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Stephen King volta ao terror em novo romance

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‘Revival’ mostra reverendo que desenvolve poder de ressuscitar os mortos. Livro sai no Brasil em 2015

Stephen King em evento de divulgação de 'Doutor sono', continuação de 'O iluminado' - Francois Mori / AP

Stephen King em evento de divulgação de ‘Doutor sono’, continuação de ‘O iluminado’ – Francois Mori / AP

Breno Salvador em O Globo

RIO — Mestre do suspense, Stephen King não para de lançar novos livros. O autor de “O iluminado”, “Carrie, a estranha”, “À espera de um milagre” e a saga “A Torre Negra” agora lança nos EUA “Revival”, seu mais novo romance. Agora, ele retorna ao terror, gênero de alguns de seus livros mais conhecidos.

1Em “Revival”, que deve estrear no topo das listas dos mais vendidos (assim como os demais romances recentes de King), a história principal é dividida entre cerca de 50 anos. O garoto Jamie Morton e o reverendo Charles Jacobs criam uma relação profunda em 1962, quando se conhecem. O pastor usa um aparelho elétrico para curar doentes, e chega ao ponto em que consegue ressucitar os mortos — de onde nasce o suspense da história.

Como é de praxe, o romance se passa no estado do Maine, origem do autor e cenário de grande parte de seus livros. Segundo a Simon & Schuster, que publica o autor nos EUA, é a primeira vez nos últimos em que ele retoma o terror de “Carrie”, “O iluminado”, “A coisa” e outros clássicos.

Recentemente, King lançou mais um volume da saga “A Torre Negra”, a ação “Novembro de 63” (em que um professor volta ao tempo para impedir o assasinato de John F. Kennedy), o suspense fantástico “Doutor sono” (continuação de “O iluminado com um Danny Torrance crescido e dotado de poderes especiais) e os romances de crime “Joyland” e “Mr. Mercedes”.

Segundo o selo Suma de Letras, da Objetiva, “Revival” sai no Brasil em novembro do ano que vem. Outros lançamentos próximos são “Full dark, no stars”, uma coletânea de contos inéditos, “On writing”, ensaio sobre escrita e memórias do autor (ambos programados para abril) e “Joyland” (agosto).

King já lançou quase 60 romances, além de livros de contos e ensaios. Ele vendeu mais de 350 milhões de exemplares, no geral, e continua sendo adaptado para cinema e televisão.

Após acordo confidencial com Luciana Gimenez, editora suprime trechos de biografia de Jagger

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Autor protesta contra ‘censura’ no livro ‘Mick — A vida selvagem e o gênio louco de Jagger’

Livro deveria ter chegado às livrarias brasileiras em 2013, mas teve lançamento adiado depois que a Objetiva resolveu submeter o texto aos advogados da apresentadora de TV - AFP PHOTO/ANDREW COWIE / AFP PHOTO/ANDREW COWIE

Livro deveria ter chegado às livrarias brasileiras em 2013, mas teve lançamento adiado depois que a Objetiva resolveu submeter o texto aos advogados da apresentadora de TV – AFP PHOTO/ANDREW COWIE / AFP PHOTO/ANDREW COWIE

Maurício Meireles, em O Globo

A novela das biografias ganha mais um capítulo — até agora sem final feliz para quem é favorável à publicação de obras sem autorização dos biografados. O livro “Mick — A vida selvagem e o gênio louco de Jagger”, escrito pelo jornalista americano Christopher Andersen e que a editora Objetiva planeja lançar no Brasil em janeiro, vai chegar às prateleiras com algo a menos que a versão em inglês, lançada em 2012: após negociação com a apresentadora Luciana Gimenez e seus advogados, a editora suprimiu partes da obra que se referem à ex-modelo. O motivo, naturalmente, foi o medo de um processo.

Procurada, Luciana afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que só vai se manifestar quando o livro sair. Ela ainda não leu a versão com os cortes, como prevê o acordo. Em nota, a Objetiva diz que, durante todo o processo de edição do livro, “encaminhou ponderações do advogado de Luciana ao autor.” A editora afirma ainda que os “ajustes” aceitos pelo biógrafo “foram poucos”, mas que “não pode abrir os detalhes dessa negociação, até porque o acordo foi feito sob a premissa de confidencialidade”.

“Censura é censura”

Apesar de a editora informar que as alterações foram poucas, Andersen, autor também de “Jagger: unauthorized” (1993), diz-se indignado. Ele também não revela o que foi suprimido.

— Fiquei chocado ao saber que o Brasil proíbe biografias não autorizadas. Como o país pode ser uma sociedade livre sem saber a verdade sobre suas figuras públicas? — protesta o autor. — Depois de 45 anos de carreira e 33 livros, aprendi que a maioria das celebridades mentiu por tanto tempo sobre a própria vida que esqueceu o que é real. Em nenhuma edição estrangeira de meus livros trechos foram suprimidos. A verdade é a verdade. Censura é censura. Qual é o próximo passo, fogueiras de livros? Essas celebridades que defendem causas liberais e depois tentam controlar tudo o que é escrito sobre elas são muito hipócritas. Cada sílaba da biografia é real.

O motivo da polêmica é a relação que Luciana Gimenez manteve com o cantor enquanto ele ainda era casado com a modelo e atriz Jerry Hall. Do caso dos dois, nasceu Lucas Jagger, hoje com 15 anos.

O nome de Luciana é citado 55 vezes na versão original. A primeira é para descrever a noite em que os dois se conheceram, numa festa do empresário Olavo Monteiro de Carvalho, em abril de 1998. O biógrafo escreve que Jagger passou a noite “sussurrando” no ouvido de Luciana, até os dois saírem para o jardim da casa para “meditar”.

Andersen menciona uma entrevista que fez com Lars Albert, citado como amigo de Luciana. Albert diz que ela parou de tomar anticoncepcionais porque “sonhava em ser mãe” e por achar que assim Jagger deixaria a mulher. A biografia afirma que, após mais de um ano de briga judicial, Luciana e Jagger assinaram um acordo pelo qual o roqueiro pagou a ela US$ 5 milhões, mais US$ 25 mil mensais de pensão alimentícia.

A base de dados do site “Publisher’s Lunch”, com negociações editoriais do mundo inteiro, mostra que os direitos da biografia foram comprados pela Objetiva em 2012, após um “pre-empt”. Isso significa que, apostando no potencial da obra, foi oferecido um valor para impedir que o livro fosse a leilão. A ideia inicial era publicá-lo em janeiro de 2013, mas o imbróglio atrasou o lançamento.

Os cortes no texto original começaram no mesmo ano da compra, quando o biógrafo publicou um artigo no jornal “Daily Mail” em que dizia que Luciana havia sido atriz pornô, o que não é verdade. A afirmação circulou amplamente nos sites de fofoca brasileiros, culminando em uma retratação do “Daily Mail” e do próprio autor.

A biografia original, na verdade, não se refere à apresentadora como atriz pornô, mas à sua mãe, Vera Gimenez, como atriz de soft porn, expressão que define filmes com cenas eróticas, mas sem sexo explícito. Vera protestou na época. Segundo a base de dados da Cinemateca Brasileira, a mãe da ex-modelo esteve em filmes como “Por que as mulheres devoram os machos?” (1980) e “Marido que volta deve avisar” (1976), classificados pela instituição sob o gênero “erotismo”.

A supressão de trechos do livro vem à tona num momento em que tramita no Brasil a Lei das Biografias, que permite a produção e publicação de biografias sem autorização dos biografados e que aguarda votação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. O relator do projeto, senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), resolveu recentemente adiar a votação em busca de maioria, por acreditar que o PL não seria aprovado. Ele propôs a supressão de uma emenda feita na Câmara que entrega aos juizados especiais cíveis a competência para julgar casos de biografados ofendidos. Ao mesmo tempo, o mercado aguarda o voto da ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia, relatora da ação direta de inconstitucionalidade movida por editoras para derrubar os artigos do Código Civil que, na prática, impedem a publicação de biografias não autorizadas.

Jovem publica livro após 12 anos ‘caçando’ editoras em lista telefônica

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Fellipe de Almeida começou a escrever aos oito anos por influência da irmã.
Aos 20 anos de idade, jovem surpreende criando em máquina de escrever.

Estante com livros, computador e máquina de escrever ficam na sala de casa (Foto: Orion Pires / G1)

Estante com livros, computador e máquina de escrever ficam na sala de casa (Foto: Orion Pires / G1)

Orion Pires, no G1

Desde os oito anos de idade, um garoto de São Vicente, no litoral de São Paulo, vasculhava as listas telefônicas em busca de uma editora que ajudasse na publicação de um livro. A história poderia servir como enredo de uma obra literária, mas fará parte da vida real do estudante de publicidade e propaganda Fellipe de Almeida Silva, de 20 anos. Quase 12 anos depois de iniciar uma verdadeira saga para realizar o sonho de se tornar escritor, ele conseguiu encontrar a tão almejada editora e terá o seu livro de crônicas, poesias e contos publicado.

O jovem começou a escrever ainda pequeno por influência da irmã, que é 15 anos mais velha. Os livros infantis foram a porta de entrada para cultivar a leitura e ajudar nos estudos. “Toda vez que ela ia me dar um presente eu tinha que ler um livro primeiro para depois ganhar. Depois de um tempo, eu acabei deixando os presentes ‘bons’ e ficava só com os livros”, explica.

A compensação foi a maneira que a irmã, atualmente bancária, encontrou para contribuir com o futuro do irmão. E deu certo. “Funcionou comigo e facilitou também na escola. Quando a professora passava alguma redação para fazer, eu sempre ultrapassava o limite das linhas”, lembra.

Ele revela ainda que, por várias vezes, escutava o recado da professora: ‘Fellipe, não precisa escrever tanto’. Porém, não tinha jeito, pois as folhas de almaço pautadas da época da escola não eram suficientes para as histórias do jovem.

Depois de alguns anos escrevendo textos, o jovem decidiu mudar as leituras. De histórias infantis, ele resolveu procurar um conteúdo diferenciado. Na estante da irmã, encontrou um livro da Zíbia Gasparetto – ‘Pare de Sofrer’ e voltou seus contos para o público adulto. “Fiquei encantado com essa escrita mais adulta. Já na escola conheci Fernando Pessoa e Machado de Assis. Foi uma transição da escrita dessas histórias infantis para as mais adultas”.

Aos poucos, ele foi ‘pegando gosto’ por textos pessoais, poesias, histórias e, por consequência, mudou também o estilo de escrita. “Eu sempre dizia que escrevia muito a história dos outros e, quando eu fosse viver minhas próprias emoções, iria escrever sobre elas”, conta.

Fellipe afirma que não tem ideia de quantos textos já escreveu, mas que anda com folhas e um caderno na bolsa. Quando alguma ideia aparece ele manda tudo para o papel. Aliás, além do papel e caneta, ele detém uma máquina de escrever na sala de casa. “Claro que tem modernidade, mas o barulho da máquina de escrever é inspirador também”.

Além de escrever, Fellipe também faz a manutenção da máquina (Foto: Orion Pires/G1)

Além de escrever, Fellipe também faz a manutenção da máquina (Foto: Orion Pires/G1)

Editora
Há cerca de seis meses, o sonho de se tornar escritor começou a virar realidade na vida do jovem. Depois que criou um blog para reunir os textos escritos na internet, suas histórias ganharam voos maiores. “Um jornalista que eu tenho no Facebook compartilhou um texto meu e um rapaz da editora entrou em contato comigo. Ele mandou um e-mail perguntando se eu estava interessado em fazer uma publicação, se eu tinha alguma coisa pronta. Claro que eu respondi que queria”, explica.

Fellipe organizou os textos por cronograma de tempo e enviou tudo para a editora carioca. O projeto foi aprovado e, finalmente, sairá do papel. O contrato entre ele e a editora não tem um custo direto. A única cláusula é de que pelo menos 35 livros deverão ser vendidos no dia do lançamento. Serão contos, poesias e crônicas distribuídas em 80 páginas. “A editora segue essa política de incentivar jovens escritores e isso me deixou muito feliz”, diz.

O título da obra será ‘Canário’ e será lançada no dia 28 de novembro, no Teatro Guarany, em Santos. O nome do livro é uma alusão aos pássaros que, com a liberdade de voar, chegam ao destino que querem. “Foram dez anos da minha vida sonhando com isso e sempre pareceu muito surreal. Eu gosto de tantos escritores e eu tenho um livro deles na mão. É difícil imaginar que em breve eu terei algo produzido por mim na mão, com o meu nome assinado. Acho agora a minha vida está fazendo mais sentido”, comemora.

Fellipe escreve desde os oito anos de idade por incentivo da irmã (Foto: Orion Pires/G1)

Fellipe escreve desde os oito anos de idade por incentivo da irmã (Foto: Orion Pires/G1)

Irmão que nunca conheceu inspira novo livro de Chico

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Filho que Sergio Buarque de Holanda teve na Europa dá título ao romance
Compositor pesquisou paradeiro de parente para escrever ‘O Irmão Alemão’, que chega às livrarias no dia 14

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Publicado na Folha de S.Paulo

O conteúdo do novo romance de Chico Buarque, “O Irmão Alemão”, será conhecido só no dia 14, mas pelo menos o título da obra é inspirado numa obsessão que acompanha o autor há quase 50 anos: a história de seu meio-irmão Sérgio Georg Ernst, a quem nunca conheceu.

Foi na segunda metade dos anos 1960 que o compositor descobriu a existência do irmão, filho de seu pai, o historiador Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), com Anne Margerithe Ernst, sua namorada quando viveu em Berlim, no final dos anos 1920.

Sérgio Georg Ernst nasceu por volta de 1930, seis anos antes de Sergio Buarque de Holanda se casar, já no Brasil, com Maria Amélia de Carvalho Cesário Alvim, mãe de Chico e de seus seis irmãos.

Quem revelou a Chico a existência do irmão foi o poeta Manuel Bandeira (1886-1968), amigo do historiador, durante visita de Chico, Tom e Vinicius à sua casa.

“No meio de algumas lembranças ele mencionou ‘aquele filho alemão’. Eu perguntei: ‘Que filho?’. Eu não sabia que meu pai tinha tido um filho na Alemanha”, contou Chico em 1994 à Folha.

“Fiquei muito chocado e, quando pude ir a São Paulo, perguntei ao meu pai. No começo ele não quis falar, mas depois abriu o jogo”, disse.

A única vez que Sergio Buarque de Holanda teve notícias do filho foi na Segunda Guerra: a ex-namorada escreveu pedindo documentos que provassem que o menino não tinha ascendência judaica.

Chico e seus irmãos sempre tentaram encontrar o meio-irmão, sem sucesso. A hipótese mais forte é que ele tenha morrido na guerra.

“Sempre que ia à Alemanha, Chico olhava curioso para os rostos dos homens para ver se reconhecia em alguém os traços dos Buarque de Holanda”, lembra Regina Zappa, biógrafa do compositor.

É provável que Chico tenha aprofundado a pesquisa para escrever “O Irmão Alemão”. “Cada vez que alguém ia para a Alemanha, chegava com alguma pista ou história. Mas quem descobriu mesmo foi o Chico”, afirma a irmã Miúcha, que diz não saber “o quanto é ficção e o quanto é realidade” nessa descoberta.

Isso pode ter sido mais relevante para o autor do que para o romance –que, afinal, trata-se mesmo de uma ficção.

Chico Buarque lê trecho de ‘O irmão alemão’, seu novo livro

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Assista ao vídeo com o músico e escritor

Publicado em O Globo

A editora Companhia das Letras divulgou um vídeo em que o cantor e compositor Chico Buarque exibe a capa e lê um trecho de seu novo romance, que chega às livrarias no dia 14 de novembro.

“O irmão alemão” é o quinto romance do autor, que completou 70 anos em junho. Seu último livro, “Leite derramado”, foi lançado há cinco anos e venceu o Prêmio Jabuti de livro do ano (foi a terceira vez que o escritor ganhou o prêmio).

Chico Buarque publicou seu primeiro texto em 1966, um conto chamado “Ulisses”, no songbook “A banda”, de 1966. Na década seguinte, ele lançou a “novela pecuniária” “Fazenda modelo” (1974) e o infantil “Chapeuzinho Amarelo” (1979).

Em 1981, chegou às livrarias o livro de poesia “A bordo do Rui Barbosa”, com texto de Chico e ilustrações do artista plástico e arquiteto Vallandro Keating.

Dez anos mais tarde, Chico Buarque publicou seu primeiro romance,

Capa de "O Irmão Alemão", romance de Chico Buarque

Capa de “O Irmão Alemão”, romance de Chico Buarque

“Estorvo”, que já lhe rendeu um Prêmio Jabuti e foi adaptado para o cinema no ano 2000, por Ruy Guerra.

“Benjamim”, seu segundo romance, saiu em 1995. E também virou filme, com Paulo José no papel-título, contracenando com Cleo Pires, sob a direção de Monique Gardenberg (2003). No mesmo ano em que o filme chegou aos cinemas, Chico lançou o romance “Budapeste”, que lhe rendeu seu segundo Jabuti e mais uma vez ganhou uma versão cinematográfica, do diretor Walter Carvalho (2009).

Em 2010, a premiação de “Leite derramado” como livro do ano gerou uma polêmica. A obra tinha ficado em segundo lugar na categoria romance, atrás de “Se eu fechar os olhos agora”, de Edney Silvestre. O livro do jornalista ficou, por sua vez, atrás do de Chico no prêmio principal, de livro do ano. Sérgio Machado, presidente do Grupo Record, que publicava Silvestre, ameaçou não participar mais do Prêmio Jabuti se as regras não fossem alteradas. No ano seguinte, o troféu literário determinou que só os primeiros colocados de cada categoria poderiam concorrer a livro do ano.

Do novo romance, a Companhia das Letras divulgou, por ora, apenas a capa e o vídeo em que Chico lê um trecho (veja o vídeo acima e leia a transcrição abaixo). Nele, narra as lembranças de um menino em relação à biblioteca do pai e à intensa relação paterna com os livros.

Apesar de ainda ser cedo para assumir que o romance tenha traços autobiográficos, vale lembrar que Chico já se referiu algumas vezes, em entrevistas, a um meio-irmão mais velho que seu pai, Sergio Buarque de Hollanda, teria tido quando morou na Alemanha entre 1929 e 30. Ele se casaria com Maria Amélia, mãe de Chico e seus irmãos, em 1936. Sobre o fato, o compositor e escritor explicou alguns detalhes em entrevista a Geneton Moraes Neto, em 2010: “Eu tenho um meio-irmão alemão. Não sei se ainda tenho. Mas tive. O meu pai teve um filho alemão antes de se casar. Depois, perdeu de vista, porque voltou para o Brasil, onde se casou. Não se relacionou mais com a mulher nem com o filho que teve na Alemanha. A última notícia que ele teve foi durante a guerra. A mulher pediu que o meu pai enviasse documentos provando que não tinha sangue judeu até a segunda ou terceira geração. O meu pai providenciou. Depois da guerra, não teve notícias”.

LEIA TRECHO DE ‘O IRMÃO ALEMÃO’

“Calma, Ciccio, disse minha mãe, quando já crescido lhe perguntei por que meu pai não escrevia um livro, uma vez que gostava tanto deles. Ele vai escrever o melhor libro del mondo, disse arregalando os olhos, ma prima tem que ler todos os outros. A biblioteca do meu pai contava então uns quinze mil livros. No fim superou os vinte mil, era a maior biblioteca particular de São Paulo, depois da de um bibliófilo rival que, dizia meu pai, não havia lido nem um terço do seu depósito. Calculando que ele tenha acumulado livros a partir dos dezoito anos, posso tirar que meu pai não leu menos que um por dia. Isso sem contar os jornais, as revistas e a farta correspondência habitual, com os últimos lançamentos que por cortesia as editoras lhe enviavam. A grande maioria destes ele descartava já ao olhar a capa, ou após uma rápida folheada. Livros que jogava no chão e mamãe recolhia de manhã para juntar no caixote de doações à igreja. E quando porventura ele se interessava por alguma novidade, sempre encontrava algum pormenor que o remetia a antigas leituras. Então chamava com seu vozeirão: Assunta! Assunta!, e lá ia minha mãe atrás de um Homero, um Virgílio, um Dante, que lhe trazia correndo antes que ele perdesse a pista. E a novidade ficava de lado, enquanto ele não relesse o livro antigo de cabo a rabo. Por isso não estranha que tantas vezes meu pai deixasse cair no peito um livro aberto e adormecesse com um cigarro entre os dedos ali mesmo na espreguiçadeira, onde sonharia com papiros, com os manuscritos iluminados, com a Biblioteca de Alexandria, para acordar angustiado com a quantidade de livros que jamais leria porque queimados, ou extraviados, ou escritos em línguas fora do seu alcance. Era tanta leitura para pôr em dia, que me parecia improvável ele vir a escrever o melhor libro del mondo. Por via das dúvidas, quando ao sair do quarto eu ouvia o toque-toque da máquina de escrever, tirava os sapatos e prendia a respiração para passar ao largo do seu escritório. E me encolhia todo se por azar naquele instante ele arrancasse num ímpeto o papel do rolo, achava que em parte era de mim a raiva com que ele esmagava, embolava a folha e a arremessava longe. Outras vezes a máquina cessava para meu pai pedir socorro: Assunta! Assunta!, era alguma citação que ele precisava transcrever urgentemente de um determinado livro. Com isso levava meses para redigir, rever, rasurar, arremessar bolotas, recomeçar, corrigir, passar a limpo e certamente contrafeito entregar para publicação o que seriam rascunhos do esqueleto do grande livro da sua vida. Eram artigos sobre estética, literatura, filosofia, história da civilização, que ocupariam uma coluna ou um rodapé de jornal. Quando papai morreu, apareceu um editor disposto a publicar uma coletânea dos artigos assinados por ele ao longo da vida. Fui contra, cheguei a mostrar à minha mãe a profusão de correções e emendas ilegíveis que meu pai sobrepusera ao texto ou anotara à margem dos próprios artigos, recortados dos jornais. Mas mamãe estava convencida de que o livro seria aclamado no meio acadêmico, quiçá editado até na Alemanha, graças aos escritos de juventude concebidos naquele país. E ainda insinuou que desde a infância eu procurava sabotar meu pai, haja vista aquele ensaio que por minha culpa desfalcaria suas obras completas. Meia verdade, porque era ao meu irmão que de tempos em tempos meu pai confiava um envelope a ser entregue na redação de A Gazeta, do outro lado da cidade, para isso, além do dinheiro do bonde, ele o remunerava com uma quantia suficiente para uma semana de milk-shakes. Mas volta e meia meu irmão me repassava o dinheiro do bonde e o envelope, que eu levava a pé à redação. Não me movia o dinheiro poupado, que mal pagava duas mariolas, eu ficava era todo prosa com tamanha responsabilidade. Ainda ganhei a simpatia dos funcionários do jornal, e não me importava de passar por um suado estafeta do meu pai, em cujas mãos despejavam mais umas moedas. Mas certa vez, a caminho da redação, parei para jogar um futebol de rua, era comum naquele tempo. Carros circulavam só de quando em quando, e ao avistá-los ao longe os meninos gritavam: olha a morte! Logo recolhíamos as lancheiras, as pastas, os agasalhos que representavam as balizas e aguardávamos na calçada a passagem do carro para recomeçar a partida. Mas nesse dia não foi o trânsito, foi uma chuva súbita que nos obrigou a apanhar depressa nossas coisas e buscar abrigo sob a marquise de um empório. Chegou a cair granizo, que catávamos do chão, chupávamos, atirávamos uns nos outros, uma festa. Mas de repente calhou de eu me lembrar do envelope do meu pai, que eu deixara debaixo de um pulôver e agora estava ali no meio do aguaceiro. Corri para salvá-lo e por pouco não fui atropelado, pois naquele segundo passou um Chevrolet que agarrou o envelope com o pneu e só o soltou duas quadras adiante. Fui colher seus restos, e não havia remédio, o artigo do meu pai era uma estranha massa cinzenta, uma maçaroca de papel molhado”.

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