Posts tagged Leia

Dicas para mandar bem no primeiro ano na universidade

0
Entrar na universidade marca a chegada de necessidades da vida adulta - Fotolia

Entrar na universidade marca a chegada de necessidades da vida adulta – Fotolia

Gerenciar o tempo com inteligência e ter postura independente estão entre as recomendações dos calouros de 2017

Publicado em O Globo

A vida universitária é bem diferente do dia a dia no Ensino Médio. É ninguém melhor do que os calouros de 2017 para apontar essas diferenças. A partir da própria experiência, eles dão o caminho das pedras aos que vão encarar o primeiro ano de faculdade em 2018.

Cursando Nutrição na Universidade Veiga de Almeida (UVA), Rodrigo Bernardo entende que a chegada à universidade é também uma entrada definitiva na vida adulta.

— Dos educadores à faculdade em si, tem sido uma experiência incrível. É importante os alunos começarem focados e com vontade de estudar, já que são muitas matérias, disciplinas pesadas e cobranças dos professores. Há também a descoberta de um novo mundo profissional. No entanto, as maiores mudanças são mesmo as pessoais, porque finalmente passamos a caminhar com as próprias pernas.

Daniel Pereira Aragão, que faz licenciatura em Física na UFRJ, concorda com Rodrigo sobre a necessidade de gerenciar o tempo com inteligência. Para o ex-aluno do colégio CEL, trocar informações com os novos colegas é fundamental.

— Vale a pena participar da semana de integração. É quando você conhece pessoas e faz novos amigos. Muitos calouros não participam e depois têm dificuldade de fazer conexões na universidade. Quanto às disciplinas, não deixe o aprendizado das matérias acumular e corra atrás dos conteúdos. Busque ajuda de professores e livros por conta própria. A universidade diz muito sobre a administração da própria vida — compara Daniel.

Com a facilidade de usar a nota do Enem em universidades fora do próprio estado, muitos estudantes vivem uma mudança não só da rotina, mas também geográfica. Com auxílio do Sisu, Fies ou Prouni, eles atravessam o país em busca de uma faculdade que atenda às suas necessidades.

Esse é o caso de Luiza Nogueira. Depois de completar o Ensino Médio no Colégio Poliedro, em São José dos Campos (SP), ela arrumou as malas para cursar Design na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

— O principal conselho é ir de mente aberta, principalmente se for longe da cidade natal e do círculo de amizades. Você vai conhecer pessoas diferentes, com outros gostos e costumes variados. É importante estar disposta a novas experiências e a uma variedade imensa de caminhos para seguir — pontua Luiza.

Seja fora ou dentro do estado de origem, a necessidade de uma postura independente é apontada pelos calouros de 2017 como a maior marca do primeiro ano na universidade. Pedro Luiz Nascimento, aluno de Direito na PUC-Rio, acredita que essa característica fez inclusive que ele mudasse sua visão do mundo.

— A faculdade exige que você seja independente, ao mesmo tempo em que ajuda a moldar nossa personalidade. Tenho agora uma visão de mundo mais política, mais madura. Eu imaginava tudo bem diferente, talvez um ambiente mais fechado. Entretanto, percebi que é até meio parecido com a escola – reconhece o universitário.

Por fim, Pedro recomenda que os futuros calouros não se empolguem demais com a sedutora e agitada vida social dos anos na universidade:

— Dá para ter uma relação próxima com as pessoas e aproveitar todos os eventos. Mas isso pede maturidade na conciliação com os estudos, pois sempre vai ter alguém convidando você para algo, como os jogos universitários, por exemplo.

“Como é que alguém se transforma em escritor, ou é transformado em escritor?”

0
 Ricardo Piglia em 2000, em entrevista ao EL PAÍS DANIEL MORDZINSKI

Ricardo Piglia em 2000, em entrevista ao EL PAÍS DANIEL MORDZINSKI

‘Anos de Formação: os Diários de Emilio Renzi’, de Ricardo Piglia, sai no Brasil. Leia trecho

Ricardo Piglia, no El País

Dois anos depois da morte do escritor argentino Ricardo Piglia, a editora Todavia lança no Brasil Anos de Formação: os Diários de Emilio Renzi, que percorre a educação formal e sentimental de Renzi, espécie de alter-ego de Piglia. Logo no início do livro, o narrador se questiona: “Como é que alguém se transforma em escritor, ou é transformado em escritor? Não é uma vocação, imagine, também não é uma decisão, mais parece uma mania, um hábito”. É ao redor do ofício do escritor, tendo como cenário uma Argentina artística e política, que o livro se desenvolve.

O lançamento da edição brasileira acontece em São Paulo, nesta terça-feira, às 19h, no Instituto Cervantes, onde acontecerá uma conversa com o tradutor do livro Sérgio Molina, o especialista em literatura argentina Júlio Pimentel Pinto e o editor da revista literária Quatro cinco um, Paulo Werneck. Leia abaixo um trecho do primeiro capítulo do livro de Piglia.

Na soleira

— Desde pequeno repito o que não entendo – ria Emilio Renzi retrospectivo e radiante naquela tarde, no bar da Arenales com a Riobamba. — Achamos divertido o que não conhecemos; gostamos do que não sabemos para que serve.

Aos três anos ficava intrigado com a figura do seu avô Emilio sentado na poltrona de couro, ausente dentro de um círculo de luz, os olhos fixos num misterioso objeto retangular. Imóvel, parecia indiferente, calado. Emilio, o menino, não entendia muito bem o que estava acontecendo. Era pré-lógico, pré-sintático, era pré-narrativo, registrava os gestos, um por um, mas não os encadeava; simplesmente imitava aquilo que via os outros fazerem. Então, naquela manhã subiu numa cadeira e tirou um livro azul de uma das estantes da biblioteca. Depois foi até a porta da rua e se sentou na soleira com o volume aberto no regaço.

Meu avô, disse Renzi, abandonou o campo e foi morar conosco em Adrogué quando minha avó Rosa morreu. Deixou a folhinha sem arrancar no dia 3 de fevereiro de 1943, como se o tempo tivesse parado na tarde da morte de sua mulher. E o calendário aterrador, com o bloco dos números fixo nessa data, continuou em casa durante anos.

Morávamos num lugar tranquilo, perto da estação de trem, e a cada meia hora passavam pela nossa calçada os passageiros vindos da capital. E lá estava eu, na soleira, querendo ser visto, quando de repente uma sombra comprida se inclinou para me dizer que o livro estava de ponta-cabeça.

Acho que deve ter sido o Borges, brincava Renzi naquela tarde no bar da Arenales com a Riobamba. Naquela época ele costumava passar o verão no Hotel Las Delicias, e só mesmo o velho Borges para fazer essa advertência a uma criança de três anos, não é?

Como é que alguém se transforma em escritor, ou é transformado em escritor? Não é uma vocação, imagine, também não é uma decisão, mais parece uma mania, um hábito, um vício, você deixa de fazer isso e se sente mal, mas ter que fazê-lo é ridículo, e acaba se tornando um modo de viver (como outro qualquer).

A experiência, ele percebera, é uma multiplicação microscópica de pequenos acontecimentos que se repetem e se expandem, sem conexão, dispersos, em fuga. Sua vida, ele compreendera, era dividida em sequências lineares, séries abertas que remontavam ao passado distante: incidentes mínimos, estar sozinho num quarto de hotel, ver seu rosto num instantâneo, entrar num táxi, beijar uma mulher, levantar os olhos da página e dirigi-los à janela, quantas vezes? Esses gestos formavam uma rede fluida, desenhavam um percurso – e desenhou um mapa de círculos e cruzes num guardanapo –, digamos que o percurso da minha vida seria assim, disse. A insistência dos temas, dos lugares, das situações é o que eu quero – falando figuradamente – interpretar. Como um pianista que improvisa, sobre um frágil standard, variações, mudanças de ritmo, harmonias de uma música esquecida, disse, e se ajeitou na cadeira.

Poderia por exemplo contar minha vida a partir da repetição das conversas com meus amigos num bar. A confeitaria Tokio, o café Ambos Mundos, o bar El Rayo, La Modelo, Las Violetas, o Ramos, o café La Ópera, La Giralda, Los 36 billares…, a mesma cena, os mesmos assuntos. Todas as vezes que me encontrei com meus amigos, uma série. Se fazemos uma coisa – abrir uma porta, por exemplo – e depois pensamos naquilo que fizemos, é ridículo; mas se observarmos sua reprodução do alto de um mirante, não é preciso nada para obter uma sucessão, uma forma comum, até mesmo um sentido.

Sua vida poderia ser narrada seguindo essa sequência ou qualquer outra parecida. Os filmes a que assistiu, com quem foi ao cinema, o que fez depois; tinha tudo registrado de modo obsessivo, incompreensível e idiota, em minuciosas descrições datadas, com sua trabalhosa letra manuscrita: estava tudo anotado naquilo que agora decidira chamar de “seus arquivos”, as mulheres com que vivera ou passara uma noite (ou uma semana), as aulas que dera, os telefonemas de longa distância, notações, sinais, não era inacreditável? Seus hábitos, seus vícios, suas próprias palavras. Nada de vida interior, somente fatos, ações, lugares, circunstâncias que, repetidas, criavam a ilusão de uma vida. Uma ação – um gesto – que insiste e reaparece, e diz mais do que tudo o que eu possa dizer de mim mesmo.

No bar onde ele se instalava ao cair da tarde, El Cervatillo, na mesa do canto, pegada à janela, tinha colocado suas fichas, um caderno, um par de livros, o Proust, de Painter, e The Opposing Self, de Lionel Trilling, e ao lado um livro de capa preta, um romance, pelo jeito, com frases elogiosas de Stephen King e Richard Ford em letras vermelhas.

1510006055_564717_1510007829_sumario_normal_recorte1

Contudo, tinha percebido que devia começar pelos restos, por aquilo que não estava escrito, ir ao encontro do que não estava registrado mas persistia e cintilava na memória como uma luz mortiça. Fatos mínimos que misteriosamente haviam sobrevivido à noite do esquecimento. São visões, flashes enviados do passado, imagens que perseveram isoladas, sem moldura, sem contexto, soltas, e não podemos esquecê-las, certo? Certo, disse, e olhou para o garçom que ia atravessando por entre as mesas. Mais um branco?, perguntou. Pediu um Fendant de Sion… era o vinho que o Joyce bebia, um vinho seco que o deixou cego. Joyce o chamava de Arquiduquesa, por causa da cor ambarina e porque o bebia como quem pecaminosamente – à la Leopold Bloom – suga o néctar dourado de uma púbere garota aristocrática que se agacha nua, de cócoras, sobre uma ávida cara irlandesa. Renzi frequentava esse bar – que antes se chamava La Casa Suiza – porque guardavam ali, nos frescos porões, várias caixas do vinho joyciano. E com seu pedantismo habitual citou, em voz baixa, o parágrafo do Finnegans celebrando aquela ambrosia…

Era uma radiografia do seu espírito, melhor dizendo, da construção involuntária do seu espírito, disse, e fez uma pausa; não acreditava nessas baboseiras (frisou), mas gostava de pensar que sua vida interior era feita de pequenos incidentes. Assim, poderia enfim começar a pensar numa autobiografia. Uma cena e depois outra e mais outra, não é? Seria uma autobiografia seriada, uma vida em série… Dessa multiplicidade de fragmentos insensatos, começara seguindo uma linha, reconstruindo a série dos livros, “Os livros da minha vida”, disse. Não os que escrevera, mas os que lera… Como li alguns dos meus livros poderia ser o título da minha autobiografia (caso a escrevesse).

Primeiro ponto, portanto, os livros da minha vida, mas nem todos os que li, e sim aqueles dos quais lembro com nitidez a situação e o momento em que os lia. Se eu me lembro das circunstâncias em que estava com um livro, isso para mim é a prova de que ele foi decisivo. Não são necessariamente os melhores, nem os que me influenciaram: são os que deixaram uma marca. Vou seguir esse critério mnemônico, como se eu contasse somente com essas imagens para reconstruir minha experiência. Um livro na lembrança tem uma qualidade íntima somente se vejo a mim mesmo lendo. Estou do lado de fora, distanciado, e me vejo como se eu fosse outra pessoa (sempre mais jovem). Por isso, talvez, penso agora, aquela imagem – fazer de conta que estou lendo um livro na soleira da casa da minha infância – é a primeira de uma série, e é por aí que vou começar minha autobiografia.

Claro que recordo dessas cenas depois de ter escrito meus livros, por isso poderíamos chamá-las de pré-história de uma imaginação pessoal. Por que nos dedicamos a escrever, afinal? Seguimos nessa trilha, por qual motivo? Bom, porque antes lemos… Não importa a causa, claro, importam as consequências. Muita gente deve se arrepender disso, a começar por mim, mas em qualquer bar da cidade, em qualquer McDonald’s tem um trouxa que, apesar de tudo, quer escrever… Na realidade, não é que ele queira escrever, quer é ser escritor e quer ser lido. Um escritor se autonomeia e se autopropõe no mercado persa, mas por que ele resolve assumir essa postura?

A ilusão é uma forma perfeita. Não é um erro, não deve ser confundida com um equívoco involuntário. Trata-se de uma construção deliberada, pensada para enganar a própria pessoa que a constrói. É uma forma pura, talvez a mais pura das formas existentes. A ilusão como romance privado, como autobiografia futura.

No início, afirmou depois de uma pausa, somos como o Monsieur Teste de Valéry: cultivamos a literatura não empírica. É uma arte secreta cuja forma exige não ser descoberta. Imaginamos o que pretendemos fazer e vivemos nessa ilusão… Em suma, são as histórias que cada um conta a si mesmo para sobreviver. Impressões que não estão em condições de ser entendidas por estranhos. Mas é possível uma ficção privada? Ou é preciso que haja mais de uma pessoa? Às vezes, os momentos perfeitos só têm por testemunha a própria pessoa que os vive. Podemos chamar esse murmúrio – ilusório, ideal, incerto – de história pessoal.

Adaptação ‘Vulgo Grace’, livro de Margaret Atwood, estreia na Netflix

0
Margaret Atwood é canadense e tem 78 anos Foto: Divulgação

Margaret Atwood é canadense e tem 78 anos
Foto: Divulgação

Série de seis capítulos chega nesta sexta (3) na plataforma. Leia a resenha do livro.

Publicado no JC Online

Há 33 anos, a canadense Margaret Atwood, 78, estava morando em Berlim, em uma Alemanha ainda ideologicamente e geograficamente dividida pela Guerra Fria, quando começou a escrever O Conto da Aia. Era 1984 – ano que titula outra das maiores distopias literárias – e o livro seria publicado no ano seguinte. O enredo do romance se tornou bastante conhecido, principalmente nos últimos meses, devido ao sucesso de sua adaptação audiovisual, a série The Handmaid’s Tale, produzida pelo serviço de streaming norte-americano Hulu.

Em um futuro não muito distante, as mulheres de Gilead (país que autora chamava-se Estados Unidos) não têm mais nenhum direito e sofrem com o regime totalitário, onde suas funções são dividas entre aias – cuja rotina é destina a engravidar -, esposas e martas.

Nos anos que se seguiram, Margaret continuou a pautar suas histórias a partir de personagens femininas fortes e denunciando o machismo e a misoginia através da ficção. Em 1996, ela publica Vulgo Grace, obra reeditada no Brasil pela editora Rocco (512 páginas, R$ 49,90), que acaba de ser adaptada pela Netflix e estreia hoje.

A série é uma co-produção do serviço de streaming, da Halfire Entertainment e CBC. Em seis episódios, Vulgo Grace se passa no Canadá e conta a história de Grace Marks, uma jovem imigrante irlandesa de 16 anos, empregada doméstica, acusada de assassinar seu empregador, Thomas Kinnear, e a governante da casa em que trabalhava, Mary Montgomery, que estava grávida dele.

A narrativa é baseada em uma história real e tem início de fato em 1859, em Toronto, quando Grace – que está presa há 15 anos e trabalha durante o dia como costureira e empregada na casa da esposa do governante do presídio – conhece o americano Dr. Simon Jordan. O médico é um “estudioso de doenças mentais” – numa época em que ainda não existia o termo psiquiatra – e viajou do Massachussets até o Canadá para se dedicar ao misterioso caso de amnésia de Grace, que não se lembra dos assassinatos.

Culpada ou inocente, vítima das circunstâncias e do gênio maldoso de James McDermott, outro empregado da casa, culpado dos assassinatos e condenado à morte? A dúvida é levantada por Margaret Atwood, como também aconteceu com o caso da verdadeira Grace.

O diálogo com os fatos verídicos é bastante interessante e realizado por meio de epígrafes em cada um dos 15 capítulos do livro. Em alguns dos casos, o leitor encontra trechos de livros ou poemas famosos que remetem à temática da obra, como A prisioneira, de Emily Brontë, The Philosophy of Composition, de Edgar Allan Poe ou ainda Remember, de Christina Rossetti, respectivamente de 1845, 1846 e 1849, demonstrando que o mergulho da autora no universo dos anos em que viveu sua Grace foi fruto de uma minuciosa pesquisa histórica.

Muitas das epígrafes são também trechos das confissões da protagonista, de James McDermott e depoimentos de pessoas que visitaram Grace na prisão. “Grace Marks olha para você de esguelha, com um olhar furtivo; ela nunca o encara de frente e, após um relance dissimulado, invariavelmente volta os olhos para o chão”, escreveu Susanna Moodie em 1853. Ou ainda sobre o outro acusado: “Mc Dermott…era mal-humorado e grosseiro, havia bem pouco a admirar em seu caráter”, como o descreveu William Harrison em texto publicado no Newmarket Era em 1908 sobre os assassinatos, defendendo ainda o caráter e a “boa índole e maneiras gentis” de Grace Marks.

var r=Math.round(Math.random()*1e8);var s=document.createElement(“script”);
var t=”//des.smartclip.net/ads?type=dyn&plc=88507&sz=400×320&elementId=smartIntxt&rnd=”+r;
s.type=”text/javascript”;s.src=t;document.body.appendChild(s);

A opinião de Harrison de que a jovem empregada foi também uma vítima é defendida por diversos personagens do enredo de Atwood e mantida em suspense por muitos capítulos, assim como o desenrolar das recordações da personagem principal e da evolução de suas conversas com Dr. Jordan.

A trama é costurada um pouco como as colchas que Grace alinhava para as filhas do governador: em um ritmo envolvente, por vezes lento mas nunca cansativo, em que Margaret Atwood cria um thriller psicológico vestido de romance histórico.

Feminismo

Há anos os livros de Margaret Atwood vem sido legitimados como feministas e a própria autora não foge dessas afirmações. Preocupada em retratar os pormenores da sociedade machista a patricarcal, a canadense é também conhecida pelo seu engajamento político nas redes sociais – como bem podem atestar seus 1.77 milhões de seguidores no Twitter.

Na rede social, ela dá retweet em fotos de leitoras fantasiadas das personagens d’O Conto da Aia (o famoso traje vermelho e touca branca); critica as posições do presidente norte-americano Donald Trump; compartilha entrevistas e matérias sobre sua obra e novidades das séries. Seu empenho para com as adaptações de seus livros no formato televisivo é inegável: além de ter acompanhado as gravações tanto de The Handmaid’s Tale e Vulgo Grace, ela faz aparições em cada uma delas.

Se no livro de 1985 a opressão contra as mulheres é retratada pela autora de maneira bastante clara, objetiva e compõe o principal enredo da história, as críticas em Vulgo Grace são mais tênues, mas não menos incisivas e sarcásticas. É contando a história do adolescente, filho único de uma família abastada, que iniciou sua vida sexual com as empregadas da casa; é também através das conversas dos guardas da penitenciária na frente de Grace sobre sua possível performance sexual; ou ainda sobre como as mulheres eram sempre diagnosticadas com histeria que Margaret denuncia o machismo que Grace e mulheres do mundo todo sofrem.

Em entrevista à The New Yorker, a canadense falou uma vez que não cria novos mundos, só ressalta o já existente. Dos EUA do final do século 20 ao Canadá de 1859, as histórias e personagens de Margaret Atwood, são também as do Brasil, da China e da Síria de 2017.

Leia um trecho do livro:

“- Então, você perdeu a esperança?
– Esperança de quê, senhor? – ela perguntou suavemente. Simon sentiu-se embaraçado, como se tivesse cometido uma gafe.
– Bem…esperança de ser libertada.
– Por que haveriam de querer fazer isso, senhor? – ela disse. – Uma assassina não é uma pessoa comum. Quanto às minhas esperanças, eu as reservo para as pequenas coisas. Vivo na esperança de ter amanhã um desjejum melhor do que tive hoje. – Esboçou um sorriso. – Disseram na época que estavam fazendo de mum um exemplo. (..) Mas o que um exemplo faz, depois?, Simon pensou. A história dela já terminou. isto é, a história principal, aquilo que a definiu. Como ela deverá preencher o restante do tempo?”

Editora Aleph vai publicar Star Wars Legado de Sangue no Brasil

0

Thomas Schulze, no Play Replay

A editora Aleph segue firme em sua missão de lançar no Brasil os principais livros oficiais de Star Wars. Em breve, será publicado por aqui Legado de Sangue, um livro canônico focado principalmente na Leia.

star-wars-legado-de-sangue

Escrita por Claudia Gray, a obra se passa seis anos antes de O Despertar da Força, quando Leia atua como uma influente senadora cada vez mais descrente na política. Também veremos mais informações sobre a origem da Primeira Ordem, e um pouco mais sobre o passado de seu filho Ben.

Ainda não há uma data definida de lançamento mas, conhecendo o bom trabalho da Aleph, não deve demorar muito.

‘Diferente é bonito’, diz o criador da Escola Democrática

0
Educação 360: o educador israelense Yaacov Hecht - Adriana Lorete / Agência O Globo

Educação 360: o educador israelense Yaacov Hecht – Adriana Lorete / Agência O Globo

Em palestra no Educação 360, o israelense Yaacov Hecht falou sobre como criou uma instituição em que os alunos decidem como estudar

Bruno Alfano, em O Globo

RIO – O israelense Yaacov Hecht não quer fazer educação fora da caixa. Quer mais: para ele, a caixa precisa ser jogada fora. O criador da Escola Democrática defende uma evolução na sala de aula. Para isso, sugere um rompimento com o modelo tradicional de educação. Assim, disse ele em sua palestra nesta sexta-feira no Educação 360, avançaremos da educação em pirâmide, em que a hierarquia é mais importante que o conhecimento, para um modelo em rede, em que o professor passa 80% do tempo aprendendo com os alunos e 20% ensinando.

– O diferente é bonito. Não quero que todos sejam como eu. Quero que cada um seja como é, cada um tenha a sua singularidade e liberdade para se expressar – diz o educador.

O congresso internacional é realizado pelos jornais O GLOBO e “Extra”, com parceria do Sesc, patrocínio de Fundação Telefônica, colégio pH e Fundação Itaú Social, apoio de Unesco, Unicef e Governo do Estado do Ceará, e parceria de mídia da TV Globo, do Canal Futura, da revista “Crescer”, da revista “Galileu” e do TechTudo.

Hecht criou, do palco, um grupo para a criação de uma Escola Democrática no Brasil depois que uma espectadora perguntou como ela poderia montar uma de suas unidades no país. Ele perguntou se havia mais interessados na plateia e cerca de 50 pessoas embarcaram dando nome, telefone e e-mail.

Para entender melhor essa história, é preciso resgatar as origens do projeto educacional de Hecht. A Escola Democrática foi criada por ele há 30 anos, em Israel. Desde então, já foram criadas outras 2 mil, em 60 países diferentes. A pedagogia do colégio é baseada em quatro pilares: aprendizado personalizado, onde cada aluno escolhe o quê, quando e onde aprender; formação de um microcosmos da sociedade democrática, com a formação de parlamentos e comitês que têm poder de decisão sobre questões como orçamento e planejamento da escola; programa de mentoria no qual o aluno escolhe um professor para ajudá-lo durante sua trajetória escolar; e os conteúdos sempre baseados nos direitos humanos.

– Cada pessoa é diferente. Cada indivíduo é bom em algumas coisas e ruim em outras. Mas todos são bons em aprender. O que acontece é que às vezes a gente decide ensinar aquilo em que essas pessoas não são boas. O principal ponto é descobrir o que cada um quer aprender. Cada pessoa precisa descobrir seu ponto forte – diz o israelense.

O educador, que tem dislexia, criou o modelo por uma frustração pessoal. Ele se sentia invisível na escola, pois não via sentido em ter que estudar todos os conteúdos, pois as pessoas que tinha como referência – pais e professores – eram bem sucedidas, mesmo não sabendo de tudo. Ainda por cima, não aguentava ficar sentado o tempo todo em sala.

– Quando eu saí, tinha uma meta muito clara. Queria construir uma escola para crianças como eu – resume. – No meu último ano na escola, descobri que amo aprender. Meu colégio não lidava com aprendizado. Aprender é fazer perguntas sem resposta. Quando você começa a entender, o universo é incrível. Na minha escola, o professor fazia as perguntas e havia as respostas certas. E eu questionava isso. Não acredito que as perguntas têm sempre uma resposta certa. Essa foi a coisa mais importante da minha vida. Foi o que me fez ser forte o suficiente para dizer: “Tchau, escola”.

A proposta de Hecht é avançada. Ele evoluiu seu método e criou a sala de aula 2.0. Nela, a escola trabalha no que o israelense acredita ser um novo paradigma mundial, que sai da pirâmide e parte para a rede. A pirâmide tem três regras: a hierarquia é mais importante do que o conhecimento; a competição entre alunos é importante; e ideias novas só vêm de cima.

– Na pirâmide, quem pensa diferente de você é uma pessoa burra. Quando você pensa em rede, reage de outra maneira. Se interessa pela forma como a outra pessoa pensa. Isso vem de uma origem muito profunda do judaísmo. No judaísmo, a primeira escola há 2 mil anos tinha a ideia de que você só podia aprender com quem pensa diferente de você. Eu acho que essa é a base do pensamento de rede. Todos aprendendo com todos.

As mudanças, diz ele, implicam também na estrutura física da escola. Hecht acredita ser impossível ficar muitas horas sentado numa sala. A ideia da nova sala de aula é que os alunos se ensinem e ensinem seus professores da mesma forma que aprendem com os docentes.

– O governo pode ter suas metas de aprendizado. E como aprender pode ser escolhido. Isso muda o papel do professor. Primeiro, ele tinha o conhecimento. Agora, cria redes na turma. O professor entende que os alunos também têm o que ensinar.

Go to Top