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Posts tagged livros

A arqueologia dos trechos sublinhados

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Carol Bensimon, no Blog da Companhia

Tenho uma amiga que cola post-its em livros. Acho engraçado ver esses post-its em funções tão subjetivas, marcando frases pela beleza, pela tirada esperta ou pelo sentido da existência. Nada de médico sexta 14h, ligar para Fernando, trocar lâmpada, senha do banco T489RVX; minha amiga deixa os post-its em branco, e todos lá no topo do livro, como pequenos marcadores cuja função é catalogar sua experiência de leitura e permitir que se volte aos pontos cruciais. Mas é claro que só ela é capaz de dizer exatamente o que o post-it está marcando. Ele é um apontador vago, quase escolhido para induzir ao erro. Onde começam e onde terminam as frases da sua vida?

Para todos os outros apreciadores da literatura, existe a opção menos refinada e um tanto mais agressiva chamada sublinhar. Os que têm pudores demais argumentam que isso arruina completamente o objeto sacro “livro”. Os ousados usam caneta esferográfica ou marca-texto — os mesmos que, durante a adolescência, rabiscaram capas de caderno com líquido corretivo e imortalizaram frases de Renato Russo ou Caio Fernando Abreu na parte emborrachada de um all-star. E há ainda os que embarcam no bom-senso do lápis (embora eu nunca tenha ouvido falar de alguém que, insatisfeito, apagou as linhas um tempo depois).

Não é comum que eu sublinhe meus livros, mas digamos que há casos pontuais. Da primeira vez que li Lolita, em uma daquelas edições baratas que eram vendidas com o jornal de domingo, lembro de ter marcado um bom número de trechos, e desses trechos às vezes saíam setas, e na ponta das setas comentários surpresos ou espirituosos, como se eu estivesse efetivamente conversando com Humbert Humbert. Por exemplo: “só agora tu percebeu isso???” (relacionado a um trecho no qual o narrador chegava à conclusão que era Lolita quem o seduzia, e não o contrário).

Provavelmente do mesmo período são as tortas linhas azuis em Morangos mofados, do Caio Fernando Abreu. Na página 75, um longo trecho do conto “Sargento Garcia”. Eu adorava frases que pareciam nunca terminar. Depois, na 84, o verso de uma canção: “Que culpa tenho eu se até o pranto que chorei se foi por ti não sei”. Fico me perguntando por que diabos eu sublinhei esse verso. Talvez fizesse algum sentido naquela semana (o tempo aos 18 anos se conta por semanas). Ou então eu tinha achado genial isso de largar versos de canções no meio da narrativa, e repeti-los, e cortá-los etc etc. Naquela época, eu estudava publicidade, e queria muito ser o Caio Fernando Abreu.

Meu exemplar de Uma casa no fim do mundo, do Michael Cunningham, está todo sublinhado, curiosamente, a lápis. Mas é claro que eu jamais teria a ousadia de apagar o que um dia fez muito sentido. “O Arizona era o primeiro lugar da minha vida que se revelava exatamente como eu imaginara” (página 233). Aquela Carol lá de trás estaria orgulhosa de saber que eu finalmente visitei o Arizona. Que eu dirigi sozinha pelo Arizona e, uau, eu acho que ele é, sim, exatamente como a gente imagina.

Uma variação sobre o tema, algumas páginas antes:

“Quem pode lá imaginar que vai acabar morando num deserto?”

Dei de ombros.

“Quem pode lá imaginar que vai acabar morando em qualquer lugar?”

“Isso é profundo demais para mim”, disse ele, e entrou no estacionamento do shopping, acompanhando uma fila de caubóis de neon. As pernas dos cavalos dos caubóis piscavam em movimento.

E: “Parecia ocupado demais para estar disponível para uma morte prematura”. E: “Mesmo enquanto acontecia, era uma história que eu ia contar a ela”.

Nesses antigos trechos sublinhados, é engraçado ver como às vezes eu me sentia tocada por um comentário sobre relacionamentos amorosos, embates familiares ou o que quer que fosse, enquanto outras vezes estava claro que eu simplesmente queria aprender tudo o que fosse possível sobre o ato de narrar. É provavelmente a única explicação lógica para eu ter sublinhado coisas como “nuvens rechonchudas”, “roxo como um machucado” e “seus dentes pareciam entalhados em uma única peça de madeira”.

Ler Shakespeare melhora a capacidade de pensar

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Estudo mostra que a maneira como as linhas de Shakespeare são estruturadas favorece a capacidade de compreensão e pensamento. Entenda o que é a “mudança funcional” presente nos textos do autor.

Publicado no Universia Brasil

Crédito: Wikipédia

A interferência de Shakespeare na capacidade de pensar acontece porque o famoso escritor inglês criou efeitos dramáticos, se aproveitando da relativa independência da semântica e da sintaxe na compreensão da sentença / Crédito: Wikipédia

Já se sentiu mais inteligente após ler um livro considerado “alta literatura”? De acordo com o professor Philip Davis, que ensina Inglês na Universidade de Liverpool, isso acontece com frequência, especialmente após a leitura das obras de William Shakespeare. Isso se deve à maneira como as linhas são estruturadas, a chamada “mudança funcional”.

Esse efeito na capacidade de pensar acontece porque o famoso escritor inglês criou efeitos dramáticos se aproveitando explicitamente da relativa independência em nível neural da semântica e da sintaxe na compreensão da sentença.

Para entender se o fenômeno era cientificamente verificável, o professor Davis fez um estudo com diversas pessoas, pedindo a elas que lessem algumas linhas de Shakespeare enquanto estavam ligadas a equipamentos de encefalografia. Entretanto, em torno de cada uma dessas frases de mudança funcional também foram fornecidos três contra-exemplos, mostrados na tela em ordem aleatória. Os voluntários tinham que apontar se as frases faziam mais ou menos sentido.

Os resultados dos testes concluíram que os participantes compreenderam de forma mais ampla as linhas mais complexas, uma vez que tinham lido uma linha com o deslocamento funcional de Shakespeare.

Isso significa que, enquanto a mudança funcional de Shakespeare foi semanticamente integrada com facilidade, um processo de reavaliação sintática foi desencadeado, provavelmente para aumentar a atenção e dar mais peso à sentença como um todo.

O vendedor de livros da Livraria Cultura

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Pedro Herz, dono da Livraria Cultura, na loja do Market Place Shopping Center.

Herz: “As livrarias precisam se adaptar às novas tecnologias, mas o negócio nunca vai morrer”

Carla Aranha, na Exame.com

São Paulo – O paulistano Pedro Herz, de 72 anos, cresceu numa casa cheia de livros. Seus pais – um casal de judeus que deixou a Alemanha pouco antes da Segunda Guerra Mundial – abriram um negócio de aluguel de obras em inglês e alemão para ajudar a pagar as despesas de casa. “Morávamos com meus tios, e não sobrava espaço para mais nada na casa”, diz ele. “Boa parte da clientela eram imigrantes que viviam em São Paulo”.

Foi esse o embrião da Livraria Cultura, um negócio que no ano passado faturou 340 milhões de reais. Herz está à frente da empresa desde a década de 60, quando o negócio passou a se chamar Livraria Cultura. Neste depoimento a Exame PME, ele conta a trajetória de expansão da empresa e quais seus planos para o futuro.

“Nasci em 1940. Sou filho de Eva e Kurt Herz, um casal de judeus alemães que veio para o Brasil em 1938, fugindo da Alemanha nazista. Eles se estabeleceram em São Paulo, onde meu pai ganhou a vida vendendo roupas.

Na minha infância, vivíamos numa pequena casa com uma tia, o marido dela e o filho deles, meu primo. Eram tempos difíceis. Tínhamos pouco dinheiro e era preciso economizar para não passar necessidade.

Havia muitos imigrantes numa situação parecida com a nossa. Eram pessoas cultas, que gostavam de ler, mas não conseguiam comprar muitos livros. Muitos não sabiam português direito, e as obras em alemão ou inglês custavam muito caro.

Foi quando minha mãe teve a ideia de juntar algum dinheiro, comprar livros importados e alugá-los para os amigos. Com isso, ela esperava ganhar uma renda extra para ajudar nas despesas de casa.

O aluguel de livros rapidamente fez sucesso entre os imigrantes. Às vezes, os clientes faziam fila na porta de nossa casa, onde o negócio funcionava.

Em 1953, já não havia mais espaço para guardar livros, e minha mãe mudou o negócio para uma sa­linha na rua Augusta. Muita gente também começou a fazer encomendas e a locadora, aos poucos, se transformou numa livraria.

 

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Editora britânica vai lançar versões erotizadas de clássicos da literatura

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Imagem Google

Publicado originalmente no G1

A editora britânica Clandestine Classics vai lançar versões erotizadas de romances clássicos da literatura, como “Orgulho e preconceito” e livros da série Sherlock Holmes.

As novas versões contarão com passagens eróticas no meio dos textos tradicionais. A editora afirma que a ideia tem como objetivo atrair “uma nova geração de leitores”, que ainda não conhece os trabalhos clássicos.

Claire Siemaszkiewicz, gerente da Clandestine Classics, diz que sempre foi atraída pela “tensão sexual nas entrelinhas” dos antigos romances. Os livros serão lançados em versão digital no dia 30 de julho.

Não é a primeira vez que clássicos da literatura são “alterados” para atrair um público mais jovem. Em anos recentes, zumbis, monstros e vampiros foram incluídos em histórias antigas, como é o caso de “Razão e sensibilidade e monstros marinhos” e “Orgulho e preconceito e zumbis”.

O que vale mais, o escritor ou o livro?

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José Roberto Torero no Correio do Brasil

Escritorxlivro

Nos últimos anos, a figura do escritor tem ganhado mais importância que sua obra.

O que é mais importante, o criador ou a criatura?
Eu prefiro a criatura. Não me importa muito se um autor tem 18, 68 ou 118 anos, se é um office-boy, um acadêmico ou uma striper, se nasceu na Mooca, em Londres ou em Pokhara, a cidade-lago do Nepal.

O que me importa é o livro. Mas muitos preferem o escritor.

É claro que tem o seu sabor saber quem escreve uma obra. Eu mesmo, quando pego um livro na livraria, dou aquela olhada na orelha para ver a foto do autor e ler sua biografia. Mas isso deve ser apenas a cereja do bolo, não seu recheio; deve ser apenas uma nota de rodapé, não a cabeça da reportagem.

O culto à personalidade tem crescido tanto que em várias resenhas você fica sabendo onde nasceu o escritor, com quem ele é casado e o escândalo que deu em sua adolescência, mas quase nada sobre a obra.

A orelha está sendo mais valorizada do que as páginas do livro.

O cartunista Laerte, por exemplo, é brilhante desde os tempos da editora Oboré, quando fazia ilustrações para sindicatos, mas nunca ganhou tanto destaque quanto depois de praticar o crossdressing.

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