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O que os críticos disseram de ‘Harry Potter’ quando o 1º livro saiu

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(Foto: Reprodução)

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Publicado na Galileu

Hoje a saga Harry Potter é sucesso absoluto em todo o mundo — e ai de quem discordar. Mas nem sempre foi assim. Quando foi lançada, em 1997, a história do bruxinho gerou opiniões divergentes: alguns amaram, mas outros tinham ressalvas quanto à obra de uma desconhecida chamada J.K. Rowling.

Compare abaixo algumas das críticas mais interessantes da época de lançamento do primeiro livro.

The Scotsman
“O que diferencia esse livro de tantos outros de fantasia é sua forte relação com a realidade”, publicou o jornal de Edimburgo, na Escócia, em 1997. Foi lá que a J.K. Rowling escreveu a obra, sentada em cafés da cidade.

“Harry é um menino muito amável, mas não em excesso, competitivo e sempre compassivo. A cena que ele frustra a tentativa de um ‘valentão’ de tirá-lo de sua vassoura durante um difícil jogo de Quadribol — um cruzamento entre lacrosse e hóquei, jogado em terra e no ar — vai ganhar pontos até com os leitores mais experientes.”

The New York Times
“Durante a maior parte do livro [Harry Potter e a Pedra Filosofal], os personagens são tridimensionais (ocasionalmente até tetradimensionais!) e agem perfeitamente durante a narrativa. Entretanto, algumas vezes nos últimos quatro capítulos a narrativa começa a falhar, e há mudanças que achei irritantes e inventadas. Para servir ao desfecho os personagens começam a agir de forma diferente de sua personalidade”, escreveu Michael Winerip em 1999.

“Essas são críticas mínimas. No geral, Harry Potter e a Pedra Filosofal é engraçado, comovente e impressionante.”

Publishers Weekly
“A diversão começa com Harry indo para um colégio interno como um britânico comum — só que seu material escolar inclui uma pomba mensageira e uma varinha mágica. Há encantamento, suspense e muito perigo (assim como criaturas sinistras para satisfazer os leitores que gostam de bichos-papão e até um jogo parecido com futebol, o Quadribol, para entreter os fãs de esporte), enquanto Harry e seus amigos Ron e Hermione investigam os mistérios do proibído terceiro andar de Hogwarts para combater o mal e descobrir a verdade por trás da cicatriz de Harry. Rowling deixa a porta escancarada para uma sequência; que os fãs deslumbrados vão com certeza querer”, foi a conclusão da revista norte-americana.

Kirkus Review

“Essa fantasia super divertida está cheia de detalhes imaginativos, de feijões com gostos extravagantes até ovos de dragões surgidos de lareiras. É indicado para leitores que gostam de ação, que vão encontrar coisas britânicas misturadas com outras maravilhas da escola de magia”, saiu na revista especializada, nos EUA, em 1998.

Booklist
“O primeiro romance de Rowling, que ganhou inúmeros prêmios na Inglaterra, é uma fantasia brilhantemente imaginada e lindamente escrita, que incorpora elementos das escolas britânicas tradicionais sem violar a mágica dos fundamentos do enredo. Na verdade, a maravilhosa capacidade de Rowling de colocar desafios nos esportes, rivalidade estudantil e um tiradas excêntricas contribuem para o humor, charme e, bom, o deleite a completamente cativante história”, recomendou a publicação norte-americana em 1998.

Livro mostra como Clarice Lispector pode transformar a vida de seus leitores

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A autora. Temas universais e humanos Foto: Claudia Andujar

A autora. Temas universais e humanos Foto: Claudia Andujar

 

Simone Paulino parte de sua experiência de leitura para guiar o leitor pela obra de Clarice e pelos grandes temas da literatura e da vida

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Como muitos outros brasileiros, a editora Simone Paulino conheceu a obra de Clarice Lispector na escola, num momento em que o mais ambicioso sonho para ela, menina pobre da periferia, órfã desde os cinco quando seu pai foi brutalmente assassinado na volta do trabalho, era ser professora de português. Leu A Hora da Estrela, mas não foi amor à primeira vista.

Deixou a ideia da sala de aula de lado, esqueceu aquela leitura e se tornou jornalista. Adulta, voltou à obra de Clarice com dedicação e empenho. Queria entender aqueles livros, o universo criado pela autora. Pensou em estudá-la no mestrado, mas um amigo a desencorajou dizendo que Clarice era muito difícil. Desistiu de ler sua obra racionalmente, mas voltou várias vezes aos romances e contos pelo puro prazer da leitura e pelo efeito que aquela obra tinha em sua vida.

É por isso que, quando leu Como Proust Pode Mudar a Sua Vida, de Alain de Botton, pensou logo em Clarice como o nome para estar numa versão brasileira do livro. Como Clarice Pode Mudar a Sua Vida acaba de chegar às livrarias brasileiras contradizendo a autora em sua última entrevista, à TV Cultura, em fevereiro de 1977: “Escrevo sem esperança de que o que escrevo altere alguma coisa. Não altera nada”.

“Altera, sim. Salva, sim. Mudou a minha vida”, comenta Simone. “Vivemos num mundo tão brutal e ela, ao mesmo tempo que mostra essa brutalidade, mostra uma delicadeza – o delicado essencial de que falava e que virou quase um lema de vida para mim”, completa.

Simone dividiu seu livro em 13 capítulos, numa referência aos 13 títulos de A Hora da Estrela. A partir de sua experiência de leitura, ela vai justificando o título de sua obra ao responder como: deixar a vida ser o que ela é, ser feliz, estar no mundo, ter compaixão, seguir a si mesmo, aproveitar o instante, transcender a realidade, cultivar o delicado essencial, aprender a amar, superar o medo, chegar a Deus, aceitar a morte e matar baratas.

O livro foi parar na seção de autoajuda das livrarias. “Mas todo livro é de autoajuda”, defende a autora que escolheu Clarice como o recorte, mas garante que a obra é, antes de tudo, um elogio e um agradecimento à literatura. “Ao longo dos anos, a literatura me permitiu reinventar minha história, apaziguar minha terrível sensação de abandono e criar um novo jeito de existir”, escreve na introdução. E, nesse sentido, Clarice também está aí para ajudar.

“Quando temos contato com uma autora que fala de coisas profundamente enraizadas em nós, que muitas vezes não sabemos nem nomear, e quando ela nomeia aquilo, ela nos ajuda a viver, compreender e existir dentro daquilo. A literatura é um conforto e a Clarice sempre me confortou”, conclui.

Situações frequentes quando se tem um pequeno leitor em casa

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Fabio Mourão, no Dito pelo Maldito

Como a maioria das pessoas ligadas a literatura, eu fui um pequeno leitor. Aquele tipo de criança que vivia com a cara enfiada em um livro, enquanto os outros se divertiam em atividades externas. Para se ter uma ideia, até hoje a minha mãe não perde a oportunidade de contar a remota história do dia em que ela me perdeu na rodoviária lotada do Rio de Janeiro, quando sorrateiramente entrei em uma livraria quando ela estava distraída, e permaneci por lá horas a finco enquanto ela acionava as autoridades locais alegando que seu filho havia sido “sequestrado”.

E foi justamente revirando as minhas próprias memórias, que me ocorreu a ideia de compilar aqui algumas situações que você fatalmente enfrentará caso tenha uma criança ávida por leitura na sua casa.

Ele prefere ficar em casa lendo, do que brincar lá fora
Eu passei grande parte das minhas aulas de Educação Física fingindo alguma luxação para poder ler um livro sem distrações encostado em algum canto da quadra, e não necessariamente para fugir das atividades forçadas pelos professores. E também não é que eu fosse anti-social ou coisa do tipo, eu até que tinha bastante amigos, apenas preferia utilizar aquele tempo para fazer algo que realmente gostasse,… Como ler um livro.

O mesmo valia para o recreio, recessos, e nas aulas em que o professor ocasionalmente faltava (que não eram poucas), todo momento livre era uma oportunidade de mergulhar na leitura.

Ele provavelmente tentará ler enquanto anda
Ler e andar compõem os primeiros passos da vida de um pequeno leitor. Você pode reconhecer o hábito da leitura em uma criança conferindo as contusões em suas canelas, marcadas pelas topadas das tentativas frustradas de ler enquanto andam.

Alguns parentes alertavam a minha mãe sobre o que julgavam ser um ‘hábito perigoso’ para uma criança, e sua resposta sempre era: “O único perigo que ele corre é de ler um livro ruim.”

Ele pode sofrer danos em seu senso de direção
Quando tirei a minha habilitação, minha felicidade momentânea foi imediatamente abafada logo que percebi que não tinha a menor ideia de como chegar à lugar nenhum, já que sempre estava lendo um livro ou quadrinho toda vez que andava na carona de um carro e, por conta disso, nunca olhei pra frente e nem prestei atenção nos trajetos feitos.

Claro que isso foi numa época antes do GPS. Hoje confio minha vida no caminho indicado pela mulher do aplicativo.

As mochilas nunca duram até o fim do ano
Nenhuma dessas mochilas plásticas infantis foi preparada para levar o peso de uma dúzia de livros, e consequentemente eu sempre estava arrebentando o fundo, o fecho, ou as alças das minhas.

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Às vezes ele pode se isolar das outras crianças
Quando se lê muito, você acaba aprendendo um monte de coisas que ainda podem ser uma incógnita para as outras crianças, o que deixa o pequeno leitor à um nível acima da maioria.

Enquanto a leitura era introduzida para a minha sala do quinto ano, eu já lia títulos aconselhados para o primeiro ano do ensino médio. E enquanto os outros alunos faziam exercícios de interpretação de texto, eu já tentava interpretar a minha própria compreensão humana. Esse desnível causava um isolamento natural, que gerava longas discussões nos conselhos de classe do colégio.

Ele pode não se importar em ficar sozinho
Possuindo o hábito da leitura, realmente não me incomodava em passar longos períodos sozinho. E mesmo em ambientes tumultuados, eu costumava procurava lugares escondidos para que eu pudesse ler em paz.

A solidão é uma posição natural para as crianças que gostam de ler, já que, com um livro em mãos, elas nunca estão verdadeiramente sozinhas. Sempre estarão acompanhadas pelas personagens das suas histórias favoritas.

Ele pode falar coisas surpreendentes
Uma leitura voraz contribui muito para o nosso vocabulário, o que deixa as línguas dessas crianças tão afiadas quanto as suas mentes. Numa hora você terá que se acostumar com as crianças dizendo e sabendo coisas que até então você considerava precoce demais para a idade delas.
Ainda me lembro de ver a cara de espanto dos adultos quando me viam citar a cronologia da Segunda Guerra Mundial, quando muitos nem sabiam distinguir os países aliados e os do eixo.

A rotina básica do dia pode vir a ser um desafio
Mesmo quando eu não estava fisicamente lendo, a minha cabeça sempre estava parcialmente imersa na minha leitura atual. E digamos que esse fator costuma prejudicar a nossa concentração para as coisas simples do dia-a-dia, sendo natural esquecermos coisas e tarefas com uma frequência fora do comum. A todo instante eu esperava voltar para o meu livro em vez de prestar atenção nas coisas ao meu redor.

Você vai encontrá-lo lendo em horários estranhos
Toda criança leitora conhece o truque de ler com a lanterna sob as cobertas. E é provável que ela tenha muitas outras artimanhas para ler um pouco além do horário que lhe foi estipulado pelos pais.

É necessário compreender que nessa idade a leitura é uma descoberta eterna, e a oportunidade de absorver todo esse saber com a mente curiosa de uma criança, é uma experiência com prazo de validade bem definido. Deixa o pequeno aproveitar enquanto pode.

Cemitério vira espaço de leitura na zona sul de São Paulo

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(Foto: Ilustração / Tânia Rêgo/ Agência Brasil)

(Foto: Ilustração / Tânia Rêgo/ Agência Brasil)

 

Publicado na Isto É

Em uma rua sem saída no extremo sul de São Paulo, cinco mulheres e um rapaz caminham para a única propriedade daquelas bandas: o Cemitério de Colônia, fundado em 1829 em terreno cedido por Dom Pedro I no distrito de Parelheiros. Diferentemente do que a localização sinaliza, contudo, o diminuto cortejo não estava ali para participar de um rito fúnebre, mas para encorpar o vai e vem pelo terreno causado por uma insuspeita atividade: a literatura. Ali, onde costumava ser a casa do coveiro, funciona desde 2009 a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura.

Frequentadores afirmam não estranhar a localização, que, em geral, passa despercebida. A exceção ocorre apenas na proximidade do Dia das Bruxas, quando a biblioteca promove o Sarau do Terror, espetáculo artístico que costuma arrastar 150 pessoas para o meio de sepulturas centenárias.

É nesse ambiente, que muitos associam ao medo, que Sidineia Chagas, de 23 anos, busca realizar um sonho: transformar Parelheiros em um grande polo cultural. Ativista em coletivos como o time de futebol Perifeminas, ela é a gestora da Caminhos da Leitura – que ajudou a fundar com a ONG Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac). Sobre a experiência, ela já fez relatos em eventos de Brasília a Berlim.

“A biblioteca é a minha base, aqui temos sonhos coletivos. Minha missão daqui para a frente é ajudar a fortalecer outros grupos para atender as necessidades da região”, diz a jovem, que ingressou no projeto sob protestos de familiares, especialmente por, na época, estar grávida do filho Octávio Henrique, de 8 anos.

“Hoje eles participam também, mas, no início, eu sofria muita pressão para arrumar emprego, até porque não recebia apoio financeiro. Agora, eles entendem que aqui é o meu ativismo e a minha fonte de renda”, explica a jovem.

Paulistana, a garota se mudou para o bairro Colônia em 2004 após um episódio de violência envolvendo a família. Na biblioteca, ajudou a organizar o acervo de mais de 4 mil livros, dentre os quais estão obras de autoria de sua principal referência literária, Carolina de Jesus, escritora que, assim como ela, é negra e morou na região.

Aqui e ali. Hoje, além do cemitério, a biblioteca se espalha por três unidades básicas de saúde e no Cantinho de Histórias, espaço criado há um ano em uma casa de Parelheiros. Além do empréstimo de livros, há atividades culturais e de formação, como sessões de cinema e oficinas de culinária – tudo organizado da forma acessível. “Os livros infantis estão em prateleiras baixas para incentivar a autonomia”, exemplifica o mediador de leitura Bruno de Souza, de 21 anos.

Segundo Bel Santos Mayer, coordenadora do Ibeac, o projeto tem o propósito de ser “democrático” desde o início, quando a ONG decidiu concentrar as ações em um único território. “Pesquisamos qual era o pior bairro de São Paulo para se viver. Pretendíamos mostrar que nenhum lugar é ruim de verdade, e os moradores nos buscaram porque também queriam potencializar as coisas boas daqui.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Qual a importância das fotos dos escritores, para eles e para os leitores

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Retratos de escritores projetam uma imagem que forma a mitologia em torno de suas personalidades e acompanha a leitura de suas obras

Juliana Domingos de Lima, no Nexo

Por ser um escritor nascido ainda no século 19, o homenageado pela Festa Literária de Paraty de 2017 Lima Barreto não tem tantas imagens de si circulando por aí, como é o caso dos escritores contemporâneos.

Lima Barreto em 1909, ano de lançamento de "Recordações do Escrivão Isaías Caminha"

Lima Barreto em 1909, ano de lançamento de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” – Foto: Domínio Público

 

A pouca iconografia existente do autor, que inclui as fotos analisadas pela professora da UFRJ Beatriz Resende no ensaio “O Lima Barreto que Nos Olha”, no entanto, ajuda a entender o que atormentava o escritor, qual a sua história e qual era a condição de um escritor negro no início do século 20 no Brasil.

Até a pesquisa de Resende, as fotos de Barreto que ela analisou nunca haviam sido vistas por alguém externo à instituição psiquiátrica onde ele foi internado e fotografado em 1914 e 1919. Para a pesquisadora, as fotos eram a “prova material” do que ele havia relatado no livro “Diário do Hospício”. Projetam, além disso, uma imagem muito diferente do escritor jovem, confiante e vestido com esmero no ano de publicação de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”.

Para Dustin Illingworth, jornalista especializado em literatura que escreve para o site “Literary Hub”, as fotos de escritores constituem um texto paralelo à própria obra de um autor. A expressão do escritor em imagens, seja na orelha de um livro ou em um banner de livraria, ecoa e acompanha a experiência de leitura. E constrói uma fantasia em torno da figura por trás do texto. “Se a nossa é uma cultura da primazia visual, há dúvidas de que as fotos de nossos autores venham a habitar os textos que eles escrevem?”, questiona Illingworth.
Primeiros retratos de escritores brasileiros

O primeiro dos grandes escritores brasileiros a ter sua trajetória registrada por meio de fotografias, e portanto a deixar imagens de si para gerações posteriores, foi Machado de Assis. Nascido na primeira metade do século 19, sua geração coincide com a que viu, no Brasil, a fotografia se tornar parte da vida social, cosmopolita e intelectual das pessoas. A trajetória do escritor contada em fotos foi reunida no livro “A Olhos Vistos: Uma Iconografia de Machado de Assis”, organizado pelo professor de Literatura Brasileira na USP Hélio de Seixas Guimarães.

Machado fotografado por Marc Ferrez e Joaquim Insley Pacheco, em 1884 - Foto: Domínio Público

Machado fotografado por Marc Ferrez e Joaquim Insley Pacheco, em 1884 – Foto: Domínio Público

 

O modernista Mário de Andrade também foi intensamente retratado, em pinturas e fotos, e se mostrava consciente do cultivo de sua imagem de escritor e homem público a partir desses registros. “Dos retratos que foram feitos em vida, Mário de Andrade exerceu influência direta sobre muitos deles, interferindo e opinando durante a sua execução e também os criticando em textos e cartas depois de terminados”, diz o artigo “Retratos de Mário de Andrade: catálogo da iconografia dedicada ao escritor”, escrito pela pesquisadora em História da Arte da Unicamp Tameny Romão.

O trabalho explicita as construções da imagem do autor de “Macunaíma”, assimiladas pelo imaginário popular: seus retratos, tirados em casa ou no estúdio, cercado de objetos que havia trazido de suas viagens folclóricas ao Nordeste ou com um cigarro na boca, projetavam um homem culto, viajado, descontraído ou circunspecto e triste, como é muitas vezes o ideário romântico alimentado em relação à personalidade de escritores.

Em uma carta de 1944 enviada ao amigo Newton Freitas, Mário de Andrade envia uma foto dele mesmo que diz, na correspondência, ser a que mais gostava por marcar no seu rosto “os caminhos do sofrimento, você repare, cara vincada, não de rugas ainda mais de caminhos de ruas, praças, como uma cidade. (…) ele denuncia todo o sofrimento dum homem feliz”.
As fotografias de escritores

Fotógrafo e colaborador de editoras como Companhia das Letras, Planeta, Rocco e 34, Renato Parada já fotografou autores contemporâneos brasileiros e estrangeiros. José Saramago, Mia Couto, Elvira Vigna, Drauzio Varella, Daniel Galera e Ian McEwan estão entre seus retratados.

“Acho que essas escolhas fazem parte de como esses autores querem que o leitor se relacione com seus livros”, disse Parada em entrevista ao Nexo.

Ele concorda que quando o leitor julga, pela aparência, um escritor como “bonito, inteligente, agradável ou maldito”, isso tem impacto na forma como ele é lido.

'Saber que Daniel Galera é um contemporâneo meu me fez ter mais interesse por seus livros', diz Parada - Foto: Renato Parada

‘Saber que Daniel Galera é um contemporâneo meu me fez ter mais interesse por seus livros’, diz Parada – Foto: Renato Parada

 

Como leitor, Parada relata como sua experiência ou seu interesse pela literatura de alguns autores passa pela imagem deles. “Saber que Daniel Galera é um contemporâneo meu me fez ter mais interesse por seus livros”, diz. Também fala de como a imagem do autor do calhamaço “Graça Infinita” o convenceu a chegar ao fim do livro. “O fato de um escritor como David Foster Wallace se vestir como um Axl Rose acadêmico me influenciou a conseguir ter a dedicação suficiente para conseguir ler seus livros. Me ajudou a entender que ler um livro de 1.000 páginas também pode ser algo extremamente legal e divertido de se fazer”.

O retrato tirado de Elvira Vigna, autora do livro “Como Se Estivéssemos em um Palimpsesto de Putas” é um dos preferidos do fotógrafo por comunicar a força e a dureza da personalidade e do estilo literário da escritora.

Retrato tirado da escritora Elvira Vigna é um dos preferidos do fotógrafo - Foto: Renato Parada

Retrato tirado da escritora Elvira Vigna é um dos preferidos do fotógrafo – Foto: Renato Parada

Ele diz preferir fazer fotos “não literais”, fugir da pose intelectual ou profunda, das fotos convencionais com uma estante de livros ao fundo.

“São pessoas mais interessantes que isso”, diz. “As pessoas têm essa ideia do que é um escritor – alguém mais velho, acadêmico, e isso pode distanciar alguns da literatura, como os jovens, que podem achar que esse universo não é tão legal e interessante”.
Kafka, Plath, Camus

No texto “Como fotos de autores mudam nossa maneira de ler”, publicado no site “Literary Hub”, Dustin Illingworth cita alguns casos de fotos de escritores muito conhecidos cujos retratos são inseparáveis, para ele, das respectivas obras.

“A última foto tirada de Franz Kafka, meses antes dele morrer de uma tuberculose que o havia perseguido por anos, revela a magreza, a contemplação e a intensidade quase insuportável de um rosto transformado em um tipo de aforismo físico: o rosto de Kafka como uma história kafkiana”

Dustin Illingworth

Para o “Literary Hub”

Para o jornalista do 'Literay Hub' a expressão de Kafka concentra características de um personagem de um de seus livros - Foto: Domínio Público

Para o jornalista do ‘Literay Hub’ a expressão de Kafka concentra características de um personagem de um de seus livros – Foto: Domínio Público

 

O sorriso enigmático e a expressão ambígua da americana Sylvia Plath, autora de “A Redoma de Vidro” e do livro de poesia “Ariel” também ficam impressos, para ele, à ferocidade de sua obra poética. Illingworth registra ainda a elegância e a rebeldia do teco de cigarro nos lábios do francês Albert Camus, em sua foto mais famosa. Camus é, segundo ele, o James Dean do existencialismo.

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