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Don DeLillo: “A função do escritor é enfrentar o poder”

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O autor americano diz que viver numa democracia é um privilégio, mas mesmo em países livres é preciso identificar as máscaras que escondem o autoritarismo

Luis Antonio Giron, na Época

ATMOSFERA DE INSEGURANÇA O escritor americano Don DeLillo. “Escrevo sobre tempos conturbados” (Foto: Richard Drew/AP)

ATMOSFERA DE INSEGURANÇA
O escritor americano Don DeLillo. “Escrevo sobre tempos conturbados” (Foto: Richard Drew/AP)

O americano Don DeLillo, de 76 anos, é conhecido por sua fixação em imagens. A fotografia de um homem caindo do World Trade Center no dia do atentado às Torres Gêmeas, feita por Richard Drew, inspirou seu romance mais famoso: Homem em queda (Companhia das Letras, 220 págs., R$ 44). Seu livro mais recente, a coletânea O anjo esmeralda, traz fotos do cadáver de Ulrike Meinhof, integrante do grupo terrorista alemão Baader Meinhof, imagem que é obsessão de um dos personagens. DeLillo acha que o romance é um “instrumento de compreensão do tempo e do espaço em que vivemos”. Com uma ficção calcada em temas da atualidade, ele não se considera um “crítico” de nossa época, mas um “observador”.

ÉPOCA – Por que o senhor escreve romances?
Don DeLillo –
Só me decidi a ser escritor quando comecei a me dedicar à forma longa do romance. Foi assim que levei quatro anos para concluir meu primeiro, Americana (1971). O romance é uma forma de penetrar na realidade e compreendê-la intuitivamente, como nenhum outro gênero de conhecimento oferece. O romance é um instrumento de compreensão do tempo e do espaço em que vivemos.

ÉPOCA – Há um tema comum a todos os seus livros?
DeLillo –
Meus romances abordam os tempos difíceis, os tempos conturbados. Os Estados Unidos dos anos 1960 e 1970 foram marcados por assassinatos políticos, Guerra do Vietnã, caso Watergate… Um de meus primeiros contos é ambientado em Dallas. Um jovem de moto escapa de uma cena de crime. Três anos depois, o presidente John Fitzgerald Kennedy seria assassinado em Dallas, e por um jovem que tentou escapar, Lee Harvey Oswald. Usei a mesma cena no romance Libra (1988). O assassinato de Kennedy inaugurou uma era de turbulência que também dá início a minha trajetória literária. Daí a atmosfera de insegurança, desconfiança e niilismo que contaminam minhas histórias dos anos 1960 e 1970.

ÉPOCA – Como o 11 de setembro marcou seu trabalho?
DeLillo –
Os atentados às Torres Gêmeas impuseram novos tempos instáveis e perigosos aos Estados Unidos. De alguma forma, os americanos se viram cercados de inimigos, sem saber direito por quê. Foi assim que pensei em escrever Homem em queda (2007), um romance ambientado dentro dos prédios do World Trade Center e dentro dos dois aviões arremessados contra eles. Essa visão de dentro chocou muitos leitores. Foi o único romance daquele tempo a fazer isso. Era um tabu enfrentar a situação do jeito como enfrentei, descrevendo a catástrofe em detalhe.

ÉPOCA – Os tempos atuais são menos perigosos?
DeLillo –
São. A situação mudou com o governo Obama. Mesmo assim, embaixadas são fechadas e boa parte dos americanos corre perigo em países do Oriente e do Oriente Médio.

ÉPOCA – Que critério o senhor seguiu ao organizar a coletânea O anjo esmeralda? Eles sintetizam os principais temas de sua ficção, como o perigo da tecnologia, a insegurança, a fotografia, o irracionalismo da religião.
DeLillo –
Sim, ler meus contos pode ser uma boa maneira de entrar em meu universo. Porque um pouco de tudo isso que você citou está lá. A pedido de meu editor, reuni os contos mais recentes, de 1979 a 2011, na ordem cronológica de publicação em várias revistas. Revisei-os sem alterar uma linha. Quis manter o ar do tempo em que foram feitos. Lendo-os agora, percebo que todos os contos estão centrados em pessoas obcecadas por alguma coisa. Em “Criação” (1979), o personagem principal está obcecado em escapar de uma ilha cujo aeroporto está fechado. O narrador de “Baader Meinhof” (2002) se deixa hipnotizar pelas fotos da terrorista morta. A aparição de uma menina morta em “O anjo esmeralda” (1994) é motivo para a renovação da fé de um grupo de desvalidos do Bronx de antigamente.

Leia trecho do livro O Anjo Esmeralda

A FOTO Homem em queda, de Richard Drew (Foto: Richard Drew/AP)

A FOTO
Homem em queda, de Richard Drew
(Foto: Richard Drew/AP)

ÉPOCA – Esse conto parece refletir sua infância no Bronx católico. A história parece real.
DeLillo –
Não é real, apesar de ter um fundo de verdade. Em comunidades católicas como as do Bronx, em Nova York, era comum nos anos 1950 as pessoas terem visões como uma menina morta que ressuscita para fazer milagres. Hoje não mais. As protagonistas são freiras que investigam a aparição numa área perigosa de South Bronx. Quis mostrar as freiras correndo perigo. Estudei em colégio de freiras, e elas me marcaram. Daí essa carga real.

ÉPOCA – A história tem a ver com sua formação católica e ítalo-americana. Quanto o senhor foi influenciado por ela?
DeLillo –
Sou filho de italianos que saíram de seu país para descobrir a América. E conseguiram sobreviver, criar uma família e se estabelecer como americanos no bairro do Queens, em Nova York, depois no Bronx. Claro que isso me influenciou profundamente. Porque, mesmo tendo nascido americano, tenho uma visão de outsider. Os italianos em Nova York são reconhecíveis, mantêm seu mundo à parte do resto da população. É uma comunidade até certo ponto isolada. Ter sido criado numa família italiana operária foi algo positivo: aprendemos a conviver em famílias grandes, logo nos damos conta de nossas diferenças e desenvolvemos uma forma de afeto e tolerância. Tive uma vantagem adicional: como era o filho mais velho, tive apoio de meus pais para fazer o que bem entendesse, desde que ganhasse algum dinheiro com isso. Eles me incentivaram desde o início a lutar para ser escritor. Ao me tornar escritor, quis prestar tributo a meus pais. Como eles, meu projeto tem sido descobrir a América – e me tornar americano.

ÉPOCA – Muitos críticos dizem que seus textos são excessivamente experimentais. O senhor concorda?
DeLillo –
Não. Não penso nisso. Faço poesia com a prosa, por assim dizer. Não sei me definir, só sei que sigo contando histórias a minha maneira. Dizem que sou um crítico da política americana. Mas não me considero um crítico, e sim um observador, um escritor que vive num mundo em que as conturbações acontecem.

“Depois do 11 de setembro,
os americanos se viram
cercados de inimigos, sem
saber exatamente por quê”

ÉPOCA – Apesar de não se considerar um crítico, mas um observador, o senhor ainda acha que a missão do escritor hoje é enfrentar o poder?
DeLillo –
Sim, mais do que nunca a função do escritor é enfrentar os poderes constituídos. Isso em todo o mundo. Os grandes autores são aqueles que desafiam os regimes totalitários e desumanos. Todo dia escritores são presos por se expressar criticamente contra os governos em países da África, do Oriente Médio e da Ásia. Tenho o privilégio de trabalhar num país democrático, em que a liberdade de expressão é um ponto inegociável. Mas não deixa de ser também um país em que o poder e os poderes se organizam e se mascaram rapidamente. Mesmo na América, os escritores precisam estar atentos a esse ocultamento. E podem fazer suas denúncias por meio não apenas de análises e libelos, mas da ficção.

ÉPOCA – Em que medida o jazz e o cinema foram importantes para a definição de seu estilo de escrever?
DeLillo –
O jazz me ajudou a criar meu próprio método de escrita espontânea, assim como inspirou Jack Kerouac e Julio Cortázar. Sou fã de jazz, já frequentei muitos clubes do gênero em Nova York, embora hoje eu esteja mais recluso. Jazzistas como Thelonious Monk, Charlie Parker e John Coltrane me ensinaram que os temas podem surgir da improvisação e do acaso. O jazz, assim como o cinema de arte, me indicou que o caminho do romance popular pode ser também a grande arte, e que ser romancista não significa rebaixar os temas ou banalizar as histórias.

ÉPOCA – O senhor esteve no Brasil em 2003. Pretende voltar?
DeLillo –
Eu gostaria, mas acho que não voltarei tão cedo. Estou no meio de um romance que consome todo meu tempo. Adorei participar da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Desde então, minha mulher (a designer Barbara Bennett) vai ao Brasil. Ela participa de um grupo de observadores de pássaros, com o romancista Jonathan Franzen. Devem ir no fim do ano. Não vou porque esse pessoal não tolera intrometidos! Eu provavelmente os atrapalharia com minhas observações e com minha vontade de ficar isolado.

dica do Jarbas Aragão

Umberto Eco: “Informação demais faz mal”

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O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio – ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário

Luis Antonio Giron na revista Epoca

PROFESSOR O pensador e romancista italiano Umberto Eco.  Ele desconfia  da internet (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

PROFESSOR
O pensador e romancista italiano Umberto Eco. Ele desconfia da internet (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

O escritor Umberto Eco vive com a mulher num apartamento duplo nos 2° e 3°andares de um prédio antigo, de frente para o Palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Haruki Murakami instalasse sua casa no sopé do Monte Fuji ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. “Acordo todo dia com a Renascença”, diz Eco. A enorme fortificação diante de suas janelas foi inaugurada pelo duque Francisco Sforza no século XV e está sempre lotada de turistas. O castelo deve também abrir seus portões pela manhã com uma sensação parecida. Diante dele, vive o intelectual e romancista mais famoso da Itália.

Um dos andares da casa de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha é pequena. Abriga aquilo que ele chama de “ala das ciências banidas”, como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo e bruxaria. Ali estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a Igreja Católica e o rabino de Roma. A primeira porque Eco satirizava os jesuítas (“São maçons de saia”, diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini). O segundo porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX – como a fraude que ficou conhecida como Os Protocolos dos Sábios do Sião – poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, com o ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com ÉPOCA durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou – o suspense erudito –, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É difícil de acreditar, mas aquele que era visto como o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições. Ele diz agora que está até gostando de ler livros pelo iPad, que comprou durante sua última turnê pelos Estados Unidos, em dezembro.

ÉPOCA – Como o senhor se sentiu após completar 80 anos?
Umberto Eco –
 Bem mais velho! (risos) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora.

ÉPOCA – O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é que o livro não acabará. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco – 
Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

ÉPOCA – Apesar da evolução, o senhor vê a internet como um perigo para o saber?
Eco – 
A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

(mais…)

É fácil ser autor. Difícil é escrever

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Os jornalistas estão adotando a primeira pessoa na narrativa, mas ainda não acharam seu verdadeiro eu lírico

Luis Antonio Giron, na Época

Como o tempo muda e nada acontece! Antigamente, o iniciante no jornalismo, chamado de “foca”, comparecia humildemente à redação para seu primeiro dia de emprego disposto a aprender com os mais velhos. Ouvia calado até um dia poder falar. Hoje, o “foca” se apresenta ao chefe na redação de uma revista ou um jornal já botando banca: “Foca é a sua mãe”, diz, enchendo o peito. “Eu sou autor!” Mas as coisas continuam iguais. Hoje ele apenas exterioriza aquilo que seu tímido antecessor apenas calava fundo.

No jornalismo atual, é como se o autor precedesse o estilo, ao passo que o inverso parece ainda ser real. Vivemos a epidemia da “autoralidade”, esta palavra monstruosa cuja tradução teria de ser “autoria”, porém é muito simples para fazer bonito. Pensei nesse assunto durante um exaltado debate em torno do tema “como encontrar a voz do repórter” de que participei no último Fórum das Letras de Ouro Preto, na semana passada, em um painel promovido por ÉPOCA e a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). A plateia, formada em sua maioria por estudantes e iniciantes, queria saber como manter a “autoralidade” em tempos de hiperinformação, fragmentação do ego, redes sociais e o diabo digital que nos carregue. O que dizer aos jovens sonhadores sem acordá-los de seu recorrente autoengano? Como construir um estilo e se transformar em autor?

Sempre tive pudor de usar a primeira pessoa do singular, embora a esteja usando agora que está tudo liberado e não tenho nenhuma reputação a perder. Muita gente imagina que basta escrever “eu” para virar autor, repórter, articulista, crítico, ensaísta. Talvez eu tenha passado a pensar assim também, embora sem muita convicção. Talvez eu me veja também como membro do clero do “jornalismo literário” – outra expressão imprecisa que mais exalta certos indivíduos do que diz a verdade. Dessa forma, o clamor do estilo não sai mais apenas da garganta dos escritores, como também dos jornalistas – que nunca foram considerados dignos de receber a alcunha de escritores sabe-se lá por que – e de seus atuais sucedâneos, blogueiros e tuiteiros.

Todo mundo quer ser alguém na vida da escrita – e migrar seus textos da blogosfera ou do papel perecível para a presumível eternidade do livro. A consequência é o perigo da hiperpopulação de egos no mundo da comunicação. Todos escrevem qualquer coisa, mas poucos merecem ser chamados de autores. O problema é que, em um mundo onde o joio virou o trigo, bons e maus autores estão cada vez mais misturados e indistinguíveis.

Como se não bastasse, os meios de comunicação digital incentivaram a aparição do gigantesco coral de bilhões de vozes. O Twitter é o maior transmissor de opiniões e notícias irrelevantes jamais cogitado. O Facebook forneceu identidade e deu eco a muita gente que, felizmente, prefere ficar nos games da rede social. Antigamente evitava-se dar voz ao imbecil. Hoje, imbecis ou não, todos possuem um meio de expressão e de autopromoção. O imbecil é o herói emergente da autoralidade…

Então, para que servem o jornalista propriamente dito, o jornalista pré-literário, diante de tantas mudanças? Ele diferia até pouco tempo atrás do autor porque ele era um apanhador de fatos. transformava-os em notícia, de acordo com os vários subgêneros jornalísticos: entrevista, reportagem, artigo, resenha etc. O tema impunha o gênero a ser adotado. As redações eram as melhores escolas de estilo e escrita criativa. Agora os registros de linguagem e de veracidade se confundem, e é impossível distinguir um ficcionista de um não-ficcionista, um romancista de um repórter. Os cursos universitários de ficção criativa talvez sejam responsáveis pela lambança. Afinal, acadêmicos odeiam jornalista. Para eles, não passam de subliteratos. E agora com a internet, o veículo primordial da transmissão de notícias, a verificação da realidade se tornou impraticável.

É fácil ser autor. Difícil é escrever. As festas literárias o comprovam.

O jornalismo, por isso, talvez seja um profissão fadada à extinção – pelo menos o jornalismo que conhecemos até o final dos anos 1990. Por enquanto, agoniza mas não morre, como o samba segundo Nelson Sargento. Alguns jornalistas poderão sobreviver. Para tanto, precisam se dar conta de pelo menos três fatos. Em primeiro lugar, não há mais diferença entre textos online e offline, entre papel e internet. A versão em papel se tornou uma espécie de produto nobre, que surge no ambiente universal da internet. Em segundo, a influência dos meios de comunicação tradicionais – jornal, revista, televisão – ainda é efetiva, mas está diminuindo, à medida que os fóruns de opinião se organizam em “trend topics” e os anúncios se transferem para a internet. Por fim, bem ou mal, hoje todo mundo comenta notícias instantaneamente, a concorrência só aumenta.

Para vencer em mundo tão turbulento, o jornalista precisa se antecipar aos “trend topics” e, se não consegue o furo, lidar com a notícias de modo a surpreender o leitor para despertá-lo da letargia em que está enredado pelo excesso de mensagens. É se transformar em uma espécie de autor de verdade (não um arremedo) com voz própria que, além de ser original, se faça ouvir. Ele tem que apurar, conferir, editar e ilustrar uma notícia, mas sobretudo precisa se reinventar e reinventar a forma de elaborar a notícia. Deve inovar de acordo com os novos meios – por que não, por exemplo, escrever uma grande reportagem nos 140 caracteres de um tuite? E tem que ser rigoroso e relevante, e ser lembrado no ambiente hiperveloz de informações que logo caem no esquecimento.

O jornalista não pode cair na tentação de virar um autor de ficção. Deve contentar-se em escrever romances de não-ficção, termo forjado por Truman Capote em 1966, com o hoje clásssico A sangue frio. Seu dever é mostrar ao leitor e ao público que o mundo real continua a existir – e que a realidade é mais complexa do que a vida online faz crer.

Crimes do livro digital

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Luis Antonio Giron, na Época

Por que as más edições de e-books prejudicam o leitor e desmoralizam o mercado

Luís Antônio Giron Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV (Foto: ÉPOCA)

Luís Antônio Giron Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV (Foto: ÉPOCA)

Leitores digitais como o Kobo e o Kindle começam a ganhar popularidade no Brasil. Agora o leitor tem acesso aos catálogos nacionais – e um possível revolução nos hábitos de leitura está em curso. Mas nem tudo é positivo nesse processo de transmigração do texto do papel às telas, da tinta para a tinta digital. As edições ruins, suspeitas ou simplesmente vagabundas de e-books começaram a proliferar. O consumidor é a vítima, mas essas edições colaboram em desmoralizar uma das indústrias de cultura mais veneráveis: a do livro. Nem mesmo nos tempos dos incunábulos, do século XIV ao XVII, abriu-se tanto espaço para aventureiros que se fazem passar por editores. Na realidade, não passam de piratas que vendem caro o que já se encontra gratuitamente nos sites de domínio público.

Por isso, o leitor deve tomar cuidado com aquilo que os sites de vendas de e-books andam exibindo. Muitas vezes , as livrarias digitais vendem gato por lebre. Há livros baratos de conteúdo aparentemente incontestável que se revelam decepcionante tão logo o comprador os lê. Aquilo que se anunciava como uma experiência de leitura interessante não passa de um amontoado de arquivos ilegíveis.

Um dos e-books mais vendidos no Brasil exemplifica a indigência do novo mercado digital. Trata-se das Obras de Machado de Assis. Está em quinto lugar em vendas nacionais, na lista publicada por Época, e é o campeão do site da Livraria Cultura, representante do Kobo no Brasil. No site da Cultura, Machado de Assis está até mesmo à frente da trilogia erótica Cinquenta tons de cinza, de E.L. James. O preço ajuda. Por apenas R$ 1,93, o leitor pode possuir tudo o que Machado produziu. Claro que não é nem bem assim, nem assim. O e-book, produzido por uma editora obscura – Samizdad Express, com sede sabe-se lá onde – não informa em que fontes se baseou para reunir indiscriminadamente crônicas, romances e contos, ao todo 26 livros. O volume se encerra com uma peça de Machado, Tu, só tu, puro amor, datada de 1880. Por quê? Ninguém explica.

A edição não apresenta os critérios que deveriam envolver conhecimento no assunto – ou, no mínimo, uma técnica para disfarçar a ignorânica. Há erros gritantes de grafia. O próprio título, quando aparece pela primeira vez, está grafado assim: “Obras de Machao de Assis”. Nem mesmo o novo Acordo Ortográfico é respeitado: tremas, hífens e outras gralhas atrapalham qualquer jovem que queira se iniciar – ou se reiniciar – no português correto. Além disso, o editor anônimo ousa transcrever um trecho curto da biografia de Machado já publicada na Wikipédia – site cujas informações são mais que questionáveis. Pior ainda é que o livro é quase ilegível. O índice não oferece links para os livros e, no instante em que o leitor cai em uma determinada página, torna-se a versão atual de Teseu no meio do labirinto. O e-reader trava. Até agora, no instante em que escrevo esta crônica, não consegui voltar ao início do ebook. Dá saudade de folhear um livro de papel, assinado por especialistas e fáceis de manusear.

Ora, o problema se repete em outras obras em domínio público, tanto nacionais como estrangeiras. A edição das Obras completas de José de Alencar, publicada pela Montecristo Editora, com sede em São Paulo, é ainda pior que a Samizdad. Os organizadores, igualmente anônimos, transformam os romances de José de Alencar em um monturo indistinto de material textual. Em que edição se basearam? Não informam. Não há uma biografia do autor, notas de rodapé nem qualquer outro tipo de informação básica. A sinopse publicada no site da Livraria Cultura sobre as “obras completas de José de Alencar” é a seguinte: “O Haras Personal corre o risco de ter o plantel liquidado, vendido para outras pessoas que não são da família. Três moças precisam provar que são capazes de gerir a herança que são os quarenta e um cavalos.” O preço de toda a obra de Alencar é uma barbada (R$ 9,99), mas o que o leitor recebe é um lixo. Um crime. E assim ao infinito.

Já comprei obras “completas” de grandes autores em inglês e francês, como Marivaux, Henry James e Wilkie Collins, e me arrependi de pagar pouco para receber quase nada. Fui enganado. Evidentemente, poucas pessoas irão reclamar, já que o preço é baixo. E, cá entre nós, quantos leem o que compram? O que vale é a satisfação do colecionador de “possuir” uma obra completa. Alguém que me lê agora já tentou dar conta das obras de Machado e Alencar e tantos outros grandes autores em e-books? Pois é. Poucos. A única saída é opinar nos próprios sites, distribuindo notas baixas e reclamações.

A pressa e a cobiça se tornaram as maiores inimigas do livro digital. Isso para não falar da pirataria propriamente dita, que corre solta.

Minha dica de leitor escaldado é óbvia: vale mais a pena pagar mais caro por edições digitais de editoras reconhecidas – como a Penguin, excelente no campo da erudição – do que se jogar em obras completas maltratadas por oportunistas. No caso dos textos clássicos, a melhor opção está em procurá-los nos sites de domínio público, como OpenLibrary.org, Gutenberg.org e Archive.org. Ali, é possível encontrar boas edições antigas de obras primas universais ou de textos desconhecidos. O único problema é a formatação do texto, que pode vir repleto de irregularidades. E, por favor, não se livre ainda de seus queridos livros em papel. Nada ainda se compara a eles.

A mudança nos hábitos de leitura proporcionada pelos leitores digitais deve ser acompanhada por uma atenção redobrada com o material que lemos. Caso o leitor não vigie o que está sendo publicado digitalmente, correrá o risco de cair em uma nova modalidade de barbárie. Ou, como eu, de travar para sempre no mesmo capítulo.

Professores analfabetos digitais?

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Tablet

Para Aloizio Mercadante, eles são e precisam aprender a usar tablets para acompanhar a nova geração. O ministro está sendo simplista e fascinado pela tecnologia

Luís Antônio Giron, na Época

O ministro da Educação Aloizio Mercadante anda tão encantado pela alta tecnologia, que pode colocar os alunos brasileiros em risco de completa imbecilização.

A tecnologia é obviamente fascinante e tem o poder de hipnotizar as multidões, quanto mais seus autoassumidos líderes. Mercadante, cuja formação não é em Pedagogia e sim em Economia (seria, então, um “ignorante pedagógico”?), parece ser mais uma presa da narcose e a alienação tecnológicas que assolam o Brasil e o mundo. Isso tem sido rotina no campo das artes e dos espetáculos: ninguém escapa de usar os novos aparelhos e de mergulhar nos smartphones, feito o personagem Gollum eletrizado (e destruído) pelo precioso anel que achou por acaso. No entanto, quando se trata da formação de jovens, eleger a tecnologia como a panaceia universal afigura-se como o mais deprimente desastre.

Vou tentar analisar as novas ideias do ministro e assim demonstrar que ele está fadado a cometer o maior equívoco de sua carreira: tomar os professores por ignorantes e jogar os alunos no poço dos leões da tecnologia da informação, confundindo-a com a solução final da educação. Por fim, vou aconselhar o ministro (que pretensão, mas não posso evitar) a adotar uma estratégia menos devastadora para capacitar os professores e seus alunos. Não que isso pareça preocupar o ministro. Ele, pelo jeito, só quer brilhar com um discurso que pensa ser “inovador”.

Comecemos pelo discurso que Mercadante fez na terça-feira em São Paulo. Ele afirmou que os professores brasileiros não passam de “analfabetos digitais”. Ele argumenta que os professores precisam aprender o abecedário da informática para acompanhar a nova geração – esta, sim. formada em tecnologia da informação e, por conseguinte, mais apta a conhecer e interpretar o mundo contemporâneo. Baseado nessa “verdade”, anunciou que, para começar o processo, seu ministério irá distribuir dezenas de milhares de tablets aos professores da rede pública de todo o Brasil para solucionar o “déficit digital” das hordas autóctones de educadores que infelizmente povoam o Brasil com sua falta de conhecimento.

Ou bem Mercadante está sendo um inocente útil, ou tem coisa aí. Ele proferiu seu discurso ao lado do professor americano Salman Khan, fundador da Khan Academy, que oferece pelo site YouTube aulas em cinco idiomas, inclusive em português e estava no evento para divulgar sua instituição. É o que Khan denomina “a maior sala de aula do mundo”. No seu livro recém-lançado no Brasil, Um mundo, uma escola – a educação reinventada (Intrínseca, 256 páginas, R$ 24,90, e-book: 19,90), Khan faz uma afirmação sedutora. Diz que não vê motivo econômico “para que estudantes do mundo inteiro não tenham acesso às mesmas lições que os filhos de Bill Gates”. Diz além: “Quando se trata de educação, nãos e deve temer a tecnologia, mas acolhê-la. Usadas com sabedoria e sensibilidade, aulas com auxílio de computadores podem realmente dar oportunidade aos professores de ensinarem mais e permitir que a sala de aula se torne uma oficina de ajuda mútua, em vez de escuta passiva”.

São ideias razoáveis, mas soam superficiais, boas demais para ser verdade. A impressão é de que Khan atua como um daqueles vendedores de xarope do Velho Sul (ele é da Louisiana), prometendo milagres aos indígenas e aos broncos dos vilarejos. E que usa Mercadante para vender seu sistema de ensino, como qualquer outro representante comercial de editora didática ou de cursinho. Se ele conseguir um contrato do governo, vai ficar mais rico que o ilustrador e escritor Ziraldo (cujos cartuns infantojuvenis são adotados do Oiapoque ao Chuí como de fossem obras didática), distribuindo seu produto miraculoso para centenas de milhões de escolas. Mas pode ser impressão.

Nosso ministro da Educação está embarcando no conto de Khan. Tomara que ele esteja certo e aconteça uma revolução educacional – e cultural – no Brasil. Não acredito em milagres. Os grandes projetos estruturais de educação nas nações mais desenvolvidas – como Estados Unidos, Inglaterra, Suécia e França – se constroem a partir de bases sólidas de pesquisa e desenvolvimento das várias disciplinas. Contam com o apoio governamental para formar educadores e dar oportunidade aos alunos. Reúnem corpos docentes e dicentes em ambientes de interação e toca de ideias e pesquisas.

Não há, portanto, segredo para um projeto de educação eficiente: trata-se de consolidar o conhecimento com todos os meios disponíveis, inclusive os digitais. É nisso que Mercadante poderia pensar. Mas ele parece ter pressa em distribuir tablets para os que ele chama de “analfabetos”. Dessa forma, mesmo sem querer e com a melhor das intenções, poderá transformar transformar a rede pública de ensino em um gigantesco centro de diversões eletrônicas, em uma mega-lan-house. Tenho experiência nos efeitos que o uso dos gadgets digitais – como smartphones, laptops e tablets – provocam nos jovens: em vez de virar ferramentas de aprendizado, tornam-se veículos de fuga, distração e diversão. Em vez de estudo, videogames e redes sociais. Basta experimentar ler um livro em um tablet: a tentação é de fazer tudo menos ler. Os aparelhos digitais de ponta, até hoje, só arrancaram os estudantes de suas tarefas. Não conheço solução para isso até este momento. E agora os professores vão se converter em consumidores de aplicativos. Vão se viciar em joguinhos eletrônicos, em pesquisar qualquer coisa no Google e em atualizar seus status no Facebook – alguns já fazem isso há algum tempo. Um dia teremos saudades dos tempos em que eram “analfabetos digitais”, mas alfabetizados no conhecimento.

Espero que Mercadante desperte de seu estado de torpor informacional. Tenho vontade de sussurrar ao seu ouvido: “Ministro, acorde!” De uma vez por todas, não são os tablets, os celulares e outras traquitanas digitais que vão alfabetizar e transformar alguém. A solução será promover uma revolução nos currículos, na formação e nos sistemas e no modo como encaramos o conhecimento. Antes de combater o tal “analfabetismo digital”, é preciso erradicar o escandaloso analfabetismo funcional de muitos brasileiros. O resto é enganação. Meus queridos mestres, continuem assim, analógicos e offline. É melhor ser ignorante digital que geek idiota.

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