Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged lecionar

A universidade burra

0

Alguém até pode dar aulas numa faculdade só pela experiência. Mas incomoda quem está no “esquema”

caderno

Walcyr Carrasco, na Época

Falo por experiência própria: a universidade brasileira é burra. Não me refiro só às públicas. As particulares também. Sou da área de comunicações e artes, faço talvez uma ressalva quanto às de exatas. Mas, como são regidas pelas mesmas regras e pelo enorme contingente de acadêmicos, em sua maioria dedicados a escrever teses que ninguém lê, arrisco dizer que não há muita diferença.

Tomei consciência disso há alguns anos, ao ler aqui e ali que este ou aquele escritor americano fora professor residente numa universidade, com cursos de escrita criativa. Nem todo escritor americano é best-seller. Muitos autores bons gramam com tiragens pequenas. Há essa válvula de escape, dentro do sistema universitário, que atrai profissionais do mercado para compartilhar suas experiências. Inicialmente, como sempre a gente faz, culpei o governo brasileiro, cujas leis provavelmente impediriam essa participação. Surpreso, por meio de conversas com docentes e diretores de universidades, descobri que a possibilidade existe. Alguém pode dar aulas numa universidade apenas por sua experiência. Chegaram a tentar, no Rio de Janeiro, com um ator famoso. Mas ouvi:

– Essas pessoas não se adaptam ao esquema.

Exato. Incomodam. O sistema universitário brasileiro é rançoso. As pessoas só ascendem por meio de trabalhos acadêmicos. Os outros incomodam.

Fiz jornalismo na Universidade de São Paulo. Trabalhei nos mais importantes veículos da imprensa escrita deste país. Fui diretor de redação. Jamais fui convidado para dar um curso, ou workshop, em escolas de jornalismo. Também fiz carreira na televisão. Sou autor de novelas. Quem me conhece sabe que, graças a Deus, tenho emprego numa empresa que admiro, a Globo. E que minhas novelas fizeram sucesso aqui no Brasil e também em muitos países do mundo. Alguém me chamou para um curso de roteiro?

Óbvio, não estou procurando emprego.

Me surpreende esse desinteresse pelo que eu poderia oferecer. Só a própria TV Globo, por meio de seu programa de contato com as universidades, manifestou interesse. Dei uma palestra numa faculdade do Rio de Janeiro, particular. Não houve um minuto em que algum aluno não entrasse ou saísse. Em nenhum momento, um professor aconselhou a parar com aquele ir e vir. Perdi a concentração.

Anos depois, um amigo e aluno me convidou para uma palestra em sua classe de teatro, numa universidade particular de São Paulo. Na sala, percebi que uma aluna estava com a filha de 4 anos. Primeiro, avisei que, se alguém saísse, não poderia voltar. Depois, pedi a saída da mãe com a criança, pois a discussão de algum tema poderia ser inadequada. A professora depois me agradeceu, porque a criança atrapalhava as aulas, que, em teatro, muitas vezes exigem leituras despudoradas. Mas não sabia como agir.

Há um ano, uma grande faculdade particular, que cobra altas mensalidades, me convidou para dar uma palestra num festival de cinema. Perguntei quanto pagariam. A resposta foi que não havia verba para isso. Já dei palestras para alunos de escolas públicas sem pensar em grana. Certa vez, fui a um bairro de periferia, na divisa de São Paulo, onde o portão de ferro era trancado para evitar a violência das ruas. Jamais cobraria nada de uma população carente, desde que tenha agenda. Mas de uma faculdade caríssima? Expliquei: o cachê era uma questão de respeito. Desistiram de mim.

Agora, vamos ver: quem são os mestres das grandes escolas de comunicação? Jornalistas que trabalharam em algum lugar há 20, 30 anos. Roteiristas fora do mercado. Gente que, reconheço, tem seu valor. Conhecem teoria, têm tempo para estudos aprofundados. E me desculpem as raríssimas exceções, que não conheço. Mas não pode ser só isso.

A universidade se distancia da realidade do mercado de trabalho. Muitos conhecidos da área e eu sentimos que seria bom compartilhar nossa experiência, não pela grana, mas para exercer uma função social. Trocar. Formar. Não pretendo fazer uma tese, mas meu trabalho já não me habilita a dar aulas de roteiro? Se ambicionasse uma cátedra, teria de seguir todos os passos da burocracia acadêmica. Que, pior, entrega ao mercado gente absolutamente despreparada. Jornalistas que não escrevem, atores que não representam, roteiristas capazes de tão somente fazer uma linda tese sobre roteiros, como seus mestres. Os acadêmicos tremem diante da ideia de seus castelos ruírem. É burrice, deles e do sistema. Ninguém devia tremer, mas compartilhar.

Professora com mais de 40 anos de experiência explica o segredo de como ensinar uma criança

0

1

Vicente Carvalho, no Hypeness

Rita F. Pierson, professora há 40 anos, uma vez ouviu um colega dizer: “Eles não me pagam para gostar das crianças, eles me pagam para ensinar as lições”. Sua resposta foi: “As crianças não aprendem com as pessoas de quem não gostam”.

Rita passou a sua vida inteira dedicada a lecionar, seguindo os seus pais e avós em uma carreira como educadora no ensino fundamental, especial e júnior. Ela traz uma energia especial para o papel em sala de aula: um desejo de conhecer seus alunos, uma conexão humana, mostrando a eles o quanto eles são importantes e os apoiando no seu crescimento, mesmo que modesto. Aqui o tamanho da vitória não importa, e sim a celebração por ela.

Em sua palestra no TED Talks Education, ela faz os educadores refletir sobre a importância do relacionamento, de acreditarem em seus alunos e de realmente se conectarem com cada um. “Toda criança merece um campeão – um adulto que nunca vai desistir deles, que compreende o poder de conexão, e insiste para que eles se tornem o melhor que podem ser“.

Seja professor ou não, vale a pena apertar o play:

1

2

3

4

5

Fotos do TED © Ryan Lash

Médico com doença do ‘desafio do balde de gelo’ dá aula só com olhos

0

Sem controle sobre músculos,Vanderlei Corradini leciona à distância.
Esclerose lateral amiotrófica afeta neurônios responsáveis por movimentos.

Médico de São Sebastião do Paraíso, MG (Foto: Luciano Tolentino / EPTV)

Médico de São Sebastião do Paraíso, MG (Foto: Luciano Tolentino / EPTV)

Mariana Lenharo, no G1

O médico Vanderlei Corradini Simões de Lima, de 53 anos, já não tem mais controle sobre os músculos do corpo. Diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA) em 2010, ele sofreu a paralisação progressiva dos membros. A exceção são os olhos. É com eles que ele se comunica com os alunos da disciplina de Fisiologia Médica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), instituição em que atua como professor convidado. Lima vive em São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais.

1A ELA é a doença rara que motivou o desafio do balde de gelo, campanha que desafia personalidades a jogarem um balde de água gelada na cabeça para chamar a atenção sobre o problema.

As pessoas podem aceitar o desafio ou fazer uma doação para uma instituição ligada à ELA, ou ainda fazer as duas coisas.

De caráter progressivo, a ELA afeta os neurônios responsáveis pelos movimentos do corpo e causa a perda do controle muscular. A doença não interfere na capacidade cognitiva do indivíduo.

Nos Estados Unidos, onde a campanha foi criada pela ALS Association, associação americana que financia pesquisas dedicadas a encontrar uma cura para a doença e também serviços para pacientes, as arrecadações chegaram a US$ 88,5 milhões até esta terça-feira (26).

No Brasil, as três principais associações dedicadas ao apoio de pacientes com ELA arrecadaram, juntas, quase R$ 200 mil em doações em apenas uma semana.

“Acredito que esse fenômeno tem mais importância de nos tornar visíveis, já que as estatísticas insistem em nossa invisibilidade. Quanto à arrecadação de fundos, é um pontapé inicial em uma situação tão complexa”, diz Lima.

Comunicação
Desde quando perdeu os movimentos, Lima tem duas estratégias para se comunicar com o mundo externo. Em uma delas, um acompanhante mostra a ele um quadro com as letras do alfabeto dispostas em três linhas. Lima pisca para indicar em que linha está a letra desejada. Em seguida, a pessoa começa a ler as letras daquela linha e ele pisca na letra que quer usar. Dessa forma, formam-se as palavras e as frases.

Outra estratégia envolve uma ferramenta capaz de detectar os movimentos do globo ocular, que passam a controlar o mouse virtual de um computador.

Foram esses mecanismos que permitiram que ele escrevesse um livro, chamado “Eu e elas”, e que fosse convidado a ministrar uma disciplina, como professor convidado, na UFJF. O convite partiu da fisioterapeuta Carla Malaguti, que leciona a disciplina de fisiologia médica na instituição. Ela conta que já o conhecia e que sabia que tinha muito conhecimento acumulado nos 27 anos de prática em cirurgia geral e endoscopia digestiva.

Vanderlei Corradini Simões de Lima, em foto tirada antes de perder seus movimentos pela esclerose lateral amiotrófica (Foto: Vanderlei Corradini Simões de Lima/Arquivo Pessoal)

Vanderlei Corradini Simões de Lima, em foto tirada
antes de perder seus movimentos pela esclerose
lateral amiotrófica (Foto: Vanderlei Corradini Simões
de Lima/Arquivo Pessoal)

“Falei para ele que, na disciplina, discuto casos à distância com os alunos e que precisava de um professor convidado para me ajudar. Ele adorou porque, com a doença, não pôde mais exercer a medicina, mas pôde manter a profissão como professor”, diz Carla.

A professora conta que a disciplina envolve a discussão de casos reais de pacientes com doenças degenerativas, como a ELA. “Foi muito bom para os alunos porque eles tinham contato com um caso real e também com alguém que entende, como médico, os aspectos todos das doenças”, observa.

Em entrevista por e-mail, Lima diz que sempre gostou de se envolver com a comunidade científica. “No momento que os primeiros sintomas apareceram, ministrava aulas no curso de endoscopia digestiva na pós-graduação da Faculdade de Medicina da Suprema. Quando recebi o convite, fiquei imaginando uma forma de ser útil. Assim, aproveitando minha experiência de 27 anos de medicina assistencialista, participo dos fóruns de discussão de casos clínicos online através da plataforma Moodle [ferramenta de ensino à distância], abordando aspectos psicobiossociais dos casos discutidos e respondendo às questões dos alunos.” Atualmente, além de dar aulas, ele prepara seu segundo livro: “Médico de pijamas e suas estórias”.

“Eu mesmo fiz o diagnóstico clínico e, após a confirmação, preparei minha vida e minha família para tudo que iria enfrentar.”
Vanderlei Corradini, médico

Diagnóstico
Vanderlei começou a perceber os primeiros sinais da doença quando passou a ter câimbras e diminuição da força muscular da mão esquerda. “Pelo fato de ser médico, eu mesmo fiz o diagnóstico clínico e, após a confirmação, preparei minha vida e minha família para tudo que iria enfrentar.”

Depois do primeiro sintoma, a doença evoluiu para paralisa do resto do corpo e da deglutição e respiração. “Nessa situação, é fundamental a aceitação. Para isso é preciso ter a convicção de que desempenhou seu papel com honradez e com a máxima perfeição que conseguiu impor e assim se atinge a sensação de ter vivido na sua plenitude e com êxito.”

Médico Vanderlei Corradini Simões de Lima, que tem esclerose lateral amiotrófica, dá aulas e escreveu livro só com os movimentos dos olhos (Foto: Vanderlei Corradini Simões de Lima/Arquivo Pessoal)

Médico Vanderlei Corradini Simões de Lima, que tem esclerose lateral amiotrófica, dá aulas e escreveu livro só com os movimentos dos olhos (Foto: Vanderlei Corradini Simões de Lima/Arquivo Pessoal)

Go to Top