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Posts tagged Literatura Contemporanea

Livros para o Natal

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Raphael Montes, em O Globo

Em outras oportunidades, já escrevi sobre a aparente dificuldade de conjugar, na literatura brasileira contemporânea, entretenimento com alta literatura

Faz parecer que os dois são elementos absolutamente dissociados, de modo que, como em um Fla x Flu, os literatos preferem ignorar os livros que vendem muito ou os livros de gênero (policial, terror, fantasia), enquanto aqueles que escrevem “entretenimento” torcem o nariz para as experimentações textuais e as riquezas estilísticas. Assim, fica cada um no seu quadrado, ninguém atrapalha ninguém, ninguém tampouco ajuda ninguém, e a vida segue. Basta pensar a última vez que um romance de gênero ganhou o prêmio Jabuti… Em outra via, a última vez que um romance que ganhou o Jabuti chegou às listas de mais vendidos… Casos raros (para não dizer impensáveis).

Pessoalmente, me recuso a ficar em cima do muro. Por isso, vai chegando o fim do ano e meus dedos começam a coçar para escrever minhas listas do ano — como bom virginiano, a tentativa inútil de reunir, ainda que de maneira pouco criteriosa e absolutamente parcial, os melhores livros de 2016. Depois de pensar muito, este ano resolvi fazer diferente. Nas linhas seguintes, indicarei não apenas ótimos livros publicados em 2016, como serão apenas ótimos livros de autores brasileiros. Afinal, já falei bastante aqui da importância de valorizar a produção nacional — e me causa certa tristeza ver como certos autores brasileiros contemporâneos de talento ainda não atingiram o grande público. Por isso, a lista de livros abaixo oferece dicas de presente de Natal, mas serve também para mostrar que é, sim, possível fazer boa literatura brasileira unindo diversão e linguagem. Chega do professor universitário de meia idade compartilhando suas angústias e intenções filosóficas. A literatura brasileira é muito mais do que isso.

Começo por “O romance inacabado de Sofia Stern”, de Ronaldo Wrobel, um dos meus autores favoritos na atual ficção brasileira. Após seu genial livro de estreia, “Traduzindo Hannah”, Ronaldo tinha uma missão difícil pela frente, que cumpriu com louvor ao publicar este novo romance no início do ano. Fui convidado para escrever a orelha e acabei lendo o livro em dois dias, imerso na Alemanha nazista enquanto acompanhava uma história de amor e de suspense bem intrincada, repleta de cenas memoráveis, com ironia fina e linguagem inteligente. Faz lembrar “O segredo dos seus olhos”, só que melhor.

Também em ritmo de thriller, numa mistura de aventura de capa e espada e cenas de ação e erotismo, “Homens elegantes”, de Samir Machado de Machado, merece ser conferido. Na história, Érico é um jovem enviado a Londres para investigar a produção de um romance erótico contrabandeado ao Brasil colonial. Lá, infiltrado na alta sociedade londrina do século XVIII, o protagonista aprofunda sua sexualidade, e Samir aproveita para discutir questões de gênero ao apresentar o vilão da trama, o conde Bolsonaro. Além dos diálogos bem humorados e dos personagens complexos, o grande mérito de Samir está na crítica social: conforme as páginas avançam, começamos a perceber que a sociedade do Brasil colonial apresentada no livro infelizmente não é tão diferente da nossa sociedade brasileira contemporânea.

Trazendo ainda esta reflexão sobre os anos que avançam, mas que parecem continuar os mesmos, vale a leitura de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, romance de estreia de Martha Batalha. Passado na sociedade carioca dos anos 1940, acompanhamos a história de duas irmãs — Eurídice e Guida — que fazem escolhas diferentes na vida para tentar sobreviver na sociedade machista (da época?). Com uma prosa rica e sem ser panfletária, Martha aborda o empoderamento feminino e traz uma gama de personagens que povoam nosso imaginário, como a vizinha fofoqueira e o solteirão apaixonado.

Falando em personagens femininas fortes, há que se conhecer Corina, protagonista de “As águas-vivas não sabem de si”, romance de estreia de Aline Valek. Corina é uma mergulhadora que faz parte de uma equipe que pesquisa os arredores de uma zona hidrotermal. Passado debaixo d’água, o romance se atém ao grupo de pesquisadores e, nas profundezas, trata mesmo é da solidão, das complexidades humanas e da vastidão do oceano. O oceano, inclusive, é personagem do livro, num misto de ficção científica com linguagem poética. Ainda que seja um romance mais lento, vale ser conferido pela proposta inusitada e pelo texto saboroso.

Por fim, indico com veemência “Os invernos da ilha”, o melhor romance brasileiro que li em 2016. É espantoso que este livro não tenha causado burburinho ou caído no gosto dos jornalistas literários. No primeiro romance de Rodrigo Duarte Garcia, Florian Links se isola na ilha de Sant’Anna Afuera, onde passa a viver em um mosteiro, com planos de se tornar monge. Ali, passa a conviver com Rousseau, um antropólogo excêntrico que estuda o diário do holandês Oliver Van Noort, um corsário que teria deixado um grande tesouro na ilha, séculos atrás. Assim, começa a busca por encontrar o tesouro, ao mesmo tempo em que se forma um clássico triângulo amoroso entre Florian, Rousseau e a bela Cecília. Em sua estreia, o autor escreve um clássico romance de aventuras (raro no Brasil), tecendo duas linhas narrativas com a firmeza de um veterano. A linguagem rica em detalhes contribui para o clima de mistério e confirma como ainda temos muitos campos inexplorados em nossa literatura. Um livro que me deu orgulho de ser brasileiro.

Literatura experimental aponta infinitas possibilidades na escrita

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Rômulo Neves, no Metropoles

Uma das vertentes da literatura contemporânea é a chamada literatura experimental. Trata-se de inovações, especialmente no formato e no suporte das peças literárias, para a elaboração de novas obras de arte. Seja na poesia ou na prosa, os autores buscam novas formas de produção, até onde a criatividade alcança.

Na poesia, por exemplo, há a poesia visual, que trabalha a imagem como parte do significado do poema, com fotos e ilustrações. Ainda um pouco mais ousada é a poesia eletrônica, que não apenas usa o meio eletrônico como suporte substituto do papel, mas como parte da própria experiência poética.

Nesse sentido, certamente o autor brasileiro mais produtivo é Alckmar Luiz dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

Alckmar é engenheiro, mas acabou desembocando na literatura, onde fez mestrado e doutorado. Conseguiu juntar os dois mundos e, hoje, além de dar aulas de literatura brasileira, coordena o Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Linguística da UFSC. Ganhou alguns concursos literários, entre eles o Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, da Revista Cult, ainda em 2001.

Inovações na prosa
Se, no caso da poesia, a experimentação atual está no uso de um novo suporte/material, no caso da prosa, a inovação está na limitação de formatos, na imposição de critérios prévios ou na construção de jogos de linguagem, significado ou mesmo de seleções randômicas.

Nesse aspecto, a iniciativa mais conhecida e produtiva foi a do grupo francês Oulipo (ulipô) — acrônimo, em francês, para Oficina de Literatura Potencial. Criado em 1960, o grupo reuniu escritores do quilate de Ítalo Calvino, Georges Perec e Raymond Queneau, mas foram mais de 35 autores que participaram das oficinas de criação.

Georges Perec levou a experimentação do Oulipo á condição de obra-prima

Georges Perec levou a experimentação do Oulipo á condição de obra-prima

 

Nelas, eram utilizadas regras matemáticas ou jogos de linguagem como estímulos para a produção de suas obras. A exemplo da escrita de versos ou frases com todas as palavras iniciando com a mesma letra, a escrita de poemas com versos de uma única palavra, cada uma com uma letra a mais do que a anterior, entre outros desafios.

Obra-prima experimental
Um dos mais conhecidos expoentes do grupo foi Ítalo Calvino, mas ele tinha uma produção para além do Oulipo. Aliás, seus livros mais famosos, “Os Amores Difíceis”, “As Cidades Invisíveis” e “Por Que Ler os Clássicos”, estão fora das experimentações do Oulipo, até porque, sendo italiano, participava esporadicamente dos coletivos criativos do grupo, que se reunia em Paris.

Foi mesmo Georges Perec que levou a experimentação do Oulipo á condição de obra-prima. Seu primeiro romance utilizando o método de definição prévia de restrição voluntária na escrita foi “La Disparition”, de 1969, apenas dois anos depois de ter entrado para o grupo.

Somente em 2016, porém, em razão da dificuldade da empreitada, o livro foi traduzido para o português e lançado pela Editora Autêntica, com o título “O Sumiço”. Trata-se de um romance escrito inteiramente sem o uso da vogal “e”, a letra mais comum na língua francesa — como o “a” é na língua portuguesa. O livro, aliás, foi dedicado à “e”.

Um romance feito de diversos romances
Em 1972, Perec lançou uma espécie de revanche, o livro “Les Revenentes” (em tradução livre, “As Retornadas” ou “As Fantasmas”), em que o “e” é única vogal utilizada ao longo de todo o novo romance. Esforço de peso, você há de concordar. Foi em 1978, entretanto, que Perec lançou sua obra-prima: “A Vida — Modo de Usar”.

A obra narra, seguindo regras da lógica matemática, sem que o leitor perceba, a vida dos moradores de um edifício parisiense, de 1875 a 1975, e apresenta vários níveis de significação, com uma descrição espacial específica para ajudar o leitor a caminhar pelos corredores do prédio.

Contos de tamanho definido
Atualmente, a experimentação mais em voga é o microconto. Contos com tamanho definido, seja em número de caracteres, seja em número de palavras. Apesar de o microconto ter-se popularizado na década de 1990, e, no Brasil, contar com uma obra inteira de Dalton Trevisan dedicada ao formato, já em 1994, intitulada “Ah, É”, a iniciativa mais conhecida foi o concurso de microcontos lançado pela Academia Brasileira de Letras, em 2010, para aproveitar a onda do aparecimento do twitter.

O tamanho máximo era, exatamente, a quantidade de caracteres permitidos nas mensagens da nova plataforma: 140. O concurso recebeu cerca de 2.300 inscrições. Ironicamente, os prêmios para os segundo e terceiro lugares eram minidicionários.

Os microcontos de Zezeu
Em Brasília, também temos uma iniciativa de experimentação nessa área. Trata-se do livro “Microcontos”, de Deusdedith Rocha Jr., o Zezeu. O livro, lançado de maneira independente neste ano, conta com 100 contos, com exatas 100 palavras cada.

Escritos entre 2014 e 2015, os contos de Zezeu se inserem perfeitamente no contexto das experimentações do Oulipo: rigidez formal e ampla abertura temática. O próprio autor reconhece a dificuldade de se manter preso ao formato e avisa, na introdução da obra, que vai navegar outros mares dali pra frente, mas desafia alguém a pegar o bastão.

O resultado é primoroso e, tanto pela necessidade de síntese, como pelo histórico de poeta do autor, tem passagens e desfechos típicos da linguagem poética. O maior desafio do microconto, como na poesia, é conter a maior quantidade de significados com o mínimo de material escrito, porém, sem deixar o leitor perdido, sem o fio da meada.

O fim pode não ser o fim
No microconto, é possível que o fim não seja o fim, mas o começo de outro novelo, de outra história, de outro drama. Exatamente como na história “Humildade”, um dos contos do livro:: “Ainda me pergunto se essa conclusão de fato encerra o assunto ou principia um distanciamento novo para a questão”. O repórter que fazia a entrevista ficou atônito, certamente. O livro, obviamente curto, vale a pena. Diverte, ao mesmo tempo em que sugere muita reflexão.

De todo modo, o microconto não está definido como um formato muito específico, como o soneto, e tudo ainda é discricionário, felizmente. Zezeu, por exemplo, escolheu como métrica as 100 palavras, a ABL, 140 caracteres.

Já o jornalista Carlos Willian Leite selecionou uma antologia primorosa para a revista eletrônica Bula, com 30 microcontos, de até 100 caracteres cada um. Como podemos ver, ainda está tudo no contexto da experimentação.

Os 10 livros mais esperados de 2015

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Jonatan Silva, na Contracapa

2014 está acabando e já dá para se preparar para as leituras do próximo ano.
Confira na Contracapa os 10 dez lançamentos mais esperados para 2015.

The Pale king – David Foster Wallace

O último livro do autor de Graça infinita deve chegar por aqui ainda no ano que
vem pela Companhia das Letras sob a tradução de Caetano Galindo. A obra é
inacabada e foi lançada em 2011, três anos após o suicídio de Wallace.

The Bleeding edge – Thomas Pynchon

Mais recente livro do misterioso escritor norte­americano, The Bleeding edge
teve os direitos comprados pela Companhia das Letras e deve ser traduzido por
Paulo Henriques Britto, responsável pela edição brasileira de O Arco­íris da
gravidade.

Building stories ­ Chris Ware

Lançada em 2012, a graphic novel de Ware é um dos projetos mais engenhos
da literatura contemporânea. Composta por diversos painéis com estruturas
narrativas, o obra permite diversos tipos de leitura.

The Zone of interest – Martin Amis

O livro chocou meio mundo por conta de seu enfoque menos trágico sobre o
holocausto e provocou o debate sobre a abordagem de Amis sobre o assunto.
A obra acabou sendo recusada por diversas editoras em todo o globo.

How to be both – Ali Smith

How to be both foi um dos finalistas do Man Booker Prize, que acabou ficando
com Richard Flanagan
, e deve chegar no Brasil pela Companhia das Letras já
em 2015. Considerado um dos melhores livros de 2014 lá fora, a obra é a
consolidação de Ali Smith como uma escritora de peso.

Purity – Jonathan Franzen

Programado para setembro, o sucessor de Liberdade (2011) tem a difícil
missão de conseguir o mesmo interesse e atenção de público e crítica. Franzen
é considerado um dos melhores romancistas norte­americanos da atualidade.

A Girl is a half­formed thing ­ Eimear McBride

Sob tradução de Denise Bootmann, o livro, um dos grandes sucessos editoriais
lá fora, promete fazer sucesso no Brasil também. O jornal britânico afirmou que
o livro já é um clássico moderno. A editora Biblioteca Azul será responsável pela
publicação.

Beautiful losers – Leonard Cohen

Cotado para sair em 2014, o segundo e derradeiro romance de Cohen – que
completou 80 anos – só deve chegar por aqui no que vem. Originalmente
publicado em 1966, o livro é fruto dos anos do autor em uma ilha grega. Os
direitos pertencem à Cosac Naify.

Funny Girl ­ Nick Hornby

Hornby é um dos melhores autores quando o assunto é universo pop. Seu
romance Alta fidelidade foi relançado no ano passado e mostrou que o escritor
está mais vivo que nunca. O livro deve sair pela Companhia das Letras.

Us -­ David Nicholls

Best­seller mundial com Um dia, Nicholls se transformou em coqueluche para
que gosta de romances mais simples mas não fazem questão do “água com
açúcar”. O livro deve sair pela editora Intrínseca, responsável pelos outros
lançamentos do autor por aqui.

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