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Acervo de Lima Barreto vira ‘memória do mundo’ da Unesco

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Lima Barreto - Arquivo

Lima Barreto – Arquivo

 

Páginas reúnem dissabores, angústias, inquietações e reflexões do escritor

Daniel Salgado, em O Globo

RIO — No dia 3 de janeiro de 1905, Lima Barreto escreveu, em seu diário: “Resolvi fazer dessa nota uma página íntima, tanto mais íntima que é de mim para mim, do Afonso de vinte e três anos para o Afonso de trinta, de quarenta, de cinquenta anos”.

Morto aos 42 anos (em 1922), o escritor não pôde rever, aos 50, as páginas íntimas em que despejava dissabores, angústias, inquietações e reflexões sobre seu cotidiano no Rio de Janeiro. Mas elas foram preservadas, e fazem parte, com outros 1.100 documentos, aproximadamente, do Arquivo Lima Barreto, da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional. Todos eles integram, a partir deste mês, o Programa Memória do Mundo, da Unesco.

Não é a primeira vez que o título é concedido a um acervo da Biblioteca Nacional, mas trata-se de uma conquista importante num ano em que o autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” tem merecido destaque — foi o homenageado da 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty. Ainda que não ofereça aportes financeiros diretos, o projeto ajuda na divulgação dos arquivos contemplados.

— Esse título dá mais visibilidade ao acervo, muitas vezes ajudando a trazer patrocínios. Também podemos usar o selo Memória do Mundo para publicações futuras desse material — diz Ana Lucia Merege, da Divisão de Manuscritos da biblioteca e responsável pelo processo de inscrição no edital do órgão das Nações Unidas. Segundo ela, é um espaço importante de reconhecimento do valor do material preservado.

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— Temos os originais literários dele e os diários. E também anotações sobre literatura e correspondência com nomes importantes da época, como Monteiro Lobato, que foi editor de Lima, e Olavo Bilac. Trata-se de uma obra que abordou importantes questões sociais e culturais. Traça um panorama do Rio e do país na virada do século — avalia ela.

O Arquivo Lima Barreto inclui ainda recortes de jornais e material relativo à publicação de livros (contratos, recibos, faturas…), além de documentos pessoais. Todos os itens estão sendo digitalizados pela Biblioteca Nacional, que prevê submeter à Unesco outros acervos sob sua guarda.

— É possível propor parcerias quando não é todo o material que está aqui. Poderíamos fazer isso no caso de Carolina de Jesus — explica ela, referindo-se aos originais e outros documentos da autora de “Quarto de despejo”, depositados em mais de uma instituição.

Homenageado da Flip, Lima Barreto será retratado em filme

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O escritor Lima Barreto será homenageado na Flip 2017 – Divulgação

Com direção de Luiz Pilar, longa vai encarar aspectos da vida pessoal de escritor

Mateus Campos, em O Globo

PARATY — Depois de passear pelas ruas paratienses, Lima Barreto irá ao cinema. Homenageado pela Flip deste ano, o escritor será tema do longa “Lima Barreto, ao terceiro dia”, dirigido por Luiz Pilar e coproduzido por Globo Filmes, Canal Brasil e Telecine.

O filme é um desdobramento da peça que Pilar montou em 2013, com texto de Luis Alberto de Abreu, e, a princípio, terá no elenco Luís Miranda, Sidney Santiago, Paulo Betti e Julia Lemmertz. A previsão de lançamento é agosto de 2018.

A obra do escritor carioca já havia ido parar nas telonas em 1998 com “Policarpo Quaresma, herói do Brasil”, de Paulo Thiago. O filme de Pilar, no entanto, pretende encarar aspectos da vida pessoal dele, intercalando realidade, fantasia e memória.

Lima Barreto aparece aos 41 anos, nos três dias da sua última internação no manicômio — o escritor lutava contra problemas psiquiátricos decorrentes do abuso do álcool.

As alucinações do autor de “Clara dos Anjos” foram fartamente documentadas por ele no célebre “Diário do hospício”. Esses textos, além da consagrada biografia de Francisco de Assis Barbosa, que ajudou a recuperar o prestígio do autor nos anos 1950, foram matéria-prima para a construção do roteiro.

No campo da “realidade”, o Lima velho (Luís Miranda) enfrenta a internação. Enquanto isso, na “memória”, o jovem escritor (Sidney Santiago) escreve seu romance mais conhecido. Na “fantasia”, personagens da obra, como Policarpo (Paulo Betti) e sua irmã (Julia Lemmertz), dialogam com o autor.

— Os três planos vão interagir. Os personagens do romance discutem questões sociopolíticas do momento em que o livro foi escrito. E os questionamentos que o Lima faz no romance, continuam atuais — explica. — Em 2013, a montagem do espetáculo coincidiu com as manifestações no país, e me perguntavam se eu tinha feito de propósito. Mas a verdade é que o Brasil é que insiste em não mudar.

Homenagem na Flip faz editoras investirem em relançamentos de obras de Lima Barreto

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Prateleiras com livros de Lima Barreto, e sobre ele, na Livraria da Travessa de Paraty - Mônica Imbuzeiro

Prateleiras com livros de Lima Barreto, e sobre ele, na Livraria da Travessa de Paraty – Mônica Imbuzeiro

 

Romances em folhetim, crônicas e biografias compõem ampla oferta de títulos

Leonardo Cazes, em O Globo

PARATY — Na Livraria da Travessa montada especialmente para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), as obras de Lima Barreto se multiplicam, num reconhecimento que o autor nunca teve em vida. A razão para a profusão de publicações é simples: toda a obra do autor entrou em domínio público em 2002, 80 anos após a sua morte, de acordo com a legislação brasileira. Em 15 edições da Flip, esta é apenas a segunda em que um autor em domínio público é homenageado. Antes de Lima, só Machado de Assis, reverenciado em Paraty em 2008, podia ser publicado livremente.

Na corrida para aproveitar o burburinho gerado pela festa em torno da obra do escritor, cada editora apostou numa leitura diferente de sua obra. A Carambaia, casa paulista que há dois anos vem se destacando por publicar edições caprichadas de obras em domínio público, decidiu investir na reedição de dois romances menos lembrados de Lima: “Os bruzundangas” e “Numa e a ninfa”.

Ambos foram publicados originalmente como folhetins, em jornais da época. Suas edições originais eram muito simples e basicamente aproveitavam as chapas montadas para imprimir os textos no jornal. A editora Graziella Beting, da Carambaia, explica que os jornais foram a inspiração do projeto gráfico concebido pelo designer Fernando Vilela, que fala hoje na Casa do Papel, (Av. Otávio Gama 142) às 13h30m.

— O Fernando enlouqueceu com essa história de ter saído no jornal e foi à Biblioteca Nacional ver os originais onde foram publicados — conta ela.

Graziella explica que o fato de a obra ser de domínio público não torna a edição mais fácil. A própria fixação do texto é difícil, já que os jornais do início do século XX vinham com muitos erros, as chamadas “gralhas”. Na Biblioteca Nacional, onde está depositado o arquivo de Lima Barreto, ficam os originais anotados dos dois romances. Mas mesmo isso provoca discussões. A solução encontrada foi recorrer a uma especialista, a crítica Beatriz Resende, que assina a organização e posfácio.

— O processo de edição é também uma forma de interpretação da obra — diz Graziella. — Agora, esses textos estão sendo editados como clássicos.

Já a Autêntica preparou a edição de uma seleção de crônicas de Lima Barreto sobre o Rio de Janeiro, também organizada por Beatriz Resende, “Lima Barreto — Cronista do Rio”. A editora Maria Amélia Mello conta que a casa já preparava a reedição da biografia “A vida de Lima Barreto”, de Francisco de Assis Barbosa, e queria fazer algo especial para a Flip. A proposta do livro surgiu a partir da própria Beatriz.

— Já tínhamos reeditado o “Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos” e estávamos pensando em algo para a Flip. Ganhamos um edital da Biblioteca Nacional e fizemos essa parceria para publicar fotografias históricas da cidade que estão no acervo da instituição — conta Maria Amélia.

Já a Global Editora aproveitou a homenagem a Lima na Flip para colocar na rua “Lima Barreto para jovens”, uma seleção de crônicas destinados a adolescentes. A série “para jovens” já publicou vários autores, como Marina Colasanti e Ignácio de Loyola Brandão. O editor Gustavo Henrique Tuna explica que, para selecionar os 29 textos, o critério foi buscar os que ainda soam atuais.

— Há crônicas sobre política e sobre as reformas urbanas que podem ser lidas hoje tranquilamente, mantêm uma atemporalidade. Por exemplo, quando o Lima fala das mudanças no Rio de Janeiro. A cidade passou por outra reforma urbana recentemente. O jovem pode se surpreender — afirma Tuna.

Já a Penguin-Companhia, que vem reeditando toda a obra do escritor há alguns anos, preparou para a Flip novas edições de “Numa e a ninfa” e “Impressões de leitura e outros textos críticos”, todas comentadas. Tem-se, assim, um múltiplo Lima nas livrarias: do cronista do Rio ao autor que ganha um tratamento editorial destinado aos clássicos de capa dura. As novas edições dos seus romances ganham prefácios, ensaios e comentários inéditos, gerando um movimento de renovação na recepção de sua obra. Mais de cinco décadas após Francisco de Assis Barbosa fazê-lo renascer com a edição de suas obras completas, as leituras de Lima vivem, em 2017, um recomeço.

Lázaro Ramos abre a Flip lendo trechos de biografia de Lima Barreto

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Lázaro Ramos participa da cerimônia de abertura, que terá o lançamento de “Lima Barreto – Triste Visionário” ao lado da autora Lilia Schwarcz. O ator também estará em mesa na qual fala sobre sua autobiografia, “Na Minha Pele”

Publicado na Marie Claire

Flip – Lima Barreto começa nesta quarta (dia 26) com Lázaro Ramos realizando uma leitura da biografia Lima Barreto – Triste Visionário, na qual a escritora Lilia Schwarcz narra a trajetória do primeiro autor negro homenageado pela Feira Literária de Paraty. “Vai ser muito legal”, acredita Lázaro. “Adoro a Flip. Fui a primeira vez no ano passado para lançar um livro infantil, na Flipinha”, diz ele.

Lázaro Ramos (Foto: Bob Wolfenson)

Lázaro Ramos (Foto: Bob Wolfenson)

O ator leva consigo Na Minha Pele (Objetiva/Companhia das Letras), mescla de autobiografia e estudo sobre o racismo na qual Lázaro Ramos conta suas experiências pessoais, desde a infância. A obra foi lançada em junho e está na lista de livros mais vendidos: “A Flip será o primeiro grande evento em que vou poder experimentar o livro e ver como as pessoas o receberam”, acredita Lázaro. “Venho escrevendo já faz um tempo para crianças ou peças infantis… A Flip tem um lugar de reflexão importante para a literatura que eu não tinha acessado com um livro adulto. Vai ser muito importante”.

A edição deste ano do evento tem outra característica marcante: é a primeira vez que a maior parte da programação é dominada por mulheres, como um reflexo da curadoria de Josélia Aguiar, primeira mulher à frente do programa da feira. Entre os destaques, autoras africanas ou de origem afrodescentes como a franco ruandesa Scholastique Mukasonga, a brasileira Conceição Evaristo e a angolana Djaimilia Pereira de Almeida.

A seguir, confira a segunda parte da entrevista exclusiva de Lázaro Ramos à Marie Claire, na qual ele fala sobre sua iniciação sexual, a parceria com Wagner Moura e responde a pergunta: É bom ser negro no Brasil?

MC Você foi um adolescente feliz?
LR Não pensava sobre isso porque tinha urgência em ter trabalho, receber um salário mínimo, o ritmo da vida não permitia parar para ficar lamentando. Eu era muito tímido e sempre me cobrei muito. Eu não ia a festas, queria ser bom aluno na escola, sentar na cadeira da frente, ser responsável. Começar a fazer teatro, aos 15 anos, me trouxe um pouco mais de relaxamento. Me mostrou que ter prazeres não ia me atrasar em nada. A arte me salvou.

MC Usa drogas? Defende a legalização?
LR Não vou dizer que sou moderninho, que já usei, porque não é verdade. Quero dizer, eu bebo. Sobre legalização, não consigo ter uma opinião. Fui criado com medo de tudo, inclusive de maconha. Uma vez, um primo fumou e foi pego. Rolou reunião de família. Foi um drama. Convivo com amigos que fumam e não vejo alteração no comportamento deles.

MC Como foi sua iniciação sexual?
LR Com minha primeira namorada, aos 17 anos. Disse a ela que já tinha transado horrores, para parecer que era experiente, mas não tinha ideia do que fazer quando me vi no quarto. Lembro que caprichei na saliva pro beijo, porque li que dava mais tesão [risos], mas achei nojento e engoli. Não sabia se chupava as partes íntimas dela ou se aquilo era asqueroso.

MC Quem tomou a iniciativa de voltar?
LR Para mim, nunca me separei. Sempre disse a ela: “Isso é só um tempo, mas a gente volta”. Ficava enchendo o saco. Não parava de telefonar para ela.

MC O que foi fundamental para formar esse Lázaro que existe hoje?
LR A infância, tanto na casa de Dindinha, em Salvador, quanto na ilha do Paty, a uma hora dali. Crescer na ilha, um lugar lúdico, viver num quintal, que me protegeu da rua e me deu uma possibilidade criativa, definiram quem sou e a escolha da profissão. Quando vou trabalhar, ainda acho que estou naquele quintal, brincando nas ruas. Ao mesmo tempo, ao vir para o Rio, deixar uma família que me amava, o Bando de Teatro Olodum, no qual um ator negro não tinha limites para viver um personagem, me apresentou outros desafios. Ter encontrado diretores como Karin Aïnouz, que investiu num rapaz de 21 anos como protagonista de Madame Satã, foi uma loucura! Nunca tinha feito um homossexual e fui desafiado a fazer não cenas de sexo gay, mas de amor gay.

MC Você tinha preconceito antes?
LR O Zebrinha [José Carlos Arandiba, diretor do Balé Folclórico da Bahia], meu mestre artístico, é gay e casado há 25 anos. Um dos meus primeiros conceitos de família foi a dele. Por outro lado, ao ler o roteiro pensei: “Pô, tem cenas de sexo, vou ter de ficar nu…”. Tinha toque, tinha pele. Mas tenho a tendência a me envolver com os personagens e estava tão apaixonado por Madame Satã que fiz tudo com facilidade.

MC Você é movido pela paixão até hoje?
LR Sou ator há 27 anos, mas continuo me impondo desafios. Depois do Foguinho, só recebi convites para fazer comédias e neguei. Não fui para esse lugar seguro. Persigo até hoje a paixão que senti por Madame Satã.

MC No livro, você conta que recusou personagens importantes porque não segura uma arma. Como é isso?
LR Pelo jeito que mostram os negros em cena, decidi que não aceitaria viver esse tipo de personagem, virou uma regra. Não queria que as pessoas vissem um ator negro nessa situação. Isso fez diferença no meu processo criativo e na maneira como as pessoas me encaram como ator. Não contribuo para que o negro seja visto como bandido. (mais…)

O que Lima Barreto e Clarice Lispector escreveram sobre o Carnaval?

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Uma seleção de textos pouco conhecidos de cinco escritores brasileiros sobre o tema

Mariana Filgueiras, em O Globo

A primeira vez que Clarice Lispector teve uma fantasia de carnaval feita especialmente para ela, nos anos 1930, uma rosa, com as sobras de papel crepom de uma amiga, aconteceu um imprevisto e… provocou uma crônica comovente, escrita pela autora muitos anos depois. Quem também descreveu a sensação de sair às ruas fantasiado foi Mário de Andrade, em 1943, se lambuzando “com o zarcão da alegria”. Quando o escritor Raul Pompeia, ainda no fim do século XIX, viu pela primeira vez o cortejo de rua do Recife, escreveu um texto embevecido no jornal para o qual colaborava, o mesmo em que publicaria depois o seu clássico “O ateneu”. Já no início do século XX, um alegre Lima Barreto filosofaria sobre a importância de se deixar o tantã espancar “a tristeza que há nas nossas almas”.

Em 1954, o cronista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, contou, numa “metacrônica” de carnaval, que a melhor lembrança que tinha da festa era também a mais simples: sair, menino, batendo bumbo pela vizinhança.

Muitos autores brasileiros já escreveram sobre o carnaval. Selecionamos alguns textos menos conhecidos para embalar a folia que começa hoje.

LIMA BARRETO

“O carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enchem de prazer.

Todos nós vivemos para o carnaval. Criadas, patroas, doutores, soldados, todos pensamos o ano inteiro na folia carnavalesca.

O zabumba é que nos tira do espírito as graves preocupações da nossa árdua vida.

O pensamento do sol inclemente só é afastado pelo regougar de um qualquer “Iaiá me deixe”.

Há para esse culto do carnaval sacerdotes abnegados.

O mais espontâneo, o mais desinteressado, o mais lídimo é certamente o “Morcego”.

Durante o ano todo, Morcego é um grave oficial da Diretoria dos Correios, mas, ao aproximar-se o carnaval, Morcego sai de sua gravidade burocrática, atira a máscara fora e sai para a rua.

A fantasia é exuberante e vária, e manifesta-se na modinha, no vestuário, nas bengalas, nos sapatos e nos cintos.

E então ele esquece tudo: a Pátria, a família, a humanidade. Delicioso esquecimento!… Esquece e vende, dá, prodigaliza alegria durante dias seguidos.

Nas festas da passagem do ano, o herói foi o Morcego.

Passou dois dias dizendo pilhérias aqui; pagando ali; cantando acolá, sempre inédito, sempre novo, sem que as suas dependências com o Estado se manifestassem de qualquer forma.

Ele então não era mais a disciplina, a correção, a lei, o regulamento; era o coribante inebriado pela alegria de viver. Evoé, Bacelar!

Essa nossa triste vida, em país tão triste, precisa desses videntes de satisfação e de prazer; e a irreverência da sua alegria, a energia e atividade que põem em realizá-la, fazem vibrar as massas panurgianas dos respeitadores dos preconceitos.

Morcego é uma figura e uma instituição que protesta contra o formalismo, a convenção e as atitudes graves.

Eu o bendisse, amei-o, lembrando-me das sentenças falsamente proféticas do sanguinário positivismo do Senhor Teixeira Mendes.

A vida não se acabará na caserna positivista enquanto os “morcegos” tiverem alegria…

“O morcego”,1915

SERGIO PORTO

“‘Por que não escreves uma história de Carnaval?’ Olhem, até que não é má ideia. Claro que tomarei cuidado, nada de usar a palavra “fulgor”, ou combinar o adjetivo “estonteante” com o substantivo “alegria”. É da máxima importância não dizer que “esta vida é um Carnaval”.

Assim, evitado o lugar-comum, o assunto já me parece mais digno de ser abordado.

Todos nós temos um Carnaval para recordar e todas as revistas têm uma enquete para fazer: Qual o seu Carnaval inesquecível? Ora, direis, ides falar na alegria que adivinháveis ao vosso leito de enfermo. Ides contar a ideia que tínheis de um Carnaval imaginado através do relato de adultos. Isso é muito manjado. Quando a revista vem com a pergunta, o perguntado já tem a resposta pronta:

— O meu Carnaval inesquecível eu não o vivi, mas adivinhei-o, impossibilitado de brincar. Calma! O cronista pede calma e pede também ao respeitável público que não se anteceda à sua crônica, caso contrário, não poderá trabalhar.

Já disse, linhas atrás — e não custa nada repetir — que farei o possível para evitar o lugar-comum, quer nas expressões como no relato. Tomarei cuidado com o emprego das palavras, já que, falar em carnavais que não vi é muito fácil porque no tempo em que os adultos eram outros, eu não me preocupava em ser alegre — a alegria vinha naturalmente. Quanto a passar o Carnaval doente e de cama, isso — graças a Deus — nunca me aconteceu.

Mas antes que eu me esqueça e tenha que começar tudo outra vez, passemos ao meu Carnaval inesquecível.

Foi simplesinho até. Quem tivera a lembrança de organizar o bloco de sujos não sei. Provavelmente o Miloca, que ainda hoje seria um dos grandes foliões desta terra, se uma pneumonia dupla, às vésperas do advento da penicilina, não o tivesse levado para outros carnavais.

Pois o Miloca, quando eu cheguei na esquina em que nos reuníamos todas as tardes, tentava convencer a turma de organizar a coisa. Minto! A ideia não foi do Miloca. Agora me lembro. Quem a teve foi o “Filé de Trilho”, graças à sua ideia fixa: o dinheiro.

Estava ele na esquina a enumerar as vantagens de um bloco de sujos, insistindo muito num ponto, qual fosse o de passar um pratinho, que esse tipo de cordão dá direito a passar um pratinho. O “Filé de Trilho”, até o dia em que se casou com uma moça não de todo bela, porém irresistivelmente rica, nunca pensou em outra coisa a não ser em tomar o dinheiro dos outros. Fosse no bilhar ou no pôquer, na conversa ou no bloco de sujos.

Tomadas todas as providências, saímos por aí. Eu tinha a meu cargo a batida do bumbo. Dentro de um terno velho, desprezado pela elegância paterna, com o paletó vestido pelo avesso, as calças enormes e uma gravata-borboleta minúscula, colaborava com um toque chapliniano para o sucesso do cordão.

O itinerário, para que a coisa rendesse mais (ideia do “Filé”), seria percorrido pelas casas dos parentes de cada um de nós. Já tínhamos feito bem uns trinta mil-réis, quando, a uma esquina, justamente quando nos dirigíamos para a vila onde morava minha tia, surgiu em sentido contrário outro bloco, inegavelmente melhor que o nosso, já que, nele, a graça feminina colaborava.

Miloca, nosso porta-estandarte, quis confraternizar com a mais engraçadinha das moças adversárias, no que foi incompreendido, a julgar pelo pontapé que lhe deram no lugar onde se dá pontapé.

O pau comeu durante uns quinze minutos, pelo menos. Cada um soltando o braço como podia. Felizmente, para contrabalançar as calças que me sobravam e me tolhiam os movimentos, estava eu de bumbo, instrumento que, além de me servir como escudo, ainda me ajudava no ataque. Dei o máximo de bumbadas que me foi possível e mais daria se, auxiliados pelos circunstantes, alguns guardas não interviessem de forma conciliadora.

Voltei para casa com os restos do que foi o meu primeiro e último bumbo, comprado por uma bagatela na loja do turco Mansur.

Sofri os castigos de praxe e, muitos dias depois, a batalha campal ainda era comentada na esquina, com exuberância de detalhes. Mesmo Miloca, de natural tão pacato, mentiu a valer, contando-me como quebrara o porta-estandarte na cabeça de um inimigo. E eu ouvia tudo interessado, sem perceber que aquele foi o melhor Carnaval de minha vida. Rei Momo que desculpe este seu indisciplinado súdito.

“Memórias de um carnaval”, 1954

CLARICE LISPECTOR

Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartasfeiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.

Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas – à idéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha — mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho, que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.

Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.

Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil — fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.

Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

“Restos de carnaval”, 1968

RAUL POMPEIA

“Às quatro da tarde, começa. O povo alvoroçado derrama-se pelas ruas. Encarapitam-se às guarnições de ferro das pontes, formando verdadeiros cachos humanos, cujo aspecto caprichoso a placidez das águas reproduz em grandes manchas escuras incertas que o refluxo do rio não consegue dissolver. Apinham-se ao longo das calçadas e em toda a linha do cais; enchem as praças. Às janelas, de todos os andares de todos os prédios, as senhoras debruçam-se, olhando, sobre a multidão, massa preta confusa de ombros e chapéus que se agita, produzindo um vasto zumbir de vozes e passos. Pouco a pouco, começa a negra multidão a pentear-se de cores claras. Aqui vermelho, acolá verde, roxo àquela esquina, azul mais adiante, branco em muitos lugares. Multiplicam-se os pontos e as cores, surgem, na onda do povo, como estrelas, ao cair da noite, uns após outros, aos grupos, às porções, alinhados, dispersos.”

“O carnaval no Recife: impressões de viagem”, 1886

MARIO DE ANDRADE

“(…)Também quis celebrar o Rei Momo e logo me vesti de azul e encarnado. Então me olhei no espelho e esmoreci. Não é que eu imagine indignidade desumana a gente estar se preocupando de alegria num momento como este, em que positivamente o mundo vai de mal a pior. Afinal de contas, eu já cheguei também àquele alto de montanha, muito avançado no caminho da experiência, para estar mais ou menos desconfiado de que sempre o mundo foi de mal a pior. E apesar disso ele ainda está aí, bastante ativo e um pouco perturbado. Talvez não faça mal que, de permeio a missões de SOS financeiro e leis de segurança para os governinhos bastante perturbados, a gente se enlambuze, por uma quarta-feira apenas, com o zarcão da alegria.(…)”

“Rei Momo”, 1943

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/livros/o-que-lima-barreto-clarice-lispector-escreveram-sobre-carnaval-20980215#ixzz4ZhRpKJsN
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