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Posts tagged Literatura Pós-moderna

7 Motivos Para Ler Roberto Bolaño

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Se você ainda não conhece a obra do autor chileno Roberto Bolaño, eis 7 razões para começar agora mesmo

José Figueiredo, no Homo Literatus

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O obituário do The New York Times de Roberto Bolaño chamou-o “um herói cult interrompido”, e não é para menos. Ao falecer aos 50 anos de idade em Barcelona, o autor chileno deixou o grande romance (em tamanho e qualidade) 2666 praticamente terminado – além de sensação de que o melhor, se é possível, ainda estava por vir. Sua história de vida, dedicada inteiramente à Literatura, ajuda a difundir sua obra, aumentando o número de leitores.
Mas o que torna sua obra tão atraente?
Para explicar, separamos 7 motivos para ler seus romances, novelas e contos.

1) Os títulos estranhos e atraentes

Se há algo que chama a atenção na sua obra, são os títulos. Dos mais enigmáticos, 2666, aos mais simples, Pista de Gelo ou Amuleto, Bolaño sabia como poucos dar nome aos seus trabalhos. Muitos são uma combinação improvável de nomes e adjetivos, tais como Os detetives selvagens ou Putas assassinas. Outros dão a entender que a obra tratará de grandes fatos históricos (mesmo que não tratem), como O terceiro reich. Há ainda os que dizem muito e explicam nada, La literatura nazi en América, As agruras de um verdadeiro tira e Noturno do Chile.

2) Narrativas improváveis e instigantes

Absolutamente nada parece escapar: O relacionamento entre atores pornô, a busca por um escritor que ninguém nunca viu, o assassinato numa pista de gelo, a busca por uma poetisa mexicana no deserto de Sonora, jovens vagando pelo mundo, um manual sobre supostos autores nazistas na América Latina, um escritor que vive de ganhar concursos literários com a mesma obra – que ele muda o título ao reenviá-la, as férias de um jogador profissional de wargames. Lendo essa lista, parece improvável que ele consiga tirar algo de interessante de todos esses pontos, o que se prova falso ao começar a ler suas obras. Suas narrativas, por mais simples e bizarros que sejam os motes, conseguem nos captar facilmente. Roberto Bolaño provou que uma história está em qualquer coisa, até nos lugares mais improváveis e malucos.

3) Autoficção feita de uma nova forma

Tem autores que fazem autoficção do jeito comum. Tem os que romantizam sua história. Tem Roberto Bolaño e Os detetives selvagens. Misturando sua própria experiência de vida ao vagar entre o México e a Europa, Bolaño criou um dos romances mais improváveis e instigantes dos últimos cinquenta anos. Mesmo focando nas suas viagens e vivências, o autor chileno conseguiu criar uma narrativa divertida e ao mesmo tempo representativa de uma geração que esperava fazer muito e conseguiu muito pouco, quase nada.

4) É uma forma de conhecer o México

Apesar de chileno, Bolaño viveu boa parte da vida no México, o que o levou a escrever muito sobre o país. Quase todas suas narrativas têm um trecho ou referência a ele. Em Os detetives selvagens, conhecemos a Cidade do México e o deserto de Sonora. Em 2666, vemos Ciudad Juarez, a fictícia Santa Teresa, na fronteira mexicana com os EUA e assim por diante. Os bares, os poetas fracassados, os aficionados por literatura, gente fugindo de golpes militares, nada escapou dele em suas narrativas mexicanas. Além do espaço, podemos ter contato com uma realidade não tão distante da nossa pela visão de um mexicano de coração.

5) Literatura feita para quem ama literatura

Grande fã de Borges, Roberto Bolaño fez literatura para todos os leitores, mas assim como o ídolo argentino, deu atenção especial para aquele leitor que gosta de ver a literatura comendo literatura. Suas narrativas estão repletas de metaficção, citações, diretas ou indiretas, de outras obras, homenagens, pastiches, paródias. 2666 é considerado por muitos leitores, críticos e autores, como a grande obra do século XXI a dar vazão a esse amor e obsessão chamada Literatura.

6) Todos os gêneros numa só obra

É raro encontrar um autor que trabalhou com quase todos os gêneros da ficção existentes. Da fantasia, Monsieur Pain, ao suspense, Pista de gelo e 2666, passando pela narrativa detetivesca em quase todas as obras, pelo experimental, Literatura nazi en América e o romance histórico em Noturno do Chile. O que mais impressiona, porém, não é a quantidade de gêneros com que Roberto Bolaño trabalhou, e sim a qualidade que atingiu. Em todos, podemos nos divertir numa leitura prazerosa sem perceber que o autor chileno estava apenas brincando com a narrativa e com o gênero.

7) Porque seus livros são muito bons

No fim, o que importa é que suas obras são muito boas. 2666 e Os detetives selvagens, suas obras mais longas, cativam o leitor logo no começo e o levam por suas oitocentas páginas sem nenhum esforço. Não há como se deparar com as narrativas de Roberto Bolaño e não passar pelo misto de estranhamento e prazer que só os grandes autores podem proporcionar. Acima de tudo, Bolaño merece ser lido porque é bom, divertido – e é isso que importa.

David Foster Wallace e sua piada infinita

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O norte-americano David Foster Wallace (1962 – 2008) foi um dos escritores mais perspicazes das últimas décadas. Suicidou-se em 2008, após tomar o antidepressivo Nardil por 20 anos e teve suas cinzas jogadas na ilha chilena de Masafuera pelo amigo e também escritor Jonathan Franzen.

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Andrei Ribas, no Homo Literatus

No Brasil, Wallace ganha mais força com a chegada às livrarias de seu maior romance, intitulado Graça infinita (apesar de, aos olhos dos leitores acostumados com o estilo de Wallace, o título dado em Portugal seja melhor: A Piada infinita). Após lançar Breves Entrevistas com Homens Hediondos, com 23 contos, em 2005, a Companhia das Letras publicou em 2012 Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, com ensaios, e lançará, em novembro, a tradução de Infinite Jest. Apontado pela revista Time como um dos cem melhores livros em inglês publicados de 1923 até hoje, Infinite Jest é considerada uma obra extremamente complexa de ser vertida para outras línguas e foi, como registrou em seu blog na editora mencionada, um desafio para seu tradutor, o curitibano Caetano W. Galindo, professor de Linguística da Universidade Federal do Paraná. Mas Galindo tinha as credenciais certas: traduziu Thomas Pynchon, a quem Wallace é comparado, e Ulisses, de James Joyce, quase um tabu entre tradutores. Quanto ao porquê do título ser outro na versão brasileira, Galindo registrou: “Infinite Jest (que a princípio pode querer dizer algo como Piada Infinita) é uma citação. De quando Hamlet, do Hamlet, segura nas mãos a caveira de Yorick, o bobo da corte, e lembra que na sua infância conheceu aquele fellow of infinite jest, um camarada que não parava de brincar… (…) Mas um problema recorrente da tradução de citações é que, a não ser em casos muito óbvios (ser ou não ser), elas tendem a se perder. (…) Segundo, Infinite Jest é também, no livro, o título de quatro filmes que teriam sido feitos (eles são mais um boato que um fato) pelo pai do personagem principal, que, na verdade, foi fazendo um atrás do outro, sempre, como tentativa de completar uma obra perfeita, que nunca o satisfez. Infinite Jest IV é o filme que aparentemente existe e está sendo usado por terroristas, dado o seu potencial infinito de diversão. (…) Terceiro, e bem importante, a escolha do título de uma tradução é sempre conjunta. E, na verdade, quem tem (e deve ter) a palavra final são os editores. Eu mesmo devo ter emplacado menos de 20% dos meus títulos sugeridos até hoje. A minha opinião? Ainda não sei. (…) Meu documento de Word se chama Infinda Graça, que inclusive fica perto da Infinita Graça que o Erico lembra que o Millôr usou no Hamlet. Eu gosto da ligeira dupla leitura fonética com ‘fim da graça’ e gosto, sim, até da leve ressonância religiosa do termo ‘graça’. O livro tem ALTAS ressonâncias no mínimo místico-religiosas. Deve ser isso que eu vou propor. Veremos.”

Dado o título, enfim, resta ao fã de Wallace se esbaldar em sua graça/piada infinita, e àquele que não o conhece, seguem resumos de suas obras lançadas no Brasil, que podem ser lidas, de qualquer forma, antes ou após conhecer sua obra capital:

Breves Entrevistas com Homens Hediondos

Breves Entrevistas com Homens Hediondos foi lançado nos EUA em 1999 e reúne 23 contos. Wallace aborda temas que lhe eram íntimos, como dependência de drogas e depressão, e outros pelos quais ele tinha particular interesse, destacando perversões sexuais, desvios de comportamento, relacionamentos afetivos e o poder nocivo da mídia na vida contemporânea. O autor exercita sua verve satírica e o experimentalismo formal combinando referências eruditas e populares – recorre, a exemplo de Infinite Jest, a extensas notas de rodapé. Companhia das Letras, 2005, R$ 62,00, em média.

Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo

Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo reúne textos de Wallace publicados na imprensa americana – no formato de grandes reportagens, crônicas e ensaios. Entre os relatos, que seguem a vertente do jornalismo literário temperados com o humor irônico do autor, estão suas impressões sobre uma viagem pelo Caribe a bordo de um cruzeiro de luxo, um perfil do tenista Roger Federer, uma palestra sobre Franz Kafka e coberturas de eventos como uma feira agropecuária e um festival da lagosta. Companhia das Letras, 2012, R$ 31,50, em média.

Graça infinita (Infinite Jest)

Romance que projetou Wallace no círculo literário dos EUA, em 1996. Por conta da depressão e dos excessos com drogas e álcool, o autor somou passagens por clínicas psiquiátricas. Refletiu essa turbulência na complexa e fragmentada narrativa do livro, uma projeção futurista ambientada na superpotência resultante da unificação de EUA, Canadá e México. Nessa sociedade, uma atração de TV exerce uma espécie de poder hipnótico sobre os espectadores, espelhando a visão mordaz de Wallace sobre a indústria do entretenimento e a publicidade. Será lançado, pela Companhia das Letras, em novembro, sem preço ainda definido.

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