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Livro analisa a história e arquitetura de 300 teatros do Rio de Janeiro

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O Teatro Municipal, construído entre 1904 e 1909, mereceu atenção especial por suas singularidades

Imagem do Teatro Municipal extraída do livro 'Teatros do Rio', de José Dias. Terceiro / Divulgação

Imagem do Teatro Municipal extraída do livro ‘Teatros do Rio’, de José Dias. Terceiro / Divulgação

Luiz Felipe Reis, em O Globo

RIO – “O primeiro teatro do Rio pegou fogo, e dizem que foi o cara que construiu o segundo, o Manuel Luiz, quem provocou o incêndio. Mas o dele também acabou sendo destruído por um incêndio. Nossos teatros, aliás, sempre pegaram fogo, rapaz”, conta o cenógrafo e diretor de arte José Dias, enquanto folheia algumas das 744 páginas do livro “Teatros do Rio — Do século XVIII ao século XX” (Funarte).

Dias refere-se à Casa de Ópera do Padre Ventura, construída em 1767, num endereço “estratégico” da cidade: entre a Rua da Vala e a Rua do Fogo, nomeada assim por atravessar a Chácara do Fogo, uma fábrica de fogos de artifícios. A relação entre a cidade e seus teatros — muitos já consumidos pelo tempo, e não só por conta de incêndios — é lembrada no livro, que dá vida nova ao que o passado transformou em cinzas.

— Eram teatros de madeira, com muitos tecidos, iluminados por lamparinas, pegavam fogo facilmente — afirma Dias.

A Casa de Ópera do Padre Ventura foi desativada em 1769. Mas nem todos os teatros que arderam em labaredas sumiram do mapa. É o caso do São João, inaugurado em 1813, logo após a chegada da corte portuguesa ao país.

— Ele foi construído na Avenida Passos, para servir aos anseios culturais da corte. Logo depois (1816) recebemos a missão artística francesa, que tinha o objetivo de transformar a cidade. O São João pegou fogo três vezes! Mas continua aí até hoje. É o Teatro João Caetano.

Enquanto desfia histórias, Dias caminha pelos corredores do Teatro Municipal e comenta a reforma que supervisionou há menos de dois anos na casa, detalhando características da caixa cênica, do urdimento, das coxias, dos camarins, das medidas e dos materiais.

— Esse teatro está sobre mil toras de madeira, porque tudo aqui embaixo é pântano, é um charco, na reforma a gente pôde ver — conta Dias.

A publicação passeia por 300 endereços, da cidade e do estado do Rio, dissecados em termos históricos e arquitetônicos. Mas o Municipal, construído entre 1904 e 1909, mereceu atenção especial: “Ele possui o que os outros não possuem, guarda a proporção de luxo e graça entre a parte externa e a parte interna (…). Muitos edifícios teatrais marcam a que se destinam. Do Theatro Municipal, se tem a visão de um templo, a imediata certeza do fim a que se destina”, diz o livro.

Foi justamente a forma, ou a volumetria, como prefere o autor, que o levou a iniciar a pesquisa. Foram cinco anos de trabalho, resultando na tese de doutorado que Dias defendeu em 1999, na Escola de Comunicação e Artes da USP. O texto serviu de base para o livro, que traz uma linguagem mais coloquial.
Entre as salas que desapareceram, ele cita a importância do Teatro República (onde hoje está a TV Brasil, na Rua Gomes Freire), que recebeu a estreia do musical “Hair” (1969) e peças dirigidas por Gianni Ratto (1916-2005). Lembra também o Teatro Apollo (na esquina das ruas do Lavradio e do Senado), que foi transformado em colégio. E os luxuosos cinematógrafos Rio Branco, convertido em centro comercial, e Odeon, construído em 1909 e que segue funcionando como cinema, na Cinelândia.

— Precisamos de mais teatros que sejam referência arquitetônica — diz o professor da UFRJ e da UniRio. — Após a chegada dos portugueses, em 1808, e com a missão francesa, começaram a ser construídos teatros com volumetria, que além de servirem a espetáculos se tornaram pontos de encontro, como nós fizemos hoje: “Te encontro no Municipal às 16h, o.k.?” O.k.

Cenógrafo dos mais importantes e premiados da história do teatro brasileiro, com 40 anos de carreira e ambientações cênicas criadas para mais de 370 espetáculos no Brasil e no exterior, Dias inquietou-se com os muitos teatros que foram colocados abaixo ou desativados nos últimos séculos. E também com o fato de que vários deles foram se transformando em espaços adaptados, ocupando salas comerciais, galerias e auditórios. Aos poucos, perderam dimensões e charme arquitetônico, além de condições técnicas necessárias para comportar suas concepções cenográficas.

No livro, Dias não reflete sobre o ofício de cenógrafo, mas sobre os espaços que abrigam o seu trabalho. Versa sobre os teatros e suas caixas cênicas, sobre suas possibilidades e limitações. No capítulo inicial, trata das primeiras salas de ópera do período colonial. Depois, passa pelos teatros construídos num Rio tornado capital do país. A seguir, avança pelos teatros do interior do estado. Até chegar ao século XX, quando há o surgimento dos cineteatros, a migração das casas de espetáculo do Centro para a Zona Sul, a abertura dos teatros de shopping, o surgimento dos centros culturais.

— Nós, artistas e técnicos, acabamos nos sujeitando a aceitar espaços inadequados, sacrificando nossa arte — diz o autor. — Com o Golpe de 1964, por exemplo, as comédias passaram a ocupar os principais teatros da cidade, e sem dinheiro e espaço, muitos artistas e grupos tiveram de se adaptar a verdadeiros buracos transformados em teatro. Eu, como cenógrafo, tenho que me sacrificar para adequar os cenários a esses espaços. Você planeja uma coisa e, quando a peça vai para outro teatro, o cenário é mutilado por um lugar que foi projetado por quem não tinha noção das necessidades. Foi por isso que a pesquisa sobre a arquitetura cênica entrou na minha vida.

E tão cedo não vai sair.

— Este livro só vai até 1999. Desde então, não parei de pesquisar — conta ele. — Todo teatro a que eu vou, peço a planta. Mas agora o projeto é maior, é escrever sobre os teatros de todo o Brasil.

Até hoje Dias carrega a frustração de não ter visto concretizado o plano de transformar a Av. Chile numa Broadway carioca, mas vê com bons olhos a inauguração recente de vários novos teatros na cidade.

— A reforma do Casa Grande, a inauguração da Cidade das Artes e do Teatro Bradesco…. Espero que surjam muitos outros.

Professor da UFMS defende fim de cursos “formadores de bichonas”

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Publicação feita pelo professor da UFMS no Facebook

Publicação feita pelo professor da UFMS no Facebook

Luiz Felipe Fernandes, no UOL

Um professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) causou polêmica ao publicar, em seu perfil do Facebook, uma mensagem em que chama os homossexuais de “viados” e defende o fechamento de “cursos de gente colorida” e “formadores de bichonas”.

O texto, publicado na última sexta-feira (24), já foi retirado da página. Nele, Kleber Kruger, 24, professor substituto do curso de ciência da computação e sistemas de informação, critica pichações feitas em paredes da universidade, que fica em Campo Grande.

“Hoje cheguei na Federal e encontrei algumas paredes dos cursos de computação e engenharia pichadas com frases como: ‘O amor homo é lindo’, ‘Homosexualismo é lindo!’, ‘Fora machismo’… aaah, se fu***, seus viados fila da p***!!!”, diz o texto publicado pelo professor.

Na mensagem, Kleber diz que “tá na moda defender homossexualismo” e que a onda de raiva aos homossexuais é provocada por eles mesmos. Em um comentário na própria postagem, o professor considera que a pichação das paredes da universidade foi uma “provocação”. “Depois eles tomam uma surra, morre um viado lá no Campus, sai no jornal e pronto!”, finaliza.

O jornalista Guilherme Cavalcante, 27, que é aluno de mestrado na UFMS, afirma que ficou surpreso ao ler o texto e considera que a mensagem publicada por Kleber revela despreparo do professor. “Espero que ele reflita sobre o que falou, que entenda que o mundo é diverso e que o professor também tem uma função social”.

Demissão

Na internet, uma petição virtual recolhe assinaturas para pressionar a UFMS a demitir o professor, que tem um contrato temporário com a instituição. O documento, direcionado à reitora Célia Maria Silva Correa Oliveira, alega que “nenhum estudante gay deve continuar a ser submetido ao constrangimento de ter aulas e de ser avaliado por pessoa homofóbica”.

A petição pede o afastamento do profissional e substituição “por um professor mentalmente equilibrado”. O documento virtual foi criado no domingo (26) e já foi assinado por 318 pessoas.

A assessoria de comunicação da UFMS informou que o conteúdo da mensagem publicada pelo professor será analisado pela administração superior, que vai decidir se abre um procedimento administrativo ou encaminha o caso para a comissão de ética da universidade.

As penalidades vão desde uma advertência até o rompimento do contrato e afastamento do professor. Não há prazo definido para a conclusão dessa análise.

Arrependimento

Ao UOL, o professor disse que está arrependido e que lamenta o que considera ter sido um “mal entendido”. “Foi um momento em que não pensei para falar. Estou envergonhado e muito arrependido”.

Kleber explicou que a mensagem foi um desabafo pessoal contra as pessoas que picharam as paredes da universidade e comparou os xingamentos às reações de torcedores que agridem verbalmente os adversários. “É como se eu, que sou são paulino, xingasse um corintiano depois de perder um jogo”.

Kleber também fez questão de deixar claro que não fez o comentário como professor da UFMS e garantiu não ter preconceito contra homossexuais. “Sei de pessoas que sofrem muito com isso, que têm pais que não aceitam”.

Surpreso com a repercussão causada pelo texto, o professor disse que, se tivesse oportunidade, pediria desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas.

Dica do Chicco Sal

Livro infantil se inspira em Baudelaire; leia crítica de Luiz Felipe Pondé

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Ilustração de ‘Charles na Escola de Dragões’

Luiz Felipe Pondé, na Folhinha

A literatura infantil sempre trabalhou a figura do patinho feio como o “diferente” que sofre na escola. Apesar de com frequência se falar das crianças como anjos, a verdade não é bem essa: a vida infantil, e a escola como seu palco central, é um drama intenso de insegurança, dor, alegria e medo, que exige da criança muita coragem e a sorte de encontrar amigos.

Charles na Escola de Dragões” não foge à regra de ser um livro sobre um patinho feio obrigado a descobrir “sua diferença” para sobreviver. Mas, ao contrário de um bicho bonitinho, o livro fala de dragões e, com isso, defende a diferença de forma clara: dragões também podem ser fofinhos e sofrer como patinhos.

Charles, o pequeno dragão, tem asas muito grandes e pés enormes e, por isso, quase desiste de ser um dragão “normal”.

Além do mais, é poeta e sofre com isso. O livro é inspirado em “Albatroz”, poema do francês Charles Baudelaire, considerado rebelde por chocar a sociedade do seu tempo (século 19) com textos que traziam sua melancolia e descrença no mundo moderno; vale lembrar que “Albatroz” faz parte da sua obra máxima, “Flores do Mal”… O nome já diz tudo…

Mas, diferentemente da ave de Baudelaire, que acaba por sobre o chão, imersa num mundo onde a poesia não vale nada, Charles terá final feliz. Baudelaire para crianças, claro, não pode ser Baudelaire até o fim.

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