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Biblioteca Particular de Fernando Pessoa sai pela primeira vez de Portugal e vai até Paris

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Publicado no Comunidade Cultura e Arte

A Biblioteca Particular de Fernando Pessoa sai pela primeira vez do país, na próxima semana, para ser exposta em Paris, no âmbito do Festival Do Desassossego, organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian, anunciou a Casa Fernando Pessoa (CFP).

“São cerca de 800 títulos, o espólio mais valioso da casa Fernando Pessoa, que serão mostrados ao público francês até 06 de novembro“, disse à Lusa fonte daquela instituição tutelada pela Empresa municipal de Gestão dos Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), de Lisboa.

“Além do valor por terem sido oferecidos ou adquiridos e lidos por Fernando Pessoa, a este conjunto de livros acresce o valor incalculável das notas que o escritor deixou nas margens, capas, contracapas, por vezes suporte de poemas completos, manuscritos a lápis. A marginália [as notas, escritos e comentários pessoais] faz desta biblioteca uma biblioteca ainda mais particular“, sublinhou a mesma fonte.

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A exposição, que é inaugurada na próxima terça-feira, é comissariada por Paulo Pires do Vale, também responsável pela nova museografia da CFP que “em breve” disponibilizará de forma permanente a exposição deste espólio em Lisboa.

Os livros da Biblioteca Particular foram mostrados em diferentes alturas na CFP, “dentro do que tem sido possível e tendo em conta as necessidades de preservação, no entanto, a maior parte dos títulos que compõem a Biblioteca Particular tem estado em reserva“, referiu.

“Nos últimos dois anos estes livros foram alvo de restauro, ao abrigo de um protocolo celebrado com a Biblioteca Nacional de Portugal, o que permite que estejam em melhores condições de conservação para serem mostrados ao público“, disse a mesma fonte.

“A viagem até Paris de grande parte da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa é um acontecimento inédito na história deste espólio“, realçou a mesma fonte, salientando que esta mostra em Paris é “um importante passo da programação da CFP“.

“A colaboração institucional com a Fundação Calouste Gulbenkian que acontece com este empréstimo segue a linha de divulgação internacional de Fernando Pessoa, possibilitando agora um contacto único com o seu universo e abrindo a sua obra a novas interpretações, ao articular esta mostra com trabalhos de artistas contemporâneos, como Fernando Calhau, João Onofre, Dora Garcia e Pierre Leguillon“, explicou.

Depois da apresentação em Paris, os livros “não regressam na sua totalidade para as reservas, mas sim que também em Portugal, na CFP, no bairro de campo de Ourique, em Lisboa, possa ser finalmente mostrada a dimensão da Biblioteca Particular do poeta, que será o núcleo central da nova museografia para a Casa, em desenvolvimento“, adiantou.

“Estamos a trabalhar na Casa Fernando Pessoa para criar as condições para em breve melhor mostrar na Rua Coelho da Rocha, n.º 16 este tesouro nacional“, garantiu.

Todavia, refira-se que a Biblioteca Particular “está toda digitalizada e disponível online, à exceção dos títulos protegidos ainda pelo Código dos Direitos de Autor e Direitos Conexos“.

A Biblioteca Pessoal do autor de ‘Mensagem‘ permite conhecer “outra dimensão de Fernando Pessoa, a de leitor”

O festival vai contar com um ciclo de conferências, outras exposições e projeção de filmes, tendo como temas a incerteza, o desconhecido e a utopia, 500 anos após a publicação do livro ‘A Utopia‘ de Thomas Moore.

Texto de Lusa

‘As pessoas que mais nos acompanham na vida são os livros’, diz Valter Hugo Mãe

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Sylvia Colombo, na Folha de S.Paulo

Livros podem ser como pessoas. Apesar de achar a própria ideia “ousada”, é sobre essa possibilidade que o escritor português Valter Hugo Mãe, 45, discorrerá em suas palestras em São Paulo (31 de agosto) e em Salvador (5 de setembro), dentro do ciclo de conferências “Fronteiras do Pensamento”, evento do qual a Folha é parceira.

O autor de “A Máquina de Fazer Espanhóis” e “O Filho de Mil Homens”, cuja obra no Brasil era editada pela Cosac Naify, agora terá seus livros publicados pela Biblioteca Azul.

Em entrevista à Folha, por Skype, o escritor falou de sua relação com os livros e do novo romance, que se passa no Japão antigo.

*

Folha – Como serão suas palestras no Brasil?

Valter Hugo Mãe – Partirei da presença de um livro na minha infância para refletir sobre o que penso a respeito da felicidade, que é um tema recorrente nos meus livros. A felicidade não existe sem conter a tristeza.

Quero contar minha experiência enquanto autor na busca de uma espécie de redenção, de salvação, a partir da literatura. E questionar até que ponto os livros não são, eles próprios, motivações para a felicidade.

Talvez eu vá dizer que os livros de alguma forma representam pessoas e, enquanto estivermos dentro de um espaço carregado de livros, estaremos na verdade no meio de uma multidão.

Por que talvez?

Porque que vou dizer, mas considero ousado (risos). Vou citar alguns autores de que gosto, mas obviamente pressupor que as pessoas entendam que estou falando de estar cercado apenas de bons livros. O foco será nessa honesta sensação que tenho de que, com o tempo, as pessoas que mais nos acompanham na vida talvez sejam livros. No meu caso, as pessoas que mais demoram na minha vida são mesmo feitas de papel.

O escritor português Valter Hugo Mãe em Sabatina Folha no ano passado - Eduardo Anizelli/Folhapress

O escritor português Valter Hugo Mãe em Sabatina Folha no ano passado – Eduardo Anizelli/Folhapress

 

Você acaba de terminar mais um romance. Pode falar um pouco dele?

Terminei, mas ainda não entreguei. Estou dando a última leitura para mandar hoje mesmo. Neste momento, estou na página 59 (risos). Esse processo é patológico. Estou naquela fase em que começa a depressão pós-escritura. A gente fica tanto tempo meditando sobre um texto que, quando entrega, é quase como sofrer um ato de violência.


Por quê?

Não é porque eu não queira compartilhar, fico ansioso para que as pessoas leiam e me digam o que pensam, fazendo com que eu aprenda algo mais sobre o livro que eu jamais saberia sozinho.

Mas essa hora de entregar é uma coisa horrenda (risos), porque nós vínhamos juntos há tanto tempo, e de repente o autor fica para trás.

O livro vai e eu fico com aquela angústia porque, obviamente, não posso disciplinar o leitor, então não sei o que vai acontecer. Se o leitor vai ler o livro distraído, ou rapidamente, ou interromper a leitura onde eu acho que não deveria. E ele pode, inclusive, ser burro, e não saber coisas elementares que eu acho fundamentais que um ser humano saiba.

Enfim, talvez seja também a minha burrice de autor que está em causa. Fico sem saber se expliquei o suficiente. É uma mistura de insegurança com tristeza. E eu sempre sofro isso de modo performático, então preciso criar uns rituais.

Como assim, pode dar um exemplo?

Ah, eu tenho umas superstições, umas coisas que sempre repito a cada livro. Por exemplo, logo que termino, eu imprimo tudo e coloco essa impressão debaixo de um Galo de Barcelos. O Galo de Barcelos, como você sabe, é um objeto de artesanato tão famoso que simboliza Portugal, uma coisa muito antiga, folclórica.

Existe uma superstição aqui, sobretudo na região norte do país, onde eu vivo (no Porto), que diz que nenhuma casa é feliz se não tiver um Galo de Barcelos. E esse foi minha mãe que me deu.

É uma coisa boba, porque eu não acredito que o galo dê sorte, mas como foi minha mãe que me deu, acho que, se não fizer isso, estarei ofendendo-a, porque ela me deu o galo convicta de ele tomaria conta de mim.

Sobre o que é seu novo romance?

É uma história que acontece no Japão e conta a história de um artesão, um homem humilde que vive no sopé de uma montanha, perto de Kyoto, no Japão antigo.

Tentei buscar um Japão mitológico, não tecnológico e não sofisticado. Esse foi o Japão que me impressionou desde menino, daquele povo esforçado, trabalhador, mas ao mesmo tempo capaz de uma ira, de uma violência.

Conhecer o Japão depois de ter esse Japão mitológico na memória mudou muito sua visão do país?

Sim, acho bonito eles terem conseguido entrar no futuro sem perder a memória. É uma memória endêmica que eles recusam a deixar de lado. Depois de ser um país profundamente bélico, de uma história de agressões, o Japão conseguiu erguer também a sociedade mais cordial do planeta.

Há uma aprendizagem diante dessa passagem de uma violência secular para uma pacificação. Imagine, com essa quantidade de gente que hoje habita a ilha, o país implodiria se eles ainda estivessem com os sabres erguidos a matarem-se uns aos outros (risos).

Você dizia que queria passar um tempo numa cidade pequena do Brasil e escrever um livro. É seu próximo projeto?

Não é pra já, mas tenho essa vontade, que precede a minha aceitação no Brasil como autor. O Brasil é uma atração minha desde a meninice, mas a minha relação com o país tornou-se tão especial que eu não gostaria que um livro que eu escrevesse sobre o Brasil fosse visto como uma espécie de correspondência fútil.

Não quero correr o risco de as pessoas pensarem que escrevi um livro oportunista para que os brasileiros gostem mais de mim.

Então preciso que o livro surja e que seja legítimo. Mas vai acontecer, a não ser que eu morra de um câncer fulminante.

Bom, você conta sempre que tinha a ideia, na infância, de que iria morrer logo, aos 18, e não morreu

Então, depois que isso não aconteceu, agora acho que não vou morrer mais, então vai dar tempo de escrever o livro sobre o Brasil (risos).

Você tinha uma visão muito crítica da União Europeia, achava que Portugal vinha sendo maltratado. O que achou da saída do Reino Unido?

Acho que colocou um freio no continente. Do modo como estava funcionando, era, sim, uma forma de os grandes manipularem os menores.

Mas eu sou um europeísta convicto, e acho que de maneira nenhuma a Europa pode se desfazer. Se isso ocorrer, vai nos enfraquecer ao ponto de nos tornarmos apenas belos museus medievais.

Seremos um continente de museus decrépitos. As pedras, a monumentalidade vai estar toda aí, mas as pessoas não vão ter como viabilizar um futuro, só vai existir o passado. Se nos desagregarmos, os países se transformarão em digníssimos lugarejos.

‘É absurdo que Machado não seja obrigatório’, diz escritor português

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Crítico literário, Pedro Mexia lança obra poética no Brasil - Divulgação

Crítico literário, Pedro Mexia lança obra poética no Brasil – Divulgação

Mariana Filgueiras, em O Globo

RIO — Crítico, apresentador de TV, dramaturgo, tradutor, o português Pedro Mexia é também poeta e fã da literatura brasileira. Jurado do Prêmio Camões, considerado o mais importante prêmio literário em língua portuguesa (e que há poucas semanas elegeu o escritor paulista Raduan Nassar como ganhador de 2016), Mexia tem um livro publicado no Brasil: a coletânea de crônicas “Queria mais é que chovesse”, pela Tinta da China.

É pela mesma editora que ele lança, nesta quarta-feira, “Contratempo”, uma coleção de cem poemas escolhidos para o público brasileiro. No país para o evento — e também para o lançamento de “Breviário do Brasil”, clássico da portuguesa Agustina Bessa-Luís que só agora chegou ao país e cujo prefácio ele assina —, Mexia conversou com O GLOBO, por e-mail, sobre a relação literária ainda tensa entre Brasil e Portugal: “Agustina é a maior escritora portuguesa que os brasileiros desconhecem”.

Pelo segundo ano consecutivo, o senhor é jurado do Prêmio Camões. Sabemos que os prêmios têm imenso peso literário, mas pouco peso comercial. Ganhadora de 2015, Helia Correia continua ausente no Brasil. Raduan Nassar, brasileiro ganhador deste ano, também é desconhecido em Portugal. Como diminuir essa distância entre as láureas e o público?

Independentemente do prestígio que o Prêmio Camões tenha ou não nos dois países e da atenção variável que os premiados recebem da mídia (dependendo da sua notoriedade, acessibilidade etc.), é notória a convivência difícil entre as duas literaturas. Parte da solução está nos currículos escolares (é absurdo que Machado não seja obrigatório nas escolas portuguesas) e na disponibilidade, a preços aceitáveis, de livros brasileiros em Portugal e de livros portugueses no Brasil. A outra parte depende um pouco de os escritores se lerem uns aos outros, se conhecerem, escreverem uns sobre os outros, como aconteceu aliás noutras décadas, quando todos os escritores portugueses sabiam bem quem eram Jorge Amado, Cecília, Bandeira ou Drummond.

Você assina o prefácio de “Breviário do Brasil”, de Agustina Bessa-Luís, um desses clássicos da língua portuguesa que nunca tinham sido editados aqui, até esta semana, quando foi lançado no país pela Tinta da China. E diz: “Amamos o Brasil porque achamos que o compreendemos”. Por que o “Breviário do Brasil” é um bom livro para os brasileiros começarem a ler Agustina?

Achamos, nas últimas décadas, que conhecíamos o Brasil, quando na verdade conhecemos apenas um Brasil de superfície, mesmo que as superfícies nem sempre sejam ilusórias: o Brasil da praia e das canções, das novelas e do futebol. Idolatramos isso, ou detestamos isso, mas não é com isso que ficamos a conhecer o Brasil tal como ele é. O Brasil é um país que tende a ser definido através de clichês. Até os amigos do Brasil cometem esse erro. O “Breviário do Brasil”, de Agustina, foge às ideias feitas e aos lugares-comuns, tratando o Brasil com seriedade, exigência e carinho, como se de fato fosse um país irmão, um gêmeo diferente. E a obra de Agustina Bessa-Luís é toda assim: idiossincrática, impertinente, implacável, brilhante. É a maior escritora portuguesa que os brasileiros desconhecem.

O que o norteou ao escolher quais poesias suas apresentaria ao público brasileiro no livro “Contratempo”?

Adaptei para a edição brasileira a antologia que publiquei há uns anos em Portugal, incluindo poemas de uma coletânea mais recente, e eliminando outros, de modo a manter um número redondo de cem poemas. São os poemas que me parecem mais conseguidos ou mais “representativos”, e que identificam uma mundividência e uma linguagem. Na seleção, evitei apenas alguns textos que têm referências “demasiado” portuguesas, e que só seriam entendidos com (indesejáveis) notas de pé de página.

Poema inédito de Fernando Pessoa é encontrado em caderneta

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Revelação é feita por biógrafo na véspera do dia de aniversário do poeta

José Paulo Cavalcanti Filho, em O Globo

A descoberta de um inédito. Quem escreve sobre algum autor, durante longo tempo, sempre sonha encontrar um inédito dele. Pelo só prazer de ter feito a descoberta. Ou por imaginar que o destino conspirou para que assim tenha sido. Este caso de agora é curioso. Trata-se de um caderno de autógrafos que vai trocando de mãos. Sem que nenhum dos seus anteriores proprietários se tenha dado conta de que o texto de Pessoa, ali escrito, era mesmo um inédito. Talvez porque, em 2005, algo que seria um como que rascunho dele tenha sido publicado em Poemas de Fernando Pessoa, 1915-1920, numa edição de João Dionísio para a Imprensa Nacional – Casa da Moeda, em Portugal. Pensava-se, era mesmo natural, que seria o tal poema sem título que começa pelo verso Cada palavra dita é a voz de um morto. Mas desse rascunho, publicado antes, Pessoa manterá só os dois primeiros versos.

E outros dois, em seguida. Os demais foram reescritos – em alguns casos, alterando radicalmente o próprio sentido original do texto. Ou foram excluídos. Com numerosos acréscimos. Tudo a resultar em algo novo. Para compreender como isso aconteceu, é preciso O caderno de couro vermelho. Em 29 de janeiro de 1913, o jovem José Osório de Castro e Oliveira está No alto mar, a bordo do König Wilhelm II – assim, com letra desenhada de quem acabara de fazer 13 anos, escreve na primeira página daquele caderno.

Presente de sua mãe, Ana de Castro Osório (pioneira na luta pela igualdade dos sexos, em Portugal), por ocasião do aniversário de seu filho Jeca (apelido pela qual o chama), ocorrido há dois dias. Como recordação de sua viagem de regresso à formosa Terra da Pátria, escreve ela. O pai, Paulino e Oliveira, poeta e ativo membro do Partido Republicano, depois de frustrada rebelião em que participou, está residindo no Brasil (onde morreria pouco depois, de tuberculose, em 13 de março de 1914). Apenas mãe e filho viajam, de volta a Portugal.

No alto dessa primeira página está um selo do Deutsches Reich (com carimbo da Linie Hamburg Südamerika, de 30 de janeiro de 1913). E pouco abaixo, escrito à mão, Livro de Autógrafos. No canto inferior esquerdo há hoje, colado, um ex-libris com desenho de castelo cristão medieval com quatro torres e a inscrição, numa bandeira, Força na Paz.

Colada posteriormente, tem-se a impressão. Dado refletir sentimento comum no país a partir da Primeira Guerra, sobretudo. Marca pessoal do José Osório, talvez (a conferir). Seja como for, era mesmo algo então natural, dado ser o ex-librismo usado com frequência no século XIX/princípios do século XX.

Em consulta ao Serviço do Correio Imperial Alemão, se vê que essa companhia transatlântica usava dois grandes navios na rota América do Sul (Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro) – Europa (Lisboa, Hamburgo). O König Friedrich August e o dito König Wilhelm II. A imprensa de Lisboa anunciou em 1º de fevereiro de 1913, um sábado, que este último estava no porto. Vinha do Rio. E seguiria, depois, na direção da Alemanha. Ali, nas gares marítimas de Alcântara, desceram José Osório e sua mãe.

Curioso é que a bordo desse mesmo König Wilhelm II Fernando Pessoa, em férias sabáticas do padrasto, veio pela primeira vez de Durban para Lisboa. Malhas que o Império tece!, disse n’O menino de sua mãe. O jornal O Século de 14 de setembro de 1901 (pág. 4) faz constar: No navio alemão König, vieram de Durban o cônsul [João Miguel dos Santos] Rosa e 3 filhos – que seriam Pessoa (com 13 anos), a irmã Teca (com 5) e o irmão Luiz (com 2). Faltaram, nessa relação, a mãe de Pessoa, dona Maria Magdalena Pinheiro Nogueira; a ama Paciência; e também, para serem enterrados em Portugal, os ossos (ou talvez fossem as cinzas) de uma irmã morta de Pessoa, Magdalena Henriqueta.

Anotações. O jovem José Osório começa, então, a colecionar depoimentos de viajantes daquele navio. Quase todos desconhecidos. Uma argentina, R. (mais sobrenome ilegível), o chama de simpático portuguesito (29 de janeiro de 1913). Outra, Maria Lia Lobo, de simpático compañero (31 de janeiro de 1913). Um argentino, J. Auber, escreve conselhos si tu veux devenir um bonito rapaz (31 de janeiro de 1913). Há mais, no caderno, instigante coincidência. Uma anotação, de 1º de fevereiro de 1913, dirigida Ao meu sobrinho adoptivo José Osório. Assinada por Manuela Nogueira. Uma homônima da sobrinha verdadeira de Pessoa, autora bem conhecida em Portugal. Inquirida sobre esse fato, declarou dona Manuela Nogueira jamais ter ouvido falar de alguém que tivesse o seu mesmo nome. Fica o mistério. Como ensina uma das Regras da Vida de Pessoa, Felizes aqueles para quem o mistério se resume em Padre, Filho e Espírito Santo. Deles é a felicidade.

O menino cresce. Nascido em Setúbal (27 de janeiro de 1900), ainda cedo José Osório se destaca como jornalista, crítico literário e ficcionista. Mais tarde se tornaria escritor de renome, com prefácios usualmente assinados por seu irmão João de Castro Osório. Primeiro ensaio foi Oliveira Martins e Eça de Queiroz (1922). Depois, mais dez livros. Inclusive, editado no próprio ano de sua morte (Lisboa, 3 de dezembro de 1964), História breve da literatura brasileira. Em 1917, já com 17 anos, dá início a publicações literárias nas páginas do jornal A capital. A partir dos anos 1930, torna-se um divulgador da literatura cabo-verdiana e defensor da aproximação entre Portugal e Brasil. Casado com a escritora Raquel Bastos, em 1930, sua filha Isabel (Maria Bastos Osório) de Castro (e Oliveira) foi atriz de sucesso, com vários prêmios no teatro e na televisão, tendo participado em cerca de 50 filmes.

Novas anotações. A partir de 1915, José Osório decide aproximar-se das letras. E usa seu caderno para colher mais depoimentos. Como, sem data, o de Carmem de Burgos (e Segui, Almería, 1867 – Madrid, 1932), que discorre sobre o interesse pela arte. Carmem – jornalista, escritora e ativista dos direitos da mulher espanhola – era, certamente, próxima da mãe de José Osório, Ana Castro. (Artur Ernesto de Santa) Cruz Magalhães (Lisboa, 1864-1928) deixa (também sem data) enigmática frase – Ser bom é saber sofrer.

Talvez uma reflexão sobre sua própria vida. Cruz Magalhães, com numerosos livros publicados, é responsável (sem colaboração do governo) pelo magnífico Museu Bordalo Pinheiro, instalado num anexo de sua residência – na Rua Oriental do Campo 28 de Maio (atual Campo Grande), em Lisboa. E veio a morrer, pouco depois, sem jamais ter tido o reconhecimento que imaginava merecer. Contando-se ainda, nessa relação, três nomes importantes do “Primeiro Modernismo” – que nasceu com a geração da revista Orpheu. A Luiz de Montalvor. Em 1917, Montalvor escreve, no caderno, sobre tempos anteriores à Restauração Portuguesa. E finda com essa afirmação: Filippe II foi o Rembrandt do claro-escuro da Morte… Luiz da Silva Ramos, seu nome verdadeiro, foi assessor de Bernardino (Luís) Machado (Guimarães), Ministro Plenipotenciário de Portugal (em 1912-1915) no Rio de Janeiro, cidade em que nasceu. O mesmo Bernardino que, depois, foi Presidente da República por duas vezes – em 1915/1917 e 1925/1926. Um carioca Presidente de Portugal… Pessoa, que tinha opiniões críticas sobre nosso país (E tu Brasil,“república irmã”, blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir – assim disse no Ultimatum), deve ter se divertido com isso. Montalvor, que dirigiu (foi, também, responsável pela introdução) o primeiro número da revista Orpheu, depois dirigiria a revista Centauro. E seria responsável, juntamente com João Gaspar Simões, pela edição das Obras Completas de Pessoa, pela Editora Ática, sete anos depois da morte do amigo – por ele definido como O Ícaro de um sonho. Mais tarde (2 de março de 1947), em gravíssima crise financeira e com problemas familiares, lança-se com seu carro no Tejo. Junto com mulher e filho.

Augusto Ferreira Gomes. Em maio de 1917, Gomes deixa no livro seu poema Hydromel, que começa pelo verso Meu elmo já não brilha em tardes de parada. Augusto Ferreira (de Oliveira Bogalho) Gomes foi administrador das minas do Porto de Mós, jornalista, especialista em artes gráficas e também poeta que escreveu para as revistas Orpheu 3 (que nunca seria editada), Contemporânea e Athena (dirigida por Pessoa). Seu livro Quinto Império teve prefácio escrito por Pessoa. Acabaram se aproximando a partir do interesse de ambos pelo misticismo. Ou pela crença comum na Utopia do Quinto Império. E continuaram amigos, em Lisboa, inclusive depois que Gomes passou a ter relações mais próximas com o primeiro ministro António de Oliveira Salazar. Enquanto Pessoa, ao tomar as dores da Maçonaria, escrevia poemas (censurados) como Liberdade (em 16.3.1935), dizendo que Mais que isto/ É Jesus Cristo/ Que não sabia nada de finanças – sutil crítica àquele que um dia foi professor de Ciências da Finanças, em Coimbra. Ou esse (um dos três escritos em 29 de março de 1935, com título único de Salazar), assinado pelo heterônimo Um Sonhador Nostálgico do Abatimento e da Decadência – nome inspirado em discurso de Salazar, na entrega dos prêmios (em 21 de fevereiro de 1935) num concurso em que Mensagem ganhou o Prêmio Antero de Quental para poesias curtas:

Este senhor Salazar

É feito de sal e azar.

Se um dia chove,

A água dissolve

O sal,

E sob o céu

Fica só azar, é natural.

Oh, com os diabos!

Parece que já choveu.

Luiz Pedro Moitinho de Almeida era filho do patrão de Pessoa na Casa Moitinho, onde foi escrita a Tabacaria. Essa tabacaria, só para constar, era a Habaneza dos Retrozeiros – situada na esquina da Rua da Conceição (então dos Retrozeiros) 63/65 com a Rua da Prata 65. Onde hoje está a Pelaria Pampas, especializada em vender artigos de couro argentino. E não A Morgadinha (como consta na maioria dos textos portugueses), situada esta na Rua Silva Carvalho 13/15. Bem próxima do apartamento de Pessoa. O engano se deve aos versos Janelas do meu quarto/ Do meu quarto de um dos milhões do mundo… Algo mesmo natural, posto que seria das janelas desse quarto que saudava o amigo íntimo (Joaquim) Esteves, à porta daquela tabacaria, em conversa com seu proprietário (Manuel Alves Rodrigues). Mas se trata de algo impossível. Porque o quarto em que dormia Pessoa na Rua Coelho da Rocha 16 (em Campo de Ourique), para evitar o frio responsável por suas frequentes crises de gripe, nunca teve janelas. Como confirmaram sua sobrinha Manuela Nogueira (que ocupava o quarto da frente, aquele com janelas) e António Manassés (filho do barbeiro de Pessoa – que acompanhava o pai quase todos os dias àquele quarto, para a barba). (mais…)

Quarto onde Fernando Pessoa morou está disponível para aluguel no Airbnb

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Quarto onde Fernando Pessoa morou está disponível para aluguel no Airbnb - Reprodução

Quarto onde Fernando Pessoa morou está disponível para aluguel no Airbnb – Reprodução

 

Cômodo traz decoração de época, com máquina de escrever e chapéu igual ao do poeta

Publicado em O Globo

RIO — Aos 20 anos, em 1908, Fernando Pessoa tinha acabado de falir uma tipografia aberta com o dinheiro da herança de sua avó, Dionísia, morta um ano antes. Com pouco dinheiro, alugou um quarto no Largo do Carmo, 18, em Lisboa, e passou a se dedicar à tradução. Agora, o quarto no bairro do Chiado onde o mais famoso poeta português morou por quatro anos está disponível para aluguel no Airbnb.

O site de aluguel de casas e apartamentos divulgou a existência do quarto para marcar o aniversário de Pessoa, que completaria 128 anos no próximo dia 13 de junho. A atual anfitriã se chama Bárbara e é coberta de elogios pela maioria das 39 pessoas que deixaram comentários no site.

— O local estava ao abandono e nós, a família Martinho, tomámo-lo de aluguer e renovámos há cerca de dois anos — explica ela, em português de Portugal. — Alugamos o quarto de Fernando Pessoa para dormir e também para trabalhar, pois ele, Pessoa, também aqui trabalhou com o primo.

Quarto onde Fernando Pessoa morou está disponível para aluguel no Airbnb - Reprodução

Quarto onde Fernando Pessoa morou está disponível para aluguel no Airbnb – Reprodução

O quarto tem uma decoração que remete ao início do século XX e à vida do poeta, com máquinas de escrever, mobiliário da época, malas antigas nas paredes e um chapéu igual ao usado por Pessoa. Tudo isso sem deixar de lado o indispensável wi-fi. A diária, agora na alta temporada, está em R$ 340.

Por conta da decoração antiga, a anfitriã não indica o apartamento para inquilinos com crianças pequenas ou animais de estimação. Também não é permitido fumar nem realizar festas ou eventos. De resto, ela pede apenas “bom senso”.

O apartamento fica em frente ao Largo do Carmo, onde existem bares e música ao vivo. Por isso alguns hóspedes alertam para alguma dificuldade de dormir em caso de pessoas com sono leve, enquanto outros destacam as agradáveis noite ouvindo jazz da varanda do quarto.

Via NewInTown.

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