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Posts tagged Livros Infantis

Ruth Rocha defende a formação do leitor sem o moralismo das fábulas

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Ruth começou a carreira de escritora em 1967, ao publicar artigos sobre educação para revistas - DIVULGAÇÃO

Ruth começou a carreira de escritora em 1967, ao publicar artigos sobre educação para revistas – DIVULGAÇÃO

Prestes a completar 50 anos de carreira, escritora construiu uma obra marcada por ideias profundas

Publicado no Cruzeiro do Sul

A grande comemoração vai acontecer em 2017, quando de fato, ocorrem os 50 anos da escrita de Ruth Rocha. Mas os festejos já começam no próximo dia 29, quando será oficialmente anunciado, no Itaú Cultural, o projeto 50 Anos Ruth Rocha. Trata-se de uma série de ações culturais em homenagem a uma das principais autoras de literatura infantil do País.

“Eu sabia que daria certo quando, ao propor o projeto, percebi um brilho nos olhos dela”, conta o ator e produtor Jô Santana, idealizador da ação, que vai contar com a montagem de três peças infantis baseadas em livros de Ruth, um documentário já em fase de produção, dirigido por Evaldo Mocarzel, e uma grande exposição que terá a cenografia de J. C. Serroni. No encontro do dia 29, Regina Duarte vai ler um texto em homenagem à escritora e ocorrerá a leitura da peça O Reizinho Mandão.

Uma justa homenagem para a autora de mais de 130 livros que valorizam a criança como um ser inteligente e dotado de espírito crítico. O mundo criado por Ruth Rocha está distante do universo das fábulas e sua rígida divisão entre bons e maus – são borboletas coloridas, reizinhos mandões e meninos que criam palavras esquisitas. Tipos que, por meio de uma linguagem lúdica e direta, passam noções de igualdade racial, democracia e liberdade de expressão. Sem forçar.

“E olha que comecei tarde, aos 38 anos”, ela comenta, balançando em sua cadeira favorita, com aquele sorriso generoso de sempre, capaz de transformar quase cinco décadas de trabalho em um alegre passeio. Aos 84 anos, Ruth Rocha pode se orgulhar de ter construído uma obra marcada por uma linguagem simples e ideias profundas.

Tudo teve início em 1967, quando começou a escrever artigos sobre educação para revistas. Um texto específico, em que utilizava o método criado por Ana Maria Poppovic para determinar a maturidade mental de cada criança, despertou atenção: colegas da redação queriam conhecer a autora, enquanto chegava uma enxurrada de cartas elogiosas. “Fui convidada então para escrever histórias para criança. No início recusei, até ser surpreendida por um problema em casa”, relembra. “Certo dia, eu brincava com minha filha pequena, Mariana. Tudo ia bem quando ela me perguntou por que preto é pobre. Foi quando percebi que era chegado o momento de eu começar a escrever.”

Caminhos para o ser humano

Era 1969 e Ruth trabalhava como orientadora pedagógica de uma nova revista, Recreio, destinada às crianças. O regime militar arregaçava as mangas e impunha seu poder à força. Em meio a uma acirrada censura, a edição de número 10 da Recreio trazia uma história sobre preconceito. Romeu e Julieta mostra a difícil convivência entre duas borboletas apaixonadas, mas impedidas de se amarem por serem de cores diferentes, uma azul, a outra amarela. “Uma história ingênua, mas que funcionou bem entre as crianças pequenas.”

Foi o ponto de partida para uma coleção de narrativas criativas (O Dono da Bola, Catapimba e Sua Turma, Teresinha e Gabriela, Meu Amigo Ventinho). Algumas, como Marcelo Marmelo Martelo, transformaram-se em clássicos e best-sellers (mais de um milhão de exemplares vendidos).

“Ruth Rocha não conta apenas “historinhas para as crianças””, atesta o também escritor Pedro Bandeira. “Seus textos são umbilicalmente formadores, apontam caminhos para o ser humano em construção, fazendo-o perceber-se como alguém a quem ninguém poderá mandar calar a boca, ninguém poderá ocultar-lhe informações sobre a vida e sobre o mundo, alguém que crescerá com a consciência de que poderá vir a ser o que quiser, alguém que poderá tornar-se um adulto livre.”

Essa vertente, na verdade, é um dos aspectos mais interessantes na obra de Ruth. Em O Reizinho Mandão, por exemplo, ela foi mais longe, quase beirando o protesto explícito ao mostrar um reino em que ninguém é feliz por conta de um monarca autoritário. A provocação chegou a intimidar certas escolas que, temerosas, vetaram a leitura do livro por seus alunos.

O curioso é que Ruth não se julga uma escritora teórica, que pensa exaustivamente antes de começar a escrever. “Quem é assim é Ana Maria (Machado). Ela é uma schollar, uma intelectual, enquanto eu sou mais intuitiva”, diz Ruth sobre outra grande escritora para jovens e que foi, aliás, sua cunhada. Depois de refletir um pouco, completa: “Sou mais distraída” e abre o famoso sorriso.

Já faz algum tempo que Ruth não escreve ficção para crianças, ainda que mantenha um caderno onde anota potenciais ideias. “Mas ainda não usei nenhuma”, confessa a autora, que tem se empenhado, ao lado da também escritora Anna Flora, em projetos pedagógicos como o Pessoinha, destinada a crianças a partir de 3 anos.

A ficção, no entanto, continua imbatível – as vendas de seus livros para os mercados público e privado em 2014 foram de cerca de 580 mil exemplares, o que dá uma média de mais de 1.500 livros por dia. Desde 2009, a obra de Ruth Rocha é editada pela Salamandra, que coleciona recordes: só nessa casa, Marcelo Marmelo Martelo já vendeu 700 mil exemplares. (Ubiratan Brasil – AE)

Sentir, cheirar, imaginar…Ah, a magia do livro é insuperável

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Para atrair a leitura infantil, autores abusam da criatividade nos livros

dentro16

Publicado em Diário Digital

Sentir o gostinho da imaginação, num cantinho só seu, vontade de pular dentro da história, que acaba se tornando sua, de mudar o rumo, das sensações deliciosas… Será que isso se perdeu? Será que entramos em uma fase tão tecnológica que a magia do livro ficou guardada a sete chaves? Quantos livros eu li esse ano? Faça um desafio a você mesmo e veja as mudanças que vão acontecer…

E pra falar um pouco sobre a literatura infantil, o Diário Digital conversou com a coordenadora de conteúdo da editora Alvorada, Cleomar Herculano de Souza Pesente. Para ela, além da imaginação, a leitura também desperta a escrita, o desenho, a vontade de conhecer, de aprender. “Estamos em uma era tecnológica, mas acredito que o livro ainda resiste a essas mudanças e a leitura tem que ser incentivada, tem a questão do volume, do cheiro, de tê-lo junto, que são insuperáveis, são que nem os quadros, as obras vão existir, passam-se os tempos elas ficam ainda mais valiosas” fala Cleomar.

Enquanto conversa com a equipe do DD, Cleomar folheia o livro “Uga, a tartaruga” da autora Ângela Maria de Brito e é aparente esse amor dela pelos livros. Cleomar sabe todas as histórias de cor, não só pela profissão, “eu amo ler”, diz ela e complementa: “Essa história é linda, conta o dia em que uma tartaruga ao ver uma libélula fica pensando que ela não pode voar e fica muito triste. Ao ver um vagalume fica ainda mais triste porque ela não produz sua própria luz, mas aí cai uma chuva, todos os bichinhos procuram lugar para se proteger, enquanto ela se refugia em seu casco e vê qual é sua qualidade”, conta.

Para atrair a leitura infantil, os autores abusam da criatividade, tem livro com CD, com sons dos animais, com quebra-cabeça, tudo para interagir com a criançada e tornar a leitura mais agradável. “Os pais devem saber escolher o livro de acordo com a idade, para não tornar aquilo chato para a criança. Se é uma que não sabe ler, ela não vai gostar de um livro com muita escrita, e sim com mais imagens, que não seja óbvia e deixe espaço para que ela possa imaginar como quiser aquela história”.

A leitura desde criança é essencial para aquisição de conhecimento, de habilidades de escrita e da própria maneira de ler. “Nós precisamos contribuir com novos leitores. A leitura amplia a capacidade de compreensão do mundo e quem não lê, não escreve. A leitura também traz diversos benefícios para a vida toda”, finaliza Cleomar.

O Dia Internacional da Literatura Infantil foi comemorado esta semana, 2 de abril, dia do aniversário de um dos mais importantes nomes da literatura infantil, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. Andersen não foi o primeiro a escrever para o público infantil, mas é considerado o primeiro autor a adaptar fábulas já existentes para uma linguagem mais adequada ao universo dos pequenos. No Brasil também é comemorado no dia 18 de abril, que marca o aniversário de nascimento do precursor do gênero no país, o escritor Monteiro Lobato. Lobato não só produziu clássicos da literatura infantil, como as histórias do Sítio do Picapau Amarelo, como também traduziu e adaptou clássicos mundiais, como Alice no País das Maravilhas.

Portal literário de Arapiraca realiza doação de livros no Centro

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Grupo de jovens à frente do LeroWhite fez feira de doação de livros, com apoio da Casa da Cultura e Biblioteca Municipal

Publicado no Tribuna Hoje

Portal literário de Arapiraca realiza doação de livros no Centro

Foto: Assessoria / Prefeitura de Arapiraca

A paisagem de interior é reforçada não apenas pelo verde, mas pelo farfalhar de sacolas que movimentam as feiras livres e o lepe-lepe das sandálias para lá e para cá. No Centro de Arapiraca, a segunda maior cidade de Alagoas, este é o cenário de todas as segundas-feiras.

Foi neste descortinar de histórias vividas semana após semana que o portal literário LeroWhite decidiu aportar, na Praça Luiz Pereira Lima, defronte ao Museu Zezito Guedes, bairro do Centro.

O grupo de jovens à frente do portal fez uma feira de doação de livros, com o apoio da Casa da Cultura e Biblioteca Municipal Prof. Pedro de França Reis, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur), e também do Estúdio Cumbuca e do digital retoucher Allan Carlos Silva.

Ela teve início às 10h30 desta segunda-feira (29) e surpreendeu muita gente que passava pelo local. “Achei muito interessante a iniciativa do portal por trazer cultura e incentivo à leitura para a praça. Vi crianças, senhoras e até guardas municipais participando dessa corrente. Muito bacana!”, pontua o estudante de biologia Rodrigo Polati, de 27 anos, que conseguiu pegar um exemplar de “Memorial do Convento”, romance de José Saramago, e levar mais algumas publicações infantis para seu sobrinho.

A ação toda funcionou a partir do esquema de monetarização “Pague Quanto Quiser”. “É apenas uma forma de continuarmos a promover ações deste tipo. O dinheiro revertido será para confecção de banners e marca-páginas. Mas, como se trata de doação, os arapiraquenses puderam muito bem visitar nosso estande, garimpar e pegar livros sem precisar pagar nada”, diz Janu Leite.

Ele, que é músico e produtor cultural, se juntou à estudante de Engenharia Química, Vanessa Daiany, e ao projeto de jornalista Breno Airan para agitarem a cena literária local.

“Estou terminando a faculdade de pedagogia e achei este projeto maravilhoso! Estou levando diversos livros tanto para mim, quanto para meus dois filhos. Tenho computador e costumo ler alguns volumes pela tela, mas não tem o mesmo tato que um livro em mãos. E, na minha profissão, a gente tem sempre que ler bastante, se atualizar. Estão de parabéns o portal LeroWhite e a Secretaria de Cultura por apoiar algo do tipo, que só nos enriquece”, diz Nadja Matias, de 37 anos.

Mais de 250 livros infantis, romances de literatura universal, gestão, auto-ajuda e outros diversos foram movimentados na manhã desta última segunda-feira do ano. A pretensão é fazer uma próxima ação desta perto do Carnaval.

Portal literário de Arapiraca realiza doação de livros no Centro

Breno Airan, Vanessa Daiany e Janu Leite (Foto: Divulgação)

Portal literário

O trio, que é seguido por quase 900 pessoas em página oficial no Facebook, desconstrói muita coisa como sabemos e transformam tudo e nada em pauta para os escritos programados para toda segunda, quarta, sexta-feiras e domingo.

“E se tudo que a gente sabe hoje fosse um grande migué? E se nos ensinaram erradamente e omitiram muita coisa? Bem, vamos criar nossas versões dos fatos com a liberdade poética que nos foi dada ao nascer”, comenta Janu Leite.

“Acho que vem na água, essa poética arapiraquense. Parece que nós, naturais dessa terra, estamos fadados a ter uma percepção diferente sobre as coisas ao redor. Deve ser a água… A gente nasce inquieto, como se quisesse saltar do corpo, e, tenho que dizer, inquietude é um radar natural”, pontua Vanessa Daiany sobre o escrever constante e a respeito da criação do portal.

Com o advento da internet, muitos blogs nasceram feito fonte de água cristalina, mas nem tantos duraram muito tempo. Isso foi um grande aporte para o retorno do formato de crônicas por parte dos escritores. “E um dos pontos é este: o LeroWhite não vai se restringir, se fechar. Criamos esta página para justamente brincar e brindar com o que ulula no cotidiano; haverá crônicas, contos, poesias, tudo sobre a pregnância das coisas”, diz Breno Airan.

E continua: “Mas ele não vai ficar só nisso. Nossa pretensão é criar um blog e um aplicativo para ficar mais fácil acessá-lo, lê-lo, experimentá-lo em todos os seus vieses. Esperamos com sinceridade que este seja um momento de ebulição da literatura em nossa cidade – com quem sabe outros projetos surgindo –, pois já vemos os pauzinhos se mexendo quanto ao jornalismo literário, a exemplo do excelente portal Vidas Anônimas”.

Ele citou a chegada da Livraria Adapter, após um ano de Arapiraca permanecer no limbo, sem qualquer empreendimento do tipo, e a reforma da Casa da Cultura – que em breve contará com um Café Literário – para esta inadiável retomada na produção do setor das letras.

Com efeito, os três têm certo contato com o meio literário. Este último, Breno Airan, recentemente teve dois aforismos seus compondo o livro “É Duro Ser Cabra na Etiópia”, da escritora e atriz Maitê Proença. O produtor cultural e músico Janu Leite já recebeu menção honrosa no Concurso de Poesia Mendonça Neto e teve publicações suas nas antologias poéticas Diário do Escritor 1 e 2 e o pedido da editora Litteris para utilizar uma letra de uma canção de sua autoria numa futura antologia literária. Por sua vez, Vanessa Daiany tem três poemas publicados também numa antologia, desta vez pelo Concurso Maria das Neves de Poesia.

A equipe não se restringe a eles – ainda há o abalroamento dado pelos digital retoucher Allan Carlos Silva e designer Victor Hugo Brito, este último, integrante do Estúdio Cumbuca. O primeiro, que fez a logo do portal, recentemente foi destaque na revista Adobe Photoshop britânica. Já Brito, fez a capa da página da rede social do LeroWhite e está os orientando na identidade visual do projeto, no que também concerne ao futuro blog e app.

“Eles são os nossos ‘Storm Thorgerson’, tenham certeza”, brinca Vanessa Daiany, referindo-se ao idealizador dos conceitos de várias capas da banda Pink Floyd.
Para acessar o portal, basta apenas estar conectado ao Facebook e clicar no link a seguir: facebook.com/lerowhite. Voilà!

Os livros infantis são realmente inocentes?

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Os livros infantis são realmente inocentes?

Quando eu era criança, muitos dos meus livros favoritos tinham como tema a comida. Um deles contava a história de um menino que ajudou a salvar uma pequena lanchonete ao se tornar um detetive gourmet que conseguiu recuperar um ingrediente secreto perdido.

, na BBC Brasil
Muito tempo depois de ter esquecido do livro e seu título, estive em Edimburgo para entrevistar Alexander McCall Smith. Ele já era o autor campeão de vendas por trás da série Agência No 1 de Mulheres Detetives, mas, anos antes, tinha escrito alguns livros infantis. E em uma prateleira de sua estante lá estava The Perfect Hamburger (O Hambúrguer Perfeito, em tradução livre).

Era o meu livro. Só que não exatamente. Sim, os hambúrgueres ainda eram descritos com detalhes de lamber os beiços, mas dessa vez ficou claro para mim que, na realidade, The Perfect Hamburger é um conto sobre a ganância corporativa e o destino de pequenas empresas obrigadas a competir com as grandes redes.

Reler livros infantis na idade adulta pode gerar todo o tipo de mensagens subentendidas, algumas mais evidentes do que outras. O clássico Como o Grinch Roubou o Natal, de Dr. Seuss, é uma parábola sobre o consumismo. E por que não parece óbvio que a série As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, é uma fantástica reinvenção da teologia cristã?

Da mesma maneira, uma leitura mais atenta transformou os livros do urso Paddington em fábulas sobre a imigração, e as histórias do elefante Babar em um endosso do colonialismo francês.

As aventuras de Alice no País das Maravilhas já foram interpretadas de várias formas – de uma ode à lógica matemática a uma sátira à Guerra das Duas Rosas, ou ainda a uma viagem psicodélica à base de drogas. Quanto a O Mágico de Oz: ora, evidentemente, trata-se de uma representação alegórica do debate em torno da política monetária americana no fim do século 19.

“Nunca é demais tentar buscar um significado mais profundo”, afirma Alison Waller, professora de Literatura Infantil da Universidade de Roehampton, na Grã-Bretanha.

Sua aula favorita é dedicada à análise psicológica do clássico infantil britânico The Tiger Who Came to Tea, sobre um tigre que aparece na casa de uma menina para jantar com ela e sua mãe.

Os alunos de Waller costumam enxergar algo edipiano na relação do felino com a família. “Só porque não captamos essas mensagens na infância não significa que não estejamos absorvendo-as”, alerta a professora.

É claro que, muitas vezes, os duplos sentidos parecem estar escondidos porque estamos muito ligados na trama ou porque somos jovens demais. Só depois de adulta, Waller entendeu o motivo pelo qual a mãe de Max o mandou para a cama sem jantar em Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak.

Essas camadas de significados são fundamentais para a longevidade de histórias que se tornam clássicas. Os contos de fadas são o melhor exemplo disso.

O teórico da psicanálise austro-americano Bruno Bettelheim costumava dizer que João e Maria é muito mais do que o relato de pais que abandonam seus filhos e de uma bruxa malvada que quer matar os pequenos. Para ele, trata-se de um estudo da regressão infantil e da gula, assim como da ansiedade de separação e do medo da fome.

No livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, de 1976, Bettelheim explica a importância terapêutica desse tipo de história na educação infantil. Aplicando análises neo-freudianas a histórias como Cinderela e Branca de Neve, ele mostra como essas narrativas falam ao subconsciente em uma linguagem semelhante à dos sonhos, ajudando as crianças a lidar com uma gama de medos e desejos não verbalizados, como a rivalidade com irmãos e a ambivalência que sentem em relação aos pais.

A chamada literatura infantil tem muito a oferecer aos adultos, segundo Sheldon Cashdan, professor de psicologia da Universidade de Massachusetts em Amherst, nos Estados Unidos. Em seu livro Os 7 Pecados Capitais nos Contos de Fadas, Cashdan explica que essas histórias ajudam as crianças a reconhecer a luta entre o bem e o mal – uma luta que elas vivenciam internamente –, com o bem vencendo o mal invariavelmente encontrando um final assustador.

Essas batalhas perduram por toda a vida. “Noções de ganância, de querer mais do que se precisa… Você pode ver isso nos bônus dos executivos do mercado financeiro e nas pessoas que têm casas com cinco banheiros. Ou ainda na maneira sutil com que as pessoas contam mentiras, omitem fatos ou cometem pequenas malandragens.

Só quando somos adultos cometemos o erro de pensar que os livros infantis, assim como os contos de fadas, são essencialmente escapistas. Ao nos depararmos com eles décadas mais tarde, ficamos surpresos ao perceber algo que pressentíamos quando crianças, mesmo que não tivéssemos vocabulário suficiente para verbalizar: que essas histórias abordam a força e a fragilidade humanas, falam de como existir no mundo.

A natureza oculta de suas mensagens são essenciais para sua magia. Como Bettelheim escreveu, explicar para uma criança o que torna uma história tão cativante significa estragá-la. Seu poder de encantar “depende consideravelmente do fato de a criança não saber muito bem por que a adora”.

Vovó viciada em séries tem laptop, iPad e Kindle

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myrna

Karla Monteiro, na Folha de S.Paulo

Aos 70 anos, avó de seis, a escritora de livros infantis Mirna Pinsky, vencedora de dois Jabutis, é tecnologicamente letrada. Sobre a mesa, um iPad acoplado a um teclado e um laptop.

“Guardo os meus textos no Dropbox, serviço para armazenamento em nuvem. Assim, posso trabalhar no iPad de qualquer lugar”, diz.

“Filmes eu não tenho baixado porque não preciso. Agora descobri o Netflix e assisto a todas as séries disponíveis. Sou viciada. Acabei de terminar House of Cards’.”

A mais recente conquista tecnológica da escritora foi o Kindle. Desde que conseguiu vencer o preconceito de ler na tela, viajar ficou mais fácil.

“Leio muito e viajo muito. A combinação ficou perfeita. O problema é que estou compulsiva. Entro na loja da Amazon e compro tudo. Tenho 15 livros na fila.”

“Minha vida se ampliou com a internet. Mas não quero ser dominada pela tecnologia. No Facebook eu não entrei”, confidenciou. Ainda não…

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