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Liberdade de expressão: número de palavrões aumenta em obras literárias

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Palavrões usados em na literatura aumentaram consideravelmente nos últimos 60 anos, segundo estudo norte-americano. Para especialistas, o fenômeno mostra que há mais liberdade de expressão e individualismo nas relações sociais

Vilhena Soares, no Correio Braziliense

Em 1972, o comediante George Carlin criou uma esquete chamada As sete palavras que não se pode dizer na televisão. O show foi usado como protesto contra o governo, que censurava a tevê aberta norte-americana à época, e fez com que o artista fosse preso inúmeras vezes durante as apresentações. Depois de 40 anos, a peça virou objeto de estudo de uma dupla de cientistas. Elas contabilizaram a presença dos impropérios ditos por Carlin em milhares de livros e detectaram um aumento do uso dos palavrões com o passar dos anos. As investigadoras acreditam que essa constatação reflete uma mudança no comportamento da sociedade, agora marcada por maior individualismo e liberdade de expressão.

Hannah VanLandingham, estudante de pós-graduação da Universidade de San Diego, e Jean M. Twenge, pesquisadora da mesma instituição norte-americana, analisaram o conteúdo de dezenas de milhares de livros publicados entre 1950 e 2008 e catalogados na base de dados do Google Books. “Os livros são um produto cultural ideal para examinar o uso da linguagem, já que permaneceram relativamente inalterados como meio, em contraste com as mudanças significativas que ocorreram em outras mídias”, justifica Twenge.
A dupla detectou que os autores norte-americanos usaram 28 vezes mais as sete palavras ditas por Carlin em 2000 do que no início da década de 1950. “Quarenta e cinco anos após a rotina de George Carlin, você pode dizer essas palavras na televisão e nos livros. Os resultados sugerem que elas se tornaram um tabu muito menor ao longo do tempo”, avalia Twenge. Para as autoras, o resultado da análise, publicado recentemente no periódico SAGE Open, serve como um termômetro das mudanças comportamentais da sociedade nos últimos 60 anos.

“O aumento dos impropérios nos livros faz parte de uma tendência cultural que vai em direção à exacerbação do individualismo e da livre expressão, fenômeno que foi constatado também em pesquisas anteriores”, diz Twenge, que ressalta que essas mudanças não são constatadas apenas na literatura. “Se os livros refletem tendências culturais mais amplas, esses resultados sugerem que outros produtos semelhantes, como filmes e programas de tevê, podem demonstrar a mesma característica.”.

Mestre em literatura e crítica literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), Conceição Russo acredita que o fenômeno também se deu no Brasil. Palavras consideradas palavrões no início do século foram banalizadas com o passar do tempo. “Em determinado período histórico, quando o contexto religioso era suficientemente forte para influenciar a liderança política e os costumes de um país, mandar alguém para o inferno tinha uma força muito mais avassaladora do que no contexto atual”, ilustra.

Conceição Russo também avalia que essa transformação é permeada por um processo de individualização das relações sociais. “Nesse sentido, concordo com as pesquisadoras quando afirmam que a sociedade ficou individualista. Nos dias atuais, em vez de mandar alguém para o inferno, basta mandá-lo para a progenitora que o pariu e que recebe remuneração pela venda do próprio corpo. O efeito na troca do coletivo pelo individual é com certeza muito mais devastador, tendo em vista que nos transformamos em uma sociedade narcisista”, explica.

Já quanto à liberdade de expressão, a especialista faz algumas ressalvas. Segundo ela, indubitavelmente, a literatura reflete um momento histórico de acordo com o contexto social em que está inserida, mas quantificar os palavrões nas obras como indicativo de maior autonomia pode não ilustrar a realidade em questão. “Já vivemos épocas de bastante opressão, com falta de liberdade de expressão. Embora censurados para publicação, os termos eram utilizados pelos escritores”, justifica. “Também é possível perceber esse fato se sairmos do campo literário e caminharmos pelas mídias de comunicação, sejam as televisivas, sejam as publicitárias, cuja censura ainda é implacável. Entretanto, ao percorrermos alguns países cuja ditadura reprime os direitos e os deveres dos cidadãos, notamos que essa liberdade continua sendo bastante relativa.”

Termômetro cultural

O impacto cultural do movimento turbinado pelo comediante também foi um motivador para as pesquisadoras. “Patrick, o irmão de Carlin, comentou uma vez que essa peça foi uma experiência de libertação para milhões de pessoas que eram jovens naquele momento. Ele tirou essa restrição dos ombros de muitos e as transformou em algo comum”, comenta VanLandingham.

Segundo a autora, estudar as mudanças no uso da linguagem em livros é importante porque eles são um “lugar útil” para observar e quantificar as mudanças culturais. “A cultura inclui o contexto e a pessoa, e os produtos culturais capturam esses fatores. E, talvez, o mais importante: eles moldam as ideias individuais e são uma das fontes mais comuns de percepção de normas”, diz.

Vladimir Melo, mestre em psicologia pela Universidade Católica de Brasília (UCB), ressalta que outras formas de expressão também refletem as mudanças sofridas pela sociedade e servem como objetos utilizados por estudiosos para reconstruir e compreender a história. “As artes plásticas, a música e o cinema, por exemplo, retratam o espaço e o tempo de uma obra.Todas essas artes mudaram em função das transformações históricas e sociais. Se observarmos com atenção, podemos verificar as repercussões das transformações nas manifestações culturais. A comunicação é dinâmica e a sua mudança retrata também a alteração do contexto em que ela ocorre”, explica.

Melo ressalta que outras mudanças estão por vi, principalmente devido à forma como a educação formal é feita hoje. “A alfabetização vem sendo acompanhada por um processo tecnológico e audiovisual cada vez mais prematuro. Não sabemos como e nem o quanto isso vai interferir na comunicação e na arte, mas sabemos que as próximas gerações podem nos trazer essas respostas.”

Mais sinceros
Uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Maastricht, na Holanda, mostra que as pessoas falam mais palavrões quando estão sendo honestas. Os investigadores chegaram a essa conclusão ao entrevistar 276 voluntários, que foram questionados sobre os palavrões favoritos e em qual frequência os usavam. Em uma segunda etapa, os participantes responderam a um questionário usado para desenhar perfis psicológicos. Por meio de uma escala de confiabilidade, os cientistas mediram em quais situações os analisados eram honestos e associaram esses momentos ao uso mais frequente dos impropérios.

A influência da internet

Ao comparar a quantidade de palavrões escritos em quase 60 anos, as pesquisadoras norte-americanas fizeram também uma ligação entre duas formas de linguagem: a escrita e a oral. Segundo Vladimir Melo, mestre em psicologia pela Universidade Católica de Brasília (UCB), em análises feitas a partir de produções mais atuais, a influência da internet nesse contexto deve ser considerada.

“A liberdade individual, hoje em dia, é muito maior, e isso se reflete na literatura, que retrata o contexto social, cultural e econômico do autor. A tecnologia também tornou a escrita mais fácil de ser difundida e os blogs são a grande vitrine de textos informais, alguns deles até transformados em livros”, justifica. Para Vladimir Melo, a oralidade tem influenciado mais a escrita devido à forte presença do audiovisual, principalmente no cotidiano de crianças e jovens. “Isso pode ser constatado pela força do YouTube nessa geração”, exemplifica.

Rita Martins, psicanalista e professora da Faculdade Integrada Hélio Afonso, no Rio de Janeiro, também acredita que a pesquisa norte-americana mostra um movimento de transformação da comunicação, agora influenciado pelos avanços tecnológicos e pelas novas formas de interação. “Para mim, essa mudança é um movimento natural, que reflete também a informalidade das relações. Vemos isso em detalhes, como na relação que existe entre pais e filhos, com muito mais liberdade hoje. Na parte escrita, antigamente, não podíamos utilizar dados da internet. Agora, a maioria dos estudos tem fontes da web, até com os links reproduzidos no trabalho. Há uma série de mutações ocorrendo, assim como as vistas no estudo”, compara.

A psicanalista acredita que um olhar sobre culturas diferentes poderia trazer dados ainda mais interessantes. Segundo ela, analisar os orientais, que costumam ser mais fechados e prezar o coletivo em vez do individual, renderia outro resultado. “No Brasil, acredito que também teríamos dados interessantes devido à diferença que existe em cada região do país, gerada durante o período de colonização”, complementa.

Livro com crônicas inéditas de Antonio Callado será lançado em março

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Callado no Parque do Xingu, em 1988, para as filmagens de "Kuarup" - Paulo Marcos Lima / Agência O GLOBO

Callado no Parque do Xingu, em 1988, para as filmagens de “Kuarup” – Paulo Marcos Lima / Agência O GLOBO

 

Obra celebra centenário do escritor e jornalista reunindo textos escritos entre 1978 e 1982

Publicado em O Globo

RIO — Antes de deixar o Grupo Record, no qual foi encarregada do acervo da editora José Olympio até dezembro de 2014, Maria Amélia Mello começou a reeditar a maior parte da obra de ficção de Antonio Callado. De mudança para a Autêntica, em 2015, sondou a viúva do escritor, Ana Arruda, para saber se conseguiria material para um livro inédito, visando o centenário de Callado. Foi então que Ana Arruda se lembrou da coluna “Sacadas”, que Callado manteve durante quatro anos para a revista “IstoÉ”.

Essas crônicas, que retratam in loco a fase final da ditadura militar no Brasil, estão agora reunidas, pela primeira vez, em livro, em “O país que não teve infância: Sacadas de Antonio Callado”, que deve sair em março.

— Os textos refletem um ser político, marcado pela ditadura — diz Maria Amélia. — Callado mostra com precisão e perspicácia aqueles últimos anos da ditadura, com todos os personagens daquele tempo. São crônicas curtas, sintéticas, focadas em um mesmo tema.

A publicação original na imprensa foi pesquisada no acervo da Biblioteca Nacional. As 86 crônicas foram fotografadas e depois transcritas para a publicação. Nelas, o escritor e jornalista revisita na mídia os seus temas mais caros, como a reforma agrária, a religião e as questões indígenas. Mas, embora o Callado político apareça em destaque, também há menções a assuntos como cultura, viagens e, claro, grandes figuras de seu tempo— Portinari, Alceu Amoroso Lima, Mario Pedrosa, Nise da Silveira, Oscar Niemeyer, entre outros.

— Você percebe que é um autor que tem compromisso com a realidade brasileira, lúcido, antenado e participativo — avalia Maria Amélia. — É um pensador, que traça um perfil da cultura brasileira e que discute o que estava em pauta na ditadura. Escritos no calor do momento, com os dedos no fogo, os textos formam um painel não só daquela época, mas também do próprio projeto intelectual de Callado.

Naqueles minutos finais da ditadura, que pareciam se prolongar sem nunca acabar, o escritor se encontrava bastante “desesperançado” do Brasil, conta Ana Arruda. Segundo a viúva, o sentimento só foi aumentando até a sua morte, em 1997.

— Ele achava que faltavam líderes, e não via nenhuma saída, nenhuma pessoa em quem confiar — lembra ela. — Em algum momento, chegou a visitar o Brizola depois que ele voltou (do exílio), em 1979, para escândalo de alguns amigos mais radicais. Por um momento, chegou a gostar de Lula, mas nunca teve muita segurança no PT. Nas crônicas ele fala do Brasil como um país preguiçoso, em que as coisas não andam.

A abertura “lenta, gradual e segura” também parecia não andar. A frustração com a indefinição do processo de redemocratização do país aparece na crônica “Abertura presa no gargalo”. O Brasil vivia tempos esquisitos, esperando por uma promessa que não se concretizava nunca:

— Era um período muito incerto — diz Ana Arruda. — O pessoal estava voltando naquela época, mas sem saber se podia voltar mesmo, se havia segurança. A anistia era esquisita: muita gente que voltou foi presa depois.

O título do livro foi pescado de uma crônica de mesmo nome, em que Callado lamenta que o Brasil nunca tenha feito uma reforma agrária. Mas outro assunto de destaque no livro são os povos indígenas, que Callado retratou no seu livro mais famoso, “Quarup”, e em outras obras, como “O esqueleto da Lagoa Verde” e “A expedição Montaigne”.

— Havia um desespero enorme, os índios estavam largados pelo governo. Ele lamentava que Darcy Ribeiro tinha partido para a “política-política” e já não conseguia cumprir o mesmo papel na defesa dos indígenas — observa Ana Arruda.

 

LEIA A CRÔNICA “UMA JURITI QUE NÃO CAIU DO GALHO”, DE 1979

Dia 17 de setembro de 1971, morreu no alto sertão sanfranciscano da Bahia o capitão Carlos Lamarca. Pode-se dizer que até chegar aos jornais a notícia do seu fuzilamento, num encontro com a tropa policial que, hoje sabemos, era dirigida pelo delegado Fleury, a figura de Lamarca só era vagamente conhecida dos brasileiros.

Capitão, instrutor de tiro, Lamarca, como outros oficiais do Exército em nossa história, fez-se de coração revolucionário de extrema esquerda. Foi grande figura do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que celebrava em sua data emblemática o dia da morte do Che Guevara. Sabia-se que era bravo, talvez até temerário. Correu certa vez a notícia de que Lamarca desafiara Fleury para um duelo a pistola. Como Lamarca era bom de tiro, Fleury só teria aceito o repto à sua moda. Em Grotas de Macaúbas, local onde morreu Lamarca, havia, de um lado, Lamarca e seu companheiro Zezinho, exaustos e famintos. Do outro lado, uma luzidia caravana de policiais e soldados armados até os dentes. Não houve, assim, o combate singular exatamente.

Carta do “Che” estabanado.

Seja como for, o importante a fixar é que a personalidade de Lamarca era essa: um cabeça quente, um mosqueteiro um tanto irresponsável, um “Che” estabanado. Pessoalmente, confesso que até hoje eu teria guardado essa impressão não fosse um documento, um papel, uma carta-diário que ele escreveu no sertão da Bahia, antes de morrer. Trata-se de uma carta íntima, dirigida à mulher que amava apaixonadamente, Iara Iavelberg. A carta foi escrita entre 29 de junho e 16 de agosto.

Ao interceptar a carta, a polícia mandou cópia da mesma aos jornais – e assim garantiu a sobrevivência, na memória dos brasileiros, de um outro Lamarca, um Lamarca em construção espiritual, tocante em sua busca de uma abrangente virtude que atendesse aos anseios da revolução e às penas do coração, amando com fervor o povo pobre, seu irmão (sapateiro do morro de São Carlos, o pai de Lamarca o educou com os maiores sacrifícios) e Iara, que estava esperando filho dele.

A carta-diário devia ser publicada agora, na íntegra, por si só ou dentro de algum estudo sobre Lamarca. Guardei a página de O Globo de 20 de setembro de 1971, pois toda ela é ocupada pela carta. Mesmo assim, cortes foram assinalados na composição do jornal.

Não vou sequer tentar resumir a carta-diário, com trechos já quase indecifráveis de política da época, embora tudo que está ali escrito reflita a bela preocupação central de Lamarca – que era a de se aperfeiçoar, como gente, para melhor poder servir aos outros. Fique aqui apenas uma amostra de como o rude capitão, à espera da morte na desolada caatinga, tratava Iara com infinita delicadeza. E como esse amor sacrificava, a despeito da negra fome, até seu apetite, como verão no episódio da juriti que escapou à pontaria do capitão de tiro.

A carta se dirige à “minha neguinha” e começa: “Não pretendo fazer um diário, mas sinto a necessidade diária de te falar (…) Resolvi escrever e eis-me: a mesa uma pedra, a cadeira o chão, a cuca aí contigo e aqui também (…) Sobre o esforço que fiz para chegar, foi realmente impregnado de amor. A força está nos músculos e tendões, porque eles doem muito depois, está na cabeça, que fica desanuviada e feliz. Um dia deixaremos de exaltar esses esforços, eles serão a compensação em si próprios (…) Estejamos onde estivermos, haverá uma realidade a transformar, agora e sempre. Criar as condições para isso é a nossa tarefa de revolucionários. O nosso amor também é uma realidade que veio transformada – hoje atinge um nível nunca por mim sonhado (…) A tua situação é terrível e a tua necessidade afetiva, muito grande, e, se não houver possibilidade de nos encontrarmos mais, tenho de abrir mão do nosso relacionamento, no que se refere a você – dar a você a liberdade de se relacionar com outro companheiro. No nível que atingiu meu amor por você, não posso admitir a possibilidade de me relacionar com outra pessoa, nunca mais (…) Hoje, 12 de agosto, aniversário de meu pai. Dia do julgamento do processo VAR em São Paulo. Estou chateado pelo que escrevi ontem e volto atrás: não abro mão do relacionamento ‘p. nenhuma’. Não quero isso, nem tenho direito – é um desrespeito a você. Fui egoísta pra burro e imaturo. Peço que me desculpe de verdade. Não altero a carta para não ser desonesto; acho justo você penetrar no meu pensamento, mesmo que ele seja temporário”.

A juriti que não caiu do galho.

Em regime de quase fome, Lamarca, na caatinga, procurava aceitar de bom grado a ascese da alimentação, como observa dia 4 de julho: “Domingo. Bom dia. O companheiro trouxe comida e café à noite e só volta às nove da noite. Mantenho o espírito crítico para não deixar que a comida seja o centro das preocupações”. Mas quem enxota a fome por pura disciplina? “Adaptando-me à comida. Não me deixam sem café, trazido numa garrafa que no lugar é conhecida como ‘quente-frio’ (ora veja), uma por dia é dose. Rapadura (nem sempre), arroz, banana verde bem picadinha passada na gordura, ovos às vezes, carne de porco ou de boi, salgada, às vezes também, bolacha com café e laranja (…) Parei para almoçar: macaxeira cozida, beiju, rapadura e laranja.”

E um dia: “Aqui muitos pássaros lindos de variegadas cores – perto está uma juriti pronta para tomar um tiro no peito, mas não darei o tiro e a vida dela continua em homenagem a ti. Ela voou”.

Quando escreveu a última palavra da sua carta-diário, Carlos Lamarca já teria sabido da morte da destinatária, Iara Iavelberg, dia 6 de agosto, quando foi suicidada em Salvador.

Mais uma da Finlândia

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Referência literária em dezenas de países, série Moomins começa a ser traduzida para o português

publicado na EDUCAÇÃO

O sistema educacional finlandês é considerado exemplar em várias partes do mundo e se tornou fonte de inspiração para vários gestores e professores, inclusive no Brasil. Agora, os educadores terão um motivo a mais para se referir ao país nórdico: a publicação da famosa série de livros infantis sobre os Moomins, uma cativante família de trolls que vive em um vale cercado por altas montanhas. Traduzidas para quase 50 idiomas, do tcheco ao chinês, passando pelo grego e o japonês, e com mais de 15 milhões de cópias vendidas, as obras começaram a ser transpostas para o português (do inglês) pela Autêntica Editora.

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Os volumes lançados são Os Moomins e o chapéu do mago e Um cometa na terra dos Moomins, os mais famosos da coleção e os responsáveis por tornar Tove Jansson uma das escritoras mais queridas da Escandinávia. O primeiro se desenrola em torno de um misterioso chapéu encontrado por Moomin, o personagem central da série, e seus amigos Snufkin e Sniff. Encantados com a descoberta, eles levam o chapéu para casa, uma espaçosa residência circular habitada pela família e alguns amigos. Com o tempo descobrem tratar-se de um objeto mágico, capaz de provocar várias esquisitices, tanto nas pessoas como nos objetos.

Já o segundo livro tem como tema a aproximação de um cometa em direção ao Vale dos Moomins e a provável destruição que ele causará. Esta é a segunda obra da série e, assim como a primeira, que narra como os Moomins escaparam de um dilúvio, reflete o quadro ansioso de Tove com os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial. A escapada dos Moomins, que vão se refugiar em uma caverna contra o choque do cometa, seria uma analogia à fuga dos europeus para escapar das bombas.

Aliás, foi por esse motivo que a artista enveredou pela literatura infantil. Antes da famosa série, Tove foi cartunista de um jornal satírico em que publicava cartuns, muitos deles sobre a guerra. Mas em 1939, como declarou anos mais tarde, seu fôlego esvaiu-se. Sem ver sentido no que estava produzindo, sentiu necessidade de escrever alguma coisa que começasse com o clássico “era uma vez” e fosse totalmente ficcional.

Além de boas histórias e das descrições que transportam o leitor direto para o Vale dos Moomins, o trunfo dos livros são os personagens e a relação que mantêm entre si. Muito diferentes uns dos outros, formam um conjunto inusitado, porém harmonioso. Como declarou Tove, eles oferecem total liberdade uns aos outros: “liberdade para estar sozinho, liberdade para pensar e sentir cada um à sua maneira e para manter seus segredos até que estejam prontos para compartilhá-los. Ninguém nunca provoca no outro qualquer sentimento de culpa”. Esse aspecto, por si só, já mereceria a indicação de leitura.

Conforto burguês atrapalha o autor, diz Milton Hatoum

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Milton Hatoum em lançamento de livro em São Paulo (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)

Milton Hatoum em lançamento de livro em São Paulo (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)

Diogo Bercito, na Folha de S.Paulo

Milton Hatoum fecundou, na Espanha, “em um quartinho de 6º andar”, em “um inverno sem calefação”, “nos horários mais absurdos”, seu romance de estreia, “Relato de um Certo Oriente”. A obra, como um filho robusto, comemora seus 25 anos de publicação com tradução inédita ao árabe, no Egito.

As feições do livro fazem Hatoum se lembrar, em entrevista à Folha, de um tempo passado, com o que parece ser o saudosismo dos pais. “Foram os meses menos infelizes da minha juventude, que estava acabando. Eu era um pobre estudante da província sonhando em ser um escritor”, diz.

O que de fato ele se tornou. Hatoum participará, no próximo dia 27, de uma mesa na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, onde irá debater com o seu colega libanês Elias Khoury.

A recordação dos anos vividos na Espanha, durante os quais Hatoum deu início a uma carreira mais tarde premiadíssima, é a de um marco na memória do autor, nascido em Manaus, em 1952.

“O que vivi aos 20, 30 anos se tornou minha infância, que renovei enquanto envelhecia”, diz. O autor trabalha hoje em um romance que deve ser narrado por um personagem exilado em Paris.

Hatoum mudou-se para Madri no final dos anos 1970, com uma bolsa de estudos. “Não era fácil viver no Brasil. Era chato e opressivo”, diz. A Espanha, àquela época, celebrava a Movida Madrileña, depois da ditadura de Francisco Franco (1936-1975).

“Eu descobri ali a minha liberdade. Era uma coisa nova também para os espanhóis”, conta. “Vivi essa ininterrupta comemoração.”

Os quatro meses previstos pelo programa tornaram-se quatro anos, e o “jovem da província” trabalhou ali, “a mão” e “no braço”, no rascunho de sua primeira obra. À época, vivia no bairro de Argüelles. “Escrevi também em Barcelona e em Paris. Era um manuscrito nômade e, por anos, passou por muitos quartinhos de empregada.”

“Eu morava mal. O dinheiro da bolsa não era suficiente, então fazia bicos de tradução. Mas isso não me impedia de ler e de escrever. Hoje penso: o conforto burguês atrapalha o escritor.”

Antes de “Relato de um Certo Oriente”, Hatoum havia tentado, também na Espanha, escrever sobre os tumultos políticos no Brasil.

Ele se lembra, rindo, do amigo argentino que lhe sugeriu abandonar o projeto após ler seu esboço. “Joguei o manuscrito na lareira de uma amiga catalã, em Barcelona”, conta. Então desistiu do lastro na atualidade e passou a trabalhar a memória de sua família, imigrantes libaneses, em Manaus.

A fecundação resultou não apenas em “Relato”, mas também em “Dois Irmãos”, que deve ser adaptado para uma série na TV Globo. A obra, que ele diz ser sua menos autobiográfica, garantiu com o sucesso que ele pudesse se dedicar à literatura.

Hoje reescreve as quase 600 páginas em que tem trabalhado, sobre experiências em Brasília nos anos 1960 e em São Paulo na década seguinte.

A eloquência é o coração ficar sem voz: O silêncio de Emily Dickinson

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Autora além do seu tempo, Emily Dickinson escreveu sobre temas profundos com extrema liberdade forma.

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Silvia Andrade, no Homo Literatus

Na pequena cidade de Amherst, no estado de Massachusetts, vivia Emily Dickinson. Seu dia a dia era muito semelhante ao de outras mulheres do século XIX. Ela morava com os pais, os irmãos e cuidava da casa. Ao contrário, porém, da maioria das mulheres de seu tempo, Emily não casou, não constituiu família e se resignou em permanecer na residência dos pais e em cuidá-los. Após a morte deles, passou a viver sozinha. Mais do que solitária, ela era uma pessoa reclusa, tinha poucos amigos, raras vezes saía de casa e muito de sua comunicação com o mundo exterior era feita através de cartas.

Advinda de uma família burguesa e de boa orientação, desde cedo Dickinson foi leitora e também escritora – condição que não agradava muito ao seu pai, Edward, presbisteriano rígido e ultraconservador, que via na imagem feminina um ser “emoldurado” para as atividades do lar. Mesmo com a recusa paterna, tal vida “podada” e de “clausura” contribuiu bastante para a sua produção literária. Emily escreveu, aproximadamente, 1800 poemas e uma infinidade de cartas, tais escrituras só foram divulgadas depois de sua morte. Em vida, chegou a enviar alguns textos ao crítico Thomas Higginson, que os considerou impublicáveis. Diante da negativa do “analista”, a jovem julgou seus poemas incomunicáveis para o público leitor. Apesar disso, com o incentivo de poucos amigos, publicou cerca de 10 poemas em jornais locais.

Muitos dos poemas dickinsonianos são curtos, lembrando, às vezes, a estrutura dos haikais. A linguagem é concisa, truncada, por isso mesmo Emily é considerada “um dos grandes mestres da concisão verbal”. Há inúmeras peculiaridades na poética de Dickinson. A escritora tinha a liberdade de “brincar” com a linguagem. Desta forma, sua obra não apresenta uma pontuação padrão, suas rimas não são perfeitas, além de abusar das letras maiúsculas. Outra particularidade que chama a atenção em sua poesia é o uso excessivo da disjunção, geralmente confundida com o travessão, que serve para dar um ritmo diferenciado a alguns versos.

Os temas mais presentes de sua poética são a morte, o silêncio, a natureza, a religião, o conflito com Deus e o amor. O silêncio, que geralmente lembra ausência, torna-se assunto recorrente em sua obra. Emily, de maneira paradoxal, tinha necessidade de falar sobre a quietude, como se ela não pudesse ser guardada. Esse silêncio, em Dickinson, é a exigência de uma espera. Maurice Blanchot, em L’Écriture du Desastre, escreve:

“O silêncio não se guarda, ele não diz respeito à obra que pretendesse guardá-lo- ele é a exigência de uma espera que não tem nada a esperar, de uma linguagem que, supondo-se totalidade de discurso, gastar-se-ia em um golpe, desunir-se-ia, fragmentar-se-ia sem fim.” (página 51)

1Através da imagem do silêncio, a poetisa escreve sobre a ocultação de palavras – ditas ou escritas – e o quanto essa apartação é uma manifestação de um sentimento maior. O signo do “silêncio” representa uma falta, um vazio e, por isso,segundo a autora, muitos têm medo do calar, sem saber o quanto o silenciar pode ser bonito e forte para se eternizar algo. Enfim, aceitar que essa mudez pode ser mais bela e intensa do que palavras que expressam. Nota-se que, contraditoriamente, a ausência dickinsoniana torna-se presença. Em alguns poemas sobre o silêncio, lê-se:

“É certa a Opinião geral/ Pensamos nós/ Que a Eloquência é o Coração/ Ficar sem Voz.” (página 85)

“O Silêncio amendronta/ Conforta-nos a Fala – / Mas o Silêncio é Infinitude./ Silêncio não tem cara.” (página 149)

“As palavras na boca dos felizes/ São músicas singelas/ Mas as sentidas em silêncio/ São belas-” (página 247)

O “silêncio tumular” leva a outro tema recorrente em sua poética: a morte, ou “o continente desconhecido”. Segundo José Lira em Emily Dickinson: A Críptica Beleza, a morte permeia quase toda a obra da escritora:

“A morte é sem dúvida, um dos motivos centrais de sua poesia,e para muitos é a força dominante, mas quase sempre está interrelacionada com outros temas: a fé e a dor, por exemplo, ou a vida e a natureza… A temática amorosa convencional está também explícita em algumas produções ao gosto ultra-romântico, por conta dos aspectos peculiares à fixação de sua obra. “

Em seus poemas, tal qual menciona José Lira, a morte surge, geralmente, com esta face dialética. O fim pode ser em vida, isto é, os pequenos lutos que vivencia-se no decorrer da existência: a perda de um amor, de um amigo, a falta de liberdade, pequenas perdas pessoais. Emily cogita a possibilidade da obstrução da morte pelo amor e pelo prazer. Em seus poemas, o desaparecimento físico pode ser fútil, diante da evidência da lembrança ou da vida eterna. Lê-se:

“Enfim chegou porém a Morte/Já ocupara a casa – /Dera-lhe a pálida mobília/ E a metálica paz – / Oh se fiel como a Frieza/ Tivesse o Amor chegado/ Para o Prazer obstruir a Porta/ E ninguém mais entrar.” (página 51)

“Quem morre, Amor, pouco lhe basta-/ Um Copo d’Água para a sede,/ Uma discreta Flor em frente/ Realçando a Parede,/ Talvez um Leque, um Amigo aflito,/ E a Convicção que alguém na vida/ Não verá cores no Arco-Íris/ Após tua Partida.” (página 289)

A filha introspectiva e solitária do advogado Edward Dickinson, nascida em 10 de dezembro de 1830, no fim da vida, passou por um prolongado período de doença, vindo a falecer de nefrite, no dia 15 de maio de 1886. Para a irmã Lavínia, fez o pedido derradeiro: que queimasse todos os seus poemas e cartas. Ao se deparar com o vasto material de Emily, Lavínia ficou comovida e, ao invés de atender ao seu pedido, lutou para publicar tão fascinante obra. Hoje, Dickinson é considerada uma das maiores poetisas de língua inglesa. A silenciosa Emily,de aparente vida e escrita provinciana, fez de seus versos lírica universal.

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