Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged ler um livro

Travessa abre sua primeira livraria de rua em São Paulo

0

(Reprodução/Instagram)

Espaço fica em uma pequena casa de 200 metros quadrados, na Rua dos Pinheiros

Publicado na Veja

A Travessa, dona das livrarias mais charmosas e bem-sucedidas do Rio, inaugura dia 9 sua primeira loja de rua de São Paulo. Ela fica no número 513 da Rua dos Pinheiros, em uma pequena casa de 200 metros quadrados que foi totalmente reformada para abrigar a nova livraria do bairro. Esta é a segunda loja de Rui Campos na cidade – a outra, ainda menor, fica no Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista.

“Sempre tivemos o desejo de fazer uma Travessa em São Paulo, e também muitos pedidos, e ficávamos pensando onde ela poderia estar. Se a Travessa tem uma estratégia é a de interpretar o lugar onde ela vai atuar, tentar falar a língua do pessoal que está por ali”, conta Campos que começou a frequentar o bairro depois que a Travessa assumiu a livraria oficial da Festa Literária Internacional de Paraty – é ali que fica a sede da Casa Azul, organizadora da Flip.

Rui gostou da vizinhança e tratou de procurar um imóvel grande para instalar sua livraria, e então percebeu que nada por ali era espaçoso. “Começamos a pensar nisso entre maio e junho do ano passado, muito antes de essa crise da Saraiva e Cultura e do modelo de megaloja mostrar problema. Foi quando decidimos que não tínhamos que fazer ali uma loja grande e que teríamos que agir de acordo com a linguagem de Pinheiros – de lojas com uma curadoria muito especial”, diz.

A ideia de Rui é investir em atendimento de qualidade e acervo especial, moderno, com uma seleção muito mais rigorosa do que a feita nas demais lojas. Só para se ter uma ideia, a de Pinheiros deve abrigar, em seus 200 m², algo como 18 mil livros. A Livraria da Travessa de Ipanema, uma das mais tradicionais da rede, tem 80 mil volumes e um espaço cinco vezes maior que a filial paulistana. O projeto arquitetônico daqui, como das demais lojas da rede, é de Bel Lobo.

A seleção inclui todos os gêneros, com destaque para temas atuais, como política e feminismo, e também para obras de autores portugueses – numa espécie de contrapartida informal pela operação em Lisboa, onde ela desembarcou em maio para ocupar 300 m² da Casa Pau Brasil, num casarão tombado do bairro cult de Príncipe Real.

A livraria é dividida em dois andares e Rui garante que vai ter espaço para sentar, ler um livro, tomar um café ou um vinho. “Vamos ter um mini mini minicafé, algumas poucas coisas para comer, uma geladeira com um vinhozinho e outras opções. O cliente escolhe o que quer, faz o seu próprio café, se serve e paga na saída. Vai ser um espaço gostoso e isso é fundamental porque a função da livraria é ser a criadora de demanda pelo livro”, explica. Segundo o livreiro, antigamente, as pessoas chegavam ao balcão e pediam o que queriam. Hoje, não. Elas vão, passeiam e descobrem um livro.

Neste momento de crise do mercado editorial, o modelo proposto agora por Rui pode funcionar melhor, tornando o negócio mais viável. Comenta-se que esse modelo poderia ser replicado pela Travessa em outros bairros de São Paulo, mas ele não confirma nem descarta.

“Não temos projeto para uma segunda loja, mas isso não está fora de questão. É claro que se percebermos que esse modelo funcionou superbem e enxergarmos um outro lugar, nós continuaremos”, diz o livreiro. A questão, ele explica, é que a Travessa sempre atua de acordo com o momento. “Lisboa nunca esteve no plano. Fomos convidados, conhecemos o projeto, começamos a pensar nele, nos apaixonamos e fizemos. São Paulo foi assim também.”

Em 30 anos, a Travessa abriu 10 lojas – para 2020 está prevista uma em Niterói. “Mas São Paulo não faz parte de um plano de expansão, não temos um plano de negócio; só paixão.”

A Livraria da Travessa começa a vender seus livros nesta sexta-feira (9) e eventos já estão programados para a próxima semana.

A inauguração oficial, porém, será no domingo, 18, com uma festa que começa ao meio-dia e vai até as 22 horas. Rui Campos explica que a inauguração das lojas da Travessa são sempre assim: com atividades, música e leitura de poesia ao longo do dia.

O escritor cubano Leonardo Padura será o primeiro a autografar na nova livraria. Ele estará lá no sábado (10) das 18h às 20h, assinando A Transparência do Tempo e seus outros títulos publicados pela Boitempo. Na quarta, 14, Miguel Del Castillo lança Cancún, pela Companhia das Letras.

Em Londres, uma livraria singular

0

Persephone Books em Londres: 20 anos de existência e foco nas escritoras (Charlotte Hadden/The New York Times)

A Persephone Books se dedica, especialmente, a divulgar as excelentes obras de autoras renegadas do século 20

Publicado na Exame

Por Sarah Lyall, do The New York Times

A Lamb’s Conduit Street é agradável demais para ser real, como se a velha Inglaterra dos seus sonhos, aquela que existe em sua cabeça, de repente criasse vida. Mas parece adequado que essa rua de paralelepípedos em Bloomsbury, com lojas idiossincráticas que vendem queijo artesanal, bolos caseiros e outros artigos raros, também seja o lar da Persephone Books, uma joia de lugar, dedicado principalmente a obras negligenciadas de escritoras de meados do século XX.

Ao entrar na livraria, por um momento parecemos voltar no tempo. Há pôsteres vintage pedindo às mulheres do tempo da guerra que, por exemplo, se juntem ao serviço naval feminino britânico. Mas o presente também está aqui. Na vitrine há uma imagem ampliada das observações desagradáveis que o senador americano Mitch McConnell fez sobre a senadora Elizabeth Warren em 2017, usando uma linguagem no estilo “Jane Eyre”: “Ela foi advertida. Ouviu a explicação. No entanto, persistiu.”

A persistência é uma maneira de descrever a filosofia da loja em si, que começou há 20 anos reimprimindo sob encomenda títulos esquecidos de uma época da ficção feminina amada por sua fundadora, Nicola Beauman. Ao receber uma pequena herança de seu pai, ela abriu o negócio com uma lista de 12 livros no primeiro ano.

Persephone Books, em Londres (Charlotte Hadden/The New York Times)

Aqui você vai encontrar livros de mulheres de que provavelmente nunca ouviu falar, como Oriel Malet e Isobel English, e outras que podem ser mais familiares, como Katherine Mansfield e Frances Hodgson Burnett. (Há alguns homens nas prateleiras.)

Também vai encontrar, em um lugar de destaque, “Miss Pettigrew Lives for a Day”, obra de 1938 escrita por Winifred Watson, que veio para a Persephone depois que uma cliente mencionou que este havia sido o livro favorito de sua mãe. Publicado pela Persephone em 2000, o livro – a história de uma governanta pobre e simples que é enviada erroneamente por sua agência de emprego para trabalhar para um cantora glamourosa – tornou-se um hit inesperado, foi transformado em filme e tem venda constante desde então.

O que há em um livro da Persephone?

“Sou consideravelmente alérgica à ideia egocêntrica de que tudo está de acordo com meu gosto, mas tenho de confessar que sempre tive esse grande interesse pela ficção feminina do início do século XX – o que os acadêmicos chamariam de um gosto mediano e eu chamaria de uma boa leitura”, disse Beauman.

“O que os une é que eles foram esquecidos e que são muito bem escritos. Gosto muito de histórias que prendem a atenção. Quando termino de ler um livro, gosto de me sentir absolutamente perturbada pelo que li, de estar em um mundo diferente.”

A cada ano, cerca de seis obras se juntam à lista, de modo que agora há 132 ao todo. Todas ainda são impressas, e ainda estão à venda, por 13 libras cada; sempre que os novos títulos chegam, os livros antigos são movidos um pouco e as prateleiras são reorganizadas para dar espaço.

Depois de algumas temporadas apenas como editora, a Persephone se tornou uma livraria, deixando seu antigo escritório em Clerkenwell e vindo para seu espaço atual. O local é escritório e loja, dividido em duas salas que parecem se misturar.

A autora mais popular da loja se chama Dorothy Whipple, que tem impressionantes dez livros na lista, Persephones nº 3, 19, 40, 56, 74, 85, 95, 110, 118 e 127. Suas histórias são engraçadas, espirituosas e cheias de ponderações sobre a vida de pessoas reais.

“Gosto de livros que me contam como vivíamos. Eu me interesso muito pelo livro como história social.” E acrescentou: “A boa escrita é importante para mim, e é por isso que só temos 132 títulos.”

Nicola Beauman, fundadora da Persephone Books (Charlotte Hadden/The New York Times)

Os livros são elegantes, encadernados com papel cinza-claro e sem adornos, exceto pelo título em um retângulo branco na capa. Beauman se inspirou nas capas simples dos livros da Penguin de 1930 e no costume francês de publicar livros com capas brancas e letras vermelhas, disse ela, enquanto que as cores são um tipo de homenagem às velhas canecas de café Dean & Deluca.

“Pensei: ‘Por que um livro não pode ser parecido com isso?’”, disse ela.

Ou, como diz o site da empresa: “Os livros Persephone são todos cinza porque – bem –realmente gostamos de cinza. Imaginamos também uma mulher que chega em casa cansada do trabalho, e há um livro esperando por ela, e não importa sua aparência, porque ela sabe que vai gostar dele.”

No interior, porém, os livros são coloridos. Cada um tem uma contracapa diferente, inspirada em estampas ou tecidos associados ao ano de sua publicação original. Alguns vêm do Museu Victoria & Albert; outros podem ser tecidos cedidos por clientes. “Uma vez, uma pessoa trouxe um lenço do tempo da guerra, e você podia literalmente sentir o cheiro do pó de arroz da mãe dela”, disse Beauman.

A Persephone tem seguidores dedicados e apaixonados. Cerca de 30 mil pessoas assinam sua revista gratuita, a “Persephone Biannually”, que inclui artigos sobre os livros mais novos e outros assuntos. Seu site contém reflexões espirituosamente eruditas de Beauman, que ultimamente assumiram um tom preocupado por causa da incerteza sobre o destino das pequenas empresas com o Brexit, ou a saída do Reino Unido da União Europeia.

Em março, a empresa comemorou seu 20º aniversário com sanduíches de salmão defumado, chá, champanhe e bolo em uma festa que durou o dia todo, com o fluxo constante de visitantes dando lugar a um grupo maior à noite.

Beauman disse: “A ideia no início era que, se você gosta de um de nossos livros, vai gostar de todos eles, Isso funcionou quase totalmente. É muito raro alguém não gostar de um dos livros. Não gosto de usar a palavra ‘marca’, mas somos um tipo de marca.”

‘Recordista’ em biblioteca pública, aposentado já leu 4.902 livros

0

Henrique Gentile Menezes, de 74 anos, em seu apartamento na Cidade Baixa, em Porto Alegre (Paula Sperb/VEJA.com)

Henrique Gentile Menezes consumiu, em média, 446 obras ao ano na última década. Entre seus preferidos, Balzac, Victor Hugo e Machado de Assis

Paula Sperb, na Veja

Os óculos ficam estrategicamente posicionados ao lado dos livros, em uma prateleira da sala de um apartamento de classe média no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Todos os dias, o aposentado Henrique Gentile Menezes, de 74 anos, conta com a ajuda dessas lentes para poder enxergar melhor de perto durante sua atividade favorita: a leitura.

Porém, Menezes não é um leitor comum. Usuário assíduo da Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães, ele já retirou e leu 4.902 livros desde 2007, ano em que o sistema passou a ser informatizado. Ele é o leitor “recordista” da biblioteca – o segundo lugar retirou 1.217 obras. Como frequenta o local desde 1996, antes da informatização, o número de livros retirados por Menezes pode chegar a quase 10.000.

Na última década, ele leu, em média, 446 livros por ano. “Depende do número de páginas do livro. Se a obra tem 500 páginas, levo mais tempo. Mas se é um livro mais curto, de 300 páginas, leio em um dia”, contou Menezes a VEJA. Ele prefere livros de ficção, do gênero romance. “Se o narrador é em primeira pessoa, a leitura é mais fácil porque se apresenta em uma sequência mais lógica. Mas quando são vários narradores, exige mais atenção”, explica. Eventualmente, porém, lê também biografias e obras de filosofia.

Os óculos utilizados para leitura e os livros mais recentes retirados por Menezes (Paula Sperb/VEJA.com)

Uma pesquisa realizada pelo Observatório da Cultura, da prefeitura de Porto Alegre, mostrou que quase a metade dos moradores da cidade, 45,8%, estava sem ler um livro há pelo menos um ano. Do total dos 1.220 entrevistados, 8,5% nunca tinham lido um livro e 19,6% nunca estiveram em uma biblioteca. A pesquisa foi divulgada em 2015.

Nascido na capital gaúcha, filho de um pedreiro e de uma dona de casa, Menezes precisou abandonar a escola aos 12 anos por ordem da mãe. O garoto passou, então, a trabalhar para ajudar no orçamento da família. “Não recebi estímulo para leitura durante a infância”, relembra. Anos mais tarde, retornou aos bancos escolares para concluir os estudos, mas não chegou a cursar faculdade. Antes de se aposentar, trabalhou como comerciário.

O interesse pelos livros surgiu na adolescência, ao conviver com um grupo de jovens católicos do qual se diferenciava por não se considerar religioso. Além dos esportes, o grupo trocava leituras.

Foi assim que alguém lhe emprestou Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare. “Depois disso, não parei mais de ler”, recorda. Com tantos livros lidos, os preferidos continuam sendo os canônicos como Honoré de Balzac e Victor Hugo. Entre os brasileiros, seus preferidos são Machado de Assis, Jorge Amado, Erico Veríssimo e Rubem Alves. Quando depara com uma obra ruim, não desiste. “Eu leio até o fim para saber explicar por que não é bom”, conta.

Segundo Renata de Souza Borges, diretora da biblioteca da prefeitura, o acervo possui 33.250 títulos e 42.723 exemplares. Portanto, Menezes já retirou, desde 2007, 14% dos títulos oferecidos. Para que não retire o mesmo livro novamente, criou uma estratégia que discretamente burlava as regras do local. Ele marcava, a lápis, uma letra “H”, inicial do seu primeiro nome, na última página. A tática, porém, foi descoberta e delatada por uma ex-funcionária. “Não tiro a razão dela, estava errado fazer aquilo”, afirma. Todavia, a necessidade de saber qual livro foi lido por ele se mantém. Por isso, revelou um segredo: ele deixa uma discreta marca em cima do número que indica a página de número 50.

Depois que foi descoberto, Menezes parou de deixar sua marca: um “H”, de Henrique, escrito em letra cursiva com um lápis na última página (Paula Sperb/VEJA.com)

No total, a biblioteca tem 12.484 usuários cadastrados. Destes, 5.835 são ativos. De acordo com a diretora, no ano passado, foram feitos 21.306 empréstimos e 44.258 consultas ao acervo. É possível retirar cinco livros por vez. Por isso, Menezes frequenta a biblioteca duas vezes por semana, retirando dez obras.

“Ele lê demais, os olhos ficam ardendo, não se importa de ler no escuro. Faz muito bem ler, mas demais não dá”, conta Mary Ieda Anoni Lourenço, de 61 anos, casada com Menezes. O aposentado tem dois filhos adultos, fruto do primeiro casamento.

A pedido da mulher, Menezes tem interrompido a leitura à noite, para não prejudicar a visão. Ele só fecha os livros para assistir a jogos de futebol ou ouvir música. Ele torce para o Internacional e gosta de escutar Paul Anka, The Platers, Elvis Presley, Beatles, Legião Urbana e Raul Seixas.

“Por causa da literatura, eu mudei muito. A literatura me ajuda, me ensina”, explica. Para ele, o incentivo à leitura deve partir especialmente da escola. “Os alunos precisam receber indicações de livros, resumi-los, apresentá-los. Isso faz falta.”

Não leu um livro ultimamente? Culpa da Netflix, dizem pesquisadores

0

Guiga Liberato, no Meio Ambiente Rio

Você está atualizado com as últimas séries, mas o livro em sua mesa de cabeceira está juntando poeira – uma situação em que mais e mais pessoas estão se encontrando. Um novo estudo denuncia a queda no número de leitores, à medida que mais tempo é gasto online e assistindo programas de TV.

O velho ditado que a cada segundo, um alemão compra um livro, não se sustenta mais. As pessoas estão gastando mais tempo online e menos tempo lendo, relatam os pesquisadores.

o novo estudo Analisamos as tendências de leitura na Alemanha, descobrindo que as pessoas que compram livros estão se tornando cada vez menos. No ano passado, apenas 44% dos alemães com mais de 10 anos (29,6 milhões de pessoas) compraram um livro. O número caiu quase 18% entre 2013 e 2017, e entre pessoas de 20 a 50 anos, a queda foi ainda mais grave (24% para 37%).

Entre as principais razões para essa queda está a concorrência. Lendo livros é um passatempo agradável, mas as pessoas estão gastando seu tempo on-line e, notavelmente, assistindo séries de programas de TV – não é coincidência que empresas como Netflix ou Amazon estão desfrutando de um tremendo sucesso com seus shows.

Observar as coisas é muitas vezes visto como uma maneira “mais fácil” de gastar o seu tempo, exigindo menos esforço e muitas vezes apresentando menos complexidade do que livros. Há também pressão social – se seus amigos estiverem assistindo às séries mais recentes, você também deve atualizá-los e mantê-los atualizados.

Há crescente pressão social para reagir constantemente e ser sintonizado para que você não seja deixado para trás”, disse Alexander Skipis, chefe da Boersenverein, em um comunicado que acompanha o estudo, intitulado “Compradores de livros, para onde você está indo?”.

No entanto, isso apresenta à indústria do livro uma oportunidade: a vida já é agitada, e a web e os programas de TV só a tornam ainda mais. Ler um livro deve ser apresentado como uma atividade relaxante, uma espécie de intervalo da vida cotidiana.

As pessoas estão ansiando por um tempo”, disse Skipis, ressaltando que todas as faixas etárias relatadas têm uma atitude “muito positiva” em relação aos livros.

No entanto, não devemos interpretar isso como uma diminuição geral na leitura de livros. Talvez surpreendentemente, enquanto menos pessoas estão comprando livros, aqueles que estão comprando estão comprando mais do que nunca. O leitor médio comprou 12 livros no ano passado, acima dos 11 em 2013. O total gasto passou de cerca de 117 euros (US $ 138) para 137 euros.

Assim, enquanto o grupo de não-leitores está ficando maior, o grupo de leitores está ficando mais apaixonado. Uma evolução semelhante foi experimentada pelos e-books: o número de clientes diminuiu, mas as compras globais por pessoa aumentaram.

As pessoas também estão encontrando formas mais criativas e eficientes de incorporar a leitura em suas vidas. Algumas pessoas estão usando aplicativos personalizados para recomendações de livros, outras estão levando livros em lugares inesperados, como o ginásio.

Uma lição interessante, e talvez uma lição importante (embora este não fosse o foco do estudo), é que a diferença entre os dois grupos (leitores e não-leitores) está se tornando cada vez maior. Tantas vezes falamos de dois mundos diferentes, duas sociedades escondidas em uma – aqui também, a mesma tendência é perceptível.

‘Fui professor por 17 anos sem saber ler’

0

Queria que pessoas como eu soubessem que há esperança, há solução. Não somos burros, podemos aprender a ler, e nunca é tarde demais (Foto: BBC)

O americano John Corcoran conseguiu se formar na universidade e entrar na docência guardando um segredo que o atormentava. Até que, aos 48 anos, ele decidiu enfrentá-lo.

Publicado no G1 [via BBC Brasil]

ohn Corcoran teve uma infância comum no Estado americano do Novo México, nas décadas de 1940 e 50. Frequentou a escola e a universidade e se tornou professor quando se formou – mas fez tudo isso guardando um segredo improvável: ele não conseguia ler uma frase sequer. Em depoimento à BBC, ele relata o sofrimento de ter tido que recorrer a estratégias frequentes para esconder seu analfabetismo, até decidir revelar a verdade ao mundo, aos 48 anos:

“Quando eu era criança, escutava dos meus pais que eu era um vencedor. E, nos meus primeiros seis anos, eu acreditei nisso.

Demorei a aprender a falar, mas frequentava a escola cheio de expectativas de aprender a ler como minhas irmãs – e tudo correu bem nos primeiros anos, porque o que mais se exigia das crianças era fazer fila, sentar, ficar caladas e ir ao banheiro no horário determinado.

Até que, na segunda série, a gente precisava aprende a ler. Mas para mim (o livro didático) era como um jornal em mandarim – não entendia o que estava naquelas linhas. E, aos seis, sete e oito anos de idade, eu não sabia como explicar esse problema.

Lembro-me de rezar à noite pedindo: ‘por favor, Deus, faça com que eu saiba ler amanhã ao acordar’. Às vezes eu abria um livro para ver se havia ocorrido um milagre. Mas isso não acontecia.

Na escola, eu fui colocado na fileira dos ‘burros’, com um monte de outras crianças com dificuldades para aprender a ler. Não sabia como tinha ido parar ali, como sair dali e nem que perguntas eu precisava fazer.

O professor não chamava a nossa fileira de ‘crianças burras’ – não havia esse tipo de crueldade -, mas os colegas falavam assim. E quando você senta na fileira dos burros, você começa a achar que é burro mesmo.

Nas reuniões escolares, meu professor só disse aos meus pais, ‘ele é inteligente, ele vai entender’. E me passaram para a terceira série.

‘Ele é inteligente, ele vai entender’. E me passaram para a quarta série.

‘Ele é inteligente, ele vai entender’. E me passaram para a quinta série.

Mas a verdade é que eu não estava entendendo.

Na quinta série, eu praticamente havia desistido de aprender a ler. Eu me levantava de manhã, me vestia e ia para a escola como se estivesse indo para a guerra. Eu odiava a sala de aula. Era um ambiente hostil e eu precisava encontrar formas de sobreviver.

Na quinta série, eu praticamente havia desistido de aprender a ler, conta John (Foto: Arquivo pessoal)

Quando cheguei à sétima série, passava a maior parte dos dias na sala do diretor. Eu era briguento, desafiador, palhaço, perturbador; até ser expulso da escola.

Mas esse comportamento não refletia como eu me sentia por dentro – não era quem eu queria ser. Eu queria ser alguém diferente, queria ser bem-sucedido, um bom aluno. Mas simplesmente não conseguia.

Na oitava série, cansei de envergonhar a mim mesmo e à minha família. Decidi que ia me comportar. E, no ensino médio, se você se comporta, você consegue avançar dentro do sistema. Então decidi ser um queridinho do professor e fazer todo o possível para passar o sistema.

Queria ser atleta – eu tinha habilidades atléticas e matemáticas, tanto que conseguia contar dinheiro e fazer tabuada antes mesmo de ir pra escola.

Eu também tinha habilidades sociais. Andava com os garotos universitários e namorava a menina com as notas mais altas da escola. Fui ‘rei da festa de formatura’ e conseguia que meus colegas – geralmente meninas – fizessem a lição de casa para mim.

Conseguia escrever meu nome e lembrava algumas palavras, mas era incapaz de escrever uma frase. No ensino médio, eu lia como se estivesse na segunda série. E nunca disse isso para ninguém.

Durante as provas, eu colava ou passava a folha para alguém responder as perguntas para mim.

Mas, quando passei para a universidade com uma bolsa de atleta, a história mudou.

Pensei: ‘Meu Deus, isso é demais para mim, como vou fazer?’

Entrei para uma fraternidade que tinha cópias de provas antigas. Era uma das formas que eu usava para colar. Tentei acompanhar as aulas ao lado de um colega, para me ajudar. E tentei também estratégias mais criativas e desesperadas para passar de ano.

Em uma prova, o professor escreveu quatro perguntas na lousa para copiarmos. Eu estava sentado no fundo da sala, perto da janela. Com muito sacrifício, eu escrevi as quatro perguntas. Mas não sabia o que elas queriam dizer.

Havia combinado com um amigo de ficar do lado de fora da janela. Ele era provavelmente o aluno mais esperto que eu conhecia, e havia acertado de apresentar ele para a menina de quem ele gostava. Então, ele respondeu as perguntas para mim.

Em outra ocasião, eu invadi a sala do professor três noites seguidas, à meia-noite, como um ladrão, para procurar pela prova. Eu sabia que havia cruzado uma linha – não era mais apenas um estudante que colava, eu era um criminoso.

E mesmo assim não consegui encontrar a prova. Deduzi que ela estaria dentro de um gaveteiro trancado à chave, então chamei três amigos para irem comigo à sala do professor à 1h da manhã. Carregamos o gaveteiro, colocamos dentro de um carro e o levamos embora. Consegui que um chaveiro abrisse para mim e peguei uma cópia da prova, e um amigo inteligente me deu as respostas.

Devolvemos o gaveteiro e, às 5h da manhã daquele dia, eu acordei pensando: ‘Missão impossível cumprida!’. Me sentia muito bem por ser tão esperto.

Mas simplesmente deitei na minha cama e comecei a chorar como um bebê.

Por que eu não pedi ajuda? Porque não acreditava que ninguém poderia me ensinar a ler. Era um segredo que eu guardava.

Meus pais e professores diziam que pessoas com diploma universitário conseguem empregos melhores e vidas melhores, então acreditei nisso. Minha motivação era apenas conseguir o diploma. Talvez algum dia, por osmose, por orações ou por milagre eu aprendesse a ler.

Assim eu me formei, e havia uma escassez de professores. Recebi uma oferta de emprego. É a coisa mais ilógica de se pensar: eu havia escapado da jaula do leão e voltava para atiçar o leão outra vez.

Por que virei professor? Olhando para trás, parece uma loucura. Mas eu havia cursado a escola e a universidade sem ser desmascarado, então ser professor parecia um bom esconderijo. Ninguém suspeita que um professor não sabia ler.

Ensinei coisas diversas. Fui técnico de atletismo. Ensinei estudos sociais. Ensinei digitação – conseguia digitar 65 palavras por minuto, sem saber o que estava digitando. Nunca escrevi nada na lousa, e não havia palavras escritas nas minhas salas de aula. Havia muitos filmes e discussões.

Mas eu lembro do medo que sentia. Eu sequer conseguia fazer a chamada. Tinha que pedir aos estudantes para pronunciar seus nomes, para que eu pudesse sabê-los. E identificava dois ou três estudantes para me ajudar nas aulas. Eles não suspeitavam de nada – ninguém suspeita do professor.

Um dos meus maiores pavores eram as reuniões semanais de professores. Às vezes o diretor pedia que alguém escrevesse as ideias na lousa. Eu tinha um plano: se ele me pedisse, eu ia fingir um desmaio e torcer para que eles chamassem o socorro. Eu fazia de tudo para não ser flagrado, e não fui.

Às vezes eu me sentia um bom professor, porque eu trabalhava duro e realmente me importava com o que fazia. Mas eu não era um bom professor. Eu estava errado. Meu lugar não era na sala de aula, eu estava invadindo um terreno que não era meu. Algumas vezes isso me deixava fisicamente doente, mas eu estava dentro de uma armadilha e não podia contar para ninguém.

Me casei durante meu período como professor. O casamento é um sacramento, um compromisso de ser verdadeiro com alguém. Foi a primeira vez que pensei: ‘Vou confiar nessa pessoa, vou contar para ela’.

Eu treinei na frente do espelho: ‘Cathy, eu não sei ler. Cathy, eu não sei ler’.

Uma noite, enquanto estávamos sentados no sofá, eu finalmente disse: ‘Cathy, eu não sei ler’.

Mas ela não entendeu direito. Ela achou que eu estava dizendo que não lia muito. O amor é cego e surdo.

E assim casamos, tivemos um filho e só anos depois ela foi entender.

Eu estava lendo para a nossa filha de três anos. Líamos para ela com frequência, mas não era realmente uma leitura – eu inventava histórias a partir das que conhecia, como Cachinhos Dourados ou Os Três Ursos.

Só que havia um livro novo, Rumpelstiltskin, e a minha filha me disse: ‘Você não está lendo igual à mamãe’.

A minha mulher me ouviu tentando ler um livro infantil e a ficha caiu. Ela se deu conta de que eu sempre pedia para ela escrever coisas para mim, e finalmente ela entendeu quão grave era o meu problema.

Mas nada foi dito, não houve nenhum confronto, ela simplesmente continuou me ajudando.

Não aliviou em nada, porque por dentro eu me sentia burro, me sentia uma farsa. Eu era um enganador. Ensinava meus alunos a buscar a verdade, e era o maior mentiroso da sala. O alívio só veio quando eu finalmente aprendi a ler.

Fui professor entre 1961 e 1978. Oito anos depois de deixar meu emprego, algo finalmente mudou.

Tinha quase 48 anos quando vi Barbara Bush, então primeira-dama dos EUA, falando sobre analfabetismo adulto na TV. Era a causa que ela combatia. Eu nunca havia escutado ninguém falando de analfabetismo adulto antes, achava que era a única pessoa do mundo naquela situação.

Eu estava em um momento de desespero. Queria contar para alguém e queria pedir ajudar. Um dia, estava na fila do mercado e ouvi duas mulheres conversando sobre um homem que estava aprendendo a ler na biblioteca. Elas falavam com muita alegria, e eu não conseguia acreditar.

Fui até a biblioteca, perguntei pela diretora do programa de alfabetização, me sentei com ela e contei que não sabia ler.

Foi a segunda pessoa a quem contei isso na minha vida adulta.

Ganhei uma tutora voluntária de 65 anos. Ela não era uma professora, apenas alguém que amava ler e não queria que ninguém passasse pela vida sem saber fazer o mesmo.

Ela logo tentou fazer com que eu escrevesse, porque eu tinha todos esses pensamentos na cabeça e nunca havia escrito uma frase com eles. A primeira coisa que escrevi foi um poema com meus sentimentos. O bom da poesia é que você não precisa escrever em frases completas.

Ela conseguiu me ensinar a leitura até o nível da sexta série – era como se eu tivesse morrido e ido ao paraíso. Mas levei sete anos para me sentir alfabetizado. Eu chorava, chorava, chorava depois de começar a ler – foi um processo repleto de dor e frustração -, mas isso preencheu um buraco enorme na minha alma. Adultos que não sabem ler tiveram sua infância suspensa, emocionalmente, psicologicamente, academicamente, espiritualmente. Somos pessoas que não cresceram.

Minha tutora me encorajou a contar minha história para motivar outros e promover a alfabetização, mas eu disse: ‘De jeito nenhum. Morei nesta comunidade por 17 anos, meus filhos, meus pais e minha mulher moram aqui. Não é uma história que eu queira contar’.

Até que eu decidi contar. Era um segredo vergonhoso, então foi uma decisão difícil de tomar, mas, quando a tomei, decidi contar minha história para todo o país, para quem quisesse ouvir. Depois de guardar meu segredo por décadas, eu decidi expulsá-lo de mim.

Contei minha história (nos programas de TV) da Oprah, do Larry King.

Era incômodo para as pessoas escutarem a história de um professor que não sabia ler. Teve gente que disse que eu havia inventado a história toda.

Mas eu queria que pessoas como eu soubessem que há esperança, há solução. Não somos ‘burros’, podemos aprender a ler, e nunca é tarde demais.

Infelizmente, continuamos a empurrar crianças e adolescentes pelo sistema escolar sem ensiná-las habilidades básicas de leitura e escrita. Mas podemos romper esse ciclo de fracasso se, em vez de culpar os professores, nos assegurarmos de que eles sejam devidamente treinados.

Por 48 anos, eu vivi no escuro. Mas finalmente eu enterrei o fantasma do meu passado.”

Depoimento concedido a Sarah McDermott, da BBC.

Go to Top