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Segunda edição do Porto Alegre Noir começa nesta terça

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Evento é dedicado à literatura policial e ao cinema de inspiração noir | Foto: André Porto / Divulgação / CP

 

Evento temático ocorre até domingo, na Cinemateca Capitólio

Publicado no Correio do Povo

Desta terça até domingo, a Capital recebe a segunda edição do Porto Alegre Noir, um evento dedicado à literatura policial e ao cinema de inspiração noir. A programação ocorre na Cinemateca Capitólio (R. Demétrio Ribeiro, 1085) e inclui workshops, debates, exposição, mostra de filmes e um espaço para venda de livros policiais, de suspense e mistério.

Entre as atividades estão três bate-papos: “À Sangue Frio – o crime verdadeiro e a literatura”, com Rafael Guimaraens, Sandra Abrano e Luiz Gonzaga Lopes; “A lendária Coleção Amarela da Livraria do Globo”, com Sérgio Karam, Paula Ramos e Samir Machado de Machado; e “Dashiell Hammett e os 90 anos de Safra Vermelha”, com Júlio Ricardo da Rosa e Juremir Machado da Silva. Na mostra de cinema noir, destacam-se quatro diretores que sofreram perseguições durante o período do McCarthismo nos Estados Unidos: Cy Endfield (“Justiça Injusta”, 1950), Edward Dmytryk (“Até a Vista, Querida”, 1944), Abraham Polonsky (“A Força do Mal”, 1948) e Joseph L. Mankiewicz (“O Ódio é Cego”, 1950).

De acordo com um dos organizadores, Jorge Ghiorzi, o evento temático surgiu a partir da constatação de que literatura policial e o cinema noir possuem uma legião de fãs que dialogam entre as duas formas de manifestação artística. “Unir as duas vertentes em um único evento reforça e valida o verdadeiro objeto de culto que é o noir, um conceito por vezes vago e misterioso, tão bem expresso pela estética das luzes e sombras e pelos desvios morais da alma humana, características presentes nas melhores obras do gênero”, explica. Ainda segundo ele, esta edição vai ressaltar a discussão político-social, tanto nos temas dos debates quanto nos clássicos do cinema noir que foram selecionados.

O evento ocorre das 19h às 21h30min, de terça até sexta, e das 14h às 21h30min, no sábado e no domingo. As sessões de cinema, exceto o Projeto Raros, tem entrada a R$ 10, mas as demais atividades são gratuitas. As inscrições sobre valores e inscrições para os workshops podem ser consultadas neste link.

Programação

Terça
20h – Sessão de Cinema: “Justiça Injusta” (1950, 92 min.)

Quarta
20h – Sessão de Cinema: “A Força Do Mal” (1948, 78 min.)

Quinta
20h – Sessão de Cinema: “Cidade Tenebrosa” (1954, 74 min.)

Sexta
20h – Projeto Raros: “Perigosamente Harlem” (1991, 115 min.)
Sessão Comentada por Gustavo Machado

Sábado
14h – Workshop com Matheus Ferraz (sala multimídia) – “Assassinato Aconchegante: O Universo dos Cozy Mysteries”
Abertura das portas, início da Feira do Livro ABERST (hall)
15h – Bate-papo “Dashiell Hammett e os 90 anos de Safra Vermelha”
Convidados: Júlio Ricardo da Rosa e Juremir Machado da Silva
16h15min – Bate-papo “À Sangue Frio – o crime verdadeiro e a literatura”
Convidados: Rafael Guimaraens, Sandra Abrano e Luiz Gonzaga Lopes
16h45min – Workshop com Robertson Frizero (sala multimídia) – “O Noir Multicolorido de Almodóvar”
17h30min – Bate-papo “Quando o Horror e a Literatura Policial se encontram”
Convidados: Duda Falcão, Paula Febbe Nova e Marciele Goetzke
19h – Sessão de Cinema: “Até a Vista, Querida” (1944, 95 min.)
Sessão Comentada por Jessica Bernardi

Domingo
14h – Workshop com Cláudia Lemes (sala multimídia) – “Guia de Sobrevivência para Escritores Independentes: Divulgação e Gerenciamento de Carreira”
Abertura das portas, início da Feira do Livro ABERST (hall)
15h – Bate-papo “Desvendando Patricia Highsmith”
Convidados: Kelli Pedroso, Alex Mandarino e Tânia Cardoso de Cardoso
16h15min – Bate-papo “A lendária Coleção Amarela da Livraria do Globo”
Convidados: Sérgio Karam, Paula Ramos e Samir Machado de Machado
17h30min – Bate-papo “Crime, Política e Quadrinhos”
Convidado: Edgar Vasques
19h – Sessão de Cinema: “O Ódio é Cego” (1950, 106 min.)
Sessão Comentada por Jessica Bandeira

Porto Alegre Noir – Evento dedicado à literatura e ao cinema policial começa nessa sexta

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Cinemateca CapitólioMarcus Mello / Reprodução Facebook

Realizado de sexta a domingo, o evento trará exibições de filmes, palestras e cursos sobre o gênero

Alexandre Luchesse, na Gaucha ZH

A literatura policial é um dos gêneros que mais movimenta o mercado editorial pelo mundo. No RS não é diferente. Escritores como Tailor Diniz, Tabajara Ruas e Carina Luft são ativos em suas incursões ficcionais pelo mundo do crime e do mistério. No entanto, só agora a Capital ganha um evento dedicado ao tema: Porto Alegre Noir terá sua primeira edição de sexta-feira a domingo, na Cinemateca Capitólio (Demétrio Ribeiro, 1.085).

– Gosto de compartilhar minhas paixões como leitor e escritor. Achei que estava no momento de fazer um evento voltado só para a literatura policial, até porque este é um bom momento do gênero no país. Conseguimos estender a programação também para o cinema. No futuro, tentaremos agregar os quadrinhos – conta Cesar Alcázar, idealizador da mostra.

Alcázar tem know-how em promover festivais culturais independentes, sendo um dos organizadores da Odisseia de Literatura Fantástica, que, em junho, chegará à quinta edição. Para o Porto Alegre Noir, ele conta com a parceria das produtoras Fio e Cine Um, além do apoio de diferentes instituições.

Na programação, estão escritores de fora do Estado como Claudia Lemes, de São Paulo, autora dos thrillers Um Martini com o Diabo e Eu Vejo Kate. No sábado, às 16h15min, ela ministra o curso Técnicas de Suspense e Anatomia do Thriller. De Santa Catarina, Rogerio Christofoletti, um dos autores do almanaque eletrônico Os Maiores Detetives do Mundo, participará, no sábado, às 17h30min, de um bate-papo com o jornalista de ZH Carlos André Moreira, que participa da coletânea Ficção de Polpa: Crime (2008), e a escritora Carol Bensimon, que também esteve nessa coleção e assina um conto no recente Acerto de Contas – Treze Histórias de Crime & Nova Literatura Latino-Americana. Entre as atrações locais, estão os já citados Tabajara, Diniz e Carina, além de A. Z. Cordenonsi, Gabriela Silva e Rodrigo Tavares.

O evento começa com uma edição especial do Projeto Raros, que costuma exibir filmes fora do catálogo das distribuidoras. Na sexta-feira, às 19h, o escolhido é o longa A Quadrilha (1973), de John Flynn, adaptação do livro The Outfit, de Richard Stark. Depois da exibição, haverá comentário do escritor e cineasta Fernando Mantelli.

– Os três filmes que escolhemos são adaptações de romances mais ou menos conhecidos. No caso de A Quadrilha, o livro que lhe deu origem não foi lançado no país, mas uma versão em quadrinhos, chamada A Organização, lançada pela Devir, está disponível. O filme não foi um grande sucesso, mas foi muito elogiado e passou até na televisão nos anos 1970. Nunca foi lançado em VHS ou DVD no Brasil, embora merecesse uma edição – explica Alcázar.

No sábado, o filme escolhido é No Silêncio da Noite (1950), de Nicholas Ray, adaptação do livro homônimo de Dorothy B. Hughes, lançado no Brasil pela L&PM Editores. Já no domingo, é a vez de Homens em Fúria, de Robert Wise, baseado em obra de William P. McGivern inédita no país.

Os bate-papos e sessões de cinema do Porto Alegre Noir têm entrada franca, mas para os cursos é preciso fazer inscrições, com valor de R$ 45. A programação completa e informações para se inscrever podem ser acessadas aqui.

Memórias de John le Carré revelam vida de espião, método literário e relação com o cinema

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John le Carré diz, nas suas memórias, que, “quanto mais se procura por verdades absolutas, menos probabilidade haverá de encontrá-las. Se a verdadeira realidade reside em algum lugar, não é nos fatos, mas nas nuances”

O escritor de livros de espionagem diz, seguindo Graham Greene, que, ao escrever sobre a dor humana, é preciso partilhá-la

Euler de França Belém, no Jornal Opção

O britânico John le Carré é, como o belga Geor­ge Simenon, daqueles escritores que deixam seus leitores mesmerizados e à espera de novos livros. Nada tem a ver com autores celebrados pela linguagem inventiva, como James Joyce e Guimarães Rosa, mas escreve muito bem e, a respeito do tema espionagem, está muito à frente de outros autores. Talvez porque tenha sido espião do MI5 e MI6. Suas histórias e personagens são críveis. Porque baseados em homens de carne e ossos? Não necessariamente. Trata-se de fato que o autor escreve sobre o que conhece, mas é sua imaginação poderosa, sua capacidade de fabular, de criar, a partir de seres reais, compósitos ficcionais que convencem os leitores. É provável que tenha dois tipos básicos de leitores. No primeiro grupo estão aqueles que leem seus livros considerando que são puramente ficcionais e, diria Graham Greene, entretenimento de primeira linha. No se­gundo grupo estão inclusos os que acreditam que são um retrato, por vezes preciso, da espionagem nos tempos da Guerra Fria e, com o “fim” desta, dos tempos posteriores. Talvez exista um terceiro grupo, o dos que misturam o que pensam os anteriores.

Se a obra de John le Carré é uma delícia, tanto que ganhou ada­ptações de qualidade para o cinema — “O Espião Que Saiu do Frio”, com Richard Burton, e “O Espião Que Sabia Demais”, com Gary Oldman —, sua vida, como espião e escritor, merece ser registrada. Porque deve ser tão interessante quanto seus livros, como “O Jardineiro Fiel”. Estudou em Oxford, deu aulas no Eton College, espionou para os britânicos e, claro, escreveu livros sensacionais. Aliás, escreve, pois, aos 86 anos, está vivíssimo e produtivo. Talvez para fornecer material para seus futuros biógrafos, com o objetivo de evitar distorções e acrescentar sua própria versão dos fatos, decidiu escrever “O Túnel dos Pombos — Histórias da Minha Vida” (Record, 320 páginas, tradução de Alesssan­dra Bonr­ruquer), publicado no Bra­sil este ano e, na Inglaterra, em 2016.

“O Túnel de Pombos” não é a história da vida de John le Carré, e sim histórias de sua vida, muito bem contadas, por vezes de maneira maliciosa e, sobretudo, com a típica ironia distanciada dos ingleses. O leitor não espere, portanto, histórias precisas e grandes esclarecimentos — que ficarão na conta do futuro biógrafo. “Você tem o direito de per­­guntar o que é verdade e o que é a memória de um escritor criativo naquilo que podemos delicadamente chamar de o entardecer da sua vida. Para um escritor, os fatos são o material bruto, não seu capataz, e sim seu instrumento, e seu trabalho é fazê-lo cantar. Se a verdadeira realidade reside em algum lugar, não é nos fatos, mas nas nuances. (…) Esteja certo de que em nenhum momento falseei conscientemente um evento ou uma história. Disfarcei quando necessário? Sim. Falseei? De­fi­nitivamente, não.”

Percebe-se que, às vezes, o autor relata uma história, não para esclarecê-la em definitivo — se é que se pode esclarecer alguma coisa em definitivo, o que seria eliminar as nuances dos fatos, da vida —, mas lançar alguma luz e, quiçá, divertir o leitor. Fica-se com a impressão de que faltam notas de rodapé — do autor e da editora (o leitor eventualmente precisa pesquisar em livros ou na internet). O que falta mesmo é uma biografia que escarafunche sua vida, sem dó nem piedade, uma vez que o ex-espião — os russos costumam sugerir que uma vez espião sempre espião (o escritor endossa: “Aqueles que já estiveram no interior de uma tenda do Serviço Secreto jamais a deixam realmente”) — admite que, por lealdade e votos de silêncio, não pode se abrir inteiramente

Realistas morais

Na introdução, John Le Carré — cujo nome é David John Moore Cornwell — relata que Vivian Green, seu mestre em Oxford, “inspirou, com seu exemplo, o íntimo de George Smiley”, um dos principais personagens da vasta obra do escritor.

John le Carré, maior escritor britânico de livros de espionagem: “Regra número um da Guerra Fria: nada, absolutamente nada, é o que parece”

Estudante em Berna, John le Carré aprendeu a língua de Heine e se tornou um leitor devo­tado da literatura alemã — de escritores como Thomas Mann e Hermann Hesse. “Quan­do comecei a estudar os dramas de Goethe, Lenz, Schiller, Kleist e Büchner, descobri que me identificava igualmente com sua austeridade clássica e com seus excessos neuróticos. O truque consistia em disfarçar estes naquela.” Pela fluência na língua de Rilke, espionou na Áustria e, notadamente, na Alemanha. Não era, porém, um grande espião — é o que diz.

Graham Greene, outro grande escritor que trabalhou como espião para o MI6 — era amigo de Kim Philby, que espionou para os soviéticos —, aparece de maneira simpática nas memórias parciais e lacunares de John le Carré. Certa vez, conversando com um advogado do MI5, o escritor disse que admirava o autor de “Nosso Homem em Havana”, livro que, por sinal, estava sendo examinado pelo serviço secreto britânico. O advogado sugeriu que o autor desta obra deveria ser processado porque, “usando informação obtida como oficial do MI6 em tempos de guerra, havia retratado corretamente o relacionamento entre o chefe de estação de uma embaixada britânica e um agente de campo. Greene teria de ir para a prisão”. Mas o “censor” não era uma toupeira e admitiu: “O livro é muito bom. Esse é o problema”.

Além de não ter sido preso e do fato de que o romance se tornou best seller — e chegou a ser levado ao cinema —, Graham Gre­ene escreveu, anos depois, “O Fator Humano”, que retratava os “figurões do MI5 não apenas como tolos mas também assassinos”. John le Carré concorda em parte com o companheiro de profissão: “Em alguns livros, retratei o Serviço Secreto britânico como uma organização mais competente do que sei que é na realidade. Ou que um dos seus oficiais mais antigos descreveu ‘O Espião Que Saiu do Frio’ como ‘a única operação com um agente duplo que já deu certo’”.

Escrever romances, misturando fatos reais com histórias ficcionais, é menos danoso, para os serviços secretos, do que fazer revelações como as do americano Ed­war­d Snowden, sugere John le Carré.

Aos 25 anos, em 1956, John le Carré se tornou agente júnior do MI5 (onde atuaram Guy Burgess e Anthony Blunt, que traíram os ingleses para os soviéticos). Ele atuava na contraespionagem. Em 1960, transferiu-se para o MI6.

Os espiões experimentados liam os relatórios de John le Carré e, rigorosos, apontavam até as falhas básicas de gramática, além das informações truncadas. Longe de prejudicá-lo, foram úteis para refinar sua prosa futura.

Percebe-se que, quando menciona os agentes ingleses que espionaram para os soviéticos, nem mesmo o relato distanciado esconde a irritação de John le Carré. A traição de George Blake e Kim Philby (o “brilhante ex-chefe de contrainformação do MI6”), que expôs centenas de agentes britânicos, incomoda-o, mesmo agora. Trata-se, postula, de algo imperdoável (tanto que, quando visitou a União Soviética, não quis se encontrar com Kim Philby). Mesmo assim, é capaz de uma ressalva inteligente: “Espiões não são policiais, nem os realistas morais que acreditam ser. Se sua missão na vida é atrair traidores para sua causa, você não pode se queixar quando um dos seus, ainda que o ame como irmão e colega, é recrutado para o outro lado. Aprendi essa lição na época em que escrevi ‘O Espião Que Saiu do Frio’. E, quando escrevi ‘O Espião Que Sabia Demais’, foi a candeia turva de Kim Philby que iluminou meu caminho”.

“Espionagem e romance foram feitos um para o outro”, assinala John le Carré. “Ambos pedem um olho atento para a transgressão humana e para as muitas rotas que conduzem à traição.”

Operando na Alemanha, como espião disfarçado de diplomata, John le Carré, como David Cornwell, acompanhou o alemão Erwin Schüle, diretor do Centro de Investigação dos Crimes Nacional-Socialistas de Baden-Württemberg, numa inspeção de arquivos nazistas recém-descobertos, em Varsóvia. Para a “surpresa” de Schüle, os soviéticos apresentarem-lhe seu cartão de filiação ao Partido Nazista (o que era verdadeiro) e o acusaram de crimes de guerra (o que era falso). “A lição? Quanto mais se procura por verdades absolutas, menos probabilidade haverá de encontrá-las. Acredito que Schüle, na época em que o conheci, fosse um homem decente. Mas tinha de conviver com seu passado e, fosse qual fosse, era preciso lidar com ele.”

O capítulo 7 trata da “deserção de Ivan Serov”. O diplomata soviético aproximou-se de John le Carré, chegou a visitá-lo e a tocar piano — Mozart e Stravinsky — em sua casa, na cidade de Bonn, na Alemanha. “Regra número um da Guerra Fria: nada, absolutamente nada, é o que parece.” Pois bem: o espião-escritor não esclarece o que aconteceu exatamente, apesar de falar em deserção. Serov era, possivelmente, da KGB e/ou da GRU. Queria recrutar o escritor? Não ficamos sabendo. “Todos os serviços de espionagem mitificam a si mesmos, mas os britânicos são uma categoria à parte. Esqueça nossa triste participação na Guerra Fria, quando a KGB nos superou e se infiltrou em nós praticamente a cada instante.” Mas, frisa o escritor, “nós vencemos e, assim, fomos nós que escrevemos a história”.

Os americanos e os alemães não apreciam contar que recrutaram para seus serviços secretos, a CIA e o BND, nazistas, como o general Reinhard Gehlen e Klaus Barbie (ajudou os americanos a caçarem Che Guevara, na Bolívia).

Graham Greene: advogado queria levá-lo à prisão porque descreveu muito bem o Serviço Secreto inglês

Partilhar a dor

O autor de livros sobre histórias que se passam em países que não conhece bem pode cometer erros. Ao escrever o romance “O Espião Que Sabia Demais”, John le Carré usou informações desatualizadas de um guia de viagem. Ao visitar Hong Kong, descobriu que havia se enganado e pediu ao seu agente, por fax, que parasse a impressão do livro. Reescreveu cenas e enviou para Londres. Estava desesperado. “Jurei que nunca mais escreveria uma cena em um lugar que não tivesse visitado. Uma frase de Graham Greene ressoava nos meus ouvidos: algo sobre como, ao escrever sobre a dor humana, temos o dever de partilhá-la.”

Ao lado de repórteres, mas não com o objetivo de fazer jornalismo, e sim de colher dados e sobretudo de ver as coisas de perto, sondar as pessoas reais, John le Carré esteve em fronts perigosos, em várias partes do mundo (como Líbano, Ruanda, Congo, Rússia). Chega a confessar que teve medo, ao contrário de jornalistas destemidos, como David Greenway.

Em “O Espião Que Sabia De­mais”, além de George Smiley, há o personagem Jerry Westerby, correspondente esportivo e agente do Serviço Secreto britânico. Depois de escrever o livro, John le Carré conheceu Peter Simms, que era correspondente estrangeiro e agente secreto da Inglaterra. Eram idênticos. A ficção não inspirou a realidade nem a realidade inspirou a ficção. Mas o espião real e o espião ficcional eram, por assim dizer, “gêmeos” em tudo — no físico e no comportamento.

Um dos capítulos mais divertidos (até hilário?) é sobre o encontro entre o líder palestino Yasser Arafat e John le Carré. Não digo nada a respeito, pois vale a pena o leitor saboreá-lo.
Ao visitar Israel, John le Carré encontra-se com Michael Elkins, locutor americano que trabalhou na CBS e na BBC. Elkins contou-lhe sobre “a existência de uma organização judaica chamada DIN, a palavra hebraica para julgamento. Somente entre 1945 1946, a DIN caçou e matou nada menos que mil criminosos de guerra nazistas”.

Em 1987, John le Carré estava almoçando com Joseph Brodsky, na Inglaterra, quando anunciaram que o poeta e ensaísta russo havia sido laureado com o Nobel de Literatura. O escritor da terra de Liev Tolstói, que havia bebido e comido muito, demonstrou menos entusiasmo do que sua anfitriã britânica.

Sucesso no cinema

Richard Burton: o ator britânico praticamente exigiu que o escritor John le Carré se comportasse como “tutor” e foi responsável pela qualidade do filme “O Espião Que Saiu do Frio”, de Martin Ritt

Como escritor, John le Carré é meticuloso, visita países, busca informações objetivas e atualizadas. Escreve à mão e prefere não usar máquina nem computador. “Quando faço uma anotação, minha memória guarda a ideia. Quando tiro uma foto, a câmera rouba meu trabalho.”

O filme “O Espião Que Saiu do Frio”, de Martin Ritt, tem Richard Burton como protagonista. Ele faz Alec Leamas (papel que quase coube a Burt Lancaster).

Richard Burton disse a John le Carré que adorava o livro. “Mas o que eu secretamente perguntava, em meio às torrentes de elogios mútuos, era como aquela bela e estrondosa voz de barítono galês e aquele avassalador talento de triplo macho alfa caberiam no personagem de um espião britânico acabado de meia-idade que não se destacava pelo seu carisma, pela sua articulação clássica ou pela sua aparência de deus grego com cicatrizes de acne?”

De repente, Richard Burton começa a cobrar a presença de John le Carré. Disse que não filmaria mais se o escritor não aparecesse para reescrever cenas. Mas, quando agradava o ator, o escritor desagradava o diretor. Para piorar as coisas, a belíssima Elizabeth Taylor aparecia e implicava com a atriz Claire Bloom, que havia tido um affair com o galã (mais tarde, casou-se com Philip Roth, e, quando se separaram, publicou um livro explosivo sobre o escritor).

Ao final, e depois dos pileques de Richard Burton, o livro “O Espião Que Saiu do Frio” foi transformado num belo filme, graças, em grande parte, admite John le Carré, ao talento do ator.

Certo dia, Fritz Lang, o austríaco que conquistou Hollywood, apareceu e disse que queria filmar “Um Assassinato de Qualidade”, de John le Carré. “Você vai para a Califórnia. Escrevemos o roteiro, fazemos o filme”, sugeriu o cineasta alemão. Não deu certo. “Fritz Lang já não era mais financiável.”

Stanley Kubrick quis adaptar o romance “Um Espião Perfeito”, de John le Carré. Não deu certo. Depois, Kubrick queria que trabalhassem juntos na adaptação do livro “Breve Romance de Sonho”, do austríaco Arthur Schnitzler. O escritor deu sugestões, mas acabaram não firmando a parceria. Mais tarde, o americano dirigiu o filme “De Olhos Bem Fechados”, com Tom Cruise e Nicole Kidman. Há um texto magnífico e delicado sobre o ator Alex Guinsess, amigo de John le Carré.

Há histórias fantásticas, como a do papagaio que, num Líbano conflagrado, imitava barulhos de tiros e falava sobre batalhas assustando correspondentes estrangeiros num hotel. Quando Coco, o papagaio entrava em “ação”, gritando “Pro chão, seu idiota, arruma cobertura agora!”, os hóspedes não iniciados saíam correndo para se esconderem.

Documentário sobre Edgar Allan Poe mostra o lado mais sombrio do ícone literário

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Publicado no Literatura Policial

Via Newnownext – O canal de TV PBS vai transmitir um especial sobre Edgar Allan Poe, um dos grandes ícones da literatura e que morreu de forma misteriosa e inexplicada até hoje. O documentário faz parte da série American Masters, e estreia no dia 30 de outubro, nos Estados Unidos.

Dirigido pelo cineasta Eric Stange, “Edgar Allan Poe: Buried Alive” terá Denis O’Hare (Clube de Compras Dallas) no papel do escritor e narração de Kathleen Turner. O programa combina reconstituições dramatizadas da vida de Poe com leituras de seus contos góticos.

Ainda não há previsão de estreia no Brasil.

7 livros com participações especiais de Sherlock Holmes

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Foto: Mike Quinn, Creative Commons) Silhueta de Sherlock Holmes na estação de metrô de Baker Street, em Londres

Foto: Mike Quinn, Creative Commons) Silhueta de Sherlock Holmes na estação de metrô de Baker Street, em Londres

 

Bruno Vaiano, na Galileu

Em 7 de julho de 1930 morria, aos 71 anos, o médico e escritor escocês Arthur Conan Doyle. Sua extensa coleção de ensaios, poemas e romances históricos foi ofuscada na história da literatura por sua maior criação: o detetive Sherlock Holmes.

Foram, ao todo, 56 contos e 4 romances protagonizando o personagem. Doyle tinha sentimentos ambíguos em relação à sua própria criação, e em muitos momentos considerou parar de escrever histórias sobre o detetive para se concentrar em outros gêneros. A pressão das editores e o sucesso comercial, porém, fizeram Sherlock acompanhar a vida de seu autor até o final. Os últimos contos com o personagem foram publicados em 1927, apenas três anos antes de sua morte.

Para os fãs, não foi o suficiente. Sherlock Holmes conquistou corações e mentes, e se tornou um visitante (e eventual protagonista) de obras assinadas por incontáveis fãs do autor escocês. Um fenômeno das fanfictions. A GALILEU listou sete livros que não são de Doyle, mas que tem o detetive mais famoso da história no elenco.

O Xangô de Baker Street, por Jô Soares

Em um de seus livros mais famosos do apresentador brasileiro, O Xango de Baker Street, o detetive britânico é chamado pelo imperador D. Pedro II para solucionar um mistério no Brasil das últimas décadas do século 19: um valioso violino Stradivarius dado pela atriz francesa Sarah Bernhardt à baronesa Maria Luíza desapareceu. Ao mesmo tempo, uma prostituta é brutalmente assassinada, e é encontrada pela polícia com as orelhas decepadas e uma corda do instrumento sobre o corpo. Não bastasse a complexidade do caso, Holmes ainda sofre com o calor tropical e problemas intestinais causados por feijoadas e vatapás.

Uma Solução Sete por Cento, por Nicholas Meyer

Nicholas Meyer é mais famoso por ter dirigido dois filmes da franquia Star Trek. Sua obra literária, porém, está bem longe das estrelas. Sua inspiração, no início da carreira, veio de 100% de Baker Street.

O título de seu primeiro livro, de 1974, é uma referência a um dos romances de Doyle, O Signo dos Quatro, que começa e termina com Holmes injetando uma solução de cocaína na concentração de 7%.

Na história, narrada como um relato do Dr. Watson, Sherlock vai à Viena, na Áustria, buscar ajuda de um famoso psicólogo, com que fará reabilitação para se livrar do vício na droga. Chegando lá, o especialista é ninguém menos que Sigmund Freud, o pai da psicanálise. O detetive ainda aproveita para resolver um caso que atrasa a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Nada mal para uma só viagem.

Sherlock Holmes vs. Dracula, por Loren D. Estleman

Estleman é um jornalista americano que ainda usa uma máquina de escrever e um prolífico autor de livros Western, mas também fez três histórias estrelando o detetive britânico. Na principal delas, de 1979, o capitão de um navio é encontrado morto em um porto da Inglaterra, e todo seu sangue foi drenado. O responsável é Conde Drácula, que será investigado por Holmes. No caminho, o detetive topa com o caçador de monstros Van Helsing. Imperdível.

Se você está com preguiça de estudar matemática e preferiu enfiar a cara em um dos livros de Sir Arthur Conan Doyle, o físico Colin Bruce oferece um meio termo tentador que irá suprir suas

Novas Aventuras Científicas de Sherlock Holmes, por Colin Bruce

Se você está com preguiça de estudar matemática e preferiu enfiar a cara em um dos livros de Sir Arthur Conan Doyle, o físico Colin Bruce oferece um meio termo tentador que irá suprir suas necessidades acadêmicas. Nas novas aventuras do detetive inglês, casos ardilosos envolvendo empresários, jogadores e vigaristas são desvendados por meio de conceitos da probabilidade, da estatística e da teoria dos jogos. Tudo explicado número por número.

The Mammoth Book of New Sherlock Holmes Adventures, por Vários Autores

Em tradução livre, O Grande Livro de Novas Aventuras de Sherlock Homes, ainda sem edição em português. Essa é uma compilação para viciados em crise de abstinência. Stephen Baxter, H. R. F. Keating, Michael Moorcock, Amy Myers e outros escritores de romances policiais e ficção científica assinam histórias inéditas de Holmes para quem já zerou as 60 narrativas deixadas por Sir Arthur Conan Doyle.

Sherlock Holmes: Biografia não autorizada, por Nick Renninson

Após encarar Drácula, se consultar com Freud e passar mal comendo vatapá, nada mais justo do que dar a Holmes sua própria biografia. O livro de Nick Renninson, publicado em 2006, mistura, com a maior naturalidade possível, episódios reais da história da Inglaterra com os incontáveis casos solucionados pelo detetive. Na mistura, não entra apenas a obra canônica de Doyle, mas várias das incontáveis participações de Holmes em outras obras que são citadas aqui. Depois da leitura, fica até difícil de acreditar que ele não existiu.

Sherlock Holmes no Japão, por Vasudev Murphy

O livro tenta preencher uma lacuna da cronologia oficial de Holmes, enviando-o à terra do sol nascente. O ano é 1893, e o detetive busca conter o maligno professor Moriarty, que tem planos de dominar o mundo. A obra, que faz uma boa ambientação da vida nos países asiáticos no século 19, foi, em geral, bem recebida, mas desagradou leitores mais conservadores por distorcer muitos elementos das histórias originais.

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