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Amazon lança KDP Kids, serviço de autopublicação para autores de livros infantis e juvenis

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Autores poderão criar seus livros ilustrados ou não e vendê-los para qualquer pessoa que tenha um Kindle ou use os aplicativos da empresa

(Foto: Todd Anderson/NYT)

(Foto: Todd Anderson/NYT)

Maria Fernandes Rodrigues, no Estadão

Queridinha dos leitores, por causa dos preços, e temida por editores e livreiros, também por causa dos preços, a Amazon lançou nesta quinta-feira, 4, mais um serviço que deve fortalecer sua plataforma de autopublicação – a Kindle Direct Publishing – e distanciá-la ainda mais dos concorrentes.
Agora, autores de livros infantis e juvenis, ilustrados ou não, poderão publicar suas obras pela KDP Kids, vendê-las no formato digital para qualquer pessoa do mundo que use um Kindle ou seus aplicativos e ganhar até 70% de direitos autorais.

Para publicar o livro, basta fazer o download do programa Kindle Kids’ Book Creator, também lançado agora. É possível fazer livros ilustrados importando imagens e livros só de texto, em capítulos, além da capa. O autor pode indicar a faixa etária a que a obra se destina.

A autopublicação tem sido uma boa alternativa para quem quer publicar um livro, mas não consegue fazê-lo por uma editora tradicional. E também para aqueles que querem ter o controle de todo o processo.
Ao mesmo tempo concorrente de editoras e vitrine para a descoberta de novos autores, a Amazon não é a única empresa a investir na autopublicação, mas alguns de seus autores têm se destacado. Foi o que aconteceu com o americano Hugh Howes, que veio ao Brasil na semana passada lançar, pela Intrínseca, Silo, publicado, antes, em e-book. A obra já foi comprada por editoras tradicionais em 32 países e vendeu cerca de 2,5 milhões de exemplares.

Há bons exemplos aqui também, como o da dentista de Niterói F M Pepper. Ela foi aos Estados Unidos aprender como lançar, sozinha, seu livro e que depois de certo sucesso fechou acordo para editar, em papel, pela Valentina, sua trilogia. Os dois foram personagens de uma matéria que publicamos sobre o assunto durante a Bienal do Livro de São Paulo, que terminou no domingo passado.

Semana literária: Livro Infantil não é qualquer coisa!

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Publicado por Eu li, e agora?

Tenho mais ou menos 4 anos como livreira, 3 livrarias diferentes e com enfoques e públicos diferentes. Todas elas tinham coisas em comum:

* o setor infantil é o carro-chefe de vendas
* o infantojuvenil é o setor com atendimentos mais demorados
* o setor infantil é o que os livreiros mais precisam conhecer os livros a fundo
* os livreiros do infantil são os que mais têm a paciência colocada à prova pelos clientes
* os livreiros do setor infantil são os que mais têm paciência e mais dores de cabeça – literalmente (teve uma época em que eu era habitué da farmácia)

Legal, né? MAS…

* o setor infantil é o mais subestimado pelos outros setores das livrarias
* fora os livreiros do infantil, ninguém gosta de atender lá
* fora os livreiros do infantil, ninguém sabe atender lá (e não se importa em aprender)
* fora os livreiros do infantil, praticamente ninguém dos outros setores lê literatura infantil ou juvenil
* livreiros do setor infantil que lêem muito infantil e juvenil têm o gosto literário constantemente questionado
* livreiros do setor infantil distribuem mais coices que cavalos por causa de tudo isso

Eu sou um setor infantil e só fico assim antes da livraria abrir!

Eu sou um setor infantil e só fico assim antes da livraria abrir!

Querem um exemplo? Sabem por que A culpa é das estrelas é classificado aqui no Brasil como literatura estrangeira, e não como juvenil ou jovem adulto? Porque vende muito e é considerado “bom demais” pra ser “só” juvenil. E não é exagero meu. Ouvi isso de pessoas que definitivamente não deveriam ter dito isso, principalmente considerando que o próprio John Green já disse que nunca vai escrever um livro para adultos porque adultos são chatos.

Existe uma enorme resistência dentro das próprias livrarias com o setor infantil, e o motivo principal é o seguinte: a maioria esmagadora considera literatura infantil algo menor. Algo qualquer coisa, que não vale muito a pena porque é pra criança mesmo. Geralmente quem diz isso esquece que nunca chegaria nos Vargas Llosa se não fosse a Eva Furnari. Inclusive, muita gente considera gostar de literatura infantil quando não se é mais criança como um retrocesso. Como se leitura fosse uma linha reta de “evolução”, sendo que a tal evolução é sempre – SEMPRE – conforme o gosto pessoal de quem fala a besteira. E não acontece isso só nas livrarias. Muitos pais, por não conhecerem ou por serem imbecis mesmo, dão chiliques homéricos quando percebem que livro infantil custa o mesmo que um “livro de verdade” (costumam ser os mesmos pais que não vêem problema em gastar 700 reais num tablet pro filho de 4 anos ou já levam as filhas de 9 anos pra maravilhosas tardes de comprinhas. Não vou julgar o que os outros fazem com o próprio dinheiro, mas um pouco de coerência nunca é demais).

Então agora senta que lá vem bronca.

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Livro infantil é um troço caro e não tem muito o que discutir. O papel é caro, a tinta da impressão é cara, e quando se trata de livro infantil, a qualidade do texto, em muitos casos, influencia sim no preço final. Preço de livro infantil não é muito diferente do preço de livros juvenis e adultos: a maioria fica na faixa de R$26 a R$38, um pouco mais ou um pouco menos, tem uns mais baratos, uns bem mais caros, e tem editoras que costumam ser mais caras, como a Martins Fontes e a Cosac Naify. Só a Cosac, por exemplo, teve coragem de trazer pro Brasil o Edward Gorey, que não é um escritor de livros infantis fácil de indicar por causa do humor ácido, sarcasmo e temas com um tom mais sombrio que agrada as crianças, mas assusta os pais. A Cosac investe tanto na inovação e na originalidade e na qualidade dos livros infantis que às vezes alguns deles acabam não sendo comerciais – são tão incríveis e tão cara de obra de arte e design e com um texto tão diferente… que são um porre pras crianças. Porque no final das contas, o livro precisa entreter e encantar A CRIANÇA, e não o adulto que vai abrir a carteira.

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Outra coisa que encarece livro infantil é o livro como objeto. Enquanto os livros juvenis e adultos são aquilo de sempre (capa e papel inteiros e normais, no máximo uma ou outra coisa diferente na capa como um verniz, ou textura emborrachada, ou metálico), livro infantil inventa moda: Abra com cuidado! da Brinque Book, trata de um crocodilo que invade uma história, mas invade mesmo: corre pela página, bagunça as frases, come algumas letras e, no final, foge do livro pela contracapa – e a contracapa tem um buraco bem no meio, por onde o crocodilo fugiu. O incrível menino devorador de livros da Salamandra tem um pedaço da contra-capa faltando, em forma de dentada. Pedaços faltando, rasgos, livros redondos, compridos, finos, largos, inclinados, recortados, páginas menores e maiores misturadas, dobraduras, fechos, buracos, texturas, espaços pra criança completar, formato de sanfona… se quando a gente entra na adolescência começa aquela chatice de endeusar o livro e deixar só na estante e não emprestar pra ninguém, livro infantil foi feito pra ser lido, relido, puxado, dobrado, marcado, vincado, recortado, jogado, às vezes degustado (atire a primeira pedra quem, quando criança, não tentou enfiar um livro na boca – alguns são bem sucedidos). O livro infantil PRECISA de tudo isso pra poder estimular a criança e ajudá-la a criar intimidade com o livro e o ato de ler e, principalmente, entender que livro é objeto, é coisa, é troço e não foi feito pra ficar imaculado na estante. Criança entende isso muito mais rápido e mais fácil, tanto que já vi vários adultos torcendo o nariz pro Destrua este diário da Intrínseca, mas nunca vi uma criança que não ficasse doida pelo livro.

E se o livro infantil estimula pelo objeto, se tiver um texto e ilustração bons, ajuda mais ainda. Ilustração toda certinha e redondinha “não vou pintar fora das bordas” com texto cheio de mensagens entregues mastigadas só agrada adulto que subestima a capacidade da criança de entender as coisas e que acha que criança deve viver dentro de uma bolha de superproteção. Livros como Quero meu chapéu de volta (Martins Fontes), Uma chapeuzinho vermelho (Companhia das Letrinhas), Aperte aqui (Ática), A vaca que botou um ovo (Salamandra), O pato, a morte e a tulipa (Cosac Naify) são só alguns exemplos de livros que saem do lugar comum e que podem sim trazer alguma mensagem – mas a criança vai ter que procurar qual é, e os responsáveis por ela também, porque se o adulto quer que a criança tire alguma coisa daquela história, ele vai ter que colocar a mão na massa e conversar com ela. Ou não vai tirar mensagem nenhuma – livro pode sim ser divertido e só isso. Ter um texto bem-feito e engraçado sem moral por trás, ou ilustrações divertidas sem texto escrito nenhum. Livros-imagem (ou livro sem texto) não só estimulam a criatividade como também a capacidade de interpretação de imagem. Picturebooks, que são livros em que texto e imagem não são dissociados – se tirar um dos dois, falta informações na interpretação da história ou ela perde o sentido, estimulam a interpretação de imagem, de texto e de texto associado a imagem. Jodos de palavras, trocadilhos, diagramação diferente, frases espalhadas pela página…

Livro infantil é um troço difícil de fazer, pelo menos os realmente bons.

Não é qualquer um que escreve um livro infantil bom.

Não é qualquer um que ilustra um livro infantil bom.

Autores tentando escrever pra criança porque "é fácil"

Autores tentando escrever pra criança porque “é fácil”

E nem todo autor tá necessariamente apto a escrever livro infantil. Pessoalmente, acho os livros infantis do Erico Verissimo um saco. Nunca, em quase 4 anos como livreira, vi uma criança gostar de algum livro infantil do Saramago. Esse é um problema, aliás – adulto não costuma saber ler livro infantil. Não saca a graça das coisas, não pega a piada, não entende aquele furo ali na página, ou acaba achando o máximo coisas que crianças não lêem nem se forem pagas em pelúcia da Peppa Pig. Porque livro infantil pode sim ser praticamente uma obra de arte, mas é, antes de tudo, livro pra ser lido por crianças. Quem tem que gostar são elas.

Livro infantil é a porta de entrada da criança – é o primeiro livro que ela vai pegar NA VIDA. É nele que ela vai olhar aquele monte de rabisco emaranhado e descobrir que aquilo significa que o macaco tá brincando com a mola. É um passo importante na noção de independência da criança – ela não precisa mais de um adulto pra ler pra ela ou pra escolher o que ela vai ler. Criança não é “mini leitor”: é leitor e ponto, sem mini, sem inho, e subestimar aquilo que ela tá lendo é subestimar a própria criança.

Aí você pega tudo isso que eu falei e vê adulto tendo dó de gastar R$30 num livro infantil. Vê adulto considerando literatura infantil como algo menor, como “não literatura de verdade”. Diferenciando livro infantil de “livro normal”.

Você só chega nos autores cults com o aval da Ruth Rocha, então baixa a bola aí.

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Em defesa da leitura sem vergonha

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Alguns críticos dizem que adultos deveriam se envergonhar por ler livros juvenis. Estão errados

Danilo Venticinque, na Época

O sucesso de A culpa é das estrelas nos cinemas e nas livrarias é uma notícia excelente para o mercado literário. Deveria ser comemorada por qualquer pessoa que acredite num futuro em que o hábito de ler seja mais difundido. Mas os pessimistas de sempre não perderam a chance de se manifestar. Para alguns críticos literários e leitores elitistas, qualquer notícia é má notícia. A popularidade dos livros juvenis, em vez de ser um alento, é um desastre irremediável.

Um artigo publicado há algumas semanas pela revista digital americana Slate sintetiza a opinião da turma do contra. O título já diz tudo: “Adultos que leem livros para crianças deveriam se envergonhar”. Ao longo do texto, a jornalista Ruth Graham lista motivos pelos quais adultos não deveriam perder seu tempo com A culpa é das estrelas e outras obras do gênero. Diz que os livros são inocentes demais, incentivam uma leitura acrítica e oferecem uma gratificação instantânea. Para jovens leitores em formação, seriam um mal necessário. Mas os milhões de adultos que se emocionaram com a história narrada por John Green deveriam ter vergonha disso – e procurar um livro para adultos imediatamente.

Ruth não está sozinha. Em qualquer conversa sobre literatura é possível encontrar leitores que manifestam, com ar de superioridade, opiniões semelhantes a essa. Histórias policiais, fantásticas ou romances adolescentes são vistos como subliteratura. Seus fãs, consequentemente, são subleitores. Bom mesmo é ler autores clássicos ou, na falta deles, uma meia dúzia de contemporâneos que tentam imitá-los.

Ao condenarem livros populares, esses críticos contribuem para que reforçar a imagem da literatura como um prazer sofisticado, que só pode ser aproveitado por uma elite intelectual. Mas não enxergam a importância que esses títulos têm não só para o mercado, como também para a formação de novos leitores.

Basta olhar para as listas de mais vendidos para comprovar que as livrarias e editoras estariam em apuros sem o público conquistado por esses best-sellers supostamente inferiores. Ao dizer que romances juvenis só deveriam ser lidos por adultos, os críticos se esquecem do óbvio: nem todos começam a ler na adolescência. Para muitos adultos, as histórias acessíveis e cativantes contadas em romances juvenis são uma excelente introdução à literatura. Ninguém começa lendo James Joyce. Entre ler a obra completa de John Green e parar nas primeiras páginas de Ulysses, a primeira opção me parece mais saudável e promissora para quem está descobrindo a leitura.

Mesmo que os fãs de autores juvenis não abram um só livro “adulto” em todas suas vidas, ainda assim sua experiência terá sido positiva. Ler um romance juvenil pode até ser menos enriquecedor do que ler um clássico da literatura, mas é muito melhor do que não ler livro algum. Parece bobagem, mas muitos críticos não entendem que essa escolha entre ler livros clássicos e ler livros populares não existe. Para a maioria das pessoas, a escolha é entre ler livros populares e fazer outra coisa: jogar videogame, assistir a um filme, passar a tarde no Facebook. A decisão de ler um livro, não importa o gênero, é uma vitória para a literatura.

Além de falta de visão, a crítica aos romances juvenis revela uma boa dose de hipocrisia. Não há leitor que não tenha, em sua prateleira, um daqueles livros que amamos sem respeitar. Pode ser uma história barata de detetive, uma ficção científica das mais absurdas, uma coleção de contos de terror ou, por que não, um romance adolescente. Ler um livro por prazer não deveria ser motivo de vergonha para ninguém. Vergonha é passar meses sem ler nada – ou criticar a leitura alheia em vez de olhar para a própria prateleira.

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