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Professor faz da leitura novo meio de estudantes verem o mundo

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Os estudantes têm 30 minutos, antes da aula, de contato com os livros e debate sobre os escritos e a própria realidade FOTOS MARIANA PARENTE/ESPECIAL PARA O POVO

Os estudantes têm 30 minutos, antes da aula, de contato com os livros e debate sobre os escritos e a própria realidade FOTOS MARIANA PARENTE/ESPECIAL PARA O POVO

A rotina de 150 alunos da Escola Municipal Raimundo Moreira Sena, no bairro Bom Jardim, passou a contar com a literatura como instrumento de formação e transformação social

Publicado em O Povo

Livros nas mãos e olhares atentos. É assim que os alunos da Escola Municipal Raimundo Moreira Sena, no Bom Jardim, começam o dia de aula às quintas-feiras. Durante 30 minutos, as crianças leem livros, cordéis, revistas e jornais impressos. É o projeto Confraria da Leitura.

A leitura que a gente desenvolve é lúdica. O aluno pode escolher um livro ou não. Ele não é obrigado, a gente quer que ele sinta o prazer”, define o idealizador da ação, o professor de história e cordelista João Teles Aguiar, 52.

A ação foi idealizada pelo professor e cordelista João Teles Aguiar e, hoje, é realizada em sete escolas

A ação foi idealizada pelo professor e cordelista João Teles Aguiar e, hoje, é realizada em sete escolas

O objetivo é ampliar as perspectivas dos jovens. Por isso, depois da leitura, o educador direciona um debate abordando o tema da leitura e a rotina dos jovens na comunidade. “É o que a gente chama de leitura de mundo. Isso possibilita à criança ler o entorno que ela vive de outra forma, que não seja ligada à violência”, relata.

A ação de incentivo à leitura deu fôlego ao aprendizado de 150 estudantes, de 6 a 14 anos. O projeto alcança crianças e adolescentes da região há 21 anos. Consegue estreitar a relação entre as comunidades e a literatura por meio de rodas de conversa, programas para a rádio-escola e esquetes teatrais e musicais. “Para uma criança que vive numa região onde não tem biblioteca, não tem grandes centros culturais, a leitura acaba sendo um viés para ter novas perspectivas”, expõe João.

Aluno do 5º ano, Paulo Roberto Sousa, de 12 anos, comemora a iniciativa implantada há cerca de um mês nesta escola. “O professor já chegou dizendo que ler é tudo. Ele incentiva muito a gente. E eu adoro ler, acho muito importante”, reconhece.

O professor João leva a confraria para as instituições em que trabalha. A escola Moreira Sena está entre as sete escolas de cinco bairros alcançadas pela iniciativa. A mais recente foi a Escola Municipal Demócrito Dummar, no Canindezinho. Lá, o projeto resultou na implantação de uma gibiteca. (Bruna Damasceno/Especial para O POVO)

Editora e escolas apontam a necessidade de trabalhar com livros que representem diversidade do Brasil

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Obras da casa. Cristina Warth (à esquerda) e Mariana Warth manuseiam livros de Sonia Rosa e Anna McQuinnda, da editora Pallas - Brenno Carvalho / Brenno Carvalho

Obras da casa. Cristina Warth (à esquerda) e Mariana Warth manuseiam livros de Sonia Rosa e Anna McQuinnda, da editora Pallas – Brenno Carvalho / Brenno Carvalho

Lei que garante a situação é regente no Brasil desde 2003

Daniela Kalicheski, em O Globo

RIO – Desde 2003, a lei 10.639/03 torna obrigatória em todos os currículos escolares do território nacional de ensino fundamental e médio a educação de história e cultura afro-brasileiras — ampliadas, em 2008, para o ensino sobre povos indígenas. Mesmo com quase 15 anos de vigência da lei, ainda há resistência em cumpri-la; e quando isso, muitas vezes são usadas informações superficiais que não refletem a sociedade brasileira de fato ou sequer trabalham a questão da diversidade. A pedagoga Sonia Rosa, que também é escritora e professora, aponta a urgência do uso, em sala de aula, de livros que reflitam essa multiplicidade.

— É preciso trabalhar nas escolas para dar luz a conflitos raciais, com uma perspectiva de que a cor da pele e os traços de cada indivíduo são resultados da história, sempre rica, de seus antepassados, o que é motivo de orgulho e não de inferiorização. Essa diversidade pode ser discutida por meio da literatura e é necessário trazê-la para perto dos estudantes. Eu já estive em escolas onde a presença de pessoas negras existia apenas em questão dos funcionários e não na convivência, assim como fui a escolas onde a presença negra dos alunos era maioria, mas eles não se viam representados nos livros que liam. — contextualiza a autora.

Em uma de suas publicações, ela apresenta a narrativa real de Esperança Garcia, mulher que veio ao Brasil em condição de escrava e escreveu uma carta ao governador do Piauí solicitando que voltasse a viver com sua família. A carta, que por muito tempo ficou esquecida, foi, este ano, interpretada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) como uma das primeiras petições feitas no país, e Esperança recebeu o título póstumo de advogada.

Histórias reais como a narrada por Sonia ou contos que brincam com a imaginação tendo como protagonistas e heróis negros e indígenas estão distribuídos num catálogo de 70 obras infantojuvenis da editora Pallas, com sede em Higienópolis (SP).

A necessidade de produzir esses livros surgiu quando Mariana Warth — diretora da editora ao lado de Cristina Warth — entendeu que o pouco conteúdo disponível não retratava a população do Brasil e pouco tinha a dizer sobre seus antepassados africanos.

— Não encontramos muitas produções consistentes que buscavam de fato discussões de identidade, algo que apresentasse o Brasil com a cara negra. Em relação à história, achamos muitos livros aleatórios que nada tinham a ver com a África que se relaciona com a gente. Acreditamos que deveríamos entrar nessa discussão. Estamos fazendo livros para todas as crianças. Quando uma não se vê nos livros, na educação, na TV… ela passa a naturalizar que não é normal. É natural ter uma boneca branca, o livro ter um herói branco, o protagonista da novela ser branco. Nossa preocupação é a de construção de uma imagem que dê conta da sociedade brasileira — reflete Mariana.

Duas das tramas apontadas como exemplo dos assuntos tratados pela editora são “O cabelo de Cora”, de Ana Zarco Câmara; e “O menino Nito”, de Sonia Rosa.

— Cora é uma menina que ouviu de sua amiga que seu cabelo era feio e, com o tempo, descobre que na verdade ele é forte e semelhante ao de sua família, e que ela não precisa ter outra aparência senão a dela, porque a dela é bonita. Já Nito é um menino negro em uma família que lhe oferece todos os símbolos do conforto. Não há dificuldade social, mas a trama fala de uma discussão de gênero, já que ele chora muito e seu pai diz que homem não chora. Há uma superação, mas não sobre sua cor. A obra podia ter qualquer menino como protagonista, mas as famílias que refletem a nossa realidade precisam estar refletidas nos livros. Devemos contar histórias universais com protagonistas negros — explica Mariana.

Na biblioteca do Colégio Pentágono, em Vila Valqueire, são encontrados diversos livros com a temática da diversidade. A coordenadora pedagógica do local, Aline Bezerra Dias, conta que a primeira barreira para lidar com a diversidade na escola é a falta de opções no mercado.

— Apenas de uns cinco anos para cá começamos a encontrar mais material. Isso inclui todo o tipo de elementos, até brinquedos. Lembro que para fazermos um fantoche negro tínhamos que produzi-lo, porque não encontrávamos. Nossas crianças precisam lembrar todos os dias que não se deve achar normal o preconceito. Claramente podemos ver o espanto e a admiração dos alunos quando eles se identificam com os personagens dos livros. O espanto é por que eles desconhecem essas histórias. Isso acontece com as crianças brancas também, que passam a admirar o colega negro quando veem um personagem como ele — frisa Aline.

A editora Pallas, que abriu suas portas na década de 1970, começou publicando livretos de simpatias e orações religiosas de origem africana. Com a chegada da historiadora Cristina, que até hoje comanda a editora ao lado da filha, mudou de foco e passou a ampliar a gama de publicações, levando ao mercado conteúdos com informação além da fé.

— Eu percebi que não sabia praticamente nada sobre essas religiões, e ao buscar conhecimento também não encontrei muita coisa. Ao entrar em contato com o candomblé, o catimbó e a umbanda, percebi que são recriações dentro das possibilidades oferecidas no universo da violência do tráfico de escravos. Era um ato de buscar a identidade que lhes foi tirada. Aos poucos, começamos a politizar a editora e buscar temas que destacassem o protagonismo negro no Brasil — explica Cristina.

Atualmente, entre 289 livros para o público adulto e infantojuvenil, sejam de contos, histórias, políticas afirmativas e estudos nas áreas de antropologia e filosofia, todos dialogam com a temáticas da cultura afrodescendente. Entre a lista de autores do catálogo infantil da Pallas está o também ator Lázaro Ramos, que chegou à editora por ser consumidor de seus livros, principalmente com os filhos. Ele conta que procurou a Pallas para publicar seu segundo livro infantil, “O caderno de memórias do João”, feito para seu filho quando ele tinha 4 anos.

— O livro apresenta o tipo de leitura que gosto de fazer. Fala sobre representatividade e autoestima, mas sem se tornar o único assunto da obra, porque eu entendo que somos mais do que um tema. Este é um livro de rimas nas quais João explica o significado de palavras, além de ter a representatividade do herói com o seu ponto de vista ilustrado — relata o ator, que vê na forma de escrever a necessidade de abordar questões consideradas por ele importantes. — Eu costumo falar de um assunto e o “contamino” com outros, como negritude e valorização humana. Quero passar a ideia de que todos podem ser produtores do saber, busco usar isso para que o livro seja um bom entretenimento. Tento passar a história com humor e ludicidade. Essa é a maneira que conheço de acessar as pessoas.

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Lázaro Ramos fala sobre a importância de se levar o conteúdo da diversidade às escolas e enxerga na iniciativa uma necessidade primordial para oferecer a possibilidade de identidade a todas as crianças:

— Acho extremamente importante. Digo isso como o adulto que já foi criança negra e sentia muita falta de se ver representado, de ver histórias que falassem sobre os meus dilemas, mesmo quando falassem sobre questões raciais, que me incluíssem, e nem sempre isso acontecia. Eu vivia caçando lugares para ver o que eu poderia ser, o que poderia me tornar. Como pai, eu prefiro oferecer essas oportunidades que não tive. Estou dando a eles unidade. Eles podem se sentir fortalecidos se vendo representados. Isso é fundamental na vida de uma pessoa e não só na vida da criança negra, mas na de todas, porque assim passamos a tratar a diversidade como algo normal e bonito — reflete.

5 passos para adquirir o hábito da leitura

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Bruna Lopes Valente, no Administradores

Não é todo mundo que tem o hábito de ler um pouco todos os dias, seja um livro impresso ou digital, jornal ou revista, tirar um tempo todos os dias para ler, só traz benefícios. Mas os brasileiros ainda precisam melhorar muito seus hábitos de leitura.

Segundo matéria do Estadão realizada em maio de 2016, cerca de 44% da população brasileira não lê e mesmo com o crescimento no percentual de leitores de 50% em 2011, para 56% em 2015 (pesquisa do Instituto Pró-Livro divulgada em maio de 2016), ainda é baixo o número de leitores no Brasil, comparado a outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Associated Press revelou em 2006, que o número de não leitores era de apenas 27%. Já na França, uma pesquisa de 2005 realizada pelo Instituto Francês de Opinião Pública (IFOP), revelou que somente 19% da população não tinha o hábito de ler.

Mesmo com dados de 10 anos atrás, podemos perceber que países como Estados Unidos e França, leem muito mais que nós brasileiros. Então o que fazer para mudar essa realidade?

Vejamos 5 passos para criar o hábito de ler.

1 – Descubra sobre o que você gosta: Descobrir sobre o que você gosta de ler sem ter esse hábito, pode soar meio estranho, mas não se você analisar o que você gosta na vida, em geral. Por exemplo, se você é daqueles que gosta de assistir um bom filme, escolha um livro que tenha sido adaptado para o cinema, existem diversos livros como ‘O Hobbit’, ‘O Regresso’, ‘O iluminado’ entre outros.

2 – Reserve um tempo para a leitura: É certo que é cada vez mais difícil arrumar tempo para novas tarefas, pois já temos os estudos, trabalho, família e ainda o merecido descanso. Então como fazer isso? Procure ler ao menos 15 minutos todos os dias, nos fins de semana, um pouco antes de dormir mas leia, tente conciliar as suas atividades diárias com aqueles minutinhos para o seu livro.

3 – Tenha sempre um livro com você: Mas se você é daqueles que não tem tempo para nada, que o dia precisaria ter mais de 24 horas pra conseguir fazer tudo, calma, você também pode ter um tempo para ler. Sabe àquela hora em que você está no transporte público indo para casa ou para o trabalho, ou chegou mais cedo em um compromisso, pois é, aí está o seu tempo! O bom de carregar um livro com você é que enquanto você espera por alguma coisa, você pode ler. Garanto que a sua espera ou a sua viagem, vai ser bem mais rápida se você estiver na companhia de um livro.

4 – Visite feiras de livros ou bibliotecas: Visitar locais como feiras e bibliotecas, além de te apresentar a diversas obras e gêneros literários, te conecta a pessoas que também gostam de livros ou que estão buscando essa paixão ou hábito.

5 – Não desista e tenha paciência: No início vai parecer chato, difícil mas logo você verá como é maravilhoso ler. Seja paciente com a sua leitura independente do tamanho do livro ou daquela matéria no jornal ou revista que te chamou a atenção, leia com calma. Todo começo é difícil eu sei, mas não desista!

Viu só como é possível começar a ler. Além de dar asas a imaginação, saber sobre o passado, imaginar outros universos e ficar antenado com o que está acontecendo no mundo, a leitura só traz benefícios! Então leia, você verá como é bom!

E você, já leu um pouquinho hoje? Escolha um livro, jornal ou revista e divirta-se!

Crime, castigo e livros: as resenhas que reduzem penas em prisões superlotadas

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Elisande Quintino, coordenadora pedagógica, ensina presos da cadeia de Hortolândia a escrever resenhas literárias (Foto: Rodrigo Pinto)

Elisande Quintino, coordenadora pedagógica, ensina presos da cadeia de Hortolândia a escrever resenhas literárias (Foto: Rodrigo Pinto)

Leandro Machado, na BBC Brasil

Álvaro Lopes Frazão conheceu o livro Marley & Eu na cela onde está preso por homicídio. O romance americano sobre um labrador, com final triste – há quem diga meloso -, emocionou o prisioneiro, e tornou-se seu favorito: há anos trancado na cadeia, ele sente saudade de seu cachorro, Bob.

No dia 4 de junho de 2005, em uma discussão banal, Frazão esfaqueou um amigo. “Tirei a vida de uma pessoa”, afirma, evitando se colocar como o sujeito atrás do verbo “matar”. Doze anos depois, tenta lidar com a culpa e com o arrependimento: usa a literatura como terapia.

Ele está preso no Centro de Progressão Penitenciária de Hortolândia, um presídio do interior de São Paulo que, há quatro anos, começou a trocar redução de pena por resenhas literárias escritas pelos presos. No local, ocorre uma oficina de leitura e de escrita de resenhas duas vezes por semana: os participantes – cerca de 30 – falam sobre os livros que estão lendo e aprendem técnicas para organizar uma crítica literária.

Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou uma portaria que autoriza juízes a diminuir penas dos presidiários que escrevam sobre os livros que leem. Nesse período, já foram escritas mais de 6 mil resenhas – 5,5 mil pessoas já participaram. Para cada texto, um detento pode se livrar de quatro dias na cadeia – ele pode escrever uma por mês e 12 por ano.

O projeto segue a Lei de Diretrizes Penais, que prevê remissão de penas por trabalho e estudo. Segundo a resolução do CNJ, cabe aos governos estaduais criar programas de leitura nos sistemas prisionais – o preso só pode participar de forma voluntária.

Na prisão, Álvaro diz que percebeu que assassinar o amigo também tirou parte da sua vida: a liberdade da rua, o contato diário com suas duas filhas e a família e com o cachorro Bob. “Sinto muita falta dele, manja? Se tudo der certo, posso voltar a vê-lo, acho que ele está com uma vizinha”, diz.

Quando terminou a leitura, ele teve alguns dias para escrever uma resenha e, assim, conseguir reduzir em quatro dias o seu período no cárcere: no texto, precisou explicar do que se trata a obra, quais são personagens principais, se o narrador está em primeira ou terceira pessoa. Também fez um julgamento crítico, dizendo por que gostou do livro, e se o indicaria para outra pessoa.

A crítica de Frazão foi então avaliada por um juiz, que autorizou a remissão. Ele pode negar o benefício caso o preso copie a orelha do livro, por exemplo.

Depois de resenhar Marley & Eu, Álvaro começou O espetáculo mais triste da Terra, livro-reportagem de Mauro Ventura sobre um incêndio em um circo de Niterói que matou 503 pessoas, em 1961. Para ele, conhecer o sentimento de perda dos parentes das vítimas o ajudou a compreender o sofrimento que causou ao matar o amigo.

“Você lê sobre a mãe que perdeu o filho, a mulher que perdeu o marido”, explica Frazão, de 42 anos. “A princípio, eu não entendia o que eu fiz. Hoje eu consigo, vejo que, na hora, não contei até dez, manja? Hoje entendo que causei uma dor desnecessária… desnecessária.”

Crime e culpa

Segundo o Ministério da Justiça, o clássico Crime e Castigo, do russo Fiódor Dostoiévski, é um dos livros mais lidos nas prisões brasileiras. Um preso começa assim sua resenha sobre a obra: “O senhor Rodion Românovitch Raskólnikov, um jovem universitário vivendo na extrema miséria, sofrendo de um grave problema de saúde e possuído por um espírito do mal, comete um crime hediondo que complicou ainda mais sua vida: ele assassinou duas pobres mulheres indefesas.”

Preso usa resenha do livro 'O Caçador de Pipas', de Khaled Hosseini, para fazer reflexão sobre erro e redenção

Preso usa resenha do livro ‘O Caçador de Pipas’, de Khaled Hosseini, para fazer reflexão sobre erro e redenção

Em sua crítica, outro homem relaciona os assassinatos praticados por Raskólnikov à pobreza. “Nenhum homem nasce mau”, escreve, na conclusão. “É muito difícil uma pessoa de classe social paupérrima ser bem sucedida na vida, o Estado oferece poucas oportunidades, porque trata as pessoas como lixo social. O senhor Raskólnikov foi vítima das mazelas sociais, da miséria. Esse estilo de vida induziu-lhe à criminalidade.”

Outro presidiário tem opinião diferente: “Raskólnikov se achava superior e, por isso, matou as duas mulheres. A partir daí, sua mente obcecada passa a persegui-lo com a culpa”. Em outra resenha sobre o livro, um homem escreve: “Esse magnífico romance nos mostra que o crime nunca compensa. Por isso aceitar o Evangelho é algo fundamental em nossas vidas”.

Para Elisande Quintino, coordenadora pedagógica do presídio de Hortolândia, a obra mais famosa de Dostoiévski talvez ajude o preso a entender os motivos que o levaram ao crime. Funcionaria com um livro de autoajuda, categoria também muito buscada.

Ela conta que, na unidade, obras que tenham a palavra “crime” na capa são mais emprestadas que outras.

“Eles querem entender por que estão aqui [na cadeia], buscar caminhos fora do cárcere, querem entender a si próprios. Eles têm uma identificação muito forte com o personagem que passou por uma situação parecida com a deles”, diz.

É Elisande, de 50 anos, quem ensina os detentos de Hortolândia a escrever uma resenha, um tipo de texto (resumindo e apreciando um livro) sobre o qual, na maioria das vezes, eles nunca tinham ouvido falar.

Entre os participantes da oficina, há formados na faculdade e pessoas que não têm nem o Ensino Fundamental.

Segundo o Ministério da Justiça, 60% da população carcerária brasileira não concluiu ou não cursou o Ensino Fundamental.

“Primeiro, ensino o que é um personagem, um protagonista, uma narrativa. Depois, o que é um narrador em primeira pessoa”, diz a coordenadora.

“A escrita é uma desconstrução do medo, porque todos nós temos medo de escrever, essa é a primeira barreira”, acrescenta.

Por situação parecida passou o juiz criminal Milton Lamenha de Siqueira, responsável pelo cumprimento das penas no presídio feminino de Pedro Afonso – município de 15 mil habitantes em Tocantins.

Quando implantou a leitura no local, ele percebeu que muitas mulheres não conseguiam escrever as resenhas, pois eram analfabetas funcionais.

“O projeto esbarra nessa capacidade de intelecção do preso; normalmente ele não está preparado para participar. Nós tivemos primeiro que reforçar aulas básicas”, diz.

Outro desafio, afirma o magistrado, é criar um hábito.

“Nem a classe média tem o hábito de ler no Brasil, imagina na prisão. O que a gente faz é um esforço de formação de leitores”.

Em presídio de Hortolândia, no interior de São Paulo, cerca de 30 presos participam de roda de leitura duas vezes por semana (Foto: Rodrigo Pinto)

Em presídio de Hortolândia, no interior de São Paulo, cerca de 30 presos participam de roda de leitura duas vezes por semana (Foto: Rodrigo Pinto)

Segundo Siqueira, depois que o projeto foi implantado, houve uma melhora nas relações entre as presas, e também no convívio delas com as carcereiras.

Para Elisande, que trabalha há 25 anos com educação em penitenciárias, a leitura também ajuda o preso a encontrar um caminho para o futuro.

“Quanto mais se lê, mais se cresce intelectualmente, para de pensar coisas que não levam a nada. Ele aprende a se colocar no lugar do outro, muda sua visão de mundo e até sua postura diante da unidade prisional”, explica.

“A sociedade e os governantes precisam sempre buscar alternativas para essas pessoas fora do sistema. Depois que ela sai daqui, cumprida a pena, ela é uma pessoa como qualquer outra, com os mesmos direitos”, diz a coordenadora.

‘O poder capitalista’

Nas 12 críticas às quais a BBC Brasil teve acesso, é possível perceber diferenças de formação entre os resenhistas.

Há textos com muitos erros ortográficos e de gramática normativa, além de parecerem resumos de difícil compreensão – há até correções do juiz em caneta vermelha, como em uma escola comum. Outros parecem escritos por estudantes de Letras, pois demonstram reflexão sobre a obra e até certo conhecimento em literatura, por exemplo.

Resenhas escritas por detentos são corrigidas por um juiz, que pode ou não autorizar a redução de pena

Resenhas escritas por detentos são corrigidas por um juiz, que pode ou não autorizar a redução de pena

“Certo dia, a escritora brasileira Nélida Piñon disse: leia Guerra e Paz, de Liev Tolstói, e você entenderá o que Napoleão não conseguiu entender. Parodiando a imortal escritora, podemos dizer o seguinte: leiam Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, e vocês entenderão um pouco sobre o Brasil”, escreveu um preso sobre o clássico do escritor gaúcho.

O livro satírico conta a história da cidade ficcional de Antares, no interior do Rio Grande do Sul. Numa sexta-feira 13, sete pessoas morrem. Porém, os trabalhadores do município, inclusive os coveiros, estão em greve – eles são perseguidos pelas autoridades. Os defuntos não são sepultados e acabam vagando e assombrando o local.

Outra pessoa opina sobre o mesmo livro: “O poder capitalista, sempre com grande influência sobre o poder judiciário, faz com que o povo de menor status social sofra com a injustiça. A Justiça em geral no Brasil tem pesos e medidas diferentes, não sendo igual para todos”.

Sobre O Caçador de Pipas, best-seller do afegão Khaled Hosseini, um preso explica a relação entre erro e redenção: “Quando um ser humano comete um erro, ele tem oportunidade de se redimir, mostrando quem realmente é. O livro mostra que não é possível mudar o passado, mas podemos nos redimir com atitudes no presente”.

Como fugir da cadeia

Em 2014, o Brasil tinha a quarta maior população carcerária do mundo, com 622 mil pessoas – perdendo apenas para os Estados Unidos, China e Rússia, segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, o Infopen – que não é atualizado há três anos.

Hortolândia, por exemplo, é um exemplo da superlotação do sistema: a unidade com roda de leitura tem capacidade para 1.125 pessoas, mas tem 1.940 – eles cumprem pena em sistema semi-aberto.

Os números do Brasil mostram que, do total de presos, 28% foram sentenciados por tráfico de drogas – o crime que mais lota os presídios brasileiros.

Segundo Quintino, coordenadora pedagógica de Hortolândia, condenados por tráfico são maioria entre aqueles que passam por suas oficinas de leitura e escrita. Dos quatro entrevistados pela BBC Brasil no local, três foram imputados nesse crime.

Lucas Ribeiro, de 22 anos, jovem de classe média baixa do ABC paulista, é um deles.

Em 2013, quando cursava o primeiro ano da graduação em Administração, foi detido com 40 gramas de maconha e dinheiro. Lucas alegou que a droga era para consumo próprio. No entanto, a Justiça acreditou na versão policial de que o estudante estava traficando – ele foi condenado a sete anos de reclusão.

Antes da prisão, Lucas só conheceu a literatura por obrigação, na escola. Não gostava. Agora, habituado, diz que abre livros por interesse em reduzir sua pena, claro, mas também por necessidade.

“Na cadeia, a única coisa que não te tiram é seu conhecimento, aquilo que tem dentro de você”.

Fã de histórias de suspense, leu todos os best-sellers do americano Dan Brown, como Código da Vinci e O Símbolo Perdido.

“Leio para fugir do lugar onde estou”, diz.

Variações dessa frase foram ditas por três dos entrevistados, como se a literatura fosse um túnel de fuga.

“Toda vez que o preso está no livro, ele está fora da cadeia”, diz Geraldo Antonio Batista, de 58 anos, cinco deles na cela.

Ele foi condenado a 14 anos por tráfico depois que plantou maconha no quintal de sua igreja Rastafari, que prega o uso religioso da erva. Segundo a denúncia, o religioso distribuía a droga para os fiéis. Ele agora sonha com a perspectiva de voltar ao templo e ficar livre para praticar sua religião.

Em Hortolândia, Batista trabalha como bibliotecário: ajuda os colegas a escolher os livros, auxilia a coordenadora Quintino, organiza o acervo e as resenhas.

Ele também decorou a sala da roda de leitura: nas paredes há fotos de Gisele Bündchen, um exemplar da Constituição, críticas à revista Veja e uma réplica do quadro O Lavrador de Café, de Candido Portinari.

O último livro que Geraldo leu foi Odisseia, de Homero. A história narra o tumultuado e fantástico retorno de Odisseu, herói da Guerra de Troia, à sua terra natal.

“A gente acaba se reconhecendo nos esforços do herói”, diz.

Vidas secas

Naelson dos Santos, de 43 anos, tornou-se um leitor assíduo na cadeia – antes, nunca havia lido um livro. De certa forma, ele se parece com Fabiano, protagonista do último livro que leu, Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Fala pouco e, quando fala, as palavras parecem surgir com dificuldade, com secura.

No dia 10 de abril de 2010, ele foi preso transportando 1,9 kg de cocaína e 1,4 kg de haxixe. Foi condenado a 17 anos por tráfico – sete deles já cumpridos.

Ele diz que viu no crime uma maneira “fácil” de fugir do desemprego, da falta de estudo e de perspectiva.

“A gente acha que vai conseguir um dinheiro mais fácil, que nossa vida vai ficar melhor, mas acaba se tornando uma ilusão.”

Desde o ano passado, Naelson já escreveu 16 resenhas – 64 dias a menos na cadeia.

Ele faz um paralelo entre sua história e a de Fabiano.

“O livro fala da minha história, a vida rodeada de dificuldades, o sofrimento, a busca por uma vida melhor. A resenha e a leitura são o melhor jeito de eu sair daqui, um jeito de fugir do sofrimento, como o homem do livro”, afirma.

Na obra, o protagonista é um homem pouco instruído, que tenta salvar a família das agruras da seca no sertão nordestino.

Como Fabiano, Naelson tem dois filhos pequenos. Para ele, sair da cadeia é como fugir da seca.

Está chegando: saiba como se preparar na reta final para os vestibulares

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Com a proximidade das provas dos mais diversos vestibulares, é muito importante estar preparado e saber o que priorizar. Confira as nossas recomendações

Publicado no Universia Brasil

Temidas, porém aguardadas, as primeiras etapas e provas dos grandes vestibulares estão chegando e, na reta final, a preocupação e o medo devem ser substituídas por preparo e, principalmente, organização.

A primeira fase da Vunesp, vestibular para a Universidade Estadual Paulista (Unesp), acontece dia 15 de novembro; a Unicamp, tem sua primeira fase no dia 19 de novembro; a Fuvest, prova que seleciona alunos para a Universidade de São Paulo (USP), acontece já no dia 26 de novembro.

Já o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), terá provas realizadas em dois domingos: 5 e 12 de novembro.

Diante dessa proximidade, reunimos aqui algumas dicas fundamentais para não perder a cabeça com a chegada do vestibulares – pelo contrário, a ideia é ficar ainda mais focado na busca pela faculdade dos seus sonhos.

Dicas para estudar na reta final do vestibular

Se até agora, passados tantos meses do ano, você ainda não conseguiu decorar todo o imenso conteúdo que é exigido nos vestibulares, tenha certeza que nesses poucos dias restantes, isso também não será possível.

Professores de cursinhos sempre ressaltam que todo o foco deve ser mantido na compreensão dos temas. A assimilação desses conteúdos de uma forma que não seja no chamado “decoreba” tende a ser mais sólida e perene na mente do estudante.

A essa altura do campeonato, é muito importante se preocupar com o tempo. Os principais vestibulares investem em questões demoradas, que exigem longo raciocínio e, principalmente, escondem detalhes que podem causar confusão em sua cabeça – as chamadas “pegadinhas”.

Para ter o controle de seu desempenho, utilize um relógio ou a função cronômetro de seu smartphone. É claro que você não poderá utilizá-los na prova, mas consiste em um exercício bastante eficiente para “turbinar” seus estudos finais.


Entre o noticiário e os livros

É fundamental manter sua leitura em dia, operando em força total: na hora da prova será preciso ler os enunciados com muita atenção.

Além disso: a leitura das obras literárias, as famosas “listas de livros que caem no vestibular”, também devem estar em andamento – se não for possível na íntegra (o que é recomendado), ao menos os resumos.

Essa prática também será fundamental no quesito Atualidades. É necessário estar plenamente informado e consciente de tudo o que anda ocorrendo no Brasil e no mundo, pois, tenha certeza, as questões vão exigir isso do candidato.

Por fim, a leitura vai servir como ferramenta importante na hora de redigir, ler e reler a Redação – parte relevante dos processos seletivos.

Mantenha a calma para o vestibular

Nunca é demais reforçar: o desespero e a ansiedade são inimigos da concentração na hora da prova.

Tente relaxar e organizar suas tarefas. Não perca noites de sono para tentar correr atrás do conteúdo que não foi estudado. Agora é hora de ter bom descanso, se alimentar de maneira adequada e explorar seus pontos fortes, aqueles conteúdos que vão te garantir bons resultados.

Boa prova!

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