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Onde estão os livros nos aviões e nos ônibus?

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Imagem Google


Roney Cytrynowicz, no PublishNews

Viagens, de férias ou a trabalho, são sempre situações interessantes para a leitura, incluindo as descobertas realizadas na própria viagem. Os longos trajetos, a suspensão do tempo e do espaço e, no caso de férias, o prazer de ler em meio a dias sem obrigações, permitem uma imersão ainda mais profunda na leitura.

Por que, então, companhias de ônibus e de aviões não mantêm pequenas bibliotecas, como fazem com jornais e revistas? Por que editoras não fazem parcerias com estas empresas para divulgar seus lançamentos? Se isso vale para livros impressos, imagine para livros digitais, que ainda não são oferecidos nos aviões, apesar da montanha de filmes, jogos e música à disposição dos viajantes. E mesmo assim muitas pessoas passam horas e horas dentro de aviões e outros meios de transporte muitas vezes sem fazer nada além de dormir.

Às crianças e aos adultos com crianças se poderia oferecer livros infantis. É surpreendente que companhias aéreas e editoras não pensem nisso. Crianças de qualquer idade ficariam horas entretidas e o mesmo vale para leitores juvenis. Aos adultos em geral se poderia oferecer livros de todos os tipos, a começar por contos e crônicas, e colocar à disposição também livros de gêneros menos requisitados, como, por exemplo, a poesia. O resultado certamente seria surpreendente.

Guias de viagem, romances de viagens, livros para conhecer a cultura do destino do trajeto e sobre restaurantes e gastronomia local, e assim por diante, também poderiam ser oferecidos. É inexplicável que não se proponha leitura nestas situações em que os livros, impressos ou virtuais, são excelentes companheiros e certamente se tornariam companhia de pessoas que nunca imaginaram esta possibilidade.

Em geral, eu levo várias opções, entre um romance (para uma viagem longa e horas seguidas de leitura sem interrupção), contos ou crônica, um livro de poesia e um ensaio ou livro de história. Passo dias escolhendo e separando o que levar, escolhas que vão sendo trocadas diariamente nos dias que antecedem a viagem – que pode ser apenas uma curta viagem a trabalho de um dia – e, para falar a verdade, raramente estas escolhas dão certo e na maior parte das vezes dá vontade de ler exatamente um dos livros que ficou para trás na última hora. Mas estes dias de preparativos são muito estimulantes.

Um capítulo à parte neste assunto são as livrarias de aeroportos e rodoviárias. E, neste sentido, é inexplicável que a principal livraria do Aeroporto de Guarulhos tenha sido reduzida ao tamanho de uma grande banca de jornal com poucas opções de livros que não os best-sellers da semana. No Aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro, a livraria principal ficou fechada por anos e a pequena livraria que subsiste no andar do embarque é simpática, sem dúvida, mas vende exclusivamente aquele pequeno mix formado por alguns best-sellers + autoajuda + negócios, quase sem opções de boa literatura.

E estas livrarias têm uma insignificante seção de guias e livros de viagem e menos ainda a preocupação de oferecer livros relacionados à cidade onde estão e onde milhares de turistas chegam todos os dias. É claro que um comentário tão genérico, e baseado em São Paulo e Rio de Janeiro, é sempre injusto. Lembro, por exemplo, da livraria no aeroporto de Salvador que tem uma pequena mas simpática seção de livros locais. Oferecer guias locais de turismo, de culinária, literatura e outros livros da região é um trabalho que deveria ser prioridade para livrarias em pontos de trânsito de turistas.

Quando é tão urgente pensar em formas de incentivar a leitura e a circulação dos livros (a começar pelos impressos) e procurar canais alternativos de distribuição e de venda, parece um contrasenso não propor estratégias acopladas a viagens e ao transporte, situações em que as pessoas têm tempo, recursos e disponibilidade (mesmo que ainda não testada) para ler livros.

Enquanto isso, estou aqui já escolhendo os livros que levarei para as férias de fim de ano e, assim, passarei o próximo mês imaginando o que vou querer ler nas horas de espera e transporte e em alguns dias de férias. Dessa vez, como em todas as outras, errarei na maioria das escolhas e, com certeza, acharei livros imprevistos e interessantes (e relacionados ao lugar onde estarei) pelo caminho…

Qual será o futuro dos sebos?

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Publicado originalmente no O Globo

Seu José Germano repete a mesma rotina há 60 anos. Chega às 6h30min em seu sebo e vai embora apenas às 19h. Depois de ter sido faxineiro, entregador e atendente, ele é o atual e único dono da tradicionalíssima Livraria São José, no Centro. Mas o alfarrábio não está mais na Rua São José, onde já teve até quatro pontos diferentes. O novo endereço, após passar pela Rua do Carmo e a Praça Tiradentes, é a Avenida Primeiro de Março 37. Teve que se mudar para sobreviver.

A livraria está acabando por conta do livro digital. Principalmente os sebos. Porque eu vendo livro velho e não existe livro digital velho, não é? — argumenta ele que, aos 74 anos, se rendeu, ao menos, à venda pela internet. — Não temos mais aquela clientela que tínhamos nas décadas de 1970, de 1980. Há 20 anos, se alguém me oferecesse uma biblioteca de 5 mil, eu não pensava duas vezes. Hoje, não sei.

Sob ameaça dos leitores digitais

O livreiro da São José é apenas uma das pontas desse intrincado negócio de compra e venda de livros usados. Ele representa o perfil mais tradicional, com a loja com corredores longos, clientes de longa data, iluminação menos potente, estantes empoeiradas e edições antigas. Mas Germano não é o único tipo de livreiro que está tendo que se adaptar a uma nova realidade em que o digital se torna cada vez mais comum, principalmente com a chegada iminente da gigante do comércio eletrônico Amazon ao Brasil. Essas lojas especializadas em obras de segunda mão vão sobreviver após a colisão desse asteroide?

— Sinceramente não sei como um sebo se reinventaria como loja física — diz Camila Cabete, gerente de Publisher Relations da Kobo, o leitor digital que lançará uma loja no Brasil até o fim do ano, em parceria com a Livraria Cultura. — Eu continuarei usando sebos. Porém, não sei como se comportarão os nativos digitais.

O caminho restrito ao comércio online é a opção de alguns livreiros de longa tradição física para tentar evitar a fossilização. É o “exército de um homem só”, argumenta Marcelo Latcher. Ele já participou direta e indiretamente da criação de dezenas de lojas. Hoje, mantém apenas a Gracilianos do Ramo, mas só virtualmente.

— Sebo tem os seus dias contados, mas ainda é possível ganhar muito dinheiro na decadência — disparou Latcher, que faz parte de uma geração de livreiros mais jovem que a de Germano. — No futuro, o livro será comprado em um antiquário. Vai ser algo chique. Mas isso não me incomoda em absoluto.

Uma vez que se optou pela internet, o principal caminho adotado no Brasil tem sido a Estante Virtual. Segundo o criador do site, André Garcia, 97% das transações de livros usados na internet brasileira acontece sob o domínio da sua empresa. Garcia, ainda mais jovem que Latcher, não tem qualquer receio das transformações, e diz não ter visto qualquer impacto do livro digital: “fez cócegas no mercado nacional”.

— O e-reader vai continuar seguindo como parcela minoritária do mercado aqui — aposta ele, que disse estar preparado para enfrentar a Amazon, caso ela também venda livros de segunda mão no mercado nacional, como faz nos Estados Unidos e em outros países como França e Reino Unido.

De toda forma, ele é outro que não quer ficar parado e já planeja explorar outras áreas, inclusive a obra eletrônica. — Mas em uma competição, o livro físico ganha dos e-books nesse nicho exatamente por sua materialidade.

Nem toda livraria de usados aposta unicamente na venda on-line, entretanto. Maurício Gouveia, um dos donos da Baratos da Ribeiro, de Copacabana, cadastra apenas um percentual pequeno do acervo, por conta do alto custo de implementação e a baixa vendagem pelo meio.

— Nosso cliente não é o cara que procura o livro X ou Y. Nosso cliente é o cara o que aparece para saber se pintou algo de novo, que gosta de bater papo, dar uma passadinha — explica ele, que acredita que o aluguel no Rio de Janeiro é um problema muito maior que a Amazon.

Livreira aposta em convivência pacífica

Tendo experiência de quase 30 anos nas livrarias “tradicionais”, Graça Neiva, do Luzes da Cidade, em Botafogo, sugere que nos sebos sempre se pode encontrar surpresas. Já as que vendem obras novas estão homogeneizadas.

— Dizem os mais velhos que a TV era uma ameaça ao cinema. E, apesar de ter diminuído de tamanho, a indústria do cinema não vai tão mal assim. No livro, vai ter que ter acomodação — conta ela que, há anos, quando o assunto livro digital começou a aparecer no Brasil, colocou uma placa, em tom de brincadeira, anunciando que eles estavam comprando Kindles, o leitor digital da Amazon. — Já tinha gente querendo passar o Kindle antigo!

Entre livreiros à moda antiga e outros conectados, fica o mais interessado no assunto, o leitor. Bibliófilo, além de poeta, professor e acadêmico, Antonio Carlos Secchin é autor do “Guia de sebos” que, apesar de estar na quinta edição, ele acredita que já nasce obsoleto. A razão? O crescimento dos sebos virtuais.

— Mas como todo mundo pode se autodenominar livreiro, há uma série de informações erradas circulando pela internet, que eu nem acho que seja de má-fé. Como quando se anuncia um título e é outro. O colecionador que está em busca de uma edição específica, acaba tendo que tomar bastante cuidado.

Contudo, Secchin não acredita que o principal movimento dos sebos seja da busca de uma obra rara. Para ele, o que faz o caixa das livrarias de segunda mão é o best-seller. E aí, o livro digital poderia se tornar um problema.

— Enquanto o livro no sebo for mais barato, vai ter público. Agora é esperar para saber quando o livro digital vai ficar mais barato.

dica do João Marcos

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