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Posts tagged Literatura Americana

David Foster Wallace e sua piada infinita

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O norte-americano David Foster Wallace (1962 – 2008) foi um dos escritores mais perspicazes das últimas décadas. Suicidou-se em 2008, após tomar o antidepressivo Nardil por 20 anos e teve suas cinzas jogadas na ilha chilena de Masafuera pelo amigo e também escritor Jonathan Franzen.

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Andrei Ribas, no Homo Literatus

No Brasil, Wallace ganha mais força com a chegada às livrarias de seu maior romance, intitulado Graça infinita (apesar de, aos olhos dos leitores acostumados com o estilo de Wallace, o título dado em Portugal seja melhor: A Piada infinita). Após lançar Breves Entrevistas com Homens Hediondos, com 23 contos, em 2005, a Companhia das Letras publicou em 2012 Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, com ensaios, e lançará, em novembro, a tradução de Infinite Jest. Apontado pela revista Time como um dos cem melhores livros em inglês publicados de 1923 até hoje, Infinite Jest é considerada uma obra extremamente complexa de ser vertida para outras línguas e foi, como registrou em seu blog na editora mencionada, um desafio para seu tradutor, o curitibano Caetano W. Galindo, professor de Linguística da Universidade Federal do Paraná. Mas Galindo tinha as credenciais certas: traduziu Thomas Pynchon, a quem Wallace é comparado, e Ulisses, de James Joyce, quase um tabu entre tradutores. Quanto ao porquê do título ser outro na versão brasileira, Galindo registrou: “Infinite Jest (que a princípio pode querer dizer algo como Piada Infinita) é uma citação. De quando Hamlet, do Hamlet, segura nas mãos a caveira de Yorick, o bobo da corte, e lembra que na sua infância conheceu aquele fellow of infinite jest, um camarada que não parava de brincar… (…) Mas um problema recorrente da tradução de citações é que, a não ser em casos muito óbvios (ser ou não ser), elas tendem a se perder. (…) Segundo, Infinite Jest é também, no livro, o título de quatro filmes que teriam sido feitos (eles são mais um boato que um fato) pelo pai do personagem principal, que, na verdade, foi fazendo um atrás do outro, sempre, como tentativa de completar uma obra perfeita, que nunca o satisfez. Infinite Jest IV é o filme que aparentemente existe e está sendo usado por terroristas, dado o seu potencial infinito de diversão. (…) Terceiro, e bem importante, a escolha do título de uma tradução é sempre conjunta. E, na verdade, quem tem (e deve ter) a palavra final são os editores. Eu mesmo devo ter emplacado menos de 20% dos meus títulos sugeridos até hoje. A minha opinião? Ainda não sei. (…) Meu documento de Word se chama Infinda Graça, que inclusive fica perto da Infinita Graça que o Erico lembra que o Millôr usou no Hamlet. Eu gosto da ligeira dupla leitura fonética com ‘fim da graça’ e gosto, sim, até da leve ressonância religiosa do termo ‘graça’. O livro tem ALTAS ressonâncias no mínimo místico-religiosas. Deve ser isso que eu vou propor. Veremos.”

Dado o título, enfim, resta ao fã de Wallace se esbaldar em sua graça/piada infinita, e àquele que não o conhece, seguem resumos de suas obras lançadas no Brasil, que podem ser lidas, de qualquer forma, antes ou após conhecer sua obra capital:

Breves Entrevistas com Homens Hediondos

Breves Entrevistas com Homens Hediondos foi lançado nos EUA em 1999 e reúne 23 contos. Wallace aborda temas que lhe eram íntimos, como dependência de drogas e depressão, e outros pelos quais ele tinha particular interesse, destacando perversões sexuais, desvios de comportamento, relacionamentos afetivos e o poder nocivo da mídia na vida contemporânea. O autor exercita sua verve satírica e o experimentalismo formal combinando referências eruditas e populares – recorre, a exemplo de Infinite Jest, a extensas notas de rodapé. Companhia das Letras, 2005, R$ 62,00, em média.

Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo

Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo reúne textos de Wallace publicados na imprensa americana – no formato de grandes reportagens, crônicas e ensaios. Entre os relatos, que seguem a vertente do jornalismo literário temperados com o humor irônico do autor, estão suas impressões sobre uma viagem pelo Caribe a bordo de um cruzeiro de luxo, um perfil do tenista Roger Federer, uma palestra sobre Franz Kafka e coberturas de eventos como uma feira agropecuária e um festival da lagosta. Companhia das Letras, 2012, R$ 31,50, em média.

Graça infinita (Infinite Jest)

Romance que projetou Wallace no círculo literário dos EUA, em 1996. Por conta da depressão e dos excessos com drogas e álcool, o autor somou passagens por clínicas psiquiátricas. Refletiu essa turbulência na complexa e fragmentada narrativa do livro, uma projeção futurista ambientada na superpotência resultante da unificação de EUA, Canadá e México. Nessa sociedade, uma atração de TV exerce uma espécie de poder hipnótico sobre os espectadores, espelhando a visão mordaz de Wallace sobre a indústria do entretenimento e a publicidade. Será lançado, pela Companhia das Letras, em novembro, sem preço ainda definido.

A eloquência é o coração ficar sem voz: O silêncio de Emily Dickinson

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Autora além do seu tempo, Emily Dickinson escreveu sobre temas profundos com extrema liberdade forma.

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Silvia Andrade, no Homo Literatus

Na pequena cidade de Amherst, no estado de Massachusetts, vivia Emily Dickinson. Seu dia a dia era muito semelhante ao de outras mulheres do século XIX. Ela morava com os pais, os irmãos e cuidava da casa. Ao contrário, porém, da maioria das mulheres de seu tempo, Emily não casou, não constituiu família e se resignou em permanecer na residência dos pais e em cuidá-los. Após a morte deles, passou a viver sozinha. Mais do que solitária, ela era uma pessoa reclusa, tinha poucos amigos, raras vezes saía de casa e muito de sua comunicação com o mundo exterior era feita através de cartas.

Advinda de uma família burguesa e de boa orientação, desde cedo Dickinson foi leitora e também escritora – condição que não agradava muito ao seu pai, Edward, presbisteriano rígido e ultraconservador, que via na imagem feminina um ser “emoldurado” para as atividades do lar. Mesmo com a recusa paterna, tal vida “podada” e de “clausura” contribuiu bastante para a sua produção literária. Emily escreveu, aproximadamente, 1800 poemas e uma infinidade de cartas, tais escrituras só foram divulgadas depois de sua morte. Em vida, chegou a enviar alguns textos ao crítico Thomas Higginson, que os considerou impublicáveis. Diante da negativa do “analista”, a jovem julgou seus poemas incomunicáveis para o público leitor. Apesar disso, com o incentivo de poucos amigos, publicou cerca de 10 poemas em jornais locais.

Muitos dos poemas dickinsonianos são curtos, lembrando, às vezes, a estrutura dos haikais. A linguagem é concisa, truncada, por isso mesmo Emily é considerada “um dos grandes mestres da concisão verbal”. Há inúmeras peculiaridades na poética de Dickinson. A escritora tinha a liberdade de “brincar” com a linguagem. Desta forma, sua obra não apresenta uma pontuação padrão, suas rimas não são perfeitas, além de abusar das letras maiúsculas. Outra particularidade que chama a atenção em sua poesia é o uso excessivo da disjunção, geralmente confundida com o travessão, que serve para dar um ritmo diferenciado a alguns versos.

Os temas mais presentes de sua poética são a morte, o silêncio, a natureza, a religião, o conflito com Deus e o amor. O silêncio, que geralmente lembra ausência, torna-se assunto recorrente em sua obra. Emily, de maneira paradoxal, tinha necessidade de falar sobre a quietude, como se ela não pudesse ser guardada. Esse silêncio, em Dickinson, é a exigência de uma espera. Maurice Blanchot, em L’Écriture du Desastre, escreve:

“O silêncio não se guarda, ele não diz respeito à obra que pretendesse guardá-lo- ele é a exigência de uma espera que não tem nada a esperar, de uma linguagem que, supondo-se totalidade de discurso, gastar-se-ia em um golpe, desunir-se-ia, fragmentar-se-ia sem fim.” (página 51)

1Através da imagem do silêncio, a poetisa escreve sobre a ocultação de palavras – ditas ou escritas – e o quanto essa apartação é uma manifestação de um sentimento maior. O signo do “silêncio” representa uma falta, um vazio e, por isso,segundo a autora, muitos têm medo do calar, sem saber o quanto o silenciar pode ser bonito e forte para se eternizar algo. Enfim, aceitar que essa mudez pode ser mais bela e intensa do que palavras que expressam. Nota-se que, contraditoriamente, a ausência dickinsoniana torna-se presença. Em alguns poemas sobre o silêncio, lê-se:

“É certa a Opinião geral/ Pensamos nós/ Que a Eloquência é o Coração/ Ficar sem Voz.” (página 85)

“O Silêncio amendronta/ Conforta-nos a Fala – / Mas o Silêncio é Infinitude./ Silêncio não tem cara.” (página 149)

“As palavras na boca dos felizes/ São músicas singelas/ Mas as sentidas em silêncio/ São belas-” (página 247)

O “silêncio tumular” leva a outro tema recorrente em sua poética: a morte, ou “o continente desconhecido”. Segundo José Lira em Emily Dickinson: A Críptica Beleza, a morte permeia quase toda a obra da escritora:

“A morte é sem dúvida, um dos motivos centrais de sua poesia,e para muitos é a força dominante, mas quase sempre está interrelacionada com outros temas: a fé e a dor, por exemplo, ou a vida e a natureza… A temática amorosa convencional está também explícita em algumas produções ao gosto ultra-romântico, por conta dos aspectos peculiares à fixação de sua obra. “

Em seus poemas, tal qual menciona José Lira, a morte surge, geralmente, com esta face dialética. O fim pode ser em vida, isto é, os pequenos lutos que vivencia-se no decorrer da existência: a perda de um amor, de um amigo, a falta de liberdade, pequenas perdas pessoais. Emily cogita a possibilidade da obstrução da morte pelo amor e pelo prazer. Em seus poemas, o desaparecimento físico pode ser fútil, diante da evidência da lembrança ou da vida eterna. Lê-se:

“Enfim chegou porém a Morte/Já ocupara a casa – /Dera-lhe a pálida mobília/ E a metálica paz – / Oh se fiel como a Frieza/ Tivesse o Amor chegado/ Para o Prazer obstruir a Porta/ E ninguém mais entrar.” (página 51)

“Quem morre, Amor, pouco lhe basta-/ Um Copo d’Água para a sede,/ Uma discreta Flor em frente/ Realçando a Parede,/ Talvez um Leque, um Amigo aflito,/ E a Convicção que alguém na vida/ Não verá cores no Arco-Íris/ Após tua Partida.” (página 289)

A filha introspectiva e solitária do advogado Edward Dickinson, nascida em 10 de dezembro de 1830, no fim da vida, passou por um prolongado período de doença, vindo a falecer de nefrite, no dia 15 de maio de 1886. Para a irmã Lavínia, fez o pedido derradeiro: que queimasse todos os seus poemas e cartas. Ao se deparar com o vasto material de Emily, Lavínia ficou comovida e, ao invés de atender ao seu pedido, lutou para publicar tão fascinante obra. Hoje, Dickinson é considerada uma das maiores poetisas de língua inglesa. A silenciosa Emily,de aparente vida e escrita provinciana, fez de seus versos lírica universal.

Lydia Davis: “Minhas histórias surgem das situações mais estranhas”

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A mestra americana do conto breve revela como inventa suas histórias, repletas de paradoxo e ironia

Luís Antônio Giron, na Época

A escritora americana Lydia Davis participa de duas mesas desta edição da Flip (Foto: Flavio Moraes / ÉPOCA)

A escritora americana Lydia Davis participa de duas mesas desta edição da Flip
(Foto: Flavio Moraes / ÉPOCA)

A escritora Lydia Davis é um tesouro quase secreto da literatura americana. Isso porque ela não tem nada a ver com a tradição realista de seu país. Escreve narrativas curtas, de aforismos breves a contos, sem nenhum compromisso com a verossimilhança ou a imitação da natureza. Ela é capaz de escrever um conto cujo texto é menor que o próprio título. É o caso de “Exemplo de gerúndio num quarto de hotel”. O conto é o seguinte: “Sua camareira está sendo Shelly”. Ele faz parte do livro Tipos de perturbação (Companhia das Letras, 254 páginas), lançado em 2007 e agora publicado no Brasil. Lydia Davis é a rainha dos jogos de sentido e dos enigmas paradoxais. Nesse sentido, é muito parecida com o austríaco-boêmio-judeu Franz Kafka e o argentino Jorge Luis Borges. Lembra também o português Gonçalo M. Tavares. Pertence, enfim, a uma linhagem especial de autores filosóficos, irônicos e paradoxais.

Lydia está em Paraty para participar de duas mesas: uma hoje sobre tradução e outra amanhã ao lado do escritor irlandês John Banville. É certamente a ocasião mais importante de uma Flip marcada por improvisos e as defecções de Houellebecq e Knausgaard. Lydia Davis tem 63 anos, nasceu em Northanpton, Massaachussets, e já pubicou seis volumes de conto e um romance. É uma mulher bonita, refinada e simpática. Atendeu Época em uma casa colonial de Paraty usada pela aCompanhia das Letras como sede.

ÉPOCA – Sua ficção é marcada por uma espécie de integridade literária que deve afastar boa parte dos leitores, não?
Lydia – Não penso nos leitores quando escrevo. Há leitores para todo tipo de gênero. Claro que a maioria gosta de best-sellers, de histórias de amor e de ação. Só acho que deveriam prestar atenção à arte literária.

ÉPOCA – Por que a senhora escolheu o conto curto como gênero dominante de sua obra?
Lydia Davis –
Foi um processo natural. Minha mãe escrevia contos, e até meu pai se arriscou em escrever histórias curtas. Desde pequena eu escrevo. Comecei contando histórias da forma tradicional, linear. Tentei ir pelo caminho de (Anton) Tchéckhov, do conto irônico e bem construído. Mas acabei encontrando meu estilo próprio. Busco trabalhar com uma variedade de registros, que vão do conto de uma única sentença a histórias um pouco mais longas.

ÉPOCA – A senhora poderia explicar duas operações que se repetem em seus contos: a ironia e o paradoxo? De alguma forma eles são aforísticos, não?
Lydia –
Sim, talvez porque eu encare o ato de escrever histórias como um fazer poético. Narro como se escrevesse poemas. Meus contos aspiram a ser poemas. Poesia é a grande forma, e de algum modo inalcançável para os prosadores. Quanto à ironia e o paradoxo, sou afeiçoada a Kafka. Muitas vezes tento imitar o jeito de Kafka escrever.

ÉPOCA – Há também um pouco de Jorge Luis Borges em seus contos, não? Na edição brasileira de Tipos de Perturbação, o subtítulo, em vez de “stories”, como está em inglês, é “ficções”, que era a forma como Borges denominava seus textos.
Lydia –
Borges é um autor importante para mim, até porque ele próprio é de certo modo kafkiano. Eu procuro imitar o jeito de escrever desses autores, claro que buscando um jeito original. A palavra “ficções” soa pretensiosa em inglês. Mas no Brasil soa bem, já que vocês têm mais intimidade com a obra de Borges. Nas realidade, vejo o que escrevo como contos.

ÉPOCA – A senhora gosta de algum autor brasileiro?
Lydia –
Adoro Clarice Lispector. Ela tem uma maneira também aforística de escrever e de fazer o leitor entrar em um mundo inquietante e inesperado. Eu já conhecia dela um romance, A hora da estrela. Agora li um volume de contos. E também estou escrevendo para tentar imitá-la.

ÉPOCA – De onde surgem suas histórias?
Lydia –
Minhas histórias surgem das situações mais estranhas. Quando estou fazendo compras, ou passeando, qualquer momento. Por isso, carrego comigo um bloco. Vou anotando o que posso. Quando uma ideia me vem, anoto. Muitas vezes não anoto, mas me lembro e escrevo.

ÉPOCA – Como é seu método de trabalho, disciplinado ou ao sabor da inspiração?
Lydia –
Sou assistemática. Alice Munro (autora canadense) diz que é preciso manter a disciplina e escrever em determinadas horas do dias, apesar de filhos, maridos, família, obrigações. Ela conseguiu fazer isso. Eu não. Escrevo quando tenho vontade, e se estou com uma boa ideia de história. Ás vezes invento contos e corto tudo até virarem uma frase. Às vezes parto de uma ideia muito simples para criar uma trama complexa. Depende da inspiração. Anoto à mão e depois escrevo no computador com o material que tenho à disposição.

ÉPOCA – No conto “Kafka prepara o jantar”, que está no seu último livro, Tipos de perturbação, Franz Kafka é um personagem cheio de dúvidas transcendentais, bastante esquisito. O conto reflete a sua visão pessoal de Kafka? Como o conto surgiu?
Lydia –
Eu estava preparando um jantar francês para amigos uma noite dessas quando pensei: nossa, é muito difícil cozinhar para uma ocasião especial. Como Kafka enfrentaria a situação? Assim comecei “Kafka prepara o jantar”. Mas fui além. Fui atrás da correspondência dele com Milena (sua namorada). As cartas confirmaram o que eu já pensava dele: u sujeito muito estranho, em estado permanente de hesitação. No conto, procurei imitar o próprio estilo de Kafka em suas cartas.

ÉPOCA – A senhora já traduziu Gustave Flaubert, Marcel Proust e Michel Foucault. Como foi sua experiência ao traduzir?
Lydia –
Já fiz muita tradução por encomenda, só para me sustentar. Mas com autores como Flaubert e Proust, fiz porque queria me desafiar a traduzir dois autores importantes para minha formação. Flaubert é mais fácil, embora sua concisão apresente uma série de problemas. Proust é um autor mais difícil, suas frases são longas, poéticas e evocativas, elas acompanham um devaneio bastante difícil de traduzir para o inglês. Leveis seis meses traduzindo O caminho de Swann. Valeu a pena. Aprendi muito.

ÉPOCA – Que tipo de tradução a senhora prefere, a criativa ou a que busca a fidelidade ao original?
Lydia –
Eu busco a fidelidade quando traduzo. Mesmo em Proust persegui uma correção direta com o inglês. Claro que precisei mudar o jeito de escrever em inglês para trazer Proust ao idioma.

ÉPOCA – A senhora vai debater com John Banville os limites da ficção. Eles existem de fato?
Lydia –
Eu acho legítimo escrever de forma experimental. Um texto que tem apenas a letra “i” e um monte de páginas em branco é algo que entendo, acho divertido. O modo como James Joyce escrevia contaminou boa parte dos autores contemporâneos até os anos 70, hoje pode estar fora de moda. Eu não penso em limites formais. A minha inclinação pessoal é escrever de forma direta, para que o leitor entenda. Adoto formas tradicionais, o texto conciso, para dar o recado exato. O que não deixa de ser uma atitude experimental.

Por que ler — e não ver — ‘O Grande Gatsby’

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Maria Carolina Maia, na Veja

Há cerca de um mês, desde que O Grande Gatsby do diretor australiano Baz Luhrmann (Moulin Rouge) estreou no circuito comercial americano e em seguida fez o seu debute internacional no 66º Festival de Cannes, não se fala de outra coisa: como o longa se tornou mais uma tentativa fracassada de adaptar para as telas do cinema a obra-prima do americano F. Scott Fitzgerald. Antes dele, três tentaram, sem sucesso. Em 1926, apenas um ano depois da publicação do livro, Herbert Brenon apresentou sua versão, muda, para o clássico da era do jazz. Em 1949, Jay Gatsby, o anti-herói romântico que sobe na vida de maneira ilícita para reconquistar um (rico) amor de juventude. Vinte e cinco anos mais tarde, era a vez de Mia Farrow e Robert Redford assumirem os papéis que agora estão com Leonardo DiCaprio e Carey Mulligan, em uma produção que tinha de nostalgia o que a nova tem de glitter. Cada uma, como se vê, atirou para um lado. E nenhuma acertou a alma de O Grande Gatsby.

Razões não faltam, desde o fato tantas vezes confirmado de que um filme não pode substituir um livro. Por questão de espaço, mesmo: não cabe em um longa-metragem de duas ou três horas todo o conteúdo que se deita nas páginas de um livro. Mesmo que esse livro, como é o caso do título de Fitzgerald, seja curto, de pouco mais de cem páginas.

Na lista abaixo, você encontra outros pontos que explicam por que a leitura é imprescindível. E por que, afinal, é melhor investir no livro e não no longa. Se nenhuma delas for suficiente, resta ainda aquela que é capaz de convencer até mesmo um papa: na praça há anos, e por diversas editoras, O Grande Gatsby tem exemplares mais baratos que um ingresso de cinema.

Por que ler ‘O Grande Gatsby’

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Pelo valor histórico
O Grande Gatsby é um clássico. Há quem diga até que é o maior clássico da literatura americana. É, portanto, leitura obrigatória para quem gosta de livro ou deseja ter cultura geral. Além do mais, é um livraço, bem escrito e saboroso. A sua leitura vale a pena. Se nenhum diretor ou estúdio de cinema conseguiu até agora um resultado satisfatório na conversão do romance em filme, isso só comprova a complexidade que é transportar uma obra desse porte para a sala escura. E que o melhor acesso a essa história continua sendo pelas letras.

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Pela beleza do texto
Quem quiser apenas ver o filme, e não ler o livro, vai perder trechos incríveis como esses:

“– Se não fosse pela neblina, daria para enxergar a sua casa do outro lado da baía – disse Gatsby. – Há sempre uma luz verde brilhando a noite toda na extremidade do seu cais.

Daisy tomou o braço de Gatsby, mas ele parecia absorto no que acabara de dizer. Talvez lhe ocorresse que o significado daquela luz se esvaíra para sempre. Comparada à enorme distância que o separava de Daisy, a luz lhe parecera antes muito próxima, quase a ponto de tocá-la. Tão próxima quanto uma estrela da lua. Agora era de novo uma luz verde no cais. Sua coleção de objetos mágicos havia diminuído.”

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Pela genialidade do autor
Na edição de O Grande Gatsby lançada no ano passado pela Penguin Companhia, um ensaio do crítico britânico Tony Tanner que antecede o romance dá exemplos do trabalho de mestre empreendido por Fitzgerald. Fez toda a diferença, por exemplo, ele ter dado pouca voz ao protagonista, que é menos conhecido pelo que diz do que pelo que escreve sobre ele o narrador, Nick Carraway, tornando-se ainda mais nebuloso para o leitor. “De acordo com as convenções da narrativa ficcional, quando um narrador põe o discurso de outro personagem entre aspas ou travessão, é que aquelas são as palavras exatas: ele tem a obrigação de lembrar tudo à perfeição, o que é ligeiramente implausível”, escreve Tanner. “Pois bem, pelas minhas contas rudimentares, cerca de 4% do livro está nas palavras do próprio Gatsby, e é revelador saber que Fitzgerald reduziu consideravelmente o montante de discurso direto dado a Gatsby no rascunho do romance. Por exemplo: ‘Jay Gatsby!’, ele gritou de súbito numa voz retumbante. ‘Lá vai o grande Jay Gatsby. É isso que as pessoas vão dizer — espere só para ver.'”. Com tais rompantes, Gatsby entregaria a si mesmo, revelando-se de forma demasiado crua e inequívoca. Por meio da subtração sistemática, Fitzgerald torna seu herói muito mais misterioso, menos óbvio, uma figura essencialmente mais elusiva. Em lugar disso, temos mais espaço para Nick teorizar, especular e imaginar –e talvez suprimir, remodelar, fantasiar.”

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Pela profundidade do texto
É fato: um filme não consegue reproduzir a densidade de um livro. É uma questão de espaço, de formato. E quem assistir ao longa não vai perceber – ao menos da mesma maneira de quem ler o livro – a profundidade dos sentimentos que envolvem o narrador, Nick, e sua visão do protagonista, Gatsby, de quem se torna cúmplice e amigo. De novo as palavras do professor Tanner, um comentário sobre uma das passagens mais impactantes do romance: “‘Palpável sem ser real’ é uma clara distinção neoplatônica (o verdadeiro Real deve ser encontrado, ou buscado, no reino das Ideias ou Formas imutáveis). Mas Nick descreve algo mais do que um momento de pânico existencial, tal como relatado por Sartre em A Náusea, quando Roquentin, encarando uma árvore, experimenta a terrível sensação da absurda e horrenda gratuidade das coisas – uma epifania negativa na qual a matéria sem significado se torna monstruosa, ‘ameaçadora’ e ‘grotesca’. Para Gatsby, pensa Nick, é assim que o mundo vazio e destituído de seu sonho deve ter se revelado; para Nick, talvez, é assim que o mundo sem Gatsby, sem as suas fantasias obstinadas, porém condenadas, está parecendo.”

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Cena do longa purpurinado de

Pelo avesso do sonho americano
Não há modo melhor para descrever — do que em palavras — o pesadelo em que o sonho americano se converteu para muitos no século XX. É o que Fitzgerald faz ao descrever, por exemplo, a desolação de uma área chamada de “vale das cinzas”. “Um sítio surreal onde as cinzas crescem como trigo em sulcos, colinas e jardins grotescos; onde as cinzas tomam a forma de casas, chaminés e fumaça e, por fim, num esforço transcendental, assumem a forma de homens cinzentos que se movem debilmente e se desmancham no ar poeirento. Vez por outra, uma fileira de carros sujos vinha rastejando pela pista invisível, soltava um rangido horripilante e freava”. O especialista britânico em literatura americana Tony Tanner destaca na passagem o uso da palavra “transcendental”, segundo ele um termo caro aos americanos e empregado com ironia pelo autor de O Grande Gatsby. “Trata-se de uma transcendência negativa, uma dissimulação, o completo oposto do que Emerson e seus amigos esperavam para o continente, com a terra produzindo e cultivando verdadeiras cinzas”, diz Tanner. “Fitzgerald não foi o primeiro nem será o último americano a ter uma visão entrópica da América – o grande continente agrário se tornando uma espécie de depósito de lixo ou terra desolada, na qual, com suprema perversidade, a única coisa que brota é a morte.”

10 dicas para organizar a biblioteca

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Conheça as orientações de especialistas para deixar a biblioteca bonita e com tudo sempre à mão

Publicado na revista Exame

homem em biblioteca

 

Homem em biblioteca: uma boa dica é colocar alguns volumes deitados e outros de pé; disposição que dá movimento à estante

 

1 Livros podem estar agrupados por gênero (romances policiais, literatura latino-americana), por autor ou por ordem alfabética (de nome ou de título). Mas você precisa descobrir como se sente melhor para procurar e encontrar sem demora os seus livros.

2 Livros de arte, como fotografia, dão volume e são sempre um prazer ao alcance dos olhos. Dê movimento à sua estante escolhendo alguns deles para deixar com a capa à mostra.

3 Livros com a capa danificada pedem encadernação nova – menos que se trate de uma raridade. Há quem encape vários livros com papel de uma mesma cor para dar à estante um aspecto mais organizado. Mas os verdadeiros amantes de livro ficam de cabelo em pé ao ouvir isso. Assumir que os livros têm cores e tamanhos diferentes é mais rico, sincero e benéfico para a sua decoração.

4 Coloque alguns volumes deitados e outros de pé. Essa disposição dá movimento à estante. Evite a monotonia.

5 A profundidade ideal para uma estante de revistas é de 25 cm. Uma medida maior deixaria um espaço vazio bom para acumular pó. Já os livros de arte pedem 35 cm. Deixe 40 cm de altura entre uma prateleira e outra – assim você acomoda desde pilhas de revistas até as edições maiores.

6 Empilhe as revistas por título, em ordem de lançamento – assim, a mais nova sempre estará em cima.

7 Revistas de assinatura mensal não devem formar pilhas de mais de três anos (36 exemplares). A consulta fica muito complicada.

8 As edições mais antigas precisam ceder espaço às mais novas. Faça uma doação. Em escolas e hospitais elas são sempre bem-vindas.

9 Edições avulsas podem ser agrupadas. Se possível faça o agrupamento respeitando o tamanho e o assunto de que elas tratam.

10 Porta-retratos, bolas de vidro e outras peças queridas trazem equilíbrio quando dispostas junto aos livros. Agrupe os itens semelhantes e observe a simetria: se há um nicho com porta-retratos de um lado, faça um nicho de volume parecido do outro – com livros ou uma caixa.

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