Jovem autor de 21 anos teve livro citado como ‘pernicioso’ para igreja.
De Poços de Caldas, jovem é convidado em mesa de debate no Flipoços.

ant_capa

Publicado no G1

Aos 21 anos, o paulista-mineiro Antônio Lima, conhecido como Ant Lima, de Caconde (SP), mas morador de Poços de Caldas (MG), desde criança adiou o sonho de ser jornalista formado para ser escritor. Autor de um livro de contos de terror e ‘celebridade’ virtual, ele se tornou conhecido por um projeto literário digital de contos eróticos. O jovem, que atualmente trabalha em uma fábrica de camisetas e está ‘grávido’ do primeiro filho, planeja a fala para a mesa “Cidade Celeiro Natural dos Escritores”, que acontece no próximo sábado (25) durante o encontro de autores poços-caldenses no Festival Literário de Poços de Caldas, o Flipoços. “Eu gosto de chocar”, diz ele sobre suas obras.

A declaração fica evidente em poucos minutos de conversa. Ele, freneticamente, conta à repórter que não para de pensar em ideias para contos de terror, e ao avistar a janela do 10º andar do prédio em que estavam, já fantasia uma cena. “É uma janela em que alguém pode pular. Nesta sala também há uma televisão, que é um elemento que pode causar terror, já que pode ser ligada sozinha, ou a porta pode bater e nos trancar aqui dentro para sempre”, brincou, para mostrar que criar enredos não é problema.

Entretanto, as histórias e a maneira de se comportar do escritor é que lhe trouxeram problemas – ou não – e de fato chocaram. O livro entrou para uma lista de livros ‘proibidos’ em um blog de jovens de uma igreja evangélica, citado como uma leitura perniciosa, ou seja, prejudicial e nociva.

Conforme o blog, uma jovem de 15 anos teria mudado o comportamento e se tornado gótica após ler o livro, o que não seria recomendado aos frequentadores da igreja, já que estaria ligado à maldições.

A história, contada pelo próprio escritor, foi motivo para alavancar as vendas e a curiosidade em torno do livro. “A partir do momento em que disseram que era um livro ‘não recomendado’, aumentou a curiosidade em torno dele. O site também o comparou com outras leituras, como Harry Potter e O Crepúsculo, que são bestsellers, o que eu achei ótimo, porque atraiu ainda mais fãs pro meu trabalho”, divertiu-se Lima.

Questionado sobre a religiosidade, Ant Lima contou que quando criança, foi criado em uma igreja evangélica, e que toda a família, apesar da veia artística – com  a mãe pianista, o avô na roda de samba e o pai apaixonado por violão – todos são muito religiosos e não entenderam inicialmente a paixão do jovem pelo terror. “Eles logo associam com coisas do mal, mas não tem nada a ver. Eu só gosto. Eu acredito muito em Deus. No momento, não sinto necessidade de frequentar nenhuma igreja, mas se eu tiver que voltar, voltaria para a igreja evangélica, sem problemas”, destacou.

Pela web para editar livros e atrair leitores
Sem condições financeiras de bancar uma edição do próprio livro, o jovem autor apostou na internet – e no gosto popular virtual – para se tornar conhecido e lançou, em 2013, o livro “O baú das maldições”, que é seu segundo lançamento oficial, mas que ele considera o primeiro, pelas críticas positivas.  Agora, em 2015, lança a segunda versão do livro, ampliada, revisada e com novos contos.  “Minha noiva, Jéssica Ribeiro, a Jessie Esseker, fez a revisão e diagramação, mudamos a capa, incluímos novos contos e está bem mais completa”, disse.

Desta maneira, por um site que faz a impressão sob demanda, conforme chegam os pedidos dos clientes, Ant Lima torna-se conhecido na rede mundial de computadores, recebe recados de fãs e se diz satisfeito com o ofício escolhido. Ele é fã de Ira Levin, autor do livro “O Bebê de Rosemary” e de James Redfield, autor de “A Profecia”, mas começou a carreira na literatura a partir do teatro, quando tinha 11 anos e descobriu que tinha mais talento para roteirizar do que para atuar.

“Eu amo escrever. Me dá uma garrafa de café e um maço de cigarro que eu esqueço da vida. Fico escrevendo por horas”, contou.

Mas a inspiração às vezes vem quando o rapaz está na rua ou no trabalho. “Quando não posso ter o processo criativo que gosto, eu pego o celular e gravo em voz as histórias, para depois escrevê-las”.

Além disso, a familiaridade com o ambiente virtual fazem com que Ant Lima tenha um bom desempenho nas redes sociais. Com perfis e interação em boa parte delas, ele cria book trailers para as obras, produtos digitais, promoções e conteúdos com bastante frequência.

Ao lado da noiva, eles dão dicas em um canal de vídeos sobre como escrever livros de terror, como ter medo para passar isso para a literatura e não ter medo de clichês.

“Eu sou um escritor de web, porque todo escritor quer ser lido e esta foi a forma que eu encontrei, mas para o meu próximo trabalho, não quero ser apenas isso. Já estou negociando com uma editora a publicação do meu novo livro”, pontuou.

Somadas as redes sociais e os temas discutidos, que vão desde os contos de terror e eróticos ao vegetarianismo e a defesa animal, Ant Lima acumula pelo menos 10 mil seguidores assíduos, que saem em sua defesa quando as críticas chegam e que escrevem para festivais literários, mídias e blogs, para sugerir o livro e o autor como convidado.

“É espontâneo. Eu interajo com eles, respondo o que perguntam, acho que sou uma pessoa que posta coisas interessantes”, comentou.

casal_1