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Livros que merecem lugar na estante em 2017

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Amélia Gonzales, no G1

Astrologicamente, o ano de 2017 só vai começar em março, dizem os especialistas. Assim, ainda tenho tempo para sugerir aos leitores alguns bons livros que li no ano passado e que me ajudaram bastante a ampliar o pensamento a respeito das mudanças climáticas, de uma nova economia, de uma nova sociopolítica, de uma nova ordem mundial que anda se impondo. Mesmo com a eleição de um “cético do clima” à presidência dos Estados Unidos – Donald Trump, é claro – não se pode perder de vista a necessidade de manter o Acordo de Paris, conseguido a duras penas no fim de 2015, que pretende neutralizar tantas emissões de carbono, organizar mais a produção, o consumo, para que sobrem recursos. E é bom visitar textos de pessoas que pensam a respeito, propondo novos caminhos. Não proponho um debate porque acho pobre quando se fica em posições opostas. Proponho o pensamento, a reflexão, para se tentar um caminho de mudanças possíveis.

Começo, pois, com David C. Korten e seu “When corporations rule the World”. Infelizmente ainda não foi traduzido no Brasil, mas deveria ter sido. Porque traz ponderações de grande importância sobre o valor imenso que deixamos que as megas corporações tenham em nosso mundo. Algo semelhante já foi escrito, depois traduzido para um vídeo documentário, com o nome de “The Corporations”, em 1995.

A primeira edição do llivro “When corporations rule the World” é do mesmo ano, e ganhou em 2015 uma introdução para comemorar os vinte anos de sua publicação.Fiquei presa às observações do autor feitas há vinte anos, vejam só:

“A escalada da concentração do poder econômico atual é revelada em estatísticas. Das cem maiores economias do mundo, 50 são corporações, e as vendas agregadas das dez maiores corporações em 1991 excedem o PIB das cem economias dos menores países do mundo. As receitas obtidas com as vendas da General Motors em 1992 (133 bilhões de dólares) quase se esquivale ao PIB de Bangladesh, Etiopia, Kenya, Nepal, Nigéria, Paquistão, Tanzania, Uganda e Zaire. 550 milhões de pessoas habitam esses países, um décimo da população global. As 500 maiores corporações industriais do mundo, que empregam somente meio a 1 por cento da população mundial, controlam 25% do rendimento econômico do mundo”.

Fico impressionada porque todo esse poderio, que já assustava, foi identificado e descrito há vinte anos. E, de lá para cá, só fez crescer. Será sempre necessário refletir a esse respeito, trazendo para a mesa uma série de indagações que não têm sido feitas pelo senso comum. O livro de David Korten é um convite.

De uma certa forma, o historiador Jessé Souza, pesquisador e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), também ajuda a pensar sobre o papel protagonista das empresas brasileiras quando faz uma retrospectiva em seu “A Radiografia do Golpe” (Ed. Leya). O problema de estarmos vivendo um dos períodos de maior polarização política no país é a dificuldade de se abrir espaço para o “outro” expor suas ideias se elas não se adaptam à crença do “um”. Jessé, já no título, deixa claro o que pensa sobre o impeachment da presidente Dilma Roussef. E parte de uma leitura sofisticada e lúcida sobre a divisão de classes no sistema capitalista para ampliar o pensamento sobre o momento político.

Jessé Souza também denuncia o poderio do mundo das empresas, do mundo das finanças, identificando-os como “elite do dinheiro e do poder” que sempre precisaram “convencer a imensa maioria dominada e explorada de que seus privilégios são merecidos e justos”. O historiador denuncia também o racismo de classe, que se revelou de diversas maneiras durante todo o período do Lulismo. Para ele, um presidente com modos populares e metáforas de futebol foi demais para uma classe média que não gostava também de compartilhar espaços sociais antes restritos com os “novos bárbaros” das classes populares. Este sentimento seria o pano de fundo que deu força à manobra que depôs Dilma Roussef do poder.

“Foi nesse contexto que se deu a construção da ‘linha do moralismo’, como mais uma forma alternativa de produzir solidariedade interna entre os privilegiados e de permitir formas aparentemente legítimas de exercer preconceito e racismo de classe contra os de baixo. A linha do moralismo é a linha divisória imaginária que separa aqueles que se percebem como superiores , posto que se escandalizam com a corrupção política partidária e estatal, daqueles que não se sensibilizam com esse tema”, escreve ele.

O livro de Jessé Souza certamente também merece lugar na estante daqueles que não se conformam e querem ter mais dados para pensar sobre nosso tempo.

Pulando de um para outro tema, vou sugerir aos leitores a leitura de “A espiral da morte” (Ed. Companhia das Letras), do jornalista Claudio Angelo, atualmente um dos diretores da ONG Observatório do Clima. Já tinha este livro na lista antes mesmo de ler, hoje à tarde, a notícia sobre o iceberg gigante que está se desprendendo da Antártida, o que anda gerando muita preocupação aos ambientalistas.

O bloco de gelo de 5 mil quilômetros quadrados pode se soltar a qualquer momento e, se todo o gelo derreter, o nível dos mares aumentaria em cerca de dez centímetros. Não é pouca coisa e, como se lê no livro de Ângelo, trata-se de uma crônica do desastre anunciado.

“As duas regiões polares foram as vítimas iniciais do aquecimento global. Da maneira como elas reagirão ao aumento das temperaturas nos próximos anos dependerá, em larga medida, o futuro da sociedade, em especial nos países em desenvolvimento. A consequência mais conhecida e temida do degelo polar, claro, é a elevação do nível médio dos oceanos”, escreve ele.

O jornalista não se limita a repisar sobre a decorrência mais conhecida e comentada do degelo. Vai fundo também na história de vida dos cientistas que se dedicam anos a fio explorando as zonas mais inóspitas da Terra para estudar e tentar informar aos outros detalhes cada vez mais perturbadores e reveladores sobre o clima do planeta. Claudio Ângelo acompanhou alguns desses cientistas e não poupa os leitores quando descreve o que viu e ouviu:

“Mesmo que as emissões de carbono fossem zeradas hoje, várias mudanças já em curso são irreversíveis. A inércia do sistema climático fará os polos derreterem e o mar subir por milênios. Segundo um cálculo do climatologista americano David Archer, da Universidade de Chicago, uma parte do CO2 que já lançamos na atmosfera estará mudando o clima da Terra daqui a cem mil anos, graças ao tempo de vida longo desse gás na atmosfera e à enorme inércia dos oceanos ao absorver calor”, escreve ele.

O livro de Claudio Ângelo, assim como os outros dois que sugeri, certamente não vai deixar os leitores em harmonia com o universo, muito menos se sentindo navegando em mares de almirante. É mesmo para mexer, colaborar com novos pensamentos e reflexões. Boas leituras!

Foto: CDC/ Amanda Mills

A nova geração de escritores desafia o silêncio

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"O romance não pode ser a repertição estéril das velhas fórmulas", afirma Julián Fuks

“O romance não pode ser a repertição estéril das velhas fórmulas”, afirma Julián Fuks

 

Uma safra promissora de autores, encabeçada por Julián Fuks, escreve como forma de resistir

Jotabê Medeiros, na Carta Capital

Foi um ano particularmente ruim. Mas, como não existem condições particularmente boas para o exercício da literatura, a escrita brasileira colhe uma bela safra em meio ao jorro de más notícias. A primeira novidade atende pelo nome de Julián Fuks, tem 35 anos, usa barba de quaker e camisas de lenhador e não desperdiça uma plateia. Quando tem a oportunidade, berra a plenos pulmões: “Fora, Temer!”

Foi assim nesta semana, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, ao ganhar o segundo lugar no prestigioso Prêmio Oceanos, distinção para livros de língua portuguesa. Foi assim também ao abocanhar o primeiro lugar na categoria Romance do Prêmio Jabuti, há alguns dias.

Não que o coté político seja um imperativo dessa colheita, mas Fuks tem a política no sangue. Filho de psicanalistas argentinos, seu livro Resistência (que levou os prêmios), da Companhia das Letras, é um dos mais rigorosos testemunhos dos efeitos colaterais e da violência social da ditadura argentina.

“O meu ato de resistência tem sido lutar para que as palavras voltem a recuperar sentido. Literatura tem sido essa luta com o silêncio”, afirma Fuks. “Gosto, especialmente, do que a palavra tem de ambivalente: resistência como algo negativo, como uma recusa a alcançar algo ou, pelo contrário, como um ato de força, de posicionamento diante de uma situação que exige uma tomada de posição”.

Angélica Freitas, Lu Menezes, Alice Sant’Anna, Bruna Beber, Claudia Roquette-Pinto: os nomes das poetas de novíssima geração que são destaques na atual cena literária vão brotando com certo orgulho da boca da poeta mineira Ana Martins Marques.

'Pouquíssima gente vive de literatura', diz a poeta Ana Martins (Sergio Castro/Auditório Ibirapuera)

‘Pouquíssima gente vive de literatura’, diz a poeta Ana Martins (Sergio Castro/Auditório Ibirapuera)

Única mulher entre os premiados no prêmio Oceanos (terceira colocada, com O Livro das Semelhanças), ela dedicou o prêmio às colegas da poesia. “Há uma cena importante, muito inventiva e vigorosa”, considera Ana, de 39 anos, que trabalha como revisora e é assessora da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

“É difícil viver de literatura, pouquíssima gente vive. Mas eu acho que existe um universo de leitores para quem a literatura é importante, e isso vai além da questão mercadológica”, diz.

Para Julián Fuks, a resistência do ofício de escritor, em tempos adversos, consiste principalmente em viver em torno da literatura e jamais se afastar dela por completo, seja por traduções, seja batalhando bolsas, dando aulas de escrita, oficinas.

E, na escrita, desafiar a si mesmo continuamente. “Se quer ser romance, o romance tem que reinventar constantemente a si mesmo. Não pode se deixar reduzir a uma prática convencional, não pode se tornar a repetição estéril de velhas fórmulas”, considera o autor.

“Essa é uma das premissas do gênero, a garantir também sua vitalidade. Pessoalmente, sinto que o desafio maior às velhas práticas do romance tem se dado na radicalização de uma travessia de fronteiras entre realidade e ficção.

O que há de mais interessante no romance contemporâneo, a meu ver, são os muitos hibridismos possíveis, os momentos em que ele se deixa permear pela historiografia, pelo ensaio, pela filosofia, pela autobiografia.”

Prestes a se tornar pai pela primeira vez, Fuks tem dois romances e dois livros de contos publicados. “Minha literatura, que já foi restrita a poucas centenas de leitores cativos, tem transitado em novas paragens agora, e isso me alegra muitíssimo”, diz.

Ele, entretanto, não cai na ideia de literatura geracional. “Já não se cogita um processo de construção mais coletiva, a partir de traços comuns”, afirma. Mas concorda que diversos livros hoje “têm se deixado marcar por um elemento político, numa tentativa de compreender a complexidade que essas questões assumiram, e tantas vezes também de combater os arbítrios e retrocessos que infelizmente nos têm abatido”.

Os escritores persistem em um cenário de parcos direitos autorais, contratos draconianos, crise do mercado livreiro. Sobrevivem com a literatura como uma atividade secundária, fazendo oficinas, dando aulas, em serviços burocráticos. Não é novidade: foi assim que um festejado autor, o sergipano Antonio Carlos Viana, autor de Jeito de Matar Lagartas, afirmou sua literatura até a morte precoce, em outubro passado.

Para Cadão Volpato, 'quem tem um projeto vai permanecer' (Silvia Constanti/Valor)

Para Cadão Volpato, ‘quem tem um projeto vai permanecer’ (Silvia Constanti/Valor)

“Num momento de crise fica muito difícil tocar a vida na literatura, mas quem tem um projeto, que sabe o que está fazendo, vai permanecer”, diz o escritor e músico Cadão Volpato, autor de Pessoas Que Passam pelos Sonhos (2012), e que tem três novos livros a caminho. “O que vai parar em pé não é a invenção, é a qualidade”, avalia Volpato.

O poeta Ademir Assunção, prêmio Jabuti de 2013 com A Voz do Ventríloquo, segue uma trajetória de produção fértil e diversa. Além de excursionar com sua banda, foi novamente finalista do Jabuti com Pig Brother (2015) e acaba de lançar Ninguém na Praia Brava, um livro experimental que define como um não romance.

Algo que parece novidade, mas que também se insere numa tradição, adianta Assunção. “Talvez Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machadão (Machado de Assis) e Memórias Sentimentais de João Miramar, do Oswaldão (Oswald de Andrade), sejam os pais do não romance no Brasil.

E quem seria a mãe? Não sei. Na lista dos que continuaram a linhagem ao longo do século 20 eu incluiria Sebastião Nunes e Campos de Carvalho”, diz Assunção. “O não romance não se preocupa tanto com a verossimilhança, tão cara ao romance.

O não romance se ocupa mais em arrancar com as unhas as couraças da linguagem, para que ela volte a significar algo, em vez de reproduzir a farsa de que seja um espelho da realidade. A linguagem cria realidades. E irrealidades também.

Pergunte a um astrofísico ou ao seu gato de estimação o que ele entende por realidade. Isso não quer dizer que eu acredite que o romance esteja morto, como já propagaram tanto”, afirma o escritor, referendando a literatura de Ignácio de Loyola Brandão, Marcia Denser e Marçal Aquino, entre outros.

O Prêmio Jabuti teve 2.400 obras inscritas em 27 categorias. Já o Prêmio Oceanos avaliou 740 livros em língua portuguesa (nos gêneros poesia, romance, conto, crônica e dramaturgia) publicados no Brasil em 2015. A lista dos quatro vencedores, após etapas que selecionaram 50 semifinalistas e, em seguida, dez finalistas, traduziu essa diversidade de gêneros literários.

A vitalidade da produção nacional, entretanto, sempre esbarra na ausência cada vez mais acentuada de leitores. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o País é constituído por 56% de leitores com 5 anos ou mais, cerca de 105 milhões de leitores. Isso inclui a eventual leitura da Bíblia.

“Temos ainda muito a fazer para que os 44% de não adeptos possam descobrir o prazer de ler”, analisa Zoara Failla, coordenadora da pesquisa. Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, que patrocina o Prêmio Oceanos, avalia que, se a única meta das gestões culturais no Brasil fosse aumentar o número de leitores, teria seu apoio, porque com mais leitura “não estaríamos num momento tão radicalizado, tão triste como estamos vivendo em nosso País”.

O que Paula Pimenta pode nos ensinar sobre arrebatar leitores adolescentes

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Clara pegando autógrafo de Paula Pimenta. Fonte: Instagram Clara Almeida

Clara pegando autógrafo de Paula Pimenta. Fonte: Instagram Clara Almeida

 

Marcia Lira, no Menos 1 na Estante

Na Fenelivro 2016, tive a oportunidade de mediar um bate-papo com a Paula Pimenta, autora frisson entre os adolescentes, principalmente entre as meninas. E embora eu não seja o público-alvo dos seus livros, fiquei feliz de testemunhar a relação massa que a escritora tem com seus fãs.

Rachel Motta e eu mediamos o bate-papo na Fenelivro 2016. Foto: Tárcio Fonseca

Rachel Motta e eu mediamos o bate-papo na Fenelivro 2016. Foto: Tárcio Fonseca

 

Em tempos de adolescentes com smartphones grudados na cara, é muito inspirador ver um monte deles reunidos, todos com seus livros de mais de 400 páginas nas mãos, os olhos brilhando diante da escritora preferida. E aquela ânsia pelo momento do encontro com direito a abraço, selfie para o snapchat e autógrafo.

Sério, é bonito de ver.

Pra entender porque a Paula Pimenta é tão bem-sucedida no desafio de conquistar leitores adolescentes, além de conversar com qualquer menina que tenha entre 11 e 16 anos, pode ler esses motivos que listei:

1. Ela é super simpática, atenciosa e paciente com seus fãs e as pessoas ao redor

Paula Pimenta vendeu mais de 1 milhão de cópias de livros, só na editora Gutenberg. A revista Época a colocou entre os 100 brasileiros mais influentes, em 2102. São 16 livros publicados no Brasil e traduções em Portugal, Espanha, Itália e países da América Latina, com destaque para as séries Fazendo Meu Filme (4 volumes) e Minha Vida Fora de Série (3 volumes até agora).

Fãs de Paula Pimenta a postos na Fenelivro 2016. Foto: Tárcio Fonseca

Fãs de Paula Pimenta a postos na Fenelivro 2016. Foto: Tárcio Fonseca

 

Tem gente bem metida por aí com muito menos que isso, concorda?

Mas ela não. Atendeu um a um, uma centena de adolescentes com o mesmo sorriso no rosto e toda a paciência, deixando todo mundo feliz. Nos bastidores, foi atenciosa e simpática do mesmo jeito. Sem falar na dedicação de interagir muito pelas redes sociais.

2. Defende que toda a literatura é válida para formar um leitor.

“Quando você descobre que ler é gostoso, você quer ler tudo, você quer ler o máximo de todo tipo de livro.” Essa é uma das frases legais da Paula Pimenta nesse vídeo do bate-papo, em que ela basicamente fala sobre como é importante deixar a criança começar lendo o que interessa a ela, porque isso abre as portas para o universo dos livros.

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Foi uma resposta a um professor, que contou ter adotado os livros dela para seus alunos, e isso fez com que a turma dele fosse a mais leitora da escola.

4. Ela não tem medo em ser o que é.

Como disse a Veja nessa matéria, Paula Pimenta é uma menina grande mesmo tendo mais de 40 anos. No fim do ano passado, casou na Disney com direito à valsa com o Mickey e fotos pelo parque com vestido de noiva.

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Conta que uma de suas autoras favoritas e inspiração literária é a Meg Cabot, e carrega um monte de canetinhas coloridas para dar autógrafo. E daí? Certamente o mundo precisa de mais gente assim, que se banque e essa honestidade é uma boa inspiração para os nossos jovens.

5. A escritora tem feito muitos adolescentes se jogarem na leitura.

No encontro, vi várias crianças e adolescentes que leram toda a obra dela, e estão querendo mais. Insaciáveis. Devoradores de livros. Quem sabe não são eles que vão mudar a dura realidade de que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro, como apontou a última pesquisa Retratos da Leituras.

6. Ela curte Agatha Christhie <3

Perguntei à Paula Pimenta, na época em que ela era novinha, quem autor arrebatava o coração dela: quem foi a sua “Paula Pimenta”? E ela contou que não tinha esses tipos de romances naquele tempo, e que então uma das paixões dela foi Agatha Christie, pois ela curtia bastante o estilo da autora. Dei muito valor.

Como posso incentivar meu filho a ler, sendo que eu mesmo tenho pouco tempo para a leitura?

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Foto: Shutterstock

Foto: Shutterstock

 

Ricardo Falzetta, em O Globo

Alice segue um coelho apressado e acaba em um mundo de maravilhas. Com um enredo aparentemente singelo, o livro Alice no País das Maravilhas trata das muitas transformações da infância, de raciocínio lógico e de identidade. O premiado clássico de Lewis Carroll não poderia ser obra ilustrativa mais apropriada para o dia 12 de outubro – ao mesmo tempo dia das Crianças e dia nacional da leitura. Por meio do lúdico literário, as crianças podem acessar universos incríveis.

E você sabia que além de portal para a imaginação, a leitura também é um direito? Pois é isso mesmo. Aos pequenos cidadãos brasileiros é garantida uma série de direitos – como à vida e à saúde – e a Educação é um deles. Este, em especial, não significa apenas o acesso à uma escola. Ele também se refere à aprendizagem, e esse ponto talvez não seja ainda muito claro para os pais. Então, vale reforçar aqui: toda criança tem o direito de ter condições adequadas para aprender a ler e escrever até o 3º ano do Ensino Fundamental, como determina o Plano Nacional de Educação (PNE). Na verdade, é muito importante para o o pleno desenvolvimento da criança que a alfabetização seja garantida até, no máximo, os 8 anos de idade.

Se aprender a ler é um direito das crianças, a quem compete o dever de concretizá-lo? Quem pensou no Estado acertou; e quem pensou na família, também! Família e Estado devem juntos garantir o direito à Educação das crianças.

Mas, e se meu filho já está alfabetizado, ele precisa ler mais? Sim e a justificativa é muito simples, embora nem sempre óbvia. O processo de aprendizagem da língua – e também seu aperfeiçoamento – é um caminho para a vida toda. Quanto mais a criança ler, melhor.

A leitura é fonte de saber e suporte para todas as áreas de conhecimento: aprende-se história e geografia lendo, mas também matemática e física, química e artes, educação física e filosofia. Portanto, independente das aptidões de cada criança ou jovem, seja na área de exatas ou a de humanas, a leitura só tem bons efeitos colaterais.

Pensando nisso, falemos de duas realidades que englobam senão todos as famílias brasileiras, uma boa parte delas: muitos pais não têm tempo para ler e muitos pais não têm condições socioeconômicas para adquirir livros – infelizmente, objetos ainda caros para o orçamento da maioria dos brasileiros. E bibliotecas públicas são, infelizmente, privilégio de poucos municípios. Diante disso, como garantir que os filhos leiam mais e melhor?

Antes de mais nada, reforço: é muito importante que as crianças percebam que os pais leem e valorizam esse hábito; por isso, ler para e com as crianças é um gesto ao mesmo tempo simples e poderoso, que estimula o interesse pelo universo da leitura e da escrita. Contudo, nem sempre isso é possível.

Como o trabalho em nossa sociedade demanda cada vez mais tempo dos adultos e as famílias assumem cada vez mais novas configurações – muitas impedindo a presença constante dos pais –, é preciso ser criativo para garantir que as crianças tenham acesso e incentivo à leitura.

Listo abaixo uma série de estratégias para o incentivo da leitura dentro do espaço familiar:

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As dicas acima, de uma maneira ou outra, demandam algum investimento financeiro. Mas engana-se quem acha que apenas pais com dinheiro disponível podem incentivar os filhos a ler. Se o Estado é co-participante do direito à aprendizagem, a escola é o agente que deve auxiliar as famílias na concretização do hábito da leitura. A escola pública deve abrir as portas das bibliotecas escolares para a comunidade, garantindo que viajar na leitura seja uma possibilidade também para as crianças e também para a família.

Se você se interessou por essas ideias, confira e divulgue as dicas abaixo:

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A mania de acumular livros não lidos tem um nome. Em japonês

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Hipótese de que a popularização de leitores digitais acabariam com o acúmulo de livros físicos não se concretizou

Hipótese de que a popularização de leitores digitais acabariam com o acúmulo de livros físicos não se concretizou – Foto: Giulia van Pelt/Creative Commons

 

‘Tsundoku’ foi o nome dado à prática de comprar livros e mantê-los intactos nas estantes de casa

Juliana Domingos de Lima, no Nexo

O hábito de comprar livros que nunca serão lidos e acumulá-los em pilhas é familiar para quem gosta de ler. E há uma única palavra, em japonês, para designar a prática: tsundoku.

Na verdade, o substantivo é um jogo de palavras. “Tsundoku” corresponde à forma oral do verbo “tsunde oku”, que quer dizer “empilhar e deixar de lado por um tempo”. Mas “doku”, palavra expressa por um ideograma, corresponde ao verbo ler. Assim, criou-se uma nova palavra, cujo sentido é a aquisição de materiais de leitura que acabam empilhados, sem nunca serem lidos.

A ilustradora Ella Frances Sanders chegou a criar uma imagem para o vocábulo japonês, em seu livro “Lost in Translation: An Illustrated Compendium of Untranslatable Words from Around the World”.

Ella Frances Sanders ilustrou palavras intraduzíveis para outras línguas - Foto: Reprodução

Ella Frances Sanders ilustrou palavras intraduzíveis para outras línguas – Foto: Reprodução

 

A hipótese de que a popularização de leitores digitais (como Kindle e Kobo) acabariam com o acúmulo de livros físicos ainda não se concretizou – ao que tudo indica, pessoas gostam de juntar papel.

Segundo uma pesquisa do instituto Pew Research Center publicada em setembro de 2016, os livros de papel continuam a ser mais populares que o formato digital nos Estados Unidos.

2,71

bilhões de livros físicos foram vendidos nos EUA só em 2015, segundo o portal “Statista”, especializado em dados

255

milhões de livros físicos foram vendidos no mercado brasileiro em 2015 de acordo com a Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro

Entre as razões que podem explicar por que algumas pessoas continuam comprando livros mesmo quando ainda há outros já empilhados para serem lidos há o status. Possuir muitos livros pode conferir aparência de conhecimento a alguém.

Há ainda outros motivos possíveis, citados pelo site “Ozy”. Às vezes, colecionadores os adquirem por nostalgia – lidos na infância ou adolescência, os livros podem passar a simbolizar um período da vida, diz Susan Benne, diretora executiva da Associação Americana de Livreiros de Antiquários.

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