Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Literatura Africana

Clássico do escritor queniano Ngugi wa Thiong’o é lançado no Brasil

0
Nascido em uma vila no Quênia, Ngugi wa Thiong%u2019o deixou o país nos anos 1970 para se exilar nos Estados Unidos depois de trabalhar com teatro comunitário e questionar o governo vigente

Nascido em uma vila no Quênia, Ngugi wa Thiong%u2019o deixou o país nos anos 1970 para se exilar nos Estados Unidos depois de trabalhar com teatro comunitário e questionar o governo vigente

Autor é considerado voz referencial da literatura africana

Pablo Pires Fernandes, no Divirta-se [via Estado de Minas]

O escritor queniano Ngugi wa Thiong’o, de 77 anos, é um militante. Um dos grandes expoentes da literatura africana, sua trajetória é pontuada pelo engajamento político, expresso também em suas obras. Atualmente, é professor de inglês e literatura comparada na Universidade da Califórnia-Irvine (EUA). Deixou seu país no fim da década de 1970, depois de passar um ano na prisão em razão de seu engajamento com o teatro comunitário, que desagradou ao governo. Em entrevista por e-mail, Thiong’o conta que divide seu tempo entre a família, as aulas e a escrita.

Um grão de trigo, seu terceiro romance, escrito em 1967, finalmente ganhou tradução no Brasil e está sendo lançado pela Alfaguara. A narrativa se passa em uma vila no interior do Quênia, onde diferentes aspectos da cultura e da política se entrelaçam. A história de Mugo, tido como herói da rebelião contra a colônia pelos habitantes da vila, ocorre antes da independência do Quênia, em 1963.

As referências políticas e aspectos da cultura local se entrelaçam para exprimir a busca de identidade de um país em transformação, entre o passado e as perspectivas que o futuro abria. É um livro em que a narrativa intercala as referências de outra época, em que a memória coletiva e individual se desvela para evidenciar as dúvidas dos personagens e da própria geração do autor. A vila funciona, segundo ele, como um centro de consciência coletiva.

Thiong’o esteve recentemente no Brasil para participar da Festa Literária de Paraty (Flip). Lá, foi lançado Sonhos em tempo de guerra (Biblioteca Azul), primeiro volume de sua trilogia de memórias. Ele gostou do país, mas afirma que “gostaria de ter visto uma maior visibilidade da cultura negra em todos os aspectos da vida brasileira”. Para não perder sua militância, completa: “Gostaria de ver laços econômicos, políticos e culturais mais estreitos entre o Brasil e a África. Em especial, gostaria de ver maior proximidade entre meu país, o Quênia, e o Brasil, particularmente por meio de artistas negros, escritores, cantores e dançarinos”.

Como a história do Quênia influenciou sua vida pessoal e sua formação de escritor?

Minha vida pessoal e a história do Quênia estão entrelaçadas. Logo antes de ir ao Brasil, estive em meu país para celebrar os 50 anos da primeira edição de ‘Weep not child’ (Não chores, menino), lançado em abril de 1964. Mas esse ano coincide com os 50 anos da independência do Quênia, que foi uma colônia britânica de 1895 a 1963. E, como em todas as colônias, terra e trabalho sempre estiveram no coração da política do país. Nas minhas memórias, Dreams in a time of war (Sonhos em tempos de guerra), falei sobre meu nascimento, em 1938, literalmente às vésperas da Segunda Guerra Mundial, na qual alguns de meus irmãos estiveram envolvidos do lado britânico, e depois a guerra de libertação, travada pelo Exército Terra e Liberdade do Quênia (KLFA, na sigla em inglês), também conhecido como Mau Mau. Essa guerra afetou todos. Eu cresci durante a guerra e tudo isso causou impacto na minha obra.

Na época da independência, os artistas e escritores se engajaram na busca de formas de expressão nacionais. Como o senhor vê hoje os ideais daquela época?

As aspirações básicas podem ser resumidas em uma frase: garantir sua riqueza, seu poder, sua cultura, sua mente. Era basicamente libertar sua economia, sua política e sua cultura da dominação estrangeira. Esses ideais foram expressos em canções, poesia, dança e teatro. E também em movimentos políticos. Mas a independência política não necessariamente trouxe um empoderamento econômico e cultural dos quenianos comuns. O fosso de riqueza e poder entre a classe média e as massas está se aprofundando e se alargando. Portanto, a luta por essas aspirações continua.

A decisão de mudar seu nome de batismo e de escrever em gikuyu afetou a aceitação de seu trabalho no exterior ou no próprio Quênia?

Meus livros em gikuyu traduzidos para o inglês são bem recebidos. O problema maior são as versões originais em gikuyu. As políticas do governo em relação às línguas africanas não têm sido muito positivas. Pessoas que podem ler e escrever em gikuyu têm diminuído por causa dessas políticas negativas. Menos leitores quer dizer menos venda e implica menos editores querendo investir em línguas africanas. É um ciclo vicioso. Mas não posso desistir.

Como foi a sua experiência com o teatro?

O teatro foi muito importante na minha vida. Ele afetou minha vida mais profundamente do que minha ficção ou minha teoria. O teatro tem uma natureza coletiva. O fato de todos os papéis, grandes ou pequenos, terem a mesma importância é um dos aspectos mais impressionantes do trabalho no teatro. Mas a minha perspectiva sempre foi o teatro baseado na comunidade. Nesse sentido, compartilho muito as concepções do teatro e da pedagogia do oprimido de Augusto Boal e Paulo Freire.

Como a experiência na prisão afetou seu trabalho?

Foi meu trabalho com o teatro no Centro Comunitário de Educação e Cultura Kamiriithu que me levou ao encarceramento na maior prisão de segurança máxima do Quênia, em 1977 e 1978. Nunca desisti. Na prisão, escrevi meu romance ‘Devil on the cross’ (Diabo na cruz), em gikuyu, em papel higiênico. Desde então, escrevo todas as minhas obras em gikuyu. A maior delas é ‘Wizard of the crow’ (Mago do corvo), de 2006.

Como o sr. vê a evolução política do Quênia desde a independência?

A independência em 1963 foi um marco histórico importante. Na era pós-colonial, passamos por períodos ruins, particularmente a ditadura Moi, de 1978 a 2003. Mas agora o Quênia está se recuperando disso e os espaços democráticos estão se ampliando.

Um grão de trigo apresenta uma relação complexa entre os personagens e a forma literária. Como chegou a isso?

Um grão de trigo é meu terceiro romance depois de The river between (O rio entre) e Weep not child (Não chores, menino). Escrevi em inglês. Mas tem razão. A estrutura da trama nos meus primeiros dois romances era simples, linear. Mas, em Um grão de trigo a trama se desdobra por meio de diferentes perspectivas dos distintos personagens em diversos tempos e lugares.

África e cultura negra aparecem com restrições nos livros didáticos

0

O R7 analisou resenhas de obras selecionadas nos guias do PNLD de 2013 e 2014

dkpwdnpzk_6cns67pt6e_fileMariana Queen Nwabasili, no R7

O ensino da história da África e da cultura afro-brasileira foi garantido por leis que existem há mais de dez anos. Porém, muitos livros didáticos usados nas escolas públicas ignoram, restringem, estereotipam ou mesmo diminuem a participação dos negros e da África na formação do Brasil.

O R7 analisou resenhas das obras de português, história, geografia e artes plásticas, selecionadas pelo governo federal nos últimos dois anos e descobriu que estas falhas de abordagem foram detectadas pela própria Secretaria de Educação Básica do MEC (Ministério da Educação) nos guias de livros didáticos inscritos no PNLD (Programa Nacional do Livro Didático).

Português e artes

Com relação ao material das disciplinas de português e artes usado no ensino médio, os documentos do MEC sinalizam que ainda são poucas as obras que consideram as produções africanas para o ensino de literatura, além das europeias (principalmente portuguesa) e das nacionais.

No ensino fundamental, as abordagens, quando são feitas, ocorrem de maneira indireta, por meio de desenhos e narrativas que expressão a diversidade étnica. As obras também destacam que o professor deve complementar o conteúdo com materiais que ele julgue necessários.

Para Giselda Pereira de Lima, arte-educadora, especialista em mitos africanos e mestranda em Artes na Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo), o conteúdo nos livros é reflexo, entre outras coisas, de preconceitos para lidar com a produção literária e artística africana e afro-brasileira.

— Como a literatura africana tem uma base oral, existe uma resistência de aceitação por parte da academia, que valoriza muito mais aquilo que foi escrito enquanto literatura.

Ela lembra que, no final do século 19 no Brasil, artistas e pesquisadores estavam buscando construir uma arte nacional que fosse de identidade não apenas europeia. Mas, nos projetos escritos, não houve preocupação em incluir a estética da arte negra e indígena. Isso refletiu na forma como a arte consta nos currículos escolares até hoje.

Quanto aos livros de artes do ensino médio, não há destaque para o estudo das produções africanas e afro-brasileiras. A apesar de ser mencionada a valorização da diversidade de expressões e proposições artísticas, há obras em que, novamente, a recomendação é para que a abordagem seja feita pelo professor.

— Mas isso é complicado, porque, no fim, o descrédito que foi dado à arte negra se reflete na escolha dos professores. Quando eles têm a opção de trabalhar contos africanos na sala, o que é oportuno na educação infantil durante a alfabetização, por exemplo, não o fazem por falta de referência ou por não entenderem os contextos culturais dos contos.

História e geografia

Os livros de história selecionados pelo PNLD em 2013, na sua maioria, trazem capítulos específicos sobre a história da África ou sobre a relação dela com a história do Brasil.

Porém, com relação às obras do ensino fundamental 1, a análise presente no Guia do MEC diz que: “para muitas obras, nos momentos históricos subsequentes à colonização, em relação ao movimento abolicionista, por exemplo, o tratamento dispensado ao tema valoriza as concepções tradicionais, que secundarizam a participação dos afro-brasileiros no processo histórico”.

Os guias também apontam que, na maioria dos livros didáticos da disciplina, a contribuição dos negros africanos brasileiros para a cultura nacional aparece associada à música, à dança, à alimentação, à religião, às festas e a termos incorporados à língua portuguesa.

Giselda explica que é importante que os professores valorizem com os alunos esses aspectos da cultura afro-brasileira, mas sem que sejam reproduzidos estereótipos.

— É preciso lembrar sempre que a arte negra está ligada a uma produção artística histórica, reflexiva e de resistência.

Já o material usado nas aulas de geografia aborda a cultura afro-brasileira e a diversidade étnica do Brasil de forma genérica e não estrutural nos conteúdos específicos de cada série.

Nas análises das obras do ensino fundamental 1, por exemplo, o MEC ressalta que: “a maior parte dos livros em questão trata essa contribuição — indígena e afrodescendente — como sendo parte de um momento específico da formação territorial e não como constituinte do espaço geográfico na atualidade”.

Com relação ao ensino fundamental 2, foram constatadas falhas das obras que dão “pouco ou nenhum destaque ao papel da mulher, do indígena e do afrodescendente na sociedade contemporânea, especialmente na brasileira, com pouca ênfase nas especificidades locais e regionais”.

A análise do ministério mostra ainda que do total dos 24 livros de geografia de abordagem nacional e regional para o ensino fundamental 2 inscritos no edital de 2014, somente a metade “promove positivamente a cultura afro-brasileira e dos povos indígenas”.

Governo diz que cumprimento pleno da lei exige tempo 

Macaé Evaristo, secretária da Secadi (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão) do MEC, diz que o órgão cumpre seu papel e que realiza a produção de conteúdos específicos de apoio aos professores.

— O que a gente precisa perceber é que nós estamos lutando contra 500 anos de racismo. A Lei  11.645 foi riada para desconstruir uma lógica que estruturou a sociedade brasileira. Então estamos falando de uma concepção de transformação da escola e da educação do País.

O ensino da cultura negra nas escolas foi introduzido pela Lei 10.639, de 2003. Cinco anos depois o governo federal sancionou outra norma, a Lei 11.645, que determina que “os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileira […] nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, públicos e privados”.

No ano passado, o FNDE (Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação) gastou mais de R$ 1,2 bilhão com livros didáticos. Para participar da seleção pública, as obras têm que respeitar os temas do currículo escolar, entre eles, o ensino da história da África e cultura afro-brasileira. Entenda o processo de compra dos livros didáticos no infográfico.

Literaturas africanas de língua portuguesa: 10 obras fundamentais

1

Sandro Brincher, no Amálgama

[Nota do Editor: Em novembro de 2008 publicamos uma lista de livros fundamentais da literatura africana, elaborada por Marília Bandeira, doutoranda da USP. A relação sempre foi muito acessada, mas recebeu algumas críticas devido à carência de obras em língua portuguesa — Marília é especialista em literatura de língua inglesa. Agora publicamos essa outra lista, de Sandro Brincher, da UFSC]

Já li em alguma antologia que toda seleção é ingrata. Ora, não é preciso lembrar que o objetivo das listas e das antologias não é nem justiça, nem equilíbrio. Elas refletem, afinal de contas, uma opinião em um determinado tempo sob certas influências teóricas ou metodológicas. O objetivo de toda lista – e aqui me refiro a uma lista bibliográfica – é oferecer um panorama de leitura, um primeiro empurrão, um norte aos interessados num determinado assunto. Proponho-me então, mui injusta e desequilibradamente, a apresentar uma lista pessoal de dez obras fundamentais das chamadas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Outra questão que se faz importante é essa pluralização do objeto: literaturas. Cada país da chamada lusofonia (o conjunto de países onde se fala Português) – termo que, vale frisar, não agrada a muita gente – tem sua própria história de colonização, suas características étnicas e sociais que acabam reverberando em suas literaturas. Se já é redutor e generalizante dizer “Literaturas Africanas”, no plural, penso que no singular é ainda mais.

Passemos às obras. Algumas aí estão por conta de sua evidente aclamação crítica. Outras, por sua importância histórica ou por terem sido “vanguarda” em algum momento. Há ainda aquelas que, sem estarem em nenhuma das duas situações mencionadas, são instigantes, belas, impactantes ou terríveis – sim, porque a terribilidade da obra também é fundamental para o prazer da leitura.

Ei-las, as obras, ordenadas em ordem alfabética pelo sobrenome do(a) autor(a), seguidas de algum comentário ou da resenha da editora (indicada, quando for o caso).

Terra Sonâmbula | Mia Couto | Moçambique
O primeiro e um dos mais densos romances do moçambicano Mia Couto, hoje o mais popular dos escritores africanos de língua portuguesa, Terra Sonâmbula tem como pano de fundo o período de guerra civil pós-independência em Moçambique, mesclando realismo visceral a elementos fantásticos de forma absolutamente orgânica. Em meio a uma terra devastada, perambulando por uma estrada “mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância”, um velho e um menino buscam uma forma de sobreviver em meio àquela paisagem fantasmagórica. O romance foi adaptado para o cinema em 2007 sob a direção de Teresa Prata, com co-produção portuguesa, alemã e moçambicana.

*

O vendedor de passados | José Eduardo Agualusa | Angola
Há quem indicaria Estação das chuvas ou mesmo Nação crioula como livro-chave na produção de Agualusa. Entretanto, como nesta lista um dos objetivos ao indicar um livro é sempre despertar em quem o lerá a curiosidade de conhecer mais do autor indicado, penso que O vendedor de passados cumpre muito bem tal papel. É uma narrativa densa sem ser fatigante, com humor e amor na dose certa, satirizando com comedimento a construção da História e dos “heróis” daquele país, tudo visto através do olhar de uma osga (lagartixa), o narrador do romance.

Resenha da contracapa: Félix Ventura escolheu um estranho ofício: vende passados falsos. Os seus clientes, prósperos empresários, políticos, generais, enfim, a emergente burguesia angolana, têm o seu futuro assegurado. Falta-lhes, porém, um bom passado. Félix fabrica-lhes uma genealogia de luxo, memórias felizes, consegue-lhes os retratos dos ancestrais ilustres. A vida corre-lhe bem. Uma noite entra-lhe em casa, em Luanda, um misteriosos estrangeiro à procura de uma identidade angolana. E então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer. Sátira feroz, mas divertida e bem humorada, à atual sociedade angolana, O Vendedor de Passados é também (ou principalmente) uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos.

*

Yaka | Pepetela | Angola
Yaka, apesar de não ser o livro mais representativo da produção ficcional de Pepetela (aliás, é destacar apenas um), é um dos mais importantes para entender questões fundamentais com as quais o autor vai trabalhar ao longo de toda sua obra, sobretudo a relação colonizado/colonizador, tema que está na pauta do dia de discussões acadêmicas há algumas décadas.

Orelha da edição brasileira lançada pela Ática em 1984: Uma estátua, Yaka, pura ficção, surge como motivo condutor deste romance em que, nos finais do século passado, uma família de colonos se estabelece em Benguela, centro comercial que ombreava com Luanda. Recorrendo à memória familiar, Pepetela traça os vários momentos da saga desses colonos, misto de comerciantes e agricultores, mostrando como criaram a sua verdade referencial, tão diferente do contexto africano, que não tinham condições de entender. Alexandre Semedo, o velho colono, desde cedo convive, em segredo, com o mito da estátua; ao morrer, fica sabendo, pela voz de Yaka, que sua geração será a última. Yaka simboliza a migração de povos caçadores, mais tarde grandes guerreiros, que após chegarem à região de Luanda e irromperem, no século XVI, no reino do Congo, atingiram o Cunene, no extremo sul de Angola. O mito da unificação do território nacional, posteriormente tornado realidade, acompanha o Autor ao criar Yaka. A estátua está cuidadosamente guardada por Alexandre Semedo, desprezada por seus familiares, que com a independência fogem para o sul, e respeitada pelo jovem neto, que se torna um combatente do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), é mito ou realidade?

*

Os flagelados do vento leste | Manuel Lopes | Cabo Verde
Considerado um romance neo-realista, nele o fenômeno da seca cabo-verdiana é ao mesmo tempo paisagem e personagem. José da Cruz é um homem a quem as forças e as esperanças se esvaem, mas cujo ímpeto de sobrevivência o leva a procurar as forças de trabalho do antigo sistema colonial. A luta dura e inescrupulosa pela vida vai moldando personagens áridos como a própria ilha de Santo Antão, palco deste drama no qual a natureza, sempre implacável, é a força que dá alento e o tira com a mesma fluidez do vento que corta o arquipélago de Cabo Verde.

*

O testamento do Sr. Napomuceno | Germano Almeida | Cabo Verde
Da contracapa da edição da Cia das Letras: Dez anos antes de morrer, o Sr. Napumoceno escreveu um testamento de “387 laudas de papel almaço pautado”. Ninguém imaginava que pudesse haver tanta novidade na vida do comerciante solteirão, de hábitos rigorosamente metódicos. Mas, nas centenas de folhas onde o Sr. Napumoceno registrou a própria vida com toda a sinceridade, não se conta apenas a história do garoto de pés descalços que enriqueceu com trabalho, sorte e alguma malandragem: entrelaçado àquela existência surpreendente emerge o quadro vivo do cotidiano em uma cidade de Cabo Verde antes da independência de Portugal, da década de 40 em diante.

*

Luuanda | Luandino Vieira | Angola
Terceiro livro de contos deste angolano por adoção – Luandino nasceu em Portugal –, é constituído por três narrativas: “Vovó Xíxi e seu neto Zeca Santos”, “A estória do ladrão e do papagaio” e “A estória da galinha e do ovo”. Através do olhar do narrador, conhecemos o cotidiano dos musseques (favelas) de Luanda, a capital angolana. A falsidade da política de assimilação colonial, a falta de esperanças num futuro decente, a descoberta da solidariedade como forma de alívio da dor da existência, o olhar transformador da criança em meio a essa realidade dura: eis alguns dos temas que Luuanda nos oferece.

*

Balada de Amor ao Vento | Paulina Chiziane | Moçambique
As histórias que Paulina ouvia na infância são a fonte de onde Paulina extrai o material humano que descreve neste romance. Aqui conhecemos Sarnau, uma jovem que amava Mwando, rapaz a quem o sacerdócio estava designado como carreira. Entretanto, a relação não vinga, pois seus destinos se separam. Sarnau torna-se uma das mulheres do rei de Mambone. Tempos depois, ela reencontra Mwando e o romance é atualizado; pela perseguição que sofrem, entretanto, separam-se de novo, tomando rumos igualmente terríveis: ele, deportado a Angola, cumprirá quinze anos plantando café e cana. Sarnau, que teve um filho de Mwando enquanto ainda era rainha, vê o menino ser coroado rei após morte do falso pai, mas amargará uma vida de prostituição para sobreviver a partir daí.

*

A louca de Serrano | Dina Salústio | Cabo Verde
A produção de textos curtos é dominante na literatura caboverdiana. Segundo a professora e pesquisadora brasileira Simone Caputo Gomes, isto se deve, entre outras questões, à escassez de editoras e necessidade de se publicar em periódicos, de um lado, e a uma tensão, uma urgência na necessidade do que se quer comunicar, de outro. Sendo uma literatura de poucos romances, A louca de Serrano se destaca não somente por pertencer a tal gênero, mas também por ser o primeiro romance de autoria feminina na literatura de Cabo Verde. As marcas do feminino, porém, não se limitam à mão que escreve: estão evidentes nas faces, nos gestos, nas vidas que Salústio vai pintando sobre as paisagens hostis da ilha de Santo Antão. Enfim, um romance crucial para entender a condição sui generis de Cabo Verde no vasto panorama das literaturas escritas em língua portuguesa.

*

Bom dia camaradas | Ondjaki | Angola
Da resenha de Helena Sut: “Bom Dia Camaradas, romance do escritor angolano Ondjaki, expõe a trajetória de Angola depois da independência, ambientado em Luanda na década de 80. Narra um momento que “aconteceu” ao autor e faz parte da formação da sociedade e da utopia. O protagonista é um menino da classe média pós-colonial que narra seus dias em paralelo com o ano letivo. Uma poética história que revela o mundo nos diálogos com o camarada Antônio, nas aulas dos professores cubanos, nos cartões de racionamento, na visita da tia que vem de Portugal, nos medos, nas despedidas, nos sonhos e nas percepções em câmara lenta”.

*

Os filhos da pátria | João Melo | Angola
Ao invés da epígrafe de Gabriel Pensador, “Essa é a Pátria que me pariu”, talvez a célebre frase dos Racionais MCs fosse igualmente apropriada: “Periferia é periferia em qualquer lugar”. Isso porque o retrato que João Melo – romancista, poeta, político, editor da revista eletrônica África 21 – faz dos musseques não é em muitos aspectos diferente daquele conhecido da favela brasileira. Entretanto, sua visão não é essencialmente fatalista. A efervescência de etnias, culturas e línguas imprime, sob a ótica do narrador, um caráter único a esses espaços. Os filhos da pátria percorre as formas através das quais a interseção dessas características plurais dá corpo a uma identidade nacional, seja ela baseada num “tipo coerente de psicologia social humana” (citando Appiah) ou nas próprias diferenças que lhe são constitutivas.

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Go to Top