Contando e Cantando (Volume 2)

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Quando a mulher era proibida de ler livros

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Rachel Weisz como Hipátia em cena do filme Alexandria.

Rachel Weisz como Hipátia em cena do filme Alexandria.

 

Mario Sérgio Lorenzetto, no Campo Grande News

Em uma tarde de março de 415 d.C. uma mulher de 60 anos é tirada de sua carruagem por uma multidão enfurecida, em Alexandria, no Egito. Em seguida, é despida e tem sua pele e carne arrancadas com ostras (ou fragmentos de cerâmica, segundo outra versão). É destroçada viva pela turba alucinada. Já morta, arrancam seus braços e pernas. O cadáver é queimado em uma pira nos arredores da cidade. Era o fim da trajetória impressionante de Hipácia de Alexandria. Hipácia foi a primeira mulher de fama internacional no mundo da matemática, astronomia e da botânica. Hipácia foi a primeira intelectual de renome e imensa influencia. “As mulheres que leem são perigosas”, assim pensavam, e agiam, os homens por dezenas de séculos.

Ilustração de Hipátia sendo retirada de sua carruagem. (fonte: irenesoldatos.eu)

Ilustração de Hipátia sendo retirada de sua carruagem. (fonte: irenesoldatos.eu)

 

Somente no século XIX o livro se tornou comum para as mulheres. Foi, e continua sendo, sua maior arma para a conquista da liberdade, sua possibilidade de existência, de se lançar em novos horizontes.

Entre a mulher e o livro estabeleceu-se uma aliança. Com ele, ela podia desejar e imaginar um mundo para si própria. Gesto um tanto ousado – e perigoso. Daí os homens desejarem impedi-la de ler ou controlar o que liam. Até o século XIX, os homens marginalizavam as mulheres que liam, rotulando-as de neuróticas e histéricas. Sobretudo as mulheres que liam “demais”. A leitura permitiu que tomassem consciência do mundo. A leitura, esse ato tão intimo, tão secreto, terminou por colocar a mulher para fora. Fora do núcleo familiar opressor. O vazio do mundo real foi tomado pela ficção.

Para quem vivia, e vive, na prisão do casamento sem amor, das regras sociais sufocantes, a leitura foi a possibilidade de viver em outro mundo que não o seu e, em seguida, mudar a própria vida. De adquirir prazer que lhe era negado. Um prazer solitário de início. Mas que passou à voz. E, depois um grito… de liberdade.

Leitoras de ‘Cinquenta tons de cinza’ são mais sexistas, diz estudo

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Cena da adaptação cinematográfica de 'Cinquenta tons de cinza' - Divulgação

Cena da adaptação cinematográfica de ‘Cinquenta tons de cinza’ – Divulgação

 

Pesquisa ouviu 747 mulheres entre 18 e 24 anos matriculadas em faculdades americanas

Publicado em O Globo

RIO — Jovens mulheres que leram a série erótica “Cinquenta tons de cinza”, de E.L. James, são mais propensas a terem atitudes sexistas, de acordo com uma pesquisa feita em conjunto entre as faculdades estaduais de Ohio e Michigan.

Intitulado “Sexist attitudes among emerging adult women readers of fifty shades fiction” (“atitudes sexistas entre jovens mulheres adultas leitoras da ficção ‘Cinquenta tons'”, em tradução livre), o estudo mostra que as leitoras da série têm níveis mais altos de “sexismo ambivalente, benevolente e hostil”. Por “sexismo benevolente” entendem como a crença de que mulheres devem ser protegidas por homens, enquanto “sexismo hostil” é a visão negativa e objetivada da mulher.

Segundo o “Guardian”, os pesquisadores, liderados por Lauren Alternburger, estudaram 747 mulheres entre 18 e 24 anos matriculadas em faculdades americanas. Elas tiveram seus pontos de vista medidos por um questionário batizado de “Inventario de sexismo ambivalente”, que consiste em 22 afirmações preenchidas por suas respectivas escalas de concordância. Onze das afirmações expressam sexismo hostil — tal como “mulheres buscam ganhar poder ao obter controle sobre os homens” — enquanto outras 11 tinham conteúdo de sexismo benevolente, como “as mulheres devem ser protegidas e amadas por homens”.

Cerca de 60% das participantes não leram a trilogia, e 46,2% das que leram ao menos alguma parte dos livros disseram que gostaram do conteúdo.

Os pesquisadores descobriram que essas que completaram ao menos o primeiro dos três livros apresentaram “atitudes sexistas ambivalentes, hostis e benevolentes mais fortes que aquelas que não leram nenhum dos livros”. As mulheres que descreveram a trama como “romântica” estavam mais propensas a “endossar atitudes sexistas”.

“Consistente com noções de sexismo benevolente, a realização completa de Anastasia (uma das protagonistas da história) não é alcançada sem um relacionamento heterossexual e monogâmico”, diz o balanço do estudo, pontuando a pressão que Anastasia sente para satisfazer Christian — caso contrário, ela sente que vai “terminar sozinha com um monte de gatos e lendo romances clássicos como forma de ter uma companhia” — e também a compulsão que ela sente por “aceitar tudo o que ele acha que precisa para ser satisfeito sexualmente”.

Para os pesquisadores, os jovens deveriam consumir ficção “através de uma lente crítica”, e obras como “Cinquenta tons” poderiam ser alvo de conversas sobre representações tradicionais dos sexos nos meios de comunicação. Eles sugerem ainda que escritores deveriam ser incentivados a “representar papéis de gênero mais igualitários” em seus trabalhos.

“A relação justaposta entre Christian e Anastasia toma a forma de uma hierarquia violenta, em que Anastasia aparece como inferior a Christian — ela é descrita como mais fraca, menos assertiva, mais emocional e menos inteligente”, diz o artigo em que o estudo foi publicado. “Além disso, o desequilíbrio entre eles toma a forma de abuso emocional (Christian intimida, ameaça, persegue, humilha e isola socialmente Anastasia) e violência sexual (ele usa intimidação e alcóol para prejudicar o consentimento de Anastasia)”.

Leitores de todo o mundo compraram mais de 100 milhões de cópias da trilogia escrita por E.L. James, que acompanha a obscura relação entre o bilionário empresário Christian e a tímida estudante Anastasia.

Quem são as mulheres vorazes por livros que leem até 20 obras por mês?

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Gabriela Teodoro, Fernanda Faria e Kelly Severo.

Gabriela Teodoro, Fernanda Faria e Kelly Severo.

 

Rodrigo Casarin, no Página Cinco

Elas têm entre 24 e 35 anos e costumam ler entre cinco e 12 livros por mês, mas, em alguns casos, esse número pode chegar até a 20 títulos. Para tal, dedicam duas, três ou, excepcionalmente, dez horas de seus dias às leituras – aproveitam o tempo que estão no ônibus, as brechas no trabalho, a hora do almoço, o silêncio na cama antes de dormir… Adoram romances de época, new adults, distopias, fantasias, dramas familiares e soft porns. Gostam de autoras como Sylvia Day, Collen Hoover e Carina Rissi. Pagam até R$34,90 por uma obra, mas, dentro dos seus parâmetros, são extremamente exigentes na escolha. Há quem garanta que essa geração de mulheres adultas que leem vorazmente seja um público-chave para as editoras sobreviverem no mercado em um futuro próximo.

Fernanda Faria: “Se ele tiver um enredo que consiga prender a minha atenção, só vou parar quando terminar de ler, não importa quantas páginas tenha, dificilmente vou conseguir fazer o resto das minhas tarefas sem terminar o livro”.

Fernanda Faria: “Se ele tiver um enredo que consiga prender a minha atenção, só vou parar quando terminar de ler, não importa quantas páginas tenha, dificilmente vou conseguir fazer o resto das minhas tarefas sem terminar o livro”.

Fernanda Faria, 24 anos, estudante de direito, é uma dessas leitoras. Fã de Jamie McGuire, Sophie Kinsella e Meg Cabot, diz gostar de viver outras vidas, conhecer lugares diferentes, culturas inusitadas e fugir um pouco da realidade por meio dos livros. “Cada leitura é especial, é uma espécie de entrega, é como se o enredo te envolvesse em uma bolha e fosse te apresentando um leque de coisas que você ainda não conhece, você vive a vida do personagem, quer tomar as decisões com ele, você chora, ri, se decepciona e se apaixona, é como realmente ter a possibilidade de viver algo impossível”.

A estudante conta que, quando se interessa de fato por um livro, só consegue deixá-lo quando a história chega ao fim. “Não digo que há um tempo definido para minha leitura diária, tudo depende do livro escolhido no momento, se ele tiver um enredo que consiga prender a minha atenção, só vou parar quando terminar de ler, não importa quantas páginas tenha, dificilmente vou conseguir fazer o resto das minhas tarefas sem terminar o livro, acredito que esse seja o mal de pessoas curiosas como eu”.

Um ótimo nicho para o mercado

Quem recentemente começou a delinear o perfil desse público foi Bruno Zolotar, diretor executivo de marketing do Grupo Editorial Record. Para identificar certas movimentações do mercado, realizou pesquisas focadas em grupos específicos para perceber como as pessoas se relacionavam com determinados livros e percebeu essa força consumidora do mercado editorial.

“São moças que não moram nos bairros mais privilegiados das cidades. Uma ou outra tem uma livraria no seu bairro. Vão a livrarias de shopping, mas a maioria compra em sites. Têm e-readers, mas leem tanto o digital quanto os livros físicos. Têm patamares fixos de preços de livro na cabeça. Se o seu livro ultrapassa esta faixa, dificilmente terá chance com elas. Não ligam para os prêmios dos autores ou para a crítica no caderno literário. Escolhem livros pela capa, mas principalmente pela indicação de outras leitoras como elas que trocam informações através de grupos de Facebook, blogs ou em encontros com amigas em lugares públicos. Dão pouca atenção a booktrailers. Ouviram falar em FLIP, sonham em ir lá, mas não curtem aquele tipo de autor e livro. O negócio delas são as Bienais”, explica Zolotar, que também coordena o curso “Desvendando o Mercado Editorial”, que acontece entre o final de abril e maio na PUC do Rio de Janeiro.

Há ainda outros traços comuns entre essas leitoras, garante o diretor. “São extremamente articuladas, falam com intimidade de autores dos quais você nunca ouviu e sabem explicar qual o universo das obras de cada um, em detalhes. Compram muita ficção comercial, principalmente escrita por mulheres, dão preferência a romances e foram as responsáveis por ondas como a dos livros eróticos. E uma característica muito forte é que são muito interativas. Como nenhuma outra geração de leitoras adultas, elas querem participar do processo de edição com as editoras. Sugerir autores, opinar sobre capas, títulos e preços”, diz. “Fazer produtos para elas, envolvê-las no processo editorial e criar plataformas de marketing capazes de se engajar mais eficientemente estes grupos, é um desafio e tanto para as editoras que querem sobreviver nos próximos anos”, alerta.

Iris Pereira: “Às vezes acabo optando por autores internacionais porque eles recebem maior atenção da editora: a diagramação é bem-feita e na maioria das vezes não há erros de português. Dá uma tristeza ler um livro bom numa diagramação ruim ou com erros de português”.

Iris Pereira: “Às vezes acabo optando por autores internacionais porque eles recebem maior atenção da editora: a diagramação é bem-feita e na maioria das vezes não há erros de português. Dá uma tristeza ler um livro bom numa diagramação ruim ou com erros de português”.

Leitoras exigentes

No entanto, segundo essas grandes leitoras, as editoras também precisam cuidar melhor de seus produtos para que, de fato, conquistem-nas.

A analista de sistemas Iris Pereira, de 28 anos, aposta nas ficções para conseguir “viver mais de uma vida” e “relaxar” e acredita que sem os livros “já teria enlouquecido”. Ao falar sobre suas preferências, garante não se importar com a origem das obras, se são de autores nacionais ou internacionais, desde que sejam bem escritas. No entanto, faz críticas a algo que enxerga no mercado. “Às vezes acabo optando por autores internacionais porque eles recebem maior atenção da editora: a diagramação é bem-feita e na maioria das vezes não há erros de português. Dá uma tristeza ler um livro bom numa diagramação ruim ou com erros de português. A vantagem do autor nacional é que o leitor pode ter contato direto com ele, mas nem sempre há oportunidade para que sejam publicados por grandes editoras”.

Gabriela Teodoro, 29 anos, que atua como agente educadora no Rio de Janeiro, também reclama do trabalho de editoras com autores nacionais. “A minha opinião sobre novas aquisições das editoras de autores nacionais é que deixam muito a desejar. Tem muita gente saindo do Wattpad com uma escrita amadora, histórias mal estruturadas e com um preço que não condiz com o material”, queixa-se.

Gabriela Teodoro: “Desligue a televisão e vá ler. O mais importante é encontrar livros que você goste”.

Gabriela Teodoro: “Desligue a televisão e vá ler. O mais importante é encontrar livros que você goste”.

Dicas para ler mais

Agora, em uma realidade na qual é senso comum as pessoas alegarem que não leem por falta de tempo, como essas garotas conseguem arrumar tanto espaço em suas agendas para que se dediquem aos livros? Kelly Severo tem 24 anos, é estudante e lê de oito a dez horas por dia, de 15 a 20 livros por mês. Surpreendente, não? É ela que dá uma dica àqueles que gostariam de encarar ao menos um título ou outro de vez em quando. “Ler sempre é bom. Se a pessoa não gosta ou não tem tempo, precisa se disciplinar para ler uma ou duas páginas por dia, na hora do almoço ou antes de dormir. Há sempre um tempinho sobrando, é só saber se organizar. Muita gente diz que não gosta de ler, porém nunca leu um livro. Minha dica é: tente! Eu fiz isso e hoje a leitura é minha vida”.

As outras entrevistadas indicam caminhos semelhantes. “Sempre digo para os meus amigos que ler é um costume e uma prática. Quanto mais a pessoa ler mais ela gosta e com isso acaba lendo cada vez mais rápido. A pessoa não deve desistir no primeiro livro que não gostou, ela só não encontrou o gênero certo”, diz Iris. “Acredito que todo mundo pode arranjar um tempinho, seja na hora do almoço ou antes de dormir. Desligue a televisão e vá ler. O mais importante é encontrar livros que você goste. Existe uma variedade muito grande dentro dos gêneros. Se você for ‘picado’ pelo livro certo, não conseguirá parar e arrumará um tempinho para ler”, garante Gabriela.

Ótimas inspirações àqueles que vivem dizendo que precisam ler mais, não?

Editoras recorrem a leitores para escolher quais livros publicar

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Sandy Hall estava nervosa. Bibliotecária em Morristown, em Nova Jersey, Hall se preparava poucas noites atrás para conduzir sua reunião semanal do clube de leitura com um grupo de 14 adolescentes.

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Alexandra Alter, no The New York Times [via MSN]

Sandy Hall estava nervosa. Bibliotecária em Morristown, em Nova Jersey, Hall se preparava poucas noites atrás para conduzir sua reunião semanal do clube de leitura com um grupo de 14 adolescentes. O livro a ser discutido, um romance para jovens adultos intitulado “A Little Something Different” (Alguma coisa um pouco diferente, em tradução literal), sua primeira obra.

“Ainda estou na fase ‘tomara que gostem'”, ela disse uma hora antes da reunião.

Porém, Hall, de 33 anos, tem motivos para estar mais confiante do que a maioria dos escritores de primeira viagem. Seu romance é o primeiro livro a ser publicado pela Swoon Reads, novo selo voltado para jovens adultos que permite que os fãs votem nos manuscritos que devem ser publicados.

Aproximadamente nove mil leitores leram sua história na internet; foi a que atraiu o nível mais alto possível de cinco corações. A editora está tão entusiasmada com o livro que pretende uma primeira edição enorme com cem mil exemplares nos Estados Unidos e lançamentos simultâneos na Grã-Bretanha e na Austrália.

A Swoon Reads, selo para jovens que faz parte da Macmillan Publishing, está mudando o processo tradicional de descobertas recorrendo à terceirização em massa para escolher os títulos. Ao dar um quê de concurso de talentos de televisão à sua pilha de manuscritos digitais inéditos, a editora espera encontrar best-sellers potenciais que reflitam não os gostos dos editores, mas a sabedoria coletiva e os caprichos da multidão.

“Os fãs e os leitores têm mais contato com o que pode vender”, disse Jean Feiwel, vice-presidente da divisão infantil da Macmillan e editor da Swoon Reads, que criou o conceito em 2012. “Eles entendem mais dessas coisas do que qualquer um de nós é capaz de ver”.

Foto: Ben Solomon/The New York Times

Foto: Ben Solomon/The New York Times

Até agora, Feiwel adquiriu seis romances estreantes de 237 manuscritos publicados no site da Swoon Reads. Variando do realismo contemporâneo ao romance paranormal, as obras foram escolhidas tomando por base os comentários e notas (de um a cinco corações) entre os dez mil usuários registrados do site. Os leitores também votam em narradores de livros em áudio depois de ouvir amostras de áudio digital, decidem quais cidades os autores visitam nas turnês de divulgação e escolhem as capas dos livros. Escritores publicados pela Swoon Reads recebem luvas de US$ 15 mil, mais direitos autorais.

Depois que ‘A Little Something Different’ chegar às livrarias no final de agosto, Hall e sua editora vão descobrir se o apoio de leitores online se traduz em vendas impressas. Eles esperam que os milhares de leitores que defenderam o livro se tornem divulgadores para impulsionar recomendações boca a boca.

‘Trata-se de uma espécie de mistura entre edição de livros com os programas ‘X Factor’ ou ‘American Idol”, afirmou Jon Yaged, presidente e editor da divisão infantil do grupo Macmillan. ‘Nós esperamos que esses livros tenham um índice de acertos maior’.

O experimento reflete um novo impulso de escritores e editoras para criar uma base de fãs para os livros muito antes de eles serem publicados – e, às vezes, antes ainda de serem escritos. Ao inverter o processo usual de lançar um livro antes e achar o público depois, as editoras desejam se tornar mais parecidas com o resto do setor de entretenimento, onde novos filmes e programas televisivos são submetidos a testes rigorosos de mercado antes de serem exibidos.

Editoras e agentes literários estão examinando sites como o Wattpad, que oferece ficção gratuita de escritores amadores, para descobrir autores com muitos e entusiasmados admiradores. No Kickstarter, os escritores arrecadaram coletivamente US$ 22 milhões no financiamento de perto de seis mil livros sendo escritos, variando de gibis e romances adolescentes a não ficção. Várias empresas novas dedicadas a atrair as multidões para financiar a literatura foram abertas nos últimos anos, incluindo a Unbound, a qual permite aos leitores dar apoio financeiro direto a autores em troca de uma cópia do livro finalizado.

Até mesmo autores consagrados estão começando a explorar a terceirização em massa. No caso de seu futuro livro, ‘The Innovators’ (os inovadores, em tradução literal), Walter Isaacson publicou um capítulo no site Medium para ouvir comentários dos leitores e ideias sobre o argumento central, o qual defende que as revoluções tecnológicas muitas vezes nascem da colaboração e não de gênios solitários.

Há quem questione se os fãs terão maior sucesso na descoberta de tesouros escondidos do que o modo tradicional do setor editorial. Dois anos atrás, a Avon Romance, divisão da editora HarperCollins, criou um site para aspirantes a escritores de romances dividirem suas obras e ouvirem avaliações, na esperança de que novos e ótimos livros apareceriam. Alguns editores vasculham o site toda semana para avaliar os manuscritos que recebem mais ‘amor’ – o equivalente ao ‘curtir’ do Facebook. Até agora, 500 obras foram carregadas no site, mas nenhuma foi adquirida para publicação.

Erika Tsang, diretora editorial da Avon, disse que estava um tanto cética em relação ao sistema de notas. ‘Sinceramente, muitas vezes são os parentes dos escritores que ‘adoram”.

Também não está claro se envolver fãs no processo de avaliação editorial é mais eficiente do que classificar os manuscritos inéditos ou se valer das sugestões de agentes. Na Grã-Bretanha, a HarperCollins criou um site no qual os escritores podem publicar os manuscritos e um avaliar o trabalho do outro. O site, Authonomy, tem cerca de cem mil usuários registrados e mais de 15 mil manuscritos. Todo mês, uma equipe de editores da empresa lê os cinco manuscritos com maior nota, mas até agora somente 15 dos romances publicados no site foram publicados.

‘Sabemos que existem best-sellers ali’, afirmou Rachel Faulkner, editora da HarperCollins. ‘Só precisamos mexer um pouco no pote para fazer os melhores virem à tona’.

Editoras e escritores veem a terceirização em massa como forma de não apenas descobrir novos talentos como também de mensurar a reação dos fãs antes de um livro ir para o prelo.

Depois que Swoon Reads comprou ‘A Little Something Different’ em fevereiro, Hall e sua editora, Holly West, analisaram mais de 200 comentários para ver o que os leitores achavam do livro e como ele poderia ser melhorado. Ficou imediatamente claro que muitos estavam confusos com as rápidas trocas de pontos de vista. Ambientado num campus universitário, o romance acompanha o florescer de uma paixão entre dois alunos cujo afeto um pelo outro está claro para todos, menos para eles. A narrativa salta entre a perspectiva de um barista, um entregador de comida chinesa, um professor, o motorista de ônibus, um esquilo e outros observadores torcendo para o casal ficar junto. O primeiro rascunho tinha 23 perspectivas. Depois de ler uma dúzia de reclamações quanto à complexidade da obra, Hall reduziu para 14 perspectivas.

Outros leitores tinham críticas mais nuançadas. Alguns sugeriram que os capítulos individuais precisavam de tramas mais claras. Para Hall, a crítica dos fãs – que a maioria dos escritores só lê depois que um livro está à venda – a ajudou a deixar o livro mais adequado para um público de adultos jovens.

‘Após testá-lo online, dá para refiná-lo de acordo com o que as pessoas querem ler’, disse Hall. ‘Você fica um pouco mais confiante’.

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