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Laurentino Gomes e Marina Colasanti vencem o Prêmio Jabuti

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Escritor levou na categoria não ficção por ‘1889’ e Marina, autora de ‘Breve História de Um Pequeno Amor’, pela melhor obra ficcional

Maria Fernandes Rodrigues, no Estadão

O jornalista Laurentino Gomes ganhou na noite desta terça-feira, 18, seu terceiro Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção por sua trilogia sobre a história do Brasil. O primeiro foi para 1808, em 2008, o segundo, para 1822, em 2011, e agora 1889, obra que encerra a empreitada, foi escolhida pelos jurados e também pelos associados da Câmara Brasileira do Livro como a melhor de 2013. O Livro do Ano de Ficção foi para Marina Colasanti, pelo infantil Breve História de um Pequeno Amor (FTD). Eles ganharam R$ 35 mil cada um, além dos R$ 3.500 por terem sido os primeiros colocados de suas categorias e o troféu no formato de um Jabuti.

Com este prêmio, Laurentino Gomes se iguala a Chico Buarque em número de estatuetas de Livro do Ano. Gomes contou, depois da premiação, que até ficaria feliz se Lira Neto ganhasse o prêmio pelo segundo volume de sua trilogia sobre Getúlio Vargas – mas ele queria ganhar. “Foi o meu livro de que mais gostei. É o mais maduro, mais bem acabado. É onde aprendi a ser escritor. Então, no fundo, eu esperava que ele recebesse a mesma premiação dos outros dois.”

Laurentino Gomes levou R$35 mil pelo primeiro lugar

Laurentino Gomes levou R$35 mil pelo primeiro lugar

Os três volumes venderam, juntos, mais de 2 milhões de exemplares. “Os brasileiros estão muito interessados em estudar a história do Brasil, em buscar explicações para o País de hoje. E precisamos ser muito generosos com esse leitor escrevendo com uma linguagem muito fácil de entender. Caso contrário nunca vamos conseguir ter um país de leitores”, disse.

Laurentino Gomes aproveitou para falar sobre o o momento pelo qual estamos passando e disse que não podemos nos assustar com os desafios do presente, já que a história mostra que temos uma boa capacidade de superação de obstáculos e dá um sinal de esperança em relação ao futuro. “Eu me assusto muito com o grau de exaustão da democracia brasileira. Pessoas muito jovens pregando o golpe militar, a ditadura, um clima de conspiração e de desânimo no ar. Mas é só estudando história que vamos afastar esses fantasmas do horizonte”, disse. E completou: “Quem não teve oportunidade de refletir mais sobre o País, de se informar sobre nossa jornada até aqui, é que está pregando medidas radicais. O Brasil vive clima de intolerância muito grande. É só entendendo essa jornada que vamos conseguir construir um futuro de forma mais organizada e menos barulhenta e intolerante.”

O jornalista quer continuar nos séculos 18 e 19, período de formação do estado brasileiro, em seus próximos trabalhos. Mas por ora se ocupa dos desdobramentos de sua trilogia premiada em obras para adolescentes e crianças. Uma ficção não está nos planos. “Ela me assusta muito. Sou repórter, trabalho com não ficção, é o que sei fazer. Ficção é um mergulho na alma humana que exige um talento e acho que não tenho.”

A ficção, especialmente a infantojuvenil, é terreno da escritora Marina Colansanti, que passou por um apuro um pouco antes da premiação. Em visita a uma escola de Cidade de Deus, uma criança de quatro anos se enroscou em sua perna e ela foi de cara no chão. Quebrou o nariz, o septo. E disse ao cirurgião Ivo Pitanguy: “Ivo, pelo amor de Deus, conserta esse nariz porque eu tenho que buscar meu Jabuti”. Ela tirou o curativo na segunda-feira, e ontem estava lá recebendo o prêmio por sua prosa poética acerca de uma escritora que encontra um ninho com filhotes de pombo abandonados pela mãe e decide cuidar deles.

“Considero que fui ferida em combate, no cumprimento do dever”, brinca a escritora. Em seu discurso, ela disse que ficou surpresa porque o prêmio foi dado a uma uma obra infantil. Depois ela completou: “Sempre se considera que a literatura infantil é uma subliteratura, que nunca chegou ao nível do Andersen, do Green, do Caroll. Isso não é verdade. Há um empenho de fazer leitores. Um livro de poesia para criança me leva pelo menos dois anos e enquanto estou fazendo aquilo não posso fazer outra coisa. Mas estou pagando o que recebi. Alguém fez de mim uma leitora e quero fazer alguns leitores”.

Ela acabou de fazer uma tradução de texto de Lewis Carroll (Alice para crianças muito pequenas), para a Record, e está preparando a reunião de todo os seus contos de fada – Mais de 100 Contos Maravilhosos sairá pela Global.

Festa. Na cerimônia realizada no Auditório do Ibirapuera, apenas os vencedores de cada uma das 27 categorias subiram ao palco – historicamente, os três primeiros colocados podiam receber o troféu e os aplausos, mas agora assistiram da plateia seus livros sendo exibidos no telão. A ideia era agilizar a festa, o que não ocorreu.

Antes da premiação, Ignácio de Loyola Brandão, escritor e cronista do Caderno 2, fez uma versão menor de seu Solidão no Fundo da Agulha, pocket show que criou com a filha Rita Gullo – ela canta músicas e ele conta histórias relacionadas a essas canções.

Tânia Rösing, idealizadora da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, foi homenageada com o troféu “amiga do livro”. Em seu discurso, disse: “Conseguimos muito – que o Governo comprasse livros, que as editoras fizessem boas edições. Mas nos falta coragem de investir na formação dos professores leitores”.Curador do Jabuti por 23 anos, José Goldfarb, que foi substituído este ano pela escritora e pesquisadores Marisa Lajolo, também foi homenageado e ganhou uma placa.

Em sua fala, Marisa Lajolo lembrou o poeta Manoel de Barros, morto na semana passada. Já a ministra interina da Cultura, Ana Cristina Wanzeler, optou por um discurso mais informativo do que político, e destacou a importância do prêmio, lembrou os escritores mortos este ano, falou da presença da literatura brasileira no exterior, do Vale Cultura, e garantiu que em breve o Plano Nacional do Livro, Leitura e Literatura estará em discussão no Congresso Nacional.

Câmara Brasileira do Livro anuncia finalistas do 56º prêmio Jabuti

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Laurentino Gomes concorre com o livro 1889  (Foto: Divulgação)

Laurentino Gomes concorre com o livro 1889 (Foto: Divulgação)

A entrega do prêmio será 18 de novembro, em São Paulo

Publicado no Correio da Bahia
Dedicado a reconhecer as principais etapas de produção de um livro e os mais diversos gêneros, a Câmara Brasileira do Livro anunciou, ontem, os 10 finalistas de suas 27 categorias da 56ª edição do prêmio Jabuti. Na lista, Laurentino Gomes, que ganhou livro reportagem e livro do ano pelos dois primeiros volumes de sua trilogia histórica – 1808 e 1822 – concorre agora com 1889.

O jornalista e biógrafo Lira Neto, terceiro lugar no ano passado, disputa com Getúlio – Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo (1930- 1945). Entre os finalistas da categoria conto e crônica está Milton Hatoum e seu Um Solitário à Espreita. Ele concorre com Rubem Fonseca (Amálgama), Luiz Vilela (Você Verá), Antonio Prata (Nu, de Botas), João Vereza (Noveletas), Everardo Norões (Entre Moscas), Cristovão Tezza (Um Operário em Férias), Ettore Bottini (Uns Contos), Jádson Barros Neves (Consternação) e Moema Franca (Bem Aqui).

Entre os romancistas estão Bernardo Carvalho, Michel Laub, Veronica Stigger, Marcos Peres, Flávio Cafiero, Sergio Rodrigues, Marcelino Freire, Fernanda Torres, Luis S. Krausz e Laura Erber. Adelia Prado, com Miserere, lidera a lista de poesia. Pedro Veludo, com Da Guerra dos Mares e das Areias: Fábula Sobre as Marés, a de infantil. O resultado sai em 16 de outubro. A entrega do prêmio será 18 de novembro, em São Paulo.

Laurentino Gomes: “Nosso Brasil dos sonhos ainda vai demorar”

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Autor de três livros sobre a história do Brasil, Laurentino Gomes tornou-se um escritor de best-sellers Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Autor de três livros sobre a história do Brasil, Laurentino Gomes tornou-se um escritor de best-sellers Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Depois de mais de duas décadas trabalhando na editora Abril, o jornalista deixou o cargo de diretor superintendente para se consagrar como escritor

Alexandre Lucchese, no Zero Hora

Abandonar uma carreira de sucesso, depois dos 50 anos, para realizar um sonho juvenil pode ser uma aventura arriscada, mas recompensadora. Laurentino Gomes sabe bem disso. Depois de mais de duas décadas trabalhando na editora Abril, o jornalista deixou o cargo de diretor superintendente para se consagrar como escritor.

Abordando a história brasileira de modo envolvente, seus livros contrabalançam narrativas e análises históricas com momentos pitorescos de figuras proeminentes do passado. Sua trilogia de livros 1808, 1822 e 1889 já vendeu mais de 2 milhões de exemplares desde 2007. Os dois primeiros levaram o título de Livro do Ano de Não Ficção no Prêmio Jabuti de 2008 e 2011, uma das mais tradicionais láureas da literatura brasileira.

Aos 58 anos, o escritor paranaense, filho de agricultores, mantém suas pesquisas sobre o passado do país em busca de referências para seu próximo livro. ZH conversou com Laurentino na Feira do Livro de Canoas, que trouxe o autor ao Estado. Nesta entrevista, analisa diferentes facetas do modo de ser do brasileiro sob uma perspectiva histórica, aponta desafios da democracia e conta como foi a transição pessoal de jornalista para escritor best-seller.

ZH – Como explicar a identidade do brasileiro com base em nosso passado?

Laurentino Gomes – Especialmente nessas três datas com as quais trabalho em meus livros, 1808, 1822 e 1889, tenho observado muitas das características do Brasil de hoje, como se fosse nosso DNA. Quando a corte portuguesa chegou ao país, em 1808, encontrou um oceano de pobreza, analfabetismo, escravidão, concentração de riquezas, rivalidades locais… Os portugueses receberam a incumbência de ocupar um território 91 vezes maior que a pequenina metrópole portuguesa e o fizeram distribuindo grandes quantidades de terra a quem se dispunha a vir para cá, mantendo a população na ignorância e importando mão de obra escrava. Gente aventureira, exploração de matérias-primas e escravos: essa é a base constitutiva do Brasil Colônia. É interessante observar que, após a chegada da corte, um personagem como José Bonifácio de Andrada e Silva, faz uma observação curiosa em carta a um amigo: “Amálgama muito difícil será a liga de metal tão heterogêneo num corpo sólido e político”. Ele está dizendo: como vamos construir um país com essa matéria-prima?

ZH – Bem diferente do que se viu nos Estados Unidos, então colônia inglesa.

Gomes – Quando D. João chegou aqui, não existia sociedade civil, como havia na América inglesa, uma sociedade altamente alfabetizada, protestante, com senso de participação comunitária, que rompe com a Inglaterra e constrói o Estado de baixo para cima, em forma de democracia republicana. No Brasil, existia um oceano de não cidadãos e uma pequena elite, de 10 a 15 mil pessoas, que chega de Portugal e começa a construção do Estado de cima para baixo: abre os portos, cria escolas de Medicina, imprensa régia, academia militar… Embaixo disso, uma geleia geral social. O Brasil era um experimento muito instável, que ameaçava fugir do controle. Diante do perigo de guerra civil que poderia fragmentar o país e ameaçar o status quo ao armar os escravos, a elite brasileira optou por um caminho conservador: manter a monarquia portuguesa, que faz a independência. Ou seja, o Brasil rompe vínculos com Portugal, mas deixa a ordem social inalterada: escravidão, analfabetismo, latifúndio. Tanto é que o Brasil é o último país da América a abolir o tráfico negreiro e a escravidão. Na época da independência, a América espanhola tinha 22 universidades, já a primeira universidade brasileira é de 1912, 90 anos mais tarde. Com isso, o Brasil vai acumulando passivos históricos.

ZH – Que passivos são esses?

Gomes – Em primeiro lugar, a falta de prioridade com a educação e o analfabetismo. Até meados do século 20, 50% da população era analfabeta. Em segundo lugar, a grande concentração de propriedade, uma coisa que até hoje se discute, embora acredite que não faça mais sentido fazer reforma agrária, tinha que fazer no século 19. Um terceiro ponto é a criação de uma enorme faixa da população de não cidadãos, que eram os escravos, gente que não contava nem nas estatísticas. Além disso, também herdamos uma concentração centralizada e autoritária do Estado, uma pequena elite tutela todo o resto, essa grande geleia geral social instável e perigosa. Outra coisa importante: Joaquim Nabuco observou com precisão que a escravidão corrompeu toda a nossa forma de ser, fez com que o brasileiro desprezasse o trabalho, porque quem trabalhava era o escravo. E a escravidão também corrompeu o modo como nós olhamos para nós mesmos, como se um brasileiro pudesse se sentir superior diante dos outros. Também acredito que a herança monárquica no Brasil é historicamente mais forte que a republicana, ou seja, o brasileiro, mesmo em ambiente republicano, mantém uma certa perspectiva monárquica do poder.

ZH – Como essa perspectiva se manifesta?

Gomes – É o brasileiro que não participa de sindicatos, comunidades de bairro, partidos políticos, reuniões de pais na escola… Não participa nem da assembleia do condomínio onde mora, mas espera muito do Estado! É essa perspectiva de esperar tudo de um pai, um soberano que irá nos prover tudo. Isso se dá porque, no passado, o brasileiro não foi chamado nem autorizado a participar da construção das instituições e da própria identidade nacional. É comum estar em uma mesa de bar e ouvir um brasileiro dizer que em Brasília todo mundo é corrupto, que tem que fechar o congresso e chamar um ditador, ou um imperador. Ainda tem muito monarquista no Brasil. Mas, em suas relações privadas, a mesma pessoa fura fila, joga lixo na rua, anda pelo acostamento e corrompe o agente público sempre que é da sua conveniência. E isso não se dá apenas com o brasileiro pobre, com o analfabeto funcional, também age assim o empresário que corrompe e sonega impostos.

ZH – Nesse contexto, como interpretar as manifestações de junho passado?

Gomes – Como não estávamos habituados a exercer democracia plena, nós alimentamos algumas ilusões, até porque o Brasil também tem uma outra característica: o messianismo, o salvador que entrará no poder e resolverá tudo. Isso tem relação com o sebastianismo português. É interessante que, na redemocratização, em 1984, esse sebastianismo aflora muito rapidamente na ideia de que bastariam alguns anos de democracia para que todos os nossos problemas se resolvessem. E principalmente que a gente poderia contar com alguns salvadores da pátria, como o Collor, líder dos descamisados; o FHC, homem que doma a inflação; o Lula, pai dos pobres; a Dilma, mãe do Bolsa Família… Acho que hoje o Brasil está em uma espécie de estado de choque cívico. Por que está demorando tanto para resolvermos nossos problemas? Por que a corrupção ainda continua? Por que a violência é cada vez maior? Onde estão as fórmulas mágicas? Por que as fórmulas nas quais apostamos não deram tão certo? Tem uma certa frustração no ar.

ZH – É comparável à frustração de um adolescente chegando à idade adulta?

Gomes – Sim, é a ideia de que somos um gigante adormecido que vai acordar e virar um país de primeiro mundo. Acho que está ocorrendo algo muito saudável, o Brasil está pela primeira vez se olhando no espelho e perguntando “quem sou eu?”, “quem vai resolver meus problemas?”. Numa sociedade republicana e democrática, não é um rei ou o ditador quem resolve as coisas, é a sociedade organizada. O nosso desafio é assumir a República que a gente proclamou em 1984 (ele se refere às Diretas Já) e referendou por plebiscito em 1993 (os eleitores escolheram o modelo de república presidencialista). Acho que as manifestações são um sinal de vitalidade da nossa democracia, mas levantam algumas questões complicadas: democracia não se faz no grito, e sim nas práticas diárias nas escolas, nas empresas, nas ONGs, nos partidos políticos, nos sindicatos, nas urnas… Esse aspecto ainda não foi percebido pelo brasileiro, que vai bonitão pra rua como cara-pintada.

ZH – Mas há uma frustração real.

Gomes – Há também uma parte dos jovens que está frustrada, que é abusada diariamente com ônibus ruim, metrô que atrasa, polícia que dá geral nele quase todo dia… Na hora de fazer manifestação, esse jovem pensa “agora, aqui é uma Suíça”, aí quebra tudo, arrebenta, não quer nem saber. Mas democracia não se faz com quebra-quebra. Como o regime militar reprimiu demais, perseguiu inimigos, torturou e matou, hoje estamos muito tolerantes com a violência, com o banditismo e com o quebra-quebra. Não se pode deixar pessoas quebrarem o patrimônio público ou privado com o falso argumento de que estão se manifestando democraticamente. As manifestações estão confrontando as instituições brasileiras democráticas e a capacidade do Estado de, ao mesmo tempo em que assegura o direito à liberdade de expressão, impedir que um grupo minoritário imponha sua vontade pela violência.

ZH – E como o senhor viu os protestos em relação à Copa do Mundo?

Gomes – É uma coisa saudável para a democracia, estamos confrontando nossos próprios demônios. Esse negócio de querer ter hospitais, escola e serviços público padrão Fifa… Se somos capazes de fazer estádios tão bons, coisa que aparentemente não somos (risos), por que não também serviços públicos de qualidade? É uma questão de prioridade nacional, de onde colocar nossos escassos recursos. Essa é uma discussão que o futebol está levantando. Agora, também está muito claro que a construção do Brasil dos nossos sonhos vai demorar mais do que a gente imagina, porque envolve mudanças de natureza cultural. Eu diria que jamais você vai ter em Brasília um Estado muito mais ou muito menos corrupto e ineficiente do que a média da sociedade brasileira. O que está em Brasília é a média do que somos. Se quisermos ter um Estado melhor do que temos, teremos que qualificar a sociedade pela educação e cultura. Meus netos e bisnetos não verão isso. Quem sabe daqui a 100 ou 200 anos seja assim.

ZH – Depois de uma carreira como jornalista, o senhor pediu demissão para se dedicar à literatura num país em que poucos escritores vivem de seus livros. Como foi esse momento de mudança?

Gomes – Durante mais de 30 anos, fui repórter de redação de jornal e revista. Ali aprendi o que faço hoje. Às vezes me dizem que mudei de profissão, que hoje sou escritor ou historiador. Não, sou um jornalista. Só mudei de formato. Antes, fazia jornal ou revista. Hoje, faço livro-reportagem. Tudo ocorreu por coincidência. Em 1997, eu trabalhava na Veja, e havia um projeto de uma série sobre história do Brasil para ser distribuída para assinantes. Fiquei encarregado de coordenar uma equipe de pesquisa, mas o projeto foi cancelado. Resolvi continuar e radicalizar. Aí nasceu o livro 1808, em 2007. Acho que o jornalista deve combinar profundidade de pesquisa com linguagem simples, didática. Mas também é preciso ter senso de oportunidade. E era a véspera dos 200 anos da chegada da corte. Mesmo assim, fui surpreendido pelo interesse do Brasil em história, nunca sonhei que meu livro iria se tornar um best-seller. Aí, fui confrontado com a minha criatura, o autor não fica imune ao destino do livro que escreve. Tive que pedir demissão, coisa que não imaginava. Meu chefe disse: “Você está doido” (risos).

ZH – Nas palestras e encontros literários de que participa, o senhor tem a chance de conhecer as profundezas do Brasil. Como tem visto este país além dos grandes centros urbanos?

Gomes – É um Brasil multifacetado, com realidades regionais que continuam muito distantes entre si, que está passando por um processo de transformação muito grande e, principalmente, um processo de reflexão muito intenso. É uma semente que está germinando em silêncio, e é muito boa. É uma maratona rodar esse país de proporções continentais, mas me sinto animado, mesmo percebendo que temos dificuldades enormes a enfrentar. No Piauí, por exemplo, percebi que há uma grande parcela da população que vive do Bolsa Família, e lá a Dilma tem uma popularidade enorme, maior do que no Sul e Sudeste do Brasil. Aí você vê duas faces da mesma moeda: se, por um lado, o Bolsa Família é um esforço muito bom de corrigir um passivo histórico de distribuição de renda, por outro é quase uma reprodução à esquerda de um clientelismo que os coronéis nordestinos faziam no passado, criando viveiros eleitorais.

ZH – O senhor também passou, em 2012, pela experiência de morar nos EUA, quando pesquisava para o livro 1989. Como foi esse mergulho na sociedade americana?

Gomes – Minha esposa foi estudar inglês, e eu pude acessar a Biblioteca Oliveira Lima, que fica em Washington. É um acervo de 40 mil documentos, que tem muita coisa sobre a república e o império. E também é interessante observar os próprios norte-americanos. Você vê que é uma sociedade muito organizada e tem uma identidade muito forte em relação ao passado, seus fundadores, os símbolos nacionais, como eles carregam e vestem aquela bandeira. Aqui, como tivemos muitas rupturas, nossa referência do passado continua muito difusa, quem nós somos, de onde viemos. O brasileiro não se identifica com o país no dia a dia, só em momentos de catarse, como na morte do Ayrton Senna, no Carnaval, na Copa do Mundo… No cotidiano, é até uma certa vergonha usar uma bandeira do Brasil no carro. É um problema de identidade, de saber quem sou eu, quais os símbolos e as referências mitológicas que servem para mim, com as quais me identifico.

“A maior fragilidade do Brasil foi justamente a educação”, diz escritor Laurentino Gomes

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Jornalista e autor de trilogia sobre história do Brasil diz que educação nunca foi prioridade

"A maior fragilidade do Brasil foi justamente a educação", diz escritor Laurentino Gomes Marcos Nagelstein/Agencia RBS

O escritor e jornalista Laurentino Gomes faz uma análise sobre como educação era tratada no período do Brasil Império e na República Foto: Marcos Nagelstein / Agencia RBS

Publicado no Diário Catarinense

A educação é um dos principais desafios para impulsionar o crescimento do Brasil, apesar de já ter apresentado avanços consideráveis neste século. Entender por que o setor ainda tem tantos atrasos é possível dando uma volta ao passado.

O escritor e jornalista Laurentino Gomes fez isso em três livros: 1808, 1822 e 1889, o último lançado neste ano. Algumas das razões que colocam a educação como uma área carente de investimentos e apenas agora sendo olhada como prioridade estão diretamente ligadas a estes três períodos narrados pelo escritor.

Em entrevista ao Diário Catarinense, Gomes dá mais detalhes de como a educação era encarada e ele é enfático ao dizer que em nenhum dos três momentos analisados o setor foi prioridade.

A família real, mais preocupada em manter a colônia sob controle, não tinha interesses em levar educação ao povo, que era em sua maioria analfabeta — 99% da população analfabeta em 1808. Na época da Independência, enquanto havia 22 universidades na América espanhola, o Brasil não possuía nenhuma. Um professor ganhava menos do que um feitor de escravos. Para o jornalista, o investimento mais efetivo em educação começou apenas agora, um pouco antes da metade do século 20.

Diário Catarinense — Nos livros o senhor trabalhou três importantes períodos do Brasil: a chegada da família real ao Brasil, a Independência e a Proclamação da República. Em algum deles a educação foi prioridade?

Laurentino Gomes — Não, infelizmente não. Se eu tivesse que identificar a maior fragilidade do Brasil nestes períodos foi justamente a educação. Claro que tinha também a escravidão, o latifúndio, a pobreza, uma precariedade grande na saúde, mas onde o país mais falhou foi na educação. Quando a corte chegou em 1808 estima-se que 99% dos brasileiros fossem analfabetos. Na época da Independência, em 1822, a América Espanhola tinha 22 universidades e o Brasil não tinha nenhuma. A primeira foi em 1912, na República. O professor no Brasil ganhava menos do que um feitor de escravos. As escolas eram raríssimas e distantes. A província do Piauí tinha três escolas, que ficavam 100 quilômetros distantes uma da outra. Em 1889, quase um século depois da chegada da corte, 80% ainda eram analfabetos.

DC — Mas e em Portugal? Eles também não davam importância para a educação?

Gomes — Isso vem do período colonial. Os portugueses ocuparam um terreno nove vezes maior do que Portugal. Então o país não tinha recursos para a colônia, não tinha meios para ocupar um terreno tão grande. Recorreu a três estratégias: capitanias hereditárias, escravidão — o Brasil foi o maior território negreiro das Américas — e a terceira estratégia foi manter a população na ignorância. Portugal não permitia a circulação de livros e de jornais. Tinha um monopólio que proibia a indústria gráfica e não incentivou a educação. Na época da colônia a educação era restrita a poucas ordens como a do jesuítas e nunca se investiu em educação. Esse cenário foi mantido até agora, até antes da metade do século 20. Se compararmos com os EUA, em 1776 eles tinham 90% da população alfabetizada. Isso tinha relação com a religião, porque a sociedade era protestante e ensinava os escravos a ler para que lessem a Bíblia e participassem dos cultos dominicais. Então o grande passivo brasileiro está na área da educação.

DC — Mas não houve nenhuma iniciativa de investimento em educação?

Gomes — Sim, houve iniciativas, mas são muito isoladas e não chegam a resolver o problema na sua raiz. O príncipe regente, Dom João VI, quando chegou ao Brasil criou a primeira escola de Medicina no Brasil, depois vieram cursos de Direito. Foram iniciativas importantes, mas eram restritas, muito pequenas e não tiveram impacto realmente. Durante o segunda Império, o Brasil foi governado por Dom Pedro II, que foi um dos grandes intelectuais do século 19. Nos retratos, sempre aparece com um livro na mão, ou um aparelho científico, como se estivesse sinalizando que era importante investir na educação, nas ciências, nas artes. Mas ele governou um país dominado pelo analfabetismo, pela escravidão e pelo latifúndio.

DC — No livro 1889, o senhor cita que Dom Pedro II incentivava que pintores e escritores brasileiros fossem para Europa estudar mais. Seria uma espécie de Ciências sem Fronteiras daquela época, claro que levando em conta as devidas proporções?

Gomes — (risos). É verdade. Diferente de Dom João, Dom Pedro II não era hipócrita que prometia educação e não fazia nada. Ele fez esforços, que estavam ao seu alcance, mas bem limitados. Essas bolsas de estudos ele financiou com dinheiro do próprio bolso, como no caso do pintor Victor Meirelles e do compositor Carlos gomes. Fazia parte de um investimento em educação muito restrito, mas também de outro esforço que é construir o imaginário de nacionalidade brasileira, pelas artes, pela música, pela pintura. Isso é um empreendimento que ele fez e foi bem sucedido. Ele cria uma imagem de Brasil, uma estética, na forma de narrar, pintar e escrever o Brasil. Não era profundamente ligada à educação.

 

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