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Posts tagged Literatura De Cordel

Hoje é dia do Poeta da Literatura de Cordel

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Jénerson Alves, especial para o Livros e Pessoas

Hoje (1º de agosto) é o Dia do Poeta da Literatura de Cordel. Este gênero de tanta grandeza cultural predomina no Nordeste brasileiro, mas possui raízes europeias, tendo chegado ao Brasil através dos portugueses, no século XVIII. Ao longo da história, grandes poetas cultivaram essa forma de expressão artística, que possui expoentes ainda hoje. Por isso, nossa equipe preparou um especial, com estrofes memoráveis criadas por cordelistas de todos os tempos. Confira:

Os nossos antepassados
Eram muito prevenidos,
Diziam: “Matos têm olhos
E paredes têm ouvidos.
Os crimes são descobertos,
Por mais que sejam escondidos”.
(Leandro Gomes de Barros)

João Grilo foi um cristão
Que nasceu antes do dia,
Criou-se sem formosura,
Mas tinha sabedoria
E morreu depois da hora,
Pelas artes que fazia.
(João Ferreira de Lima)

Só pune a honra o honrado
Porque é conhecedor,
Pois o honrado conhece
Que a honra tem valor
E quem fere a honra alheia
Fica sendo devedor.
(Caetano Cosme da Silva)

Assim “Quem comeu a carne
Que roa os ossos” também
“Não há rosas sem espinhos”
É preciso pensar bem!
Que “Gostos não se discutem”,
Mas o que deles provém.
(Abdias Campos)

Quando o Brasil quiser mesmo
Que a verdade seja dita
A história de Canudos
Vai ter de ser reescrita
Sem rasuras, sem emendas,
Passando um borrão nas lendas
Dessa tragédia maldita.
(Geraldo Amâncio Pereira)

Eu tenho setenta anos
Nesta vida nua e crua.
As noites eu passo em casa,
Os dias passo na rua
E a morte me convidando
Pra nós dois morar na lua.
(Olegário Fernandes)

Melhor ter pouco, mas ter,
Pior mesmo é quem não tem.
Pelo que estamos vendo,
É preciso entender bem
Que ÁGUA, SABENDO USAR
Por certo, NÃO VAI FALTAR
Na torneira de ninguém.
(Manoel Monteiro)

Voltei pra casa roendo
O pano do desengano
E quando cheguei em casa
Mastigando aquele pano,
Fui ao espelho e me vi,
E, me culpando, senti
Vergonha de ser humano.
(Antônio Francisco)

Temos que colaborar
E usar mais da razão,
Agindo dessa maneira
Melhora a situação,
Pois jogar lixo no lixo
É gesto de educação.
(Espingarda do Cordel)

De todas as descobertas,
Acho que a que mais me agrada
Se chama Abraço, porque
Toda pessoa abraçada
Logo se desembaraça.
Já a pessoa que abraça
É também recompensada.
(Moreira de Acopiara)

Pai Santo e Eterno Deus
Criador do universo
Me conduz pela palavra
Registrada no meu verso
Se houver fraqueza ou falha
Fortalece minha batalha
Pois te peço em oração
Me conduz em pensamento
E aqui neste momento
Tua Palavra é meu sermão
(Nerisvaldo Alves)

Estéril de esperança,
Eu comecei a chorar.
Perguntei feito criança:
“Pode o homem se salvar?”
Indaguei ainda assim:
“Pode o mal chegar ao fim?
Há no mundo ainda fé?”
Mas, neste instante, parei.
Bastante audível escutei:
“O Cordeiro está em pé!”
(Jénerson Alves)

Coletivo usa literatura de cordel como ferramenta de combate ao preconceito sexual.

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Projeto Lampioa reuniu mais de 40 artistas, escritores e ilustradores em torno da criação de folhetos, que podem ser acessados pela internet

Projeto Lampioa/divulgação

Projeto Lampioa/divulgação

Fellipe Torres, no Diário de Pernambuco

Quando o escritor pernambucano Liêdo Maranhão lançou a primeira edição de Classificação popular da literatura de cordel, em 1976, machismo e preconceito eram elementos comuns na cartilha da maioria dos cordelistas. Sem constrangimento, eles próprios indicavam tais características ao pesquisador, grande conhecedor desse universo. “Enquanto todos nós conhecemos os folhetos como um bando de eruditos de gabinete, Liêdo vive e convive com todo o seu estranho, pobre, fascinante, mágico e duro mundo”, apontava, no prefácio, Ariano Suassuna.

Projeto Lampioa/divulgação

Projeto Lampioa/divulgação

Uma das categorias identificadas no livro – reeditado ano passado, pela Cepe – é a dos “folhetos de cachorrada ou descaração”, da qual fazem parte O rapaz que casou-se com um cabeludo pensando ser uma moça, de Minelvino Francisco Silva, e A mulher que casou-se com outra em Casa Amarela, de H. Rufino. Este último narra a união entre mulheres como algo obsceno, de causar espanto: “Hoje até homem dá luz/ Rapaz se pinta à carmim/ Uma moça esposa outra,/Fica outra achando ruim/Irmã pare de irmão/Nessa grande corrupção/O mundo vai levar fim”.

H. Rufino morreu na década de 1960. Ariano e Liêdo, este ano. Não viveram o suficiente para ver o formato e a estética do cordel serem usados para combater a homofobia de maneira incisiva. Não viram o “cabra macho” Lampião se tornar fêmea para dar nome a um projeto de celebração da diversidade sexual. Organizado pelo jornalista Bruno Castro e pelo designer João Zambom, o projeto Lampioa reune mais de 40 artistas, escritores e ilustradores em torno da criação de quatro fanzines com cara de cordel.

Projeto Lampioa/divulgação

Projeto Lampioa/divulgação

“São poesias, palavras rimadas, imagens gravadas e o desejo de unir novos olhares e diferentes formas de expressão sobre gêneros e sexualidade. Os fanzines colecionáveis são produzidos sob a dura e lúdica estética cordelista, originados a partir da fantasia crítica e criativa de artistas da nossa geração”, define Zambom. Os folhetos podem ser acessados em www.lampioa.com.

Cearense radicado no Recife, o poeta Allan Sales, autor de mais de 200 cordéis, considera natural a resistência de algumas visões preconceituosas de mundo. “É um espaço literário totalmente machista, pesado, mesmo, fundamentado na exaltação da figura masculina. Também vejo traços de homofobia, mas é normal, pois reflete o imaginário popular”. A temática preferida do escritor é a política social, com crítica à corrupção e ao populismo.

Projeto Lampioa/divulgação

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Editor do site Interpoética, o pernambucano Sennor Ramos acredita em uma mudança gradual no conteúdo dos folhetos tradicionais. Para ele, a literatura de cordel já foi muito mais machista e preconceituosa. “Hoje em dia está mais consciente, embora fale sobre os mesmos temas. Ainda é comum encontrar cordelista homofóbico. Quem costuma fazer diferente são as mulheres escritoras”.
Já o cantador Clécio Rimas, autor de cordéis como Sustentabilidade, destaca o preconceito sofrido pelo próprio cordel, geralmente classificado como literatura menor, por tratar de assuntos populares e utilizar impressão de baixa qualidade. “Há preconceito por toda a parte. Cabe às pessoas mudar isso. Usar o cordel para combater a homofobia é algo muito válido, porque cada ser humano precisa ter liberdade de escolhas. Vale mais o amor”.

Projeto Lampioa/divulgação

Projeto Lampioa/divulgação

TRECHOS>>>>>>>>>>>>>
ONTEM >>>>>
“Maria da Penha Fernandes
E Maria Madalena
Foram as protagonistas
De tão hedionda cena!
Sendo o marido a primeira
E a segunda a companheira,
Oh! Que para obscena!…
(Trecho de A mulher que casou-se com outra em Casa Amarela, de H. Rufino)

HOJE>>>>>
Era menino ou menina
Que mexia com seu coração
Era menino ou menino
Que dava mais tesão?
(…)
Ela fez de tudo um pouco
Com menina e com rapaz
Se proibir parecia bobo
Ela queria sempre mais

Escolher porque mandaram
Não mostrava sua razão
Ela queria liberdade
Para andar na contramão
(Trecho de Lampioa, vários autores)

Roger Chartier: “Os livros resistirão às tecnologias digitais”

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Especialista em história da leitura afirma que a Internet pode se transformar em aliada dos textos por permitir sua divulgação em grande escala

Cristina Zahar, na Revista Escola

Roger Chartier

Roger Chartier

O francês Roger Chartier – é um dos mais reconhecidos historiadores da atualidade. Professor e pesquisador da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e professor do Collège de France, ambos em Paris, também leciona na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e viaja o mundo proferindo palestras.

Sua especialidade é a leitura, com ênfase nas práticas culturais da humanidade. Mas ele não se debruça apenas sobre o passado. Interessa-se também pelos efeitos da revolução digital. “Estamos vivendo a primeira transformação da técnica de produção e reprodução de textos e essa mudança na forma e no suporte influencia o próprio hábito de ler”, diz.

Diferentemente dos que prevêem o fim da leitura e dos livros por causa dos computadores, Chartier – acha que a internet pode ser uma poderosa aliada para manter a cultura escrita. “Além de auxiliar no aprendizado, a tecnologia faz circular os textos de forma intensa, aberta e universal e, acredito, vai criar um novo tipo de obra literária ou histórica. Dispomos hoje de três formas de produção, transcrição e transmissão de texto: a mão, impressa e eletrônica – e elas coexistem.”

No fim de junho, Chartier – esteve no Brasil para lançar seu livro Inscrever & Apagar, em que discute a preservação da memória e a efemeridade dos textos escritos. Nesta entrevista, ele conta como a leitura se popularizou no século 19, mas destaca que bem antes disso já existiam textos circulando pelos lugares mais remotos da Europa na forma de literatura de cordel e de bibliotecas ambulantes. Confira os principais trechos da conversa.

Como era, no passado, o contato das crianças e dos jovens com a leitura?
ROGER CHARTIER A literatura se restringia às peças teatrais. As representações públicas em Londres, como podemos ver nas últimas cenas do filme Shakespeare Apaixonado, e nas arenas da Espanha são exemplos disso. Já nos séculos 19 e 20, as crianças e os jovens conheciam a literatura por meio de exercícios escolares: leitura de trechos de obras, recitações, cópias e produções que imitavam o estilo de autores antigos, como as famosas cartas da escritora Madame de Sévigné (1626-1696) e as fábulas de La Fontaine (1621-1695).

Quando a leitura se tornou popular?
CHARTIER No século 19, surgiu um novo contingente de leitores: crianças, mulheres e trabalhadores. Para esses novos públicos, os editores lançaram livros escolares, revistas e jornais. Porém, desde o século 16, existiam livros populares na Europa: a literatura de cordel na Espanha e em Portugal, os chapbooks (pequenos livros comercializados por vendedores ambulantes) na Inglaterra e a Biblioteca Azul (acervo que circulava em regiões remotas) na França. Por outro lado, certos leitores mais alfabetizados que os demais se apropriaram dos textos lidos pelas elites.O livro O Queijo e os Vermes, do italiano Carlo Guinzburg, publicado em 1980, relata as leituras de um moleiro do século 16.

As práticas atuais de leitura têm relação com as práticas do passado?
CHARTIER É claro. Na Renascença, por exemplo, a leitura e a escrita eram acessíveis a poucas pessoas, que utilizavam uma técnica conhecida como loci comunes, ou lugares-comuns, ou seja, exemplos a serem seguidos e imitados. O leitor assinalava nos textos trechos para copiar, fazia marcações nas margens dos livros e anotações num caderno para usar essas citações nas próprias produções. No século 16, editores publicaram compilações de lugares-comuns para facilitar a tarefa dos leitores, como fez o filósofo Erasmo de Roterdã (1466-1536).

Em que medida compreender essas e outras práticas sociais de leitura pode transformar a relação com os textos escritos?
CHARTIER Os estudos da história da leitura costumam esquecer dois importantes elementos: o suporte material dos textos e as variadas formas de ler. Eles são decisivos para a construção de sentido e interpretação da leitura em qualquer época. Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (1547-1616), era lido em silêncio, como hoje, mas também em voz alta, capítulo por capítulo, para platéias de ouvintes. Todas as pesquisas nessa área formam um patrimônio comum com o qual os professores podem construir estratégias pedagógicas, considerando as práticas de leitura.

Que papel a literatura ocupa na Educação atual?
CHARTIER A escola se afastou da literatura, principalmente no Brasil, porque está preocupada em oferecer ao maior número possível de crianças as habilidades básicas de leitura e escrita. Mas acredito que os professores devem acolher a literatura novamente, da alfabetização aos cursos de nível superior, como mostram várias experiências pedagógicas. Na França, por exemplo, um filme recém-lançado exibe uma peça do dramaturgo Pierre de Marivaux (1688-1763) encenada por jovens moradores de bairros pobres. (mais…)

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