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Quero ser lido em Marte e outros links

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Sérgio Rodrigues, no Todoprosa

1A notícia que começou a circular há alguns dias parece piada, mas não é. Trata-se apenas de um concurso literário do outro mundo: a Nasa, agência espacial americana, vai escolher três haicais num concurso de mensagens poéticas para Marte e gravá-los num DVD a ser levado ao Planeta Vermelho na missão Maven, com lançamento marcado para novembro (via Guardian).

Como se sabe, haicai (também chamado haiku) é um poema de apenas três versos, de origem japonesa. As inscrições são abertas a todos e vão até 1º de julho. Uma votação online apontará os vencedores.

Não, ninguém espera encontrar em Marte um público leitor para os poeminhas. A mensagem é dirigida aos próprios terráqueos, em busca de apoio popular para a contestada causa da exploração espacial. Isso é tornado mais evidente pela promessa de que os nomes de todas as pessoas que entrarem em contato com a missão manifestando esse desejo também serão gravados no tal DVD.

Depois de refletir longamente sobre tudo isso, pensei em enviar minha modesta contribuição:

Nada de arte, Marte:
A Terra é feita de terra
Água e marketing.

Mas desconfio que desclassifiquem textos em português.

*

O cineasta Steven Soderbergh, de “Sexo, mentiras e videotape” e “Traffic”, está publicando desde 28 de abril uma novela policial no Twitter (twitter.com/Bitchuation). Chama-se Glue e tem o apoio de fotografias. O décimo quarto dos capítulos curtinhos acaba de chegar ao fim (via Salon.com).

Se eu estou gostando? Não exatamente. Ficções mais longas servidas como picadinho no Twitter ainda estão naquela fase que se chama de “experimental”, em que os melhores esforços costumam merecer, no máximo, adjetivos como “interessante” ou, pior, “válido”.

O principal desafio é impedir que o limite de 140 caracteres soe arbitrário e gratuito, características que costumam ser hostis à qualidade literária, principalmente quando se trabalha com formas sucintas.

Embutir na própria história um sentido para a forma soluçante é algo que, na minha opinião, ninguém fez melhor até agora do que Jennifer Egan em seu já clássico Blackbox. Talvez Soderbergh concorde, pois usa uma voz narrativa (em segunda pessoa) que tem semelhanças com a da novelinha de Egan.

Será que você devia, como autor de ficção, permitir que seus personagens tenham sonhos? Algumas pessoas acham uma má ideia, mas não há nada que o impeça: as pessoas sonham mesmo, sonham todas as noites, e ter personagens que não sonham de jeito nenhum é como ter personagens que não comem. Mas isso também não é um problema: algumas histórias não tratam de sonhos nem de comida. Ficaríamos chocados se Sherlock Holmes, James Bond ou Miss Marple começassem de repente a contar seus sonhos, embora novas gerações de heróis de thrillers e romances policiais sejam autorizados hoje – eu percebo – a ter mais vida pessoal. O que pode incluir mais sonhos. Mas não muitos mais. Você não vai querer que os sonhos atravanquem o caminho dos cadáveres.

Deixe o personagem sonhar se for preciso, mas tenha em mente que os sonhos dele – diferentemente dos seus próprios – terão um significado atribuído a eles pelo leitor. Seus personagens terão sonhos proféticos, prevendo o futuro? Terão sonhos sem consequência, como na vida real? Usarão os relatos de seus sonhos para irritar ou agredir ou iluminar outros personagens? Muitas variações são possíveis. Como em tantos outros aspectos, não é uma questão de fazer ou deixar de fazer, mas de fazer bem ou fazer mal.

Numa série que vem sendo publicada pelo blog da “New York Review of Books” sobre o papel dos sonhos na ficção, é a vez das considerações práticas e caseiras da escritora canadense Margaret Atwood (em inglês, aqui).

Um dia a casa cai

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Com apoio estadual, a casa de Guimarães Rosa em Cordisburgo é um exemplo bem-sucedido de museu com atividades culturais, recebendo 33 mil visitantes em 2012

Com apoio estadual, a casa de Guimarães Rosa em Cordisburgo é um exemplo bem-sucedido de museu com atividades culturais, recebendo 33 mil visitantes em 2012

Joselia Aguiar, no Valor Econômico

Austero quando prefeito e avesso à autopromoção, Graciliano Ramos talvez aprovasse o estado-limite da casa onde morou e hoje abriga o museu que leva seu nome em Palmeira dos Índios, a cerca de 120 km de Maceió. A principal atração turística da cidade funciona de domingo a domingo e recebe escolas de todo o Estado. No ano passado, foram 16 mil alunos. Somando os turistas, foram 22 mil visitantes.

O museu funciona, mas longe do recomendado. Falta climatização; o modelo das vitrines, hoje, é vetado por museólogos; fiação e canos precisam de reparos e faltam equipamentos de segurança. O imóvel não passa por manutenção há duas décadas.

“Não, Graciliano não aprovaria”, diz João Tenório, responsável pela conservação e divulgação da casa-museu há 16 anos, algo como um administrador-geral. “O mestre sabia da importância da cultura.”

Para falar com Tenório, disca-se o número do celular, pois não há telefone na instituição. O administrador-geral não esconde a admiração pelo autor, que, na função de intendente, escreveu relatórios de prestação de contas ao governo que lhe trouxeram fama. Graciliano concebeu ali dois romances, “Caetés” e “São Bernardo”. Ele denunciava nos artigos e livros problemas que, ressalta João Tenório, são atuais não só em Alagoas, mas em todo o país.

A recente extinção da Secretaria de Cultura em Palmeira dos Índios – medida com que o prefeito reeleito James Ribeiro (PSDB) espera reduzir gastos em meio a uma arrecadação irrisória de ISS e IPTU – alarmou Luiza Ramos, única filha viva de Graciliano. “A situação é muito preocupante, o acervo está em risco”, disse. A casa-museu surgiu com a doação de sua mãe, Heloísa Ramos, em 1973. O acervo do escritor se distribuiu por quatro instituições. O IEB [Instituto de Estudos Brasileiros], da Universidade de São Paulo, ficou com a maior parte dos originais e manuscritos. O Arquivo Público de Maceió e o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas receberam cartas, jornais e documentos relacionados ao Estado. Em Palmeira dos Índios, conservam-se objetos pessoais, que também precisam de restauro: a máquina de escrever e a cadeira, o barbeador elétrico, roupas, título de eleitor e passaporte, manuscritos e edições de livros.

Graciliano já apareceu em campanha publicitária do governo alagoano como o pai da responsabilidade fiscal no país. Para Luiza Ramos, porém, “o Brasil todo gosta de Graciliano, menos Alagoas”. Em março, os 60 anos de morte do escritor foram lembrados em eventos no país. Em julho, ele será o homenageado na Flip. Como a casa-museu não tem recursos para montar um estande, há risco de não conseguir se representar em Paraty.

Casa de Jorge Amado espera há oito anos para ser tombada, mas, se fosse, talvez não estivesse tão preservada

Em Ilhéus, no sul da Bahia, o quadro é semelhante. O prefeito, James Ribeiro (PP), assumiu o cargo declarando situação de emergência, com contas da prefeitura bloqueadas. Dois centros culturais estavam ameaçados de interdição: além do Teatro Municipal, a casa de cultura de seu artista mais famoso, Jorge Amado. Infiltração, vigas frágeis e ar-condicionado à beira do colapso demonstram que a casa precisa de reforma, como diz João Jorge Amado Filho, neto do escritor.

Em Salvador, outro lugar amadiano se encontra num impasse. A Casa do Rio Vermelho, onde Jorge viveu com Zélia Gattai por mais de 40 anos, ainda não se tornou um memorial, mas o projeto existe há oito anos. Seria mantido como uma PPP (parceria público-privada), modelo semelhante ao de três casas do poeta Pablo Neruda (1904-73), no Chile, e quatro do pintor Diego Rivera (1886-1957), no México. Em 2006, o Conselho Estadual de Cultura da Bahia negou o tombamento. A decisão dificultou a criação do memorial, mas não a manutenção do imóvel. Tombado, talvez não estivesse conservado como está. “Ainda queremos ver a casa transformada em memorial, mas a cada dia é um sonho mais distante”, diz João Jorge. “Na passagem do centenário [de Jorge Amado], nenhuma empresa, nem o governo mostrou interesse em nos ajudar.”

A diferença entre estar ligado a uma prefeitura em dificuldades ou a um governo dotado de mais recursos pode ser atestado numa experiência mineira, o Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, a 120 km de Belo Horizonte. O site da entidade é repleto de imagens e informações sobre atividades. “Somos tratados com muito carinho”, diz Ronaldo Alves de Oliveira, coordenador da instituição, que não depende da prefeitura da pequena cidade, mas da Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais, por meio da Superintendência de Museus e Artes Visuais. A casa onde o autor mineiro nasceu se tornou museu em 1974. Guarda documentos e originais, objetos pessoais e mobília. Em 2012, teve quase 33 mil visitantes, dentre os quais 25 mil estudantes.

Desde 1990, o museu tem ações educativas e culturais, em parceria com a Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa, com fontes variadas de patrocínios. Na Semana Roseana, anualmente realiza-se uma série de eventos, como oficinas literárias, apresentações teatrais e shows musicais. Uma atração permanente é o grupo de contadores de histórias Miguilim, com 52 jovens entre 11 e 18 anos, que recebem treinamento em técnicas de narração e se apresentam em todo o país.

Especialistas em gestão cultural argumentam que, com o financiamento privado incerto e sazonal, as entidades devem ser amparadas por instâncias públicas. “Governos não devem bancar tudo, mas devem ficar com a maior responsabilidade. As atividades nesses centros não são autossustentáveis. Não conheço outro modo de uma casa-museu funcionar: tem de ter subsídio”, diz Ronaldo Bianchi, consultor de gestão cultural da Animus Consultoria. Em casos dramáticos, quem cuida de uma casa-museu tem uma saída: “Procurem o Ministério Publico”.

Captar recursos privados com leis de incentivo só é “relativamente” fácil em grandes cidades do Sudeste e para projetos de visibilidade, diz Ilana Goldstein, professora de gestão de bens culturais na Fundação Getúlio Vargas. “Mesmo assim, resta o problema da manutenção permanente.” Gestores de casas-museus se queixam da dificuldade em manter equipe capacitada e permanente, em realizar obras de infraestrutura e até manter o ar-condicionado em funcionamento.

A ajuda pública contribui para que a Casa do Sol, sítio em Campinas onde viveu e escreveu Hilda Hilst, conseguisse o tombamento. Como grande propriedade em zona urbana, pagava R$ 100 mil em IPTU, valor incompatível com um instituto cultural. “A preservação e as atividades só se tornaram viáveis com o tombamento”, diz Daniel Fuentes, herdeiro e gestor do acervo. “Não se entendem demandas vinculadas à memória, só à edificação de valor arquitetônico. Foi preciso o apoio de dois secretários de Cultura e até do prefeito.”

Fuentes recomenda a seus pares um plano de negócios factível no mercado cultural brasileiro. “Deve-se buscar a maior diversidade possível de fontes de financiamento. Patrocínio é só uma das possibilidades e depende de sucessos anteriores da instituição.”

No caso de Hilda Hilst, incluem-se direitos autorais, o Programa de Residências Criativas e, agora, um teatro de arena recém-inaugurado graças a recursos obtidos com crowdfunding, em mobilização pela internet.

Livros combinam com rabiscos?

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Ítalo Anderson, no Transtorno Criativo

“Se riscar seu livro novamente, ficará de castigo!” foi o que ouvi de uma mãe ao educar seu filho, enquanto caminhava próximo a uma escola durante meu intervalo de almoço.

Fiquei a tarde inteira pensando sobre isso. Será que rabiscar os livros é característica de um mau aluno? Bom, entendo que não é agradável deixar marcas em objetos que pertencem a outra pessoa, uma biblioteca ou algum outro tipo de acervo. Mas quanto aos seus livros?

                                                                                   Rabiscos de Johny Dallasuanna

Na infância, sempre enchi de riscos meus livros, cadernos e até algumas provas (às vezes era preciso desenhar minha ideia). Tinha uma compulsão por rabiscos. Por mais que estivesse a responder questões de Literatura, Língua Portuguesa ou outra disciplina que lida com palavras, sempre desenhava no canto da folha, nem que fosse uma pequena estrela. Acredito essa ser uma prática importante para estimular seu cérebro a pensar criativamente. Designers, arquitetos, artistas visuais, ou qualquer outra pessoa que tenha o costume de esquematizar graficamente suas ideias sabem como é importante “rabiscar”. É daí que surgem ideias incríveis.

Portanto, só me resta a dizer, para aquele garoto e para pessoas de todas as idades: rabisque, rabisque muito. Não limite sua criatividade. Faça conexões. Puxe setas, desenhe, comente, grife. Dialogue com o livro! Se acha que o texto precisa de figuras, cole-as nas páginas em branco. É assim que se lê um livro, mergulhando nele e interagindo com cada palavra.

                                                                                   Rabiscos de Johny Dallasuanna

E se o espaço não for suficiente, ande sempre com um bloquinho na mochila ou no bolso. Rabisque onde sua imaginação permitir (e o seu bom senso).

O tablet também vale! Um aplicativo interessante é o SketchBook, da Autodesk. Além de oferecer uma versão gratuita, o SketchBook Express (aqui usuários Apple e aqui para Android) tem as cores e pincéis que você precisa para você fazer qualquer tipo de desenho.

Aproveito assunto do post para indicar um link interessante. O site A Graça da Química tem uma série de curiosidades sobre rabiscos. Não encontrei uma comprovação científica disso, mas vale a pena conferir!

Paulo Coelho: “Mais responsabilidade e menos trolagem”

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MEDITAÇÃO O escritor Paulo Coelho na Dinamarca, em 2007. Ele diz que, depois do susto que o coração lhe deu em 2011, quer ficar mais tempo na sua casa em Genebra, na Suíça (Foto: Joachim Ladefoged/VII/Corbis)

Publicado na Época

Em 2011, o escritor Paulo Coelho sofreu uma obstrução nas artérias do coração que o lançou ao limite entre a vida e a morte e o estimulou a repensar toda sua carreira de autor de sucessos. “Os momentos difíceis nos ensinam a viver melhor”, disse a ÉPOCA de sua casa em Genebra, na Suíça. Hoje, aos 64 anos, menos viajante e mais preocupado com a qualidade de vida, ele encontra tempo para meditar, planejar um romance a ser lançado em 2013 e fazer previsões. Nesta entrevista, discorre sobre o futuro do Brasil e do mundo. Segundo ele, a palavra de ordem para os meses que virão é “responsabilidade”.

1. ÉPOCA – Que sentimento o senhor recomenda à humanidade para os próximos meses?
Paulo Coelho –
 O sentimento da responsabilidade. A humanidade terá de ser mais responsável e menos destrutiva. A comunidade social permite que qualquer pessoa tenha uma voz que será ouvida. É preciso aproveitar isso para se fazer ouvir. É o contrário do que acontece hoje, nas caixas de comentários de notícias. Em vez de se dar conta de que são responsáveis pelo que dizem, elas se dedicam a criticar qualquer coisa e pessoa de forma violenta e indiscriminada. É o que se chama de “trolar” no jargão da internet. Faça com que sua voz seja ouvida com responsabilidade, e não como uma brincadeira. Mais responsabilidade e menos “trolagem”!

2. ÉPOCA – Que lugar inspirador ou para peregrinar o senhor recomenda para 2013?
Coelho – Peregrine por seu coração. Ele é inspirador. As pessoas estão frequentando muito a lógica e deixando de lado o sentimento. O coração tem uma caixa de ferramentas de que você precisará em 2013. Ali, você encontra a intuição e a capacidade de reagir rápido sem pensar muito. Com isso, não quero ser irracional. Refiro-me ao coração como metáfora, não como órgão. A linguagem do coração será cada vez mais importante. Usando seu coração, você volta ao estado de criança. Sem a ingenuidade da criança. Isso lhe dará condições de ser criativo para os desafios do ano. Fará você se adaptar às crises do mundo, como lidar com as novas linguagens. O coração pode não ser pragmático, mas é sábio. Procure conhecer o interior de sua alma. E assim estará no meio da tempestade, com raios e trovões a sua volta, e se sentirá bem. Você é um desconhecido, e seu potencial é maior do que você sabe. Passeando pela alma, você ficará feliz com o que encontrará. As pessoas temem a confrontação. No outono, as folhas brincam entre si que não querem cair, mas não adianta: elas cairão. A paz é uma utopia se associada à ideia de ausência de conflito. Aceite os conflitos, dê boas-vindas a eles e toque para a frente, porque isso é parte da condição humana.

3. ÉPOCA – Quais serão os maiores obstáculos para o crescimento pessoal humano em 2013?
Coelho –
 A zona de conforto será o pior obstáculo. Você cria essa zona achando que tem controle sobre tudo. Ora, isso é uma ilusão completa. No momento em que você acha que está tudo bem à sua volta, aí é que reside o perigo. Estou aqui parado, mas não me sinto tranquilo. Persigo a atividade, evitando a crença no controle. Aprendi isso em duas situações. A primeira foi em 1974, quando me achava o rei do mundo, porque tinha acabado de lançar a canção “Gita”, com Raul Seixas. Foi quando fui preso, desapareci – e aí meu mundo caiu. A segunda foi em 1979. Era um executivo de gravadora, achava que sabia aonde queria chegar. Troquei a Polygram pela CBS e aí fui mandado embora. Não consegui mais arranjar emprego. Foi uma bênção. Mas na hora você sofre. Você não tem controle sobre nada.

4. ÉPOCA – Que poder espiritual ou habilidade o senhor pretende desenvolver no ano que vem?
Coelho – Quero fazer algo de que não tenho certeza se conseguirei: aprender árabe e hebraico. Acredito que, no caso de línguas em conflito, como essas duas, quem sabe as palavras “não estão sendo mal traduzidas”? Quando Lutero traduziu a Bíblia e ela se tornou a base do idioma alemão, demonstrou que as palavras do latim eram imprecisas. A língua necessita de uma precisão. Se você entende os idiomas, passa a entender melhor as pessoas que falam aquelas línguas. Eu gostaria de manter um diálogo entre essas duas línguas distintas. São línguas místicas. O hebraico com o misticismo da cabala e o árabe com a poesia do Corão. Quem sabe não consigo aproximar esses dois universos?

5. ÉPOCA – O ano de 2012 foi marcado pela ascensão da literatura erótica para mulheres. O senhor acha que a tendência continuará? Quais as consequências desse tipo de literatura para as mulheres?
Coelho –
 Vejo como uma coisa positiva. Se gente como a Erika (Leonard James, autora da trilogia erótica Cinquenta tons de cinza) vende tantos livros, é porque tocou numa veia sensível que estava oculta. Esse tipo de literatura é liberadora. A relação das pessoas em relação ao sexo é ainda travada. Minha geração experimentou o sexo como livre. Depois, houve um retrocesso tremendo. É hora de as pessoas repensarem a sexualidade.

6. ÉPOCA – A literatura continuará a contribuir para o aperfeiçoamento das pessoas ou perderá terreno para a tecnologia?

Coelho – A literatura viverá uma transformação radical, por causa das pessoas. A primeira delas é a linguagem. Não há mais espaço para escrever a seus pares. Isso é perder a relevância. A literatura é beneficiada pela busca da simplicidade. O blogueiro se educa em concentrar-se na essência do que escreverá. É essa a transformação na literatura. Ela se tornará importante, mas não será como a conhecemos hoje. Literatura precisa de estilo, de conteúdo e de uma plataforma. A literatura está mudando nos três níveis. Como escritor, tenho de me adaptar à nova linguagem. Minha literatura sempre seguiu o princípio da objetividade que evita a superficialidade, sem perder a poesia. Escrever pelas redes sociais é fazer literatura. Hoje em dia, a literatura, como tudo, está migrando para a tela dos celulares. A literatura será lida pelo telefone.

7. ÉPOCA – O torcedor brasileiro tem pela frente dois eventos internacionais sediados no país: a Copa das Confederações em 2013 e a Copa do Mundo em 2014. Vamos vencer?
Coelho – Minha esperança é que o Brasil dê o show que ele dará. Não tenho dúvida de que venceremos. A Olimpíada de Londres foi criticada, mas foi responsável pela recuperação do país. Espero que aprendamos com os erros alheios.

8. ÉPOCA – Os brasileiros estão ficando mais ricos. A riqueza nos trará felicidade?
Coelho –
 O Brasil se livrou do complexo de vira-lata. Demos um passo gigantesco. Antes, o brasileiro batia no peito e dizia que tinha orgulho, mas, no fundo, admirava outras culturas. Agora ele é brasileiro, está contente de ser brasileiro, porque sua voz é ouvida. O brasileiro está conquistando a vida plena. Demorou!

9. ÉPOCA – Ficaremos mais sábios ou mais superficiais?
Coelho –
 Não sei. Se escolhermos combinar os lados masculino com feminino, a intuição e a força, ficaremos mais sábios. Mas é impossível saber ao certo. Estamos sendo arrastados ao mar da banalidade. Quando você sofre o excesso de informação, a tendência é voltar à simplicidade. Bater papo no bar ou na praça foi a origem da filosofia na ágora de Atenas. A saturação faz com que a gente queira voltar ao simples. E a tecnologia colabora nessa volta. Por mais que pareça uma contradição, a tecnologia nos ajuda a voltar aos fundamentos, à escolha das fontes de informação. Se, antes, sentíamos o fascínio pela internet, agora vivemos um momento de seleção e concentração da informação. Indo mais fundo, você acaba simplificando. E a simplicidade nos deixará mais sábios.

10. ÉPOCA – De onde virão os ventos da mudança política e cultural para o mundo, se é que haverá mudanças?
Coelho –
 A tecnologia está mudando tudo. As pessoas estão passivas ou ativas de uma maneira errada. Fazem “trolagem”, porque acham que estão colaborando, mas não estão fazendo nada.

11. ÉPOCA – O senhor vê um mundo unido por uma ideologia, como dizia John Lennon na canção “Imagine”?
Coelho – Não. É o oposto de John Lennon. Acredito num mundo em que as diferenças serão respeitadas. Estamos caminhando para um mundo de minorias. A globalização econômica dissolveu as fronteiras. Isso nos leva a voltar à condição tribal, tendo a tecnologia como ajuda. As minorias terão de ser respeitadas.

12. ÉPOCA – Devemos temer a intolerância religiosa?
Coelho –
 O grande problema deste milênio é que ele aponta para a intolerância religiosa. As pessoas, por ausência de fé, precisam provar a elas próprias que têm fé. As agendas políticas são determinadas pelas agendas religiosas.

13. ÉPOCA – A que pergunta o senhor gostaria de responder, caso um repórter do futuro aparecesse na sua frente?
Coelho –
 Gostaria de responder a uma só pergunta: “Você viveu com dignidade?”. Esperaria responder ao repórter com um sonoro “sim!”.

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