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Posts tagged Leon Tolstói

11 grandes livros que podem ser comprados por menos de R$ 20

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Vitor Paiva, no Hypeness

Em Por Que Ler Os Clássicos, o grande escritor italiano Ítalo Calvino define de mil formas o que é um clássico da literatura. “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, escreve Calvino, sugerindo que devemos não só ler os clássicos na juventude, como retornar a eles (sendo sempre uma nova leitura como uma primeira vez) em uma fase mais madura.

Ler pode ser visto como um exercício de linguagem, comunicação, de escrita, ético, estético, artístico, terapêutico, de autoconhecimento, de estudo, de empatia, de conhecimento da história e de expansão de consciência, de entendimento do mundo e da própria vida – e muito mais.

Antes mesmo de começar a ler, no entanto, levantar uma biblioteca e manter as prateleiras repletas de possibilidades de leitura pode, além de trabalhoso, ser bastante caro. Nada mais é barato nessa vida, e juntar o infinito de livros que gostaríamos – precisamos – para nos tornarmos quem sonhamos em ser pode nos custar uma pequena fortuna. Sabemos também, no entanto, que livros são mais importantes do que dinheiro, logo, para resolver tal dilema, separamos aqui 11 grandes livros, clássicos reconhecidos ou não, capazes de deixar Calvino orgulhoso, e que, inversamente proporcionais ao alto valor das letras em suas páginas, custam pouco dinheiro – a maioria menos de R$ 15, muitos em promoções abaixo de R$ 10, mas nenhum passando dos R$ 20.

São grandes obras em sua maioria reeditadas em coleções de bolso ou em versões menos luxuosas em seu acabamento (mas, nem por isso menos valiosas em seu conteúdo) mas que, quando lidas, seguem valendo mais do que qualquer tesouro. Para reunir essa fortuna crítica em sua casa sem precisar vender um estimado órgão de seu corpo, a pesquisa para feitura dessa seleção recorreu ao valor de venda virtual de coleções como Saraiva de Bolso, Companhia de Bolso e às edições especiais das editoras Penguin e L&PM.

Basta pesquisar em qualquer site de grande livraria para encontrar tais clássicos em edições especiais à venda por preços quase tão especiais quanto os próprios livros – e se preferir os e-books, os preços são ainda mais baratos. Alguns livros, especialmente os mais antigos, foram lançados por mais de uma editora, e podem apresentar variações de preço – logo, a pesquisa por preços ainda melhores pode ser frutífera. Com o passar do tempo os preços aqui dispostos podem mudar, assim como promoções podem ser encerradas.

1. Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust

Um dos maiores (literal e criticamente) romances da literatura universal, Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, é dividido em 7 volumes. Naturalmente que o valor dos 7 livros, se comprados ao mesmo tempo, superam os preços estimados aqui – mas em algumas coleções cada volume é vendido por cerca de cinco reais, para se adentrar em um dos mais densos mergulhos literários possíveis – uma leitura para uma vida inteira.

2. A Grande Arte, de Rubem Fonseca

Brutal, violento, marginal, crítico e brilhante, o brasileiro Rubem Fonseca, reconhecido como autor de grandes obras policiais, encontra para muitos seu auge em A Grande Arte. Se valendo do usual universo do assassinato para debater sobre o dilema entre “alta arte” e “literatura de massas” (e o próprio romance policial), Fonseca criou, assim, uma obra-prima.

3. Orlando, de Virginia Woolf

Um dos mais complexos e estudados personagens da literatura universal, Orlando, de Virginia Woolf, debate com graça, lirismo e profundidade questões como as noções de gênero, o tempo e principalmente a sexualidade humana (e os dilemas entre o feminino e o masculino) com a genialidade da escrita de Woolf em uma narrativa impressionantemente corajosa para um livro publicado em 1928. Filosófico, crítico, bravo e luminoso, Orlando é uma profunda declaração de amor – inclusive à própria literatura.

4. Sagarana, de João Guimarães Rosa

Primeiro livro publicado do brasileiro João Guimaraes Rosa, Sagarana apresenta a dimensão de sua genialidade em nove contos imortais. Já trazendo o universo do sertão, dos vaqueiros, jagunços, seus dilemas e sentimentalidades e principalmente sua linguagens – trazendo a oralidade marcante e a escrita brilhante de Rosa como um dos pontos altos da literatura do século XX.

5. A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector

Reunindo 13 contos do impressionante repertório de Clarice Lispector, A Legião Estrangeira traz alguns dos contos que colocam a autora no olimpo dos contistas em todo o século XX. O cotidiano e as relações humanas mundanas são reveladas de forma elegante e assombrosa pela pena de Clarice, em uma permanente tensão que parece nos levar às epifanias mais profundas sobre nós, o outro, o mundo.

6. A Teus Pés, de Ana Cristina César

Reunindo o único livro lançado por Ana Cristina César em vida por uma editora comercial, A Teus Pés traz poemas inéditos ao lado de Cenas de Abril, de 1979, Correspondência Completa, de 1979, e Luvas de Pelica, de 1980 – os três lançados previamente de forma independente. Ao mesmo tempo uma marca da época e profundamente atual, não é por acaso que Ana C. cada vez é celebrada como uma das mais importantes poetas e escritoras de sua geração, e A Teus Pés traz a marca definitiva de uma escritora imensa que nos deixou cedo demais.

7. A Morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói

Reconhecida como uma das melhores e mais importantes novelas em todos os tempos, A Morte de Ivan Ilitch é considerada por muitos a obra-prima de Leon Tolstói – em uma obra que inclui clássicos como Anna Karenina e Guerra e Paz. Tolstói havia abandonado a literatura e rejeitado a própria obra para se dedicar à vida espiritual, e A Morte… representa a volta às letras de um dos maiores escritores em todos os tempos, para a realização de um dos mais impressionantes livros da história.

8. O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano

Como faz de modo geral em sua obra, o uruguaio Eduardo Galeano mergulha poeticamente no inconsciente sentimental e afetivo da América Latina através de pequenas histórias, coletadas em viagens ou imaginadas pelo autor. Através de tais pequenas memórias e diminutas narrativas O Livro dos Abraços traça uma delicada natureza da vida pelos olhos sensíveis do autor.


9. Os Sofrimentos do Jovem Werther, de J. W. Goethe

Um dos mais impactantes e escandalosos livros de todos os tempos, Os Sofrimentos do Jovem Werther, ao fundar o romantismo como uma das grandes obras-primas da história da literatura, impactou de tal forma o mundo à sua volta que a lenda reza que tenha provocado uma onda de suicídios em seus leitores. Para além da veracidade desse “efeito Werther”, o fato é que se trata de um dos mais incríveis romances sobre juventude, amor, sofrimento e desilusão já escritos.

10. Razão e Sentimento, de Jane Austen

Em Razão e Sentimento, Jane Austen nos leva a observar os costumes da Inglaterra do século XVIII, com as durezas e os sofrimentos velados de uma família, em especial as irmãs que, após a morte do pai, se veem sozinhas diante dos desafios da vida. Como o título sugere, os binômios da vida da época, que muitas vezes moldam ainda nossa moralidade hoje, atravessam as personagens em busca da experiência profunda do amor.

11. Frankenstein ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley

Foi de um pesadelo, em que viu um monstro criado pela ciência, que Mary Shelley criou uma das mais influentes obras da literatura moderna, dando vida a um personagem imortal: Frankenstein, uma criação verdadeiramente a frente de seu tempo. Shelley coloca em pauta, no início do século XIX, temas como a moral e a ética científica, a criação da vida por mãos humanas, a luta da ciência e do homem com a noção de deus, em uma escrita brilhante e assombrosa.

Iscas de leitura

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iscas de leitura


“Leitura” (Reading), 1892
by Almeida Júnior (1850-99)

Em meio à feiura efêmera da política e da violência, podemos seguir outro poeta e lembrar com Drummond: ‘E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno’

 

Ana Maria Machado em O Globo

Fim de ano e de governo, hora de balanços, promessas, esperanças. Uma encruzilhada dos tempos: também começo de ano e de governo. Em meio a tanta notícia ruim, sequestros, tiroteios, assaltos, massacres de escolares, números negativos e escândalos em série, tudo a alimentar nossa apagada e vil tristeza, o ritual de recomeço procura se nutrir de bons sinais aqui e ali . O reatamento de relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos. O encontro de uma canção inédita nos guardados de Dorival Caymmi. A empolgante vitória de Gabriel Medina como campeão mundial de surfe — e a elegância com que os adversários reconheceram sua grandeza.

O Ano Novo recorda a beleza de começos e recomeços. “Belo porque corrompe com sangue novo a anemia”, como já cantou João Cabral em “Morte e vida severina”. Que seja, então. Mas em meio à feiura efêmera da política e da violência, podemos seguir outro poeta e lembrar com Drummond: “E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno.”

Convido então a buscar um pouco dessa beleza eterna. Para muita gente, verão é também tempo de férias, a oportunidade de mergulhar em leituras. Não vou sugerir novidades, isso já foi feito à exaustão nas páginas pré-natalinas. Mas proponho um passeio por começos instigantes. Hoje muita gente só compra livros pela internet, perdendo a oportunidade de folheá-los numa livraria. Então trago ao espaço comum de nosso jornal algumas frases iniciais de bons livros, iscas de romances. Talvez você reconheça algumas, talvez tenha saudades de outra e resolva reler. Pode também se deixar fisgar por uma desconhecida e então a busque para conferir. Os livros virão identificados ao final da coluna. Nenhum é novidade. Mas creio que, sem exceção, cada um poderá dar prazer e ajudar a pensar sobre o mundo que nos cerca — razão pela qual faço questão de trazê-los a esta página de opinião.

A — Em meus anos mais jovens e mais vulneráveis, meu pai me deu um conselho que, desde então, tenho feito virar e revirar em minha mente. “Sempre que tiver vontade de criticar alguém”, disse, “lembre-se de que nem todo mundo teve as vantagens que você teve.”

B — Alguém deve ter dito mentiras sobre Joseph K., pois, sem ter feito nada de errado, certa manhã ele foi preso.

C — No dia em que o matariam, Santiago Nazar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branca, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros.

D — O homem me pede fogo. Ergo para ele o isqueiro aceso e noto contrariado que minha mão treme um pouco. Seus olhos cor de zinco se fixam nos meus dedos. Nervoso? Sacudo a cabeça negativamente, odiando-o como se pode odiar a pessoa que nos descobre o segredo que mais queremos ocultar.

E — Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.

F — Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield.

G — Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane. Só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

H —Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.

I — Ela ficou, mas a gota de sangue que pingou na minha luva, a gota de sangue veio comigo.

J — Foi um número errado que começou tudo, o telefone tocando três vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali.

K — Ai, me dá vontade até de morrer. Veja a boquinha dela como está pedindo beijo — beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz.

L — Foi no verão de 1998 que meu vizinho Coleman Silk — que, antes de se aposentar dois anos antes, tinha sido catedrático de literatura clássica no vizinho Athena College durante mais de vinte anos, além de acumular mais dezesseis como decano da universidade – me confidenciou que, aos 71 anos de idade, estava tendo um caso com uma faxineira que trabalhava na faculdade.

Graças a Scott Fitzgerald (“O Grande Gatsby”), Franz Kafka (“O processo”), Garcia Marquez (“Crônica de uma morte anunciada”), Erico Veríssimo (“Saga”), Machado de Assis (“Memórias póstumas de Brás Cubas”), J. D. Salinger (“O apanhador no campo de centeio”), Clarice Lispector (“A hora da estrela”), Leon Tolstoi (“Ana Karenina”), Lygia Fagundes Telles (“A noite escura e mais eu”), Paul Auster (“Trilogia de Nova Iorque”), Dalton Trevisan (“O vampiro de Curitiba”), Philip Roth (“A nódoa humana”).

Boas leituras.

Ana Maria Machado é escritora

Os livros que muito poucos conseguem terminar

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O autor Nick Hornby propõe queimar os livros que se leem por pura pose

CORDON PRESS

CORDON PRESS

Miqui Otero, no El País

No último festival literário de Cheltenham, o romancista britânico Nick Hornby encorajava as pessoas a queimar em uma fogueira os livros complicados. A não insistir nesse romance que se instala na mesinha de cabeceira como um parasita porque seu leitor é incapaz de lê-lo, mas não quer admitir sua derrota. “Cada vez que continuamos lendo sem vontade reforçamos a ideia de que ler é uma obrigação e ver televisão é um prazer”, afirmava, em um elogio da leitura como atividade hedonista.

Depois que Hornby expressou essa posição, muitos fóruns discutiram quais títulos são os mais indigestos, em mais uma versão do eterno debate sobre se as pessoas leem obras complicadas para poder dizer que as leram, não pelo prazer de lê-las. Alguns levam essa ideia longe demais. O romancista britânico Kingsley Amis disse em seus anos de maturidade que a partir de então, com pouco tempo de vida pela frente, só leria “romances que começam com a frase: ‘Escutou-se um disparo’”. Talvez o pai de Martin Amis tenha exagerado (as memórias de seu filho, nas quais tanto o ataca, têm quase 500 páginas), mas são muitos os que opinam que “a vida é muito curta para ler livros muito compridos”. Eis aqui uma lista de volumes que carregam o estigma (frequentemente injusto) de ser impossível terminar de ler.

a vida é muito curta para ler livros muito compridos

1.- O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon

No episódio A Pequena Garota no “Big Ten”, da 13ª temporada de Os Simpsons, a pequena Lisa quer se fazer passar por estudante universitária. Em uma cena, bisbilhota o armário de uma estudante e descobre este grande romance. A conversa das duas é a seguinte: “Você está lendo O Arco-Íris da Gravidade?”, pergunta-lhe a pequena Simpson. “Bom, estou relendo”, responde a estudante. A brincadeira, e o fato de que apareça nessa série, resume até que ponto esse e outros romances do autor mais misterioso da literatura americana alcançaram o status de literatura ilegível. Não para todos, claro. É famoso o caso do professor George Lavine, que cancelou suas aulas para se recolher durante três longos meses de 1973 com o único objetivo de devorá-lo. Quando saiu de sua reclusão, afirmou que Pynchon era o melhor que havia acontecido para as letras americanas do século XX.

2.- Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski

Não adianta muito que se possa ler como um thriller psicológico e torturado que não se resolve até o último parágrafo. Talvez por seu título, que alguns consideram aplicável ao que representa sua escritura e sua leitura, poucos se atrevem a criticar os delírios de Raskolnikov, ou os abandonam na sexta manifestação de tormento.

3.- Guerra e Paz, de Leon Tolstói

Outro exemplo da literatura russa, que se costuma colocar neste tipo de lista com piadas como: “Lamentavelmente, não cheguei nem ao primeiro disparo da guerra”. Embora muitos o considerem uma leitura trepidante ambientada durante a invasão napoleônica da Mãe Rússia, eles prefeririam ver a versão cinematográfica. Carrega o estigma recorrente de que ler para os russos é complicado e mais cansativo que escalar algum pico dos Urais. Seu autor o escreveu convalescendo, depois de quebrar um braço ao cair de um cavalo. Alguns leitores declaram, neste tipo de debate, ter se sentido assim durante sua leitura.

4.- Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

Outro romance que esconde pistas em seu título. Alguns leitores terminam de lê-lo pelo primeiro elemento, por orgulho, enquanto outros nem se aproximam dele por causa do segundo, por puro preconceito. É um festival de murmúrios e vaivéns românticos, inclusive cômicos, mas o leitor contemporâneo frequentemente se cansa das tensões sexuais que celebra, entretanto, nas comédias da televisão. Esse leitor pouco paciente não é o único. O gênio Mark Twain chegou a declarar: “Cada vez que leio Orgulho e Preconceito, tenho vontade de desenterrar [a autora] e golpeá-la no crânio com sua própria tíbia”.

5.- A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne

Foi publicado por volumes durante oito anos. O autor morreu antes que se publicasse como romance; de fato, muitos especialistas consideram a obra inacabada depois de tantas páginas. O livro pretende ser a autobiografia do narrador, que se perde em digressões e rodeios infinitos e hilários, mas não adequados para todos os gostos. É uma peça fundamental da narrativa moderna e cômica, mas o fato de que o protagonista não nasça até o terceiro volume não ajuda muita gente a aguentar manter o livro nas mãos. Talvez prefiram a adaptação de Michael Winterbottom, embora seja uma adaptação pouco fiel, como não poderia deixar de ser.

6.- A Divina Comédia, de Dante

O poema escrito por Dante Alighieri no século XIV pertence ao grupo dos que talvez enganem o leitor desprevinido pelo título. Crucial na superação do pensamento medieval e ácido como um limão nos olhos graças aos comentários sobre sua época, foi até adaptado em um monólogo por Richard Pryor. No entanto, muitos ficam na primeira parte (intitulada Inferno) ou não passam pela segunda, o Purgatório, e muito menos terminam a última, batizada de Paraíso.

7.- Moby Dick, de Herman Melville

Se o protagonista de outro relato deste autor, Bartleby, o Escrivão – esse advogado nova-iorquino entediado, entre outras coisas, com seu trabalho – diz aquilo de “Preferiria não fazer isso”, muitos leitores adotam essa frase quando encaram o romance definitivo de Melville. Não compartilham a obsessão cega do Capitão Ahab por caçar a baleia e se enjoam com a primeira tormenta em alto mar. Não estão sozinhos, apesar da legião de fãs que realmente vibram com o livro. Em uma recente reedição em castelhano desta obra, o autor do prólogo inclui uma saborosa curiosidade. O músico Moby (sim, aquele que faz canções que saem em oitenta anúncios) admite que, embora tenha adotado esse pseudônimo, jamais terminou de ler o romance porque lhe parece “muito longo”. Uma pista: esse músico calvo se chama, na verdade, Richard Melville. Seu tio-bisavô é o consagradíssimo autor.

8.- Paradiso, de José Lezama Lima

As mais de 600 páginas desta espécie de romance de aprendizagem, exuberante em sua prosa como uma árvore repleta de frutos, são um inferno para muitos leitores. Muitos resolvem abordar a formação do poeta José Cemí aconselhados por Julio Cortázar, um autor fundamental para muitos adolescentes, do qual tentam devorar todas suas pistas, mas a linguagem personalíssima e o longo alcance afugentam uma altíssima porcentagem do público de um dos principais romances em castelhano do século XX. É mais curioso ainda quando se sabe que o autor é cubano, já que os cubanos geralmente são pouco dados a introspecções. Na narrativa latino-americana, apesar do recente culto global a Roberto Bolaño, também se costuma brincar com 2.666, do escritor chileno, que não alcança esse número de páginas, mas tem mais de mil.

9.- As Aventuras do Bom Soldado Svejk, de Jaroslav Hasek / Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes

O mesmo bufo de tédio e desinteresse nas salas de aula checas e espanholas. E o pior é que ambos são emitidos pela obrigação de ler dois dos romances mais divertidos e delirantes da história. Duas histórias pitorescas com dois anti-heróis absolutamente inesquecíveis que carregam o problema de ser o clássico mais aplaudido de ambos os países. Seu problema? Obrigar alunos imberbes com os feromônios disparados a mergulhar em suas numerosíssimas páginas para transformá-los em “um livro de La Mancha – ou de Praga – do qual não quero me lembrar”. No entanto, quando lidos mais tarde, são mais viciantes que um saquinho de pipocas ou que a série de TV com maior audiência.

10.- A Piada Infinita, de David Forster Wallace

É curioso que um romance que trata, entre outras coisas, do vício e do colapso da cultura do entretenimento desanime tantas pessoas. Suas mais de mil páginas – centenas delas são notas de rodapé – o convertem em um dos livros pós-modernos fundamentais na história da literatura, mas também fazem com que muitos acreditem que seu depressivo autor, que acabou se suicidando, tenha escrito, efetivamente, uma espécie de piada infinita sem graça. Os leitores atuais traçam uma linha no chão e formam dois grupos: aquele dos que amam o livro e aquele dos que o odeiam.

Lista essencial de leitura para cada estágio da vida, segundo Tolstoi

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Mesmo que alguém não possa terminar toda a grande literatura, tem-se que começar em algum lugar.

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Maik Barbara, no Homo Literatus

Pouco depois de seu quinquagésimo aniversário, Liev Nicolaevitch, conde de Tolstói, ou mais comumente chamado apenas de Liev Tolstói, sucumbiu a uma profunda crise espiritual e decidiu retrair-se com o objetivo de encontrar o sentido da vida. Ele começou tal façanha lendo vorazmente as principais tradições filosóficas e religiosas espalhadas por todo o mundo, descobrindo grandes similaridades na forma como cada linha de pensamento se posicionava contra a verdade do espírito humano.

Ele também foi, como qualquer grande escritor, um leitor insaciável de literatura em geral, o que teceu junto a seus estudos o seu Um Calendário de Sabedoria (A Calendar of Wisdow), o qual passou as últimas décadas de sua vida desenvolvendo.

Mas, apesar de sua ampla e prolífica leitura, Tolstói considerava alguns livros em específico como especialmente importantes e influentes em seu desenvolvimento.

Já sob a idade de sessenta e três anos, em uma carta enviada a um amigo ele compilou uma lista dos livros que ao longo de sua vida mais tinha-o impressionado. Em 25 de outubro de 1891, então é encontrada em Cartas de Tolstoi (Tolstoi’s Letters), a máxima prefaciada sob responsabilidade do autor:

“Estou enviando a lista que comecei, mas não terminei, para sua consideração, mas não para publicação, uma vez que ela está longe de ser terminada”- (leitura, é claro, é inerentemente incompleta, haja vista que nunca se pode esperar “terminar” toda a literatura, ou sequer deve-se desejar tal coisa).

Sob o título As Obras que Deixaram uma Boa Impressão (Works Which Made an Impression), Tolstói divide sua lista de leitura em cinco estágios distintos da vida, começando com a infância e terminando em sua idade, na época – ele as classifica cada qual sob títulos variando entre sua excelência e qualidade, indo de “Grande” a “M. Grande” ou “Enorme”.

Curiosamente, Tolstói considera a literatura relativa da adolescência como um dos momentos mais formativos, prescrevendo a essa faixa etária livros maiores em qualidade e quantidade, enquanto que para a faixa dos vinte a meados dos trinta anos de idade a lista é mais escassa em ambas as qualidades, e sendo mais ocupada em parte pela poesia – talvez por poucas pessoas na época terem o luxo do lazer pela leitura durante seus mais vividos e vitais anos de desenvolvimento econômico, social e de vida em geral, ou talvez por Tolstói simplesmente acreditar que um adulto deve estar mais ocupado com outras coisas do que com a leitura nessa fase mais produtiva e ativa da vida.

Há apenas duas figuras femininas conhecidas na lista de Tolstoi, e pode-se imaginar que seja devido a preconceito, tanto particular quando em detrimento da época e de cultura – embora este último certamente molde o primeiro.

ESTÁGIO, IDADE, CLASSIFICAÇÃO, LISTA EM SI

INFÂNCIA | Até a idade dos 14 anos

GRANDE

Tales from The Thousand and One Nights (Bibliotecas Públicas): The 40 Thieves, Prince Qam-al-Zaman
Pushkin’s Poems (Bibliotecas Públicas): “Napoleon”

M. GRANDE

The Little Black Hen (Bibliotecas Públicas) de Pogorelsky

ENORME

The story of Joseph from The Bible (Bibliotecas Públicas)
The Byliny (Bibliotecas Públicas) folk tales: Dobrynya Nikitich, Ilya Muromets, Alyosha Popovich

IDADE: dos 14 aos 20 anos

GRANDE

The Conquest of Mexico (Bibliotecas Públicas) por William Prescott
Tales of Good and Evil (Bibliotecas Públicas) por Nikolai Gogol: “Overcoat”, “The Two Ivans”, “Nevsky Prospect”

M. GRANDE

A Sentimental Journey (Bibliotecas Públicas) por Laurence Sterne
A Hero for Our Time (Bibliotecas Públicas) por Mikhail Lermontov
The Hapless Anton por Dmitry Grigorovich
Polinka Saks (Bibliotecas Públicas) por Aleksandr Druzhinin
A Sportsman’s Notebook (Bibliotecas Públicas) por Ivan Turgenev
Dead Souls (Bibliotecas Públicas) por Nikolai Gogol
Die Räuber (Bibliotecas Públicas) por Friedrich Schiller
Yevgeny Onegin (Bibliotecas Públicas) por Alexander Pushkin
Julie, or the New Heloise (Bibliotecas Públicas) por Jean-Jacques Rousseau

ENORME

The Gospel of Matthew (Bibliotecas Públicas): “Sermon on the Mount”
The Confessions (Bibliotecas Públicas) por Jean Jacques-Rousseau
Emile: Or on Education (Bibliotecas Públicas) por Jean Jacques-Rousseau
“Viy” de The Collected Tales of Nikolai Gogol (Bibliotecas Públicas)
David Copperfield (Bibliotecas Públicas) por Charles Dickens

ADULTO | IDADE: dos 20 aos 35 anos

GRANDE

Poemas (Bibliotecas Públicas) por F.T. Tyutchev
Poemas (Bibliotecas Públicas) por Koltsov
The Iliad / The Odyssey (Bibliotecas Públicas) por Homer*
Poemas (Bibliotecas Públicas) por Afanasy Fet
The Symposium and The Phaedo (Bibliotecas Públicas) por Plato

M. GRANDE

Hermann and Dorothea (Bibliotecas Públicas) por Johann Wolfgang von Goethe
Notre-Dame de Paris (Bibliotecas Públicas) por Victor Hugo

IDADE: dos 35 aos 50 anos

GRANDE

Os romances da Sra. Henry Wood
Os romances de George Eliot
Os romances de Anthony Trollope

M. GRANDE

The Iliad / The Odyssey (Bibliotecas Públicas) por Homero
The Byliny (Bibliotecas Públicas)
Xenophon’s Anabasis (Bibliotecas Públicas)

ENORME

Les Misérables (Bibliotecas Públicas) por Victor Hugo

IDADE: dos 50 aos 63 anos

GRANDE

Discourse on Religious Subject (Bibliotecas Públicas) por Theodore Parker
Robertson’s Sermons (Bibliotecas Públicas)

M. GRANDE

The Book of Genesis (Bibliotecas Públicas)
Progress and Poverty (Bibliotecas Públicas) por Henry George
The Essence of Christianity (Bibliotecas Públicas) por Ludwig Feuerbach

ENORME

The Complete Gospels* (Bibliotecas Públicas)
Pensées (Bibliotecas Públicas) por Blaise Pascal
Epictetus
Confucius e Mencius
The Lalita-Vistara: Or Memoirs Of The Early Life Of Sakya Sinha (Bibliotecas Públicas) por Rajendralala Mitra
Lao-Tzu

As competências e complementos aos estudos sobre Tolstói podem ser acrescidos de estudos a parte, tais como: a meditação intemporal de Tolstói sobre a arte, suas crônicas sobre o despertar espiritual, e seu compêndio sobre a maior das sabedorias da humanidade.

Quanto ao leitor que deseja apreciar na integra a carta de Tolstói, ele mesmo recomenda que seja lida durante o segundo estágio de amadurecimento literário do saber humano segundo sua lista, ou seja, entre os 20 a 35 anos. Todavia para reflexão sobre a verdadeira educação clássica que propõe, pode ser lida mais próxima aos 35 anos de idade.

O Eduardo Jorge diz que lê Tolstói e a Veja entende Toy Story

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Aqui trataremos de uma piada que ocorreu a respeito de uma coletiva com o candidato a presidente Eduardo Jorge. Deixando claro que não é apologia ou campanha eleitoral, já que as eleições passaram, mas para retratar a triste realidade do nosso jornalismo, principalmente no que tange a literatura e até a arte em geral.

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Marcelo Vinicius, no Homo Literatus

Do que estamos comentando? De um alvoroço que tem rodado nas redes sociais a respeito do momento em que o candidato Eduardo Jorge disse em uma coletiva (você encontra o vídeo aqui) que prefere ler Tolstói (um clássico escritor russo), mas a jornalista Marcela Mattos registra que ele disse preferir assistir Toy Story. Transformando isso em manchete e publicando no site da Veja.

Como disse o nosso escritor Rafael Gallo, ganhador do Prêmio Nacional Sesc de Literatura, em sua rede no Facebook, a respeito dessa gafe:

Deve se achar esperta ainda, feito o monte de gente que tenho visto e ouvido nesses dias, que não fazem a menor ideia do tamanho das besteiras que têm soltado.

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Outro escritor, o Sérgio Leo, que também ganhou Prêmio Sesc de Literatura, comentou a respeito, no perfil do seu Facebook:

Voltei, só para compartilhar o espanto com certo jornalismo nacional. O repórter pede desculpas por invadir a “privacidade pessoal” (!) do candidato. (Já eu me pergunto o que será privacidade impessoal). Eduardo Jorge diz que nunca fumou maconha e prefere Tolstói e a Veja relata que ele disse preferir… Toy Story.

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O jornalismo é de uma grande responsabilidade ou deveria ser. Exige apuração, pois somos nós, leitores, que podemos ser prejudicados ou beneficiados. No mínimo deveria ter verificado o que o candidato disse de fato, que, por sinal, é facilmente possível verificar também por todos nós, acessando o próprio vídeo da coletiva mencionada. Analisaríamos, então, também, a expressão do Eduardo ao dizer “ler” e não “assistir”, como quis afirmar a tal jornalista da Veja, entre outras coisas.

Mas, todo ser humano erra, e ela errou. Compreendemos, pois quem nunca errou? Porém não deixa de ser uma gafe gritante, até porque o Eduardo foi bem claro na sua fala, sendo quase que impossível ocorrer um erro de interpretação tão destoante como esse. Contudo, não podemos duvidar de nada.

Salientando também que certos erros podem levar a uma consequência mais séria, principalmente se tratando de política (às vésperas da eleição) ou da imagem de uma pessoa sendo divulgada, dessa forma, na internet pelo um portal de notícias não tido como um portal de comédia, tornando preocupante certas deturpações.

Segue a tal matéria da Veja:

Defensor da descriminalização da maconha, o folclórico Eduardo Jorge afirmou, após debate entre os presidenciáveis nesta quinta-feira, que jamais experimentou a droga. “Eu tenho uma família de esportistas. Na minha casa nunca ninguém fumou nem cigarro, imagine maconha. Nós cuidamos muito da nossa saúde”, disse, ressaltando que é médico e que jamais “cairia numa bobagem dessas”. Para provar que não precisa de entorpecentes, o candidato à Presidência pelo Partido Verde citou alguns de seus hobbies: “Prefiro assistir a Toy Story com meu neto ou jogar futebol”, disse. (Marcela Mattos, do Rio de Janeiro)

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A matéria pode ser acessada aqui.

Obs.: a gafe foi corrigida na revista Veja. O importante é isso, é reconhecer o erro, mesmo um erro que não poderia passar despercebido por ser tão gritante e envolver questões políticas, às vésperas da eleição, e imagem pessoal, mas acontece nas melhores famílias. Tudo resolvido, então, e bola para frente (depois das redes sociais, as notícias correm rápidas demais).

PS.: Compactuando com Rafael Gallo, não votei no Eduardo. Não se trata de defender um candidato, e sim de mostrar o quão sem referência os discursos são formados e – pior – formam a sua recepção.

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