usar cidades pequenas como cenários para suas histórias?  O caminhar da vida nessas cidades é mais lento. Acho que elas possibilitam a criação de historias mais calmas, em que os personagens consigam conversar sem ter a pressão e a rapidez de uma grande cidade. Simplesmente funciona, é o que sempre faço e os leitores parecem gostar desse ambiente, então continuo escrevendo assim.

Por que a maioria de seus livros trata de morte e redenção?  Para fazer um livro memorável, o mais importante é evocar todas as emoções genuínas. Raiva, traição, amor, frustação, confusão e perda. Se um livro fala sobre todas as emoções, ele faz com que os personagens e os dilemas pareçam reais. Se você ignora uma delas, passa a impressão de ser uma fantasia.

Tem planos de tentar outros gêneros literários ou escrever algo diferente? Se eu fizer isso, vai ser em outro formato de mídia. Eu tenho uma produtora de televisão e as histórias que crio para a TV não serão todas histórias de amor. Uma delas trata do velho oeste, em 1864, outra é uma releitura moderna de Romeu e Julieta. Na televisão eu exploro diferentes gêneros, mas em literatura estou feliz com o que estou fazendo.

Há um método para se fazer literatura? Com bastante trabalho, uma pessoa consegue se tornar uma boa escritora, tecnicamente falando, é capaz de aprender a mecânica da escrita de qualidade. Mas isso não significa que ela será capaz de escolher ou desenvolver uma história original. O verdadeiro desafio é criar uma boa história que os leitores e os estúdios de Hollywood vão adorar. É algo muito difícil de se fazer.

E como o senhor faz? Eu não tenho certeza. Eu leio muito e quando termino de ler romances, sempre me pergunto como posso mudá-los e transformá-los em novas histórias. Eu posso ficar com essa pergunta por muito tempo na cabeça, até que as ideias misturadas começarem a fazer sentido. Aí sim, estou pronto para escrever. Isso pode demorar uma semana, mas também pode demorar seis ou sete meses. A ideia de O Casamento demorou três anos para se concretizar em um romance. Pode levar muito tempo até conseguir harmonizar todos os elementos de uma história.

Quais autores são referência para o seu trabalho? Todos os dias leio os jornais The New York Times, The Wall Street Journal, The Financial Times e o jornal local. Por ano, leio cerca de 125 livros, de thrillers a não-ficção. O autor que mais influenciou meu trabalho e meu estilo de escrita é Ethan Canin, um escritor provavelmente desconhecido no Brasil. E um autor importante para mim em outros aspectos, como na criação de personagens que se assemelham a pessoas reais, surpreendentemente, é Stephen King. É um gênero muito diferente, mas ele faz com que os leitores não consigam parar de virar as páginas.

Como vê a crítica ao seu trabalho? Não leio uma resenha há uns dez anos, para ser franco. No começo, eu ficava um pouco mais frustrado quando recebia uma crítica negativa, mas, no geral, oito ou nove de dez resenhas são positivas. Estou satisfeito com isso.

O senhor fica ressentido por não ser considerado parte do mainstream literário? De maneira alguma. No fim das contas, a longo prazo, são os leitores que escolhem os clássicos, não os críticos. Olhando para o passado, ninguém gostou de O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, quando foi lançado. Agora é um clássico. Acredito que alguns dos meus livros serão lembrados por muito tempo e lidos muitas vezes, como O Diário de Uma Paixão. Daqui 50 anos, as pessoas ainda vão ler esse livro.

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