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Posts tagged livro digital

Depois de conquistar os leitores, e-books agradam aos poetas

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Editoras começam a se dedicar à formatação de poesia nos livros digitais e buscam manter “integridade física” dos textos

Alexandra Alter, no Estadão

NOVA YORK – Quando John Ashbery, Prêmio Pulitzer de poesia, constatou que as edições digitais de seus poemas não se pareciam com a versão impressa, ficou chocado. Não havia quebra de linhas e os versos haviam sido espremidos num bloco como se se tratasse de um texto prosa. A cuidadosa arquitetura dos seus poemas desaparecera.

Queixou-se com a editora, a Ecco, e os quatro livros em formato eletrônico foram imediatamente retirados do mercado. Isto aconteceu há três anos. Desde então, a publicação digital evoluiu consideravelmente. As editoras agora criam e-books que preservam melhor a meticulosa formatação dada pelo autor. Portanto, quando a editora digital Open Road Mediaed contactou Ashbery a respeito da criação de versões eletrônicas dos seus livros, ele decidiu dar-lhe mais uma chance.

Na semana passada, a Open Road publicou 17 coleções digitais da obra de Ashbery, pela primeira vez a maior parte dos seus poemas estará disponível em formato de e-book. E ele não pediu nenhum recall.
“É muito fiel à formatação original”, disse Ashbery, 87, reconhecidamente um dos maiores poetas vivos do país.

A revolução do e-book já tem mais de dez anos, mas as editoras de poesia lutam para encontrar um lugar no mercado digital. Em 2013, foram lançados 2.050 e-books deste gênero literário, em comparação a cerca de 200 em 2007, ano em que saiu o primeiro Kindle, segundo a Bowker, que acompanha os lançamentos do mercado. No ano passado, os e-books, representaram aproximadamente 20% dos quase 20 mil livros de poesia publicados, em comparação com cerca de 10% em 2012.

Poeta americano John Ashbery

Poeta americano John Ashbery

Entre todos os gêneros, a poesia revelou-se o mais resistente à tecnologia digital, não por razões culturais, mas por complexas razões mecânicas. A maioria dos e-books estraçalha as quebras de linhas e versos, tão fundamentais para a aparência e o ritmo do poema. Consequentemente, muitas editoras desistiram de digitalizar poesia, e as obras de alguns dos maiores poetas ainda não estão disponíveis em e-books, inclusive os Cantos de Ezra Pound e poemas de Jorie Graham, Tracy K. Smith, Elizabeth Bishop e Czeslaw Milosz.

“O verso é a unidade na qual a poesia se expressa, mas a tecnologia da maioria dos e-books não favorece esta unidade”, disse Jeff Shotts, editor executivo da Graywolf Press.

Entretanto, à medida que a tecnologia foi evoluindo, as editoras começaram a se adaptar. Algumas contrataram programadores para codificar manualmente os livros de poesia de modo que as quebras de linha e os versos são mantidos; outras recorreram ao uso dos PDFs, ou arquivos estáticos, para reproduzir imagens digitais de poemas de formato elaborado, como os versos em forma de raios projetados para fora de Mary Szybist. Certas editoras acrescentaram avisos nos seus e-books, recomendando aos leitores que utilizem um tamanho específico de fonte para visualizar a representação mais acurada de um poema.

A editora independente New Directions, fundada em 1936, começou a publicar e-books de poesia no ano passado. Até o momento, lançou mais de 60 volumes digitais de poesia, inclusive obras de Pablo Neruda, Dylan Thomas e William Carlos Williams.

Farrar, Straus e Giroux começou uma grande arrancada para digitalizar seu catálogo de poesia em janeiro, depois de solucionar algumas espinhosas questões de design e de programação. Este ano, está lançando 111 coleções de poesia digital, em comparação com 17 no ano passado e apenas uma em 2012.
“Antes de fazer esta transferência, quisemos ter a certeza de que o que os poetas faziam em termos visuais poderia ser encontrado nos e-readers”, disse Christopher Richards, editor assistente da Farrar. “O aspecto digital de um poema é realmente importante e pode comunicar um tipo de significado; se não for preservado no e-book, o leitor perderá de fato alguma coisa”. A produção de poesia digital ainda é inexpressiva diante da poesia impressa, e alguns escritores e editoras questionam se existe de fato muita demanda de e-books de poesia.

“Uma grande porcentagem de leitores de poesia é fetichista: gosta de segurar o livro físico”, disse Michael Wiegers, editor executivo da Copper Canyon Press, especializada em poesia. Para as editoras, o custo é um fator importantíssimo. As vendas de poesia sempre foram muito limitadas em relação às de outros gêneros, e a criação de e-books especificamente programados é dispendiosa, principalmente considerando que o trabalho de poetas menos conhecidos talvez venda apenas poucas centenas de exemplares.

Mas as editoras de poesia dizem que não podem mais ignorar a migração para o digital que começa a dominar a indústria; algumas delas decidiram investir consideravelmente na produção de e-books. A Copper Canyon gastou cerca de US$ 150 mil no projeto de editar livros digitais, utilizando recursos da Fundação da Família Paul G. Allen e de outros doadores. Grande parte do dinheiro foi utilizada para pagar os programadores , disse Wiegers. Nos últimos anos, a Copper Canyon lançou cerca de 125 volumes de poesia digital.

“Foram necessárias diversas experiências na base da tentativa e erro, e também no que se referia à programação”, explicou Wiegers.

Alguns poetas continuam inflexíveis quanto à superioridade do livro impresso. Albert Goldbarth, que escreveu mais de 30 livros de poesia, recusa-se a publicar e-books. “Me recuso a fazer isto; é uma questão de princípio”, afirmou, acrescentando que, com as edições impressas ele pode controlar os caracteres, o tamanho da fonte e o layout.

Outros poetas pediram insistentemente que as editoras incluíssem avisos em os seus e-books. O consagrado poeta americano Billy Collins fez a solicitação há alguns anos, ao constatar que a mudança do tamanho da fonte num e-reader “desequilibrou o poema”, como ele disse. Seus e-books agora trazem a advertência de que algumas funções de um e-reader podem mudar a “integridade física do poema”. “A primeira impressão que se tem de um poema é o formato da página”, disse Collins. “Um poema tem uma integridade escultural que nenhum e-reader pode registrar”. A poesia de Ashbery, que escreve frequentemente em versos longos, no estilo de Walt Whitman, e usa a complexa técnica de continuação do verso na linha seguinte alinhado à direita, foi difícil de digitalizar.

“Muitos dos meus poemas têm versos muito longos, e para mim é importante que sejam cuidadosamente reproduzidos na página”, afirmou. “O impacto de um poema muitas vezes depende da quebra de linhas, que as editoras de poesia costumam não consideram tão importante quanto o autor do poema”. Depois da primeira experiência fracassada, Ashbery relutou em vender novamente seus direitos para e-books. Mas, há dois anos, seu agente literário contatou Jane Friedman, diretora executiva da Open Road, que estava interessada em publicar versões digitais da obra de Ashbery. Ela assegurou a Ashbery e ao agente que a formatação dos e-books preservaria os seus versos.

Depois de negociações que duraram cerca de um ano, Ashbery concordou em ceder os direitos de 17 coleções.

A produção dos e-books levou vários meses. Inicialmente os livros foram escaneados, digitalizados e cuidadosamente revisados. Então a Open Road enviou os arquivos para a eBook Architects, uma empresa de desenvolvimento de e-books de Austin, Texas. Lá, o texto foi programado à mão e recebeu marcações/ instruções semânticas, para que os elementos formais fossem assinalados respectivamente como versos, estrofes ou quebras de linhas intencionais. Quando um verso não cabe na tela porque ela é pequena demais ou a fonte é grande demais, ele é quebrado na linha de baixo – convenção observada na imprensa há séculos. A tecnologia ainda está longe de ser perfeita. Os poemas de Ashbery conservam melhor sua forma nas telas maiores do iPad, e ficam espremidos, e mais versos ultrapassam a margem num Kindle ou num iPhone.

Segundo os especialistas do gênero, estas pequenas discrepâncias são um preço ínfimo a pagar para garantir o legado de Ashbery na era digital.

“John Ashbery é o nosso T.S. Eliot, a nossa Getrude Stein”, observou Roberto Polito, presidente da Poetry Foundation. “É vital que sua obra seja apresentada ao público da maneira mais perfeita no maior número possível de formatos”. / Tradução de Anna Capovilla

Com “Netflix dos livros”, Amazon quer ampliar influência no mercado editorial

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Kindle Unlimited permite que usuários paguem mensalidade e leiam quantas obras quiserem; serviço pode dificultar relação com editoras e estimular leitores a descobrir novos escritores

Luísa Pécora, no Último Segundo

“Netflix dos livros” foi o apelido dado ao Kindle Unlimited, serviço lançado pela Amazon no qual, pagando uma assinatura mensal, o usuário pode ler quantos e-books quiser. Anunciada há duas semanas, a novidade da gigante do comércio online movimentou o mercado editorial, que avalia o impacto do modelo para autores, editores e leitores.

Ainda não disponível no Brasil, o Kindle Unlimited cobra pouco menos de US$ 10 (R$ 22) ao mês e permite que o usuário leia um número ilimitado de livros dentro de um catálogo de 600 mil títulos. O sistema funciona mais como biblioteca do que como livraria: o leitor “aluga” as obras, mas não é dono delas; se a assinatura é cancelada, o livro é retirado do e-reader.

Thinkstock/Getty Images Venda de ebooks por assinatura mensal são nova tendência nos EUA

Thinkstock/Getty Images
Venda de ebooks por assinatura mensal são nova tendência nos EUA

O serviço pode ampliar a já enorme influência da Amazon no mercado editorial e de e-books, que a empresa ajudou a fortalecer com o lançamento do Kindle, em 2007. Hoje, só livros digitais para adultos movimentam US$ 1,3 bilhão (R$ 2,9 bilhões) nos Estados Unidos, de acordo com dados da Association of American Publishers relativos a 2013.

Entre o Kindle e seus competidores, como Apple iBooks e Kobo, 79 milhões de norte-americanos usarão e-readers em 2014, quase 9% a mais do que no ano passado, de acordo com pesquisa da eMarketer.

A Amazon é a primeira grande companhia a apostar no mercado de livros por assinatura, mas o serviço já é oferecido por empresas norte-americanas menores como a Oyster e a Scribd. Por mensalidades similares à do Kindle Unlimited, elas oferecem acesso ilimitado a 500 mil e 400 mil títulos, respectivamente.

As três empresas apostam na ideia de que o consumo de mídia digital por assinatura, que tem funcionado para serviços como o Netflix e o Spotify, chegou para ficar. Mas ainda não está claro se o sistema tem o mesmo apelo quando aplicado à literatura: afinal, a maior parte das pessoas lê menos livros por mês do que assiste a filmes ou ouve música.

AP Alguns dos livros disponíveis no Kindle Unlimited

AP
Alguns dos livros disponíveis no Kindle Unlimited

“Há uma diferença no consumo do produto e no hábito do leitor. Filme eu assisto em uma hora e meia. No caso de um livro, posso levar duas semanas ou mais”, afirma Breno Lerner, superintendente da editora Melhoramentos, em entrevista ao iG.

Duas semanas é pouco: dados divulgados em janeiro pelo Pew Research Center apontam que a média de norte-americanos leu 5 livros em 2013. Para estes consumidores, assinar o Kindle Unlimited pode ser menos interessante do que comprar os e-books individualmente. O Amazon Prime, da própria empresa, pode ser uma opção mais vantajosa, já que, por preço mais barato, oferece conteúdo de vídeo, vantagens na entrega de produtos e o “empréstimo” de um e-book grátis por mês.

Amazon x editoras

Para leitores mais vorazes (2% dos usuários do Scribd leem mais de 10 obras por mês, segundo o “New York Times”), o que fará a diferença será o acervo. Como o Netflix, nenhum dos serviços de assinatura de livros oferece lançamentos muito recentes e o número de títulos disponíveis é relativamente pequeno: o catálogo completo da Amazon, por exemplo, ultrapassa 2,5 milhões de e-books.

Além disso, ao contrário da Oyster e do Scribd, o Kindle Unlimited por enquanto não inclui obras das cinco principais editoras norte-americanas: Penguin Random House, Macmillan, HarperCollins, Hachette and Simon & Schuster.

Getty Images Stephen King é um dos 900 autores da Hachette que assinaram carta contra a Amazon

Getty Images
Stephen King é um dos 900 autores da Hachette que assinaram carta contra a Amazon

A ausência não foi comentada oficialmente, mas há meses a Amazon trava uma disputa com a Hachette. A empresa foi acusada de usar táticas agressivas – entre elas o atraso na entrega de obras da editora – para garantir vantagem nas negociações sobre preços e conseguir aumentar sua renda com a venda de e-books.

A chegada do Kindle Unlimited deve tornar mais complexa a já difícil negociação entre as editoras e a empresa quanto ao pagamento. É possível, por exemplo, que o serviço acabe puxando uma queda nos preços que não interessa às editoras.

“Há uma preocupação na indústria de que o serviço por assinatura pode desvalorizar os livros por torná-los ‘grátis'”, afirma Mark Coker, criador do Smashword, plataforma de autopublicação e distribuição de e-books.

O site de Coker é o maior fornecedor de títulos do Oyster e do Scribd, com mais de 250 mil títulos disponíveis em cada serviço. Mas ele não faz negócios com a Amazon, já que a empresa só dá espaço a autores independentes que lhe cedam exclusividade, ou seja, retirem sua obra de todos os sistemas concorrentes.

Novos autores

A negociação é delicada: por um lado, o autor se beneficia da estrutura e do alcance da Amazon; por outro, se submete a um sistema de pagamento mais incerto. No Oyster e no Scribd, o valor pago por cada livro é definido previamente no contrato. No Kindle Unlimited, varia a cada mês, com a divisão de um fundo entre todas as obras “emprestadas” definindo o preço unitário.

“No Oyster e no Scridb, nossos autores ganham 60% do preço da venda”, diz Coker. “O Kindle Unlimited não paga sob os mesmos termos, o que significa que os autores de livros mais caros vão ganhar menos em assinaturas do que nas vendas convencionais.”

Spencer Platt/Getty Images O Nook, da Barnes and Noble, concorrente do Kindle da Amazon

Spencer Platt/Getty Images
O Nook, da Barnes and Noble, concorrente do Kindle da Amazon

Autor dos digitais “O Jogo dos Papeletes Coloridos” e “O Centro do Universo”, o escritor Paulo Santoro acha que entrar no Kindle Unlimited é mais atrativo no mercado norte-americano, dada a expressiva participação de mercado da Amazon.

“Se o novo serviço vingar, oferecerá ao livro uma vitrine gigantesca de exposição, sugerindo valer a pena a troca da porcentagem nas vendas das livrarias online pelo diminuito pagamento a cada streaming do livro”, diz. “No Brasil, o volume operado não indica que poderia valer a pena num primeiro momento.”

Degustação gratuita

Uma das vantagens do Kindle Unlimited e dos demais serviços de livros por assinatura é estimular os usuários a dar uma chance a obra de autores que não conhecem – arriscar e testar, afinal, não custará nada. “Os leitores não terão mais o peso de ter de decidir se o livro vale o investimento”, explica Coker.

O estímulo também é visto com bons olhos por Tiago Ferro, sócio da editora brasileira de livros digitais e-galáxia. “Mas isto vai variar conforme o catálogo disponível. Se for muito completo, o autor iniciante terá que lutar contra os nomes estabelecidos. Se for incompleto, os leitores não se sentirão atraídos pelo produto. Resta saber para que lado vai o equilíbrio.”

Ferro acha difícil opinar sobre se o Kindle Unlimited vingaria no Brasil, onde os e-books estão em alta: ainda que a participação de mercado seja pequena, de 2,3%, o faturamento subiu de R$ 3,8 milhões em 2012 para R$ 12,7 milhões em 2013, segundo dados divulgados na semana passada pela Câmara Brasileira do Livro.

“Não saberia avaliar um produto antes da sua chegada”, diz Ferro. “Depende do modelo de negócios com autores e editoras, como será o catálogo, a facilidade do acesso e o preço para o leitor.”

O superintendente da Melhoramento concorda e acrescenta que, desde já, não vê o novo serviço da Amazon como ameaça. “Sou fornecedor de conteúdo. A mídia quem vai solicitar é o consumidor”, afirma. “Se quiser e-book, vou fazer. Se quiser CD, vou fazer. Se quiser tabuinha de barro, vou descobrir como faz.”

Com mesada negada, menina de dez anos escreve livro digital para ganhar dinheiro

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Criação de Larissa Lima, O Espanta Tranqueiras está à venda no iBooks, aplicativo da App Store, desde a semana passada

Biólogo de formação, mas com tino empreendedor, Paulo (acima com Larissa) incentivou a filha a ganhar a própria mesada por meio da criatividade e, claro, da diversão Foto: Paulo Lima / Arquivo Pessoal

Biólogo de formação, mas com tino empreendedor, Paulo (acima com Larissa) incentivou a filha a ganhar a própria mesada por meio da criatividade e, claro, da diversão
Foto: Paulo Lima / Arquivo Pessoal

Ana Carolina Bolsson, no Zero Hora

Educar pode ser uma tarefa árdua, mas uma experiência enriquecedora. E se há um caminho mais fácil, nem sempre ele é a melhor opção. Bem sabe Paulo Lima, que no ano passado lançou um desafio para a filha que insistia em pedir mesada. Ao incentivar Larissa, de 10 anos, a escrever um livro, colocá-lo à venda na internet e a ganhar o próprio dinheiro, ele sabe, contudo, que ensinou muito mais do que uma lição de educação financeira.

– Eu buscava incentivar sua proatividade, empreendedorismo, mas, principalmente, que ela exercitasse produzir algo de que goste, relacionado aos seus interesses. São estímulos que eu não recebi quando criança e que, lamentavelmente, acabaram surgindo por outros caminhos mais tarde na minha vida – diz.

– Ele me disse: “Quem sabe tu ganha dinheiro de uma forma mais legal, educativa e que se divirta, além de só um jeito de ganhar mesada?” E lembrou que eu gosto bastante de ler e escrever – afirma Larissa ao reproduzir o diálogo com o pai.

Biólogo de formação, Lima atuou no Nordeste por mais de três anos, mas decidiu retornar a Porto Alegre com a mulher e a filha pequena para abrir o próprio negócio como consultor em treinamento. Hoje, ele é proprietário de uma empresa especializada em adaptar livros para os principais formatos digitais do mercado editorial, expertise fundamental para o projeto da primogênita. Daí para dar vida à fantasia dela não demorou.

Uma semana depois da conversa inicial, Larissa, estudante da 5ª série do Colégio Israelita, retornou com a ideia:

– Pensei que ela própria fazer pulseiras e colares com miçangas, como algumas coleguinhas, mas me chamou a atenção quando disse que iria escrever um livro.

A decisão não surpreendeu totalmente ao pai e à mãe, também bióloga. Donos de uma ampla biblioteca na casa em que residem no bairro Alto Petrópolis, na Capital, eles estimulam desde o nascimento o hábito da leitura tanto na menina, quanto em Caio, de 5 anos, que, segundo o pai, já lê.

Dois meses depois, o pai tinha em mãos O Espanta Tranqueiras, história fictícia de um casal de irmãos que viaja nas férias para a casa dos avós, onde todo tipo de guloseimas cresce nas árvores. O livro chama a atenção ainda pela preocupação com hábitos alimentares saudáveis. Larissa fez as narrações, e, Paulo, como prometido, as ilustrações e formatações necessárias para envio do material para a Apple.

– Achei bárbara a ideia de árvores que davam refrigerantes, pirulitos e outras tantas comidas que ela está ciente de que não são saudáveis, justamente pelos hábitos que mantemos em casa – relata o pai orgulhoso.

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Na semana passada, sete meses depois do processo iniciado com a marca norte-americana, o livro (reprodução acima) O Espanta Tranqueiras foi aprovada está à venda por USD 3,99 na iBooks Store. Desde então, já foram realizados 55 downloads, totalizando US$ 80 em vendas (sem contar os impostos), números monitorados diariamente por Paulo e Larissa, que acompanha ansiosamente o interesse pelo o que ela própria criou.

– Mais do que o rendimento gerado, a grande lição que tanto ela quanto o Caio me dão diariamente é: “pai, faz mais porque eu consigo absorver”. Hoje, os pais limitam demais os filhos com muitos “nãos” e restrições. O livro é resultado de um conjunto de coisas que não se limita a uma forma de conseguir dinheiro, mas sim de despertar a criatividade, a imaginação e, claro, a consciência de que é preciso esforço para conseguir algumas coisas na vida. Senão, fica fácil agora, e difícil depois.

Animada com a experiência e com o incentivo dos pais, Larissa já pensa no próximo livro.

– Estou botando pilha desde cedo porque esse comportamento abre muitas portas. Estou plantando uma semente, ainda que no futuro ela opte por uma atividade não relacionada com a escrita e até por um emprego de carteira assinada, como eu optei por muito tempo – afirma Lima.

dica do Jarbas Aragão

Adolescentes brasileiros formam legião de leitores-fãs e impulsionam as vendas das editoras

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John Green e Cassandra Clare são alguns dos nomes favoritos dessa turma que não abre mão do papel

As amigas Mariana Rodrigues, Carolina Campello e Sofia Cheib são leitoras ávidas e não abrem mão das obras em papel - Simone Marinho / Agência O Globo

As amigas Mariana Rodrigues, Carolina Campello e Sofia Cheib são leitoras ávidas e não abrem mão das obras em papel – Simone Marinho / Agência O Globo

Josy Fischberg em O Globo

RIO – Não tem nada melhor que sentir o cheiro do livro, passar as páginas entre os dedos, saber de cara se falta muito para o fim, admirar a capa com atenção. Parece frase de quem tem de 40 anos para cima, mas é o que dizem adolescentes de 13 a 18 anos. No Brasil, uma geração plenamente digital vem consumindo livros de papel avidamente, destruindo generalizações como “adolescente vive na internet” ou “esses meninos não gostam de ler”. Em uma fase da vida em que tudo é intenso — eles amam demais ou odeiam demais — meninos e meninas vêm provando que suas paixões desmedidas também podem se voltar para as letras. Impressas no papel.

Uma breve olhada nas listas de livros mais vendidos dá a dimensão do fenômeno. Entre os dez primeiros lugares do último ranking do PublishNews, site especializado em mercado editorial, oito são queridinhos do público jovem, mesmo que nem sempre pertençam à categoria infantojuvenil. Quem encabeça a lista é John Green, com “A Culpa é das estrelas” (Intrínseca). Outros três livros do autor, cultuado por adolescentes, também estão lá. “A escolha” (Editora Seguinte), de Kiera Cass, que faz parte da trilogia “A seleção”, aparece em sétimo. “Instrumentos mortais — Cidade do fogo celestial” (Galera Record), de Cassandra Clare, fecha a lista geral dos dez mais.

— Esses jovens leitores não são só leitores. Eles têm uma relação de fã com os livros, com as séries, com os autores… E o livro, nessa história, é quase como um objeto de desejo: além de ler, eles querem colecionar, colocar na estante, organizar. Com e-book não tem muito disso. Você não tem como virar para um amigo e dizer: “Deixa eu te mostrar a minha estante de e-books” — analisa a editora-executiva do selo Galera Record, Ana Lima.

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Julia Schwarcz, publisher da Seguinte, selo jovem da Companhia das Letras, conta que já recebeu e-mails de leitores de pouca idade reclamando que o volume de uma série tinha meio centímetro a mais que outro, e isso, segundo eles, fica feio na estante:

— É curioso porque temos um livro de contos que lançamos em versão digital gratuita e só depois lançamos em versão física. Ele faz parte da série “A seleção”. Foi um sucesso de vendas. Muitos leram a versão digital e ainda fizeram questão de ter a publicação em papel.

O sucesso da série “A seleção” é realmente estrondoso. O último volume da trilogia, chamado “A escolha”, lançado em maio deste ano, teve tiragem inicial de 50 mil exemplares, quando tiragens básicas giram em torno de 3 mil. Desde o lançamento, a Seguinte já vendeu cerca de 100 mil cópias só dessa publicação.

Para o fundador do PublishNews, Carlo Carrenho, há algumas explicações para os bons números. Segundo ele, é preciso considerar a produção ainda pouco consistente de e-books no Brasil. Um livro digital infantojuvenil precisa ter um mínimo de interação para despertar interesse entre os jovens — e a leitura dos e-books por crianças e adolescentes em outros países vem crescendo. Ainda assim, há um aspecto social da leitura para os mais jovens que não se manifesta com tanta força entre os adultos:

— Se você está lendo um e-book, ninguém sabe o que você está lendo. Tem a história de você levar a publicação para a escola, de você formar uma tribo ou se juntar a um grupo pelos livros, o que é muito importante para os adolescentes. O adulto lê para ele e não precisa, necessariamente, mostrar para outras pessoas. O livro acaba sendo uma marca de consumo para os mais novos, assim como as roupas — explica Carrenho.

Aluna do Colégio Pedro II, Julia Amorim, de 13 anos, está lendo “Convergente” (Rocco Jovens Leitores), de Veronica Roth. É o seu 11º livro deste ano:

— Quando eu leio, realmente me desligo do mundo. Posso terminar um livro de 500 páginas em dois dias, de tão curiosa que eu fico para ver o que acontece no final.

Essa questão com os finais de livros, aliás, vem fazendo com que muita gente de pouca idade sofra com os spoilers.

— A gente fala tanto sobre o que está lendo com os amigos na escola que sempre tem um que conta o que vai acontecer e estraga tudo — brinca Mariana Rodrigues, de 13 anos, também do Pedro II.

Entre os livros escolhidos pelas duas e pelas amigas Sofia Cheib, Carolina Campello, Carolina Porto, da Sá Pereira, e Fernanda Metzler, do Franco Brasileiro, como os melhores dos últimos tempos, estão as séries “Jogos vorazes”, “Instrumentos mortais” e “A seleção”.

Da mesma forma que jovens leitores vêm mostrando que são mais do que leitores — são também fãs — autores de sucesso também demonstram que são mais que autores. John Green, por exemplo, é escritor e mestre nas redes sociais. Só no Twitter, ele tem 2,8 milhões de seguidores em seu perfil oficial. Durante a Copa do Mundo, um outro perfil dele, onde o autor só comenta sobre esportes, bombou. Green ainda montou uma campanha, junto com o irmão, para arrecadar dinheiro para uma fundação de combate ao câncer. As pessoas doavam um dólar e escolhiam por qual país o escritor deveria torcer na Copa. No próprio Twitter, ele dizia para quem iria a sua torcida, vestindo a camisa da seleção em questão.

— John Green é um fenômeno. Tem canal no YouTube, tem um Tumblr, tem contas no Facebook e no Instagram, tem os perfis seguidos por milhões de pessoas no Twitter, ou seja, tem uma presença maciça na internet — explica Danielle Machado, editora de infantojuvenil da Intrínseca, sobre o autor que já vendeu quase 1,5 milhão de exemplares de “A culpa é das estrelas” no Brasil, desde o seu lançamento em julho de 2012.

Fernanda Metzler com o livro do fenômeno John Green - Simone Marinho

Fernanda Metzler com o livro do fenômeno John Green – Simone Marinho

É a internet que também aumenta a expectativa dos leitores-fãs em torno da vinda da escritora Cassandra Clare, autora de “Instrumentos mortais — Cidade do fogo celestial” (Galera Record), ao Brasil. Cassandra já vendeu 26 milhões de exemplares da série no mundo todo — 800 mil só no Brasil. Mais de 3 mil pessoas já confirmaram presença na tarde de autógrafos da moça, na Bienal do Livro de São Paulo.

De diversas formas, a web, quem diria, ajuda muito a impulsionar e manter as vendas dos livros em papel para adolescentes. O boca a boca virtual se tornou fundamental. Tanto é que a rede está abarrotada de blogs, criados inclusive por jovens, onde os próprios escrevem suas resenhas e abrem debates com outras pessoas sobre os livros do momento. As editoras, cientes disso, enviam exemplares para esses críticos digitais, que também colecionam seguidores. Um deles é Pedro Vinícius, de 18 anos, do site O Livreiro.

— Eu leio, em média, uns dez livros por mês. Mas no ano passado, cheguei a ler 30 em algumas épocas, era um por dia mesmo. Eu preciso me programar para dar conta: leio no ônibus, no intervalo da escola, onde der — explica Pedro, que está no 3º ano do Ensino Médio e conta com colaboradores de outras partes do país para fazer resenhas e escrever notícias sobre o mercado literário.

O amor pelos livros também levou a carioca Kimberlly de Moraes, de 18 anos, a criar o blog Último Romance.

— Criei o site para poder conversar com outras pessoas que gostassem de ler, assim como eu. Depois de um tempo no ar, você começa a ter seguidores bacanas, que às vezes começam a ler um livro por conta de uma opinião sua, ou até mesmo escrevem para rebater com fúria algo que você escreveu e eles não concordam — brinca Kimberlly, que tem quase 3 mil curtidores do Facebook e 2.300 seguidores no Twitter.

A jovem, como muitos adolescentes que hoje veneram os livros, começou sua jornada literária por Harry Potter, que Carlo Carrenho, do PublishNews, considera um divisor de águas.

— Harry Potter veio com aqueles livros de muitas páginas, pesados, uma série inteira, e assim conquistou crianças e jovens no mundo todo, espantando os adultos que não imaginavam que isso pudesse acontecer. Depois vieram os vampiros, com a série “Crepúsculo”. O mercado editorial passou a caminhar para um sentido de entretenimento. Há 20, 30 anos, nós éramos crianças ou adolescentes e a nossa leitura estava muito mais ligada ao aspecto educacional. Hoje, para essa idade, ela está ligada à diversão — avalia Carrenho.

Livro digital deve ganhar novo impulso no Brasil

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Imagem Google

Publicado originalmente no IG.com

As apostas nos livros digitais estão em alta. Grandes livrarias e editoras acreditam que os e-books ganharão espaço no mercado nacional em 2012 e 2013. As projeções mais otimistas os colocam como responsáveis por 10% do faturamento das vendas do setor em 2014. O índice em 2011 foi 0,025%. A esperança está depositada na chegada de gigantes internacionais e na produção doméstica de tablets, que poderá baratear os aparelhos.

Segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL), há cerca de 10 mil títulos em formato digital no País. Desses, 5.235 foram lançados em 2011, conforme pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (Fipe/USP). “A maior produção ocorreu no último período. Então, também deve haver um número significativo em 2012”, diz a presidente da CBL, Karine Pansa, que não arrisca projeções. A receita com vendas de e-books foi de R$ 868 mil.

A ideia de oferecer aparelhos de leitura para impulsionar a venda de conteúdo deu certo com a Amazon, nos Estados Unidos. Desde que o Kindle, e-reader da empresa, foi lançado, em 2007, os e-books vêm ganhando mercado. Em 2011, tinham 15%, ante 6% em 2010, conforme a Association of American Publishers.

Agora, a Amazon pretende entrar no Brasil. O início das operações está previsto para o último trimestre deste ano, mas já existem negociações com empresas locais, como as distribuidoras de e-books Xeriph, que reúne cerca de 200 editoras, e DLD, formada por sete. Comenta-se, porém, que há dificuldades para fechar acordos com a multinacional, que se recusaria a aceitar peculiaridades do mercado nacional, como a divisão de receitas. A companhia foi procurada pela reportagem, mas não se pronunciou.

Otimismo à parte, o e-book ainda não decolou no País, nem deve ameaçar o livro em papel no médio prazo. Em 2011, as vendas no formato físico subiram 7,2%, em relação a 2010. Os 469 milhões de exemplares comercializados geraram faturamento de R$ 4,83 bilhões. O preço de alguns e-books também não anima. Segundo Procópio, da CBL, falta política de precificação no País. “Tem livraria que cobra o mesmo preço do impresso. Outras, 50%, 70%.” Nos EUA, a versão digital custa de 30% a 40% menos. As informações são do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Dica do Jarbas Aragão

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