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Posts tagged Luiz Ruffato

A educação como privilégio de classe

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Alunos realizam simulados para o Enem em uma escola pública da Bahia. Suami Dias GOVBA

Alunos realizam simulados para o Enem em uma escola pública da Bahia. Suami Dias GOVBA

 

O que o governo Temer pretende com a PEC 241 é dificultar ainda mais o acesso ao ensino superior

Luiz Ruffato, no El País

Em 2007, o escritor Raduan Nassar – autor da obra-prima Lavoura Arcaica – tentou doar sua fazenda Lagoa do Sino, situada em Buri, interior de São Paulo, para a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), com uma única condição: a de que as terras, transformadas em campus universitário, fossem utilizadas para propiciar acesso a jovens sem poder aquisitivo, incluindo filhos de trabalhadores rurais, negros e indígenas. A doação incluía mais de 3.500 m² de área construída, três pivôs centrais de irrigação, quatro silos armazenadores, dois secadores de grãos, sistema de secagem a gás, maquinaria (colheitadeira, tratores, pulverizadores), e muitos outros implementos. O estado São Paulo, à época governado por José Serra, rejeitou a oferta.

Três anos depois, Raduan Nassar conseguiu efetivar a doação para o governo federal, então sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva – hoje a fazenda pertence à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e vem cumprindo seu objetivo de democratização do ingresso no ensino superior. No entanto, o campus corre agora o risco de ser privatizado ou fechado por conta do estrangulamento de recursos, caso seja aprovada, em definitivo, a PEC 241, em discussão no Senado após tramitar pela Câmara dos Deputados. Se isso ocorrer, o escritor deixou claro que abrirá litígio contra a União por ver frontalmente contrariado o objetivo da doação.

A rara atitude de Raduan Nassar, de desprendimento pessoal e visão de coletividade, se notabiliza ainda mais quando nos sabemos mergulhados em uma sociedade doentiamente egoísta e individualista, que enxerga no próximo alguém a ser explorado ou confrontado, nunca aquele com quem possamos partilhar algo. Mas, infelizmente, a ação contrária, que se desenha em um horizonte próximo, de manter a educação não como direito, mas como privilégio de classe, não é novidade para os que agora estão no poder. O presidente não eleito, Michel Temer, apenas sistematiza o pensamento corrente da elite paulista (não por coincidência também elite tucana), que, acima de partidos, defende interesses ideológicos.

O sistema de cotas em universidades estaduais para alunos provenientes de escolas públicas existe no estado do Rio de Janeiro desde 2000 – no ano seguinte, estabeleceu-se também o critério de cotas raciais para negros ou pardos, adotadas por outros estados ao longo da primeira década do século XXI, incluindo cotas para indígenas. A partir de 2003, as universidades federais também instituíram pouco a pouco os sistemas de cotas, atualmente vigentes em todas elas, além de abolir o vestibular na maioria das instituições, substituído pelo resultado da prova do Enem, submetidas as vagas ao Sistema de Seleção Unificada (SISU). Mas não o estado de São Paulo, comandado pelos tucanos desde 1995, há 21 anos, portanto.

São Paulo possui três sistemas públicos de ensino superior – e apenas a Unesp, com campus espalhados por 24 cidades e oferta de cerca de 7 mil vagas, possui cotas para alunos provenientes de escolas públicas (45% do total), sendo que, destas, 35% são reservadas para negros, pardos ou indígenas, processo iniciado em 2014. As outras duas universidades, USP e Unicamp, permanecem alheias aos sistemas de cotas. Somente a partir do ano passado, a USP passou a disponibilizar parte de suas 11 mil vagas ao ingresso por meio do SISU. Para o próximo ano, serão 2,3 mil vagas, sendo 1,1 mil vagas para alunos vindos de escolas públicas e 586 para autodeclarados negros, pardos ou indígenas.

No entanto, quando observamos de perto esses números – já bastante modestos, 21% do total – nos deparamos com a mentalidade classista do processo: das 2,3 vagas a serem preenchidas pelo resultado da prova do Enem, mais da metade (1,2 mil) são destinadas às Humanidades – só a área de Letras absorve 252 candidatos. E as vagas para quem se autodeclarar negro, pardo ou indígena concentram-se em cursos como Pedagogia, Letras, Ciências Sociais, Filosofia, História, Geografia e licenciaturas em Ciências da Natureza e Matemática (322 vagas, 55% do total). Ou seja, aquelas carreiras pelas quais nossa elite, de forma equivocada, possui verdadeiro desprezo, pois destinam-se à formação de professores.

Outros cursos, considerados mais “nobres”, mantêm-se redutos exclusivos. Por exemplo, as várias engenharias oferecem um total de 1892 vagas, das quais 175 pelo SISU (9%) e 5 (sim, cinco!) para quem se autodeclarar negro, pardo ou indígena – enquanto nos cursos de Medicina, de um total de 275 vagas, apenas 10 são oferecidas pelo SISU e nenhuma para negros, pardos ou indígenas. Já a Unicamp, que possui outras 3,3 mil vagas, não participa diretamente do SISU e nem possui sistema de cotas – oferece bônus para alunos oriundos de escolas públicas e para quem se autodeclara negro, pardo ou indígena.

As universidades públicas brasileiras sempre foram espaço reservado para formação da nossa elite econômica, que também o é intelectual e politicamente. O panorama mudou um pouco com os sistemas de inclusão social – cotas para alunos oriundos de escolas públicas (em geral pobres) e para negros, pardos e indígenas. Mudou um pouco, repito, porque a grande massa de jovens pobres – seja de que etnia for – ainda tem que pagar para estudar em escolas privadas, em geral de péssima qualidade. Mas o que o governo Temer pretende com a PEC 241 é dificultar ainda mais o acesso ao ensino superior, realizando o desejo da nossa sociedade, que, como afirmou o ex-secretário da Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, defende a manutenção da pobreza para que continuem existindo cozinheiras, faxineiras, lavadeiras – ou, em outras palavras, para que subsista um exército de mão de obra disponível para o usufruto da casa grande.

Do Brasil para o mundo : não enfiar ‘brasilidades’ nas narrativas não significa negar nossa identidade

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Raphael Montes, em O Globo

Alguns dias atrás, enquanto me distraía em uma rede social, encontrei uma interessante matéria jornalística sobre a literatura brasileira produzida pela nova geração de escritores. Endossada por trechos destacados de escritores prestigiados como Carola Saavedra e Luiz Ruffato e por críticos como Manuel da Costa Pinto e Beatriz Resende, a reportagem defendia que as histórias em ambientes rurais e tropicais, com cenários tipicamente brasileiros, foram substituídas na literatura contemporânea por histórias em que a voz subjetiva do escritor ganha maior evidência (vide tantos textos em primeira pessoa e a moda da “autoficção”), situadas num ambiente mais urbano e universal.

Para minha surpresa, o link da matéria estava postado em uma comunidade de leitores e, nos comentários, a larga maioria criticava essa ausência de identidade nacional nas narrativas — as acusações iam de “por isso que não leio autor brasileiro” a “é ridículo que esses autores atuais fiquem tentando copiar os norte-americanos”. Ainda que eu não fizesse parte da discussão, me pus a pensar no assunto.

Pessoalmente, ao escrever, nunca tive preocupação em acrescentar este ou aquele detalhe ao livro para soar mais brasileiro — ou, falando como gringo, soar mais exótico. Acredito que, na medida em que um escritor é brasileiro, antenado a sua cultura, a seus costumes e às particularidades do país, os elementos típicos vão entrando naturalmente, sem que haja a necessidade de se preocupar com isso. Vale dizer: um livro tem nuances brasileiras simplesmente ao ser escrito por um brasileiro — e basta!

É importante dizer que a opção de não enfiar “brasilidades” goela abaixo das narrativas não significa negar nossa identidade, mas sim tratá-la como algo natural, que nasce sem grande esforço. Por muito tempo, a própria expectativa do mercado internacional em relação às narrativas produzidas no Brasil (seja na literatura ou no audiovisual) passava necessariamente por elementos como favela, miséria no Nordeste, corrupção, carnaval, caipirinha e futebol.

A mim, tudo isso sempre pareceu meio absurdo — para não dizer ridículo. Afinal, muito além da nacionalidade, somos todos humanos — e o maior mérito da boa literatura é retratar a alma humana na sua complexidade, independentemente da localização geográfica das personagens. É também isso que permite a crescente profissionalização do escritor brasileiro — outro ponto abordado pela reportagem e criticado nos comentários na rede social.

Nos últimos anos, cresceu o número de pessoas no país que se dedicam apenas a escrever. Nesta seara, um aspecto fundamental que a matéria deixa de abordar é o crescimento da literatura de gênero no Brasil. Qualquer país com uma literatura efetivamente sólida tem uma grande variedade de obras de gênero. Nos Estados Unidos, por exemplo, a seção de livros policiais é subdividida em outras tantas como: crime de espionagem, whodunit, thriller médico, crimes reais, suspense romântico, suspense psicológico, suspense histórico. E, claro, cada um desses subgêneros é explorado por centenas de autores, o que cria um ambiente competitivo, variado e profissional, com um público-leitor fiel e muitas feiras e prêmios voltados ao segmento.

Enquanto isso, a literatura brasileira de gênero — romance, terror, policial, fantasia — sempre enfrentou percalços. Para começo de conversa, encontrava barreiras nos acadêmicos e nos críticos — como esperado de um país subdesenvolvido, só se podia escrever literatura de vanguarda, com elucubrações linguísticas; a literatura de gênero era algo menor. Com isso, as editoras não buscavam esse tipo de livro nos autores nacionais e muitos escritores com vontade de contar boas histórias de gênero se “moldavam” ao sistema para conseguir publicar. No fim das contas, quem saía perdendo era o público, com as livrarias invadidas por best-sellers norte-americanos ou europeus, mas sem chance de ler essas histórias escritas por brasileiros.

Felizmente, nos últimos anos, o cenário mudou. A literatura fantástica teve seu estouro com autores como Eduardo Spohr, Raphael Draccon e Carolina Munhóz, o juvenil se viu representado por fenômenos como Thalita Rebouças e Paula Pimenta e o mesmo vem acontecendo com autores de erótico, de terror e de policial. Com isso, as editoras brasileiras têm buscado autores nacionais de gênero para integrar seus catálogos e todo um novo mercado se sedimenta nesse sentido. Por chegar ao grande público, o autor brasileiro de literatura de gênero é um dos que mais consegue viver “apenas dos livros” hoje em dia e, sem dúvida, contribui fortemente para a internacionalização da nossa literatura. Apesar disso, não havia sequer um autor de literatura de gênero entrevistado ou citado na referida matéria. Prova cabal de que o caminho pela frente ainda é longo…

Retratos da nossa ignorância

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Volumes da Campanha de Doações de Livros para Casas de Leitura e Tubotecas de Curitiba. Cido Marques FCC

Volumes da Campanha de Doações de Livros para Casas de Leitura e Tubotecas de Curitiba. Cido Marques FCC

 

No Brasil, educação de qualidade nunca foi direito da população, sempre foi privilégio da elite mandatária

Luiz Ruffato, no El País

O Brasil conta com cerca de 50 milhões de analfabetos ou analfabetos funcionais. Isso significa que um em cada três brasileiros adultos não sabe ler ou, quando consegue, não é capaz de compreender o conteúdo de um texto simples. Mesmo entre aqueles considerados alfabetizados impera a ignorância. Pesquisa recente, intitulada Retratos da Leitura no Brasil, apontou que, na média, lemos 4,9 livros por ano (um número pequeno e ainda assim enganoso, já que, deste total, apenas 2,4 livros são terminados; o restante é lido apenas em parte). Além disso, apenas 7% da população lê jornais diariamente, já levando em consideração o acesso à informação digital.

A falta de tempo aparece como o principal argumento dos entrevistados para não ler (32%). No entanto, uma outra pesquisa, da NOP World Culture Score Index, mostra que os brasileiros dedicam cinco horas e 12 minutos semanais à leitura contra 18 horas e 15 minutos à televisão, 17 horas ao rádio e 10 horas e 30 minutos à internet (no caso, com navegação sem fins profissionais). Antes dos livros, os brasileiros preferem reunir-se com amigos ou família (45%), assistir vídeos ou filmes em casa (44%), usar WhatsApp (43%), escrever (40%) e usar Facebook, Twitter ou Instagram (35%).

Mas o mais estarrecedor é que, se a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil constata, de um lado, a falência completa do nosso sistema educacional, de outro revela o crescimento atordoante do fundamentalismo religioso. A maioria absoluta das justificativas dos entrevistados para não ler estão relacionadas à baixa escolaridade — não gosta (28%), não tem paciência (13%), tem dificuldade (9%) e não sabe ler (20%). Esse quadro desolador ainda é agravado ao acrescentarmos dados de leitura específicos dos professores. Quando indagados sobre o título do último livro lido, metade deles simplesmente respondeu “nenhum” e 22% citaram a Bíblia.

A Bíblia aparece muito à frente entre as preferências dos entrevistados, em todas as classes sociais, faixas etárias e de escolaridade. Na lista dos mais citados surgem alguns poucos escritores — geralmente leitura obrigatória na escola, como Machado de Assis e Graciliano Ramos —, e autores de autoajuda (como Augusto Cury) e de entretenimento (como Paulo Coelho e John Green), mas a supremacia absoluta é de nomes ligados à divulgação religiosa. Os mais lembrados são João Ferreira de Almeida (tradutor da Bíblia utilizada pelos evangélicos), Zíbia Gasparetto, Allan Kardec e Chico Xavier (espíritas), padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo (católicos ligados à corrente carismática), Edir Macedo e sua filha Cristiane Cardoso (Igreja Universal) e Ellen G. White (Igreja Adventista).

Onde o Estado falha, viceja a ignorância. Nenhum de nossos governantes — chamem-se eles José Sarney, Fernando Henrique Cardoso ou Luiz Inácio Lula da Silva — empenhou-se, de verdade, na melhoria do nosso sistema educacional. No Brasil, educação de qualidade nunca foi direito da população, sempre foi privilégio da elite mandatária. O resultado é esse: cada vez mais exacerbamos nosso egoísmo (traduzido em nossa incapacidade de agirmos no interesse da comunidade), nossos preconceitos (visíveis no machismo, no racismo, na homofobia, na xenofobia), nossa intolerância (perceptível na violência urbana, na passionalidade com que defendemos opiniões).

Pouco a pouco, o Brasil vai se tornando território do pensamento radical. Não só pelo grau nunca antes alcançado de representatividade religiosa no Congresso e, mais particularmente, no Governo do presidente interino Michel Temer (sejam evangélicos, protestantes ou católicos), como também pelas posições assumidas por intelectuais e formadores de opinião, autodenominem-se eles de esquerda ou de direita, que vêm fomentando o ódio e o fanatismo. É preocupante quando descobrimos que 74% da população adulta não adquiriu livros nos últimos três meses e 30% nunca comprou um livro em toda a sua vida. E é assustador quando contatamos que, aqueles poucos que leem, colocam um livro como “A verdade sufocada”, do coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015, entre os mais vendidos do país… Há algo muito estranho acontecendo por aqui…

Luiz Ruffato: ‘Literatura é compromisso’

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Créditos da foto: Divulgação

Créditos da foto: Divulgação

‘Fui operário e fruto de uma família operária. Decidi escrever sobre isso. Representar esse universo na literatura é uma decisão política.’

Daniel Mandur Thomaz, na Carta Maior

Foi numa tarde de quarta-feira, 18 de março, que o escritor brasileiro Luiz Ruffato entrou no auditório da Universidade de Leiden, a mais antiga e tradicional da Holanda, para falar aos alunos do curso de Estudos Latino-Americanos. Quando saiu, deixou atrás de si uma platéia boquiaberta pela força de sua simplicidade. Escritor premiado e aclamado pela crítica, Luiz Ruffato é uma espécie em extinção na fauna literária brasileira: um autor que se posiciona como intelectual público, que não se esconde por detrás de preciosismos estéticos e fala sobre o Brasil, e seus complexos problemas, sem medo de se comprometer, sem beija-mãos ou rapapés.

Crítico contundente da realidade brasileira, Ruffato causou furor na feira do livro de Frankfurt, em 2013, quando o Brasil foi homenageado. Em seu discurso em Frankfurt, frente a editores, público e representantes políticos de diversos países – inclusive do Brasil – teceu uma série de considerações sobre o drama social brasileiro, o que causou constrangimento àqueles que esperavam do autor um discurso enaltecedor ou escapista. Ruffato tem uma bela capacidade de sintetizar, nas entrelinhas de sua fala mineira, uma visão aguda sobre o Brasil. “Literatura é compromisso”, a frase que abriu seu discurso em Frankfurt é uma espécie de “refrão” que continua definindo sua posição intelectual. Sua fala na Holanda, em março de 2015, comprova isso.

Com uma trajetória impressionante, Luiz Ruffato, filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira semi-analfabeta, trabalhou ele mesmo como pipoqueiro e torneiro mecânico em Cataguases – MG, até formar-se em jornalismo e pavimentar com as próprias mãos seu caminho literário de escritor premiado. Seus personagens refletem justamente essa trajetória. Dedicou-se sistematicamente a escrever sobre o universo das pessoas pobres e de classe-média baixa, esforço que se materializou na série Inferno Provisório, composta por cinco romances que traçam uma espécie de saga dos trabalhadores brasileiros ao longo do século XX. Seu livro mais conhecido, Eram eles muitos cavalos (prêmio APCA de melhor romance em 2001), é construído como uma colcha de retalhos, mostrando uma São Paulo habitada por homens e mulheres simples, prosaicos, “desimportantes”, silenciados pelas narrativas tradicionais. Essa perspectiva de “baixo para cima” dá ao trabalho de Ruffato uma dimensão política importante, porque representa literariamente os que estiveram historicamente à sombra, num país ainda marcado por desigualdades profundas.

Acompanhe abaixo a entrevista que Luiz Ruffato concedeu a Daniel Mandur Thomaz:

Ruffato, como política e estética dialogam no seu trabalho?

Toda a minha escrita se constituiu como parte de uma decisão política. Na literatura de ambientação urbana no Brasil, não há representações da classe-media baixa, do trabalhador. E isso não é só na literatura não. Veja bem, no Brasil há inúmeras ruas com nomes de corruptos notórios, nunca vi uma rua chamada operário fulano de tal. Fui operário e fruto de uma família operária. Decidi escrever sobre isso. Representar esse universo na literatura é uma decisão política. Claro, essa foi uma decisão estética também… eu não acredito que estética e politica sejam coisas que estejam separadas. Então, quando tomei essa decisão, de escrever sobre o universo do trabalhador, queria desarmar a imagem profundamente caricata que o trabalhador pobre e de classe-média baixa tem na literatura brasileira. Além disso, tinha um problema também de linguagem. Veja bem, não é porque você vai descrever pessoas pobres que a linguagem e a psicologia têm que ser pobre. Eu me voltei muito contra esse preconceito.

Como você lidou com a repercussão de seu discurso na feira de Frankfurt, em 2013?

Engraçado. Até hoje não entendi porque minha fala foi considerada polêmica. O que falei lá é notório. Qualquer um que fizer uma busca básica na internet vai ver o que estou dizendo. Falei que nós matamos sistematicamente nossos índios. Que a desigualdade social é brutal. Que a violência contra o negro e a mulher é diária e profunda (o Brasil é um dos países que mais mata mulheres no mundo). Que a educação e a leitura no Brasil são artigos de luxo. Que somos machistas, racistas e violentos. Onde está a novidade nisso? Aí me disseram que ali não era o lugar adequado pra eu dizer isso. Então me pergunto, se uma feira de literatura não é o lugar adequado pra se discutir ideias, onde é? Numa feira agropecuária? (risos) E eu que imaginava que o papel dos intelectuais era pensar o mundo…

Ainda sobre isso, como você vê o papel político do artista e do intelectual no Brasil hoje? Quero dizer, existe isso no Brasil, o intelectual público, alguém engajado em discutir de forma ampla os problemas do país?

Esse é um ponto bastante problemático. Primeiro porque, por força da tradição autoritária – somos uma população que foi sempre tratada no chicote, oprimida – o Brasil tem uma história marcada por ditaduras. Além disso, grande parte da chamada intelectualidade brasileira é produto das classes altas e têm compromissos com essas classes. E também, por conta de outros fatores, nós acabamos abrindo mão desse papel, de intervenção no debate sobre a coisa pública. Então, não é muito comum esse tipo de exposição. As pessoas pensam ah… escritor tem que escrever, esse negócio de escritor falando de política é um desastre. Não dá! (risos). Mas numa sociedade como a nossa, se você tem um espaço pra falar, se você tem voz e se omite… sei lá, acho no mínimo uma covardia. Claro, não exijo nem espero isso dos meus colegas, não acho que eles sejam todos obrigados. Mas é uma pena. Olha só, a grande maioria dos escritores brasileiros usa redes sociais pra se promover, pra promover seus livros, ou pior, pra fazer fofoca e espalhar maledicências. Dificilmente vêm a publico pra se posicionar criticamente em relação a qualquer coisa que seja. E por quê? Fica todo mundo preservando seu pequeno quintal. Inclusive, se posicionar não é bem visto… quer ver? Depois do meu discurso em Frankfurt, teve escritor brasileiro dizendo em rede social: É isso que dá deixar o filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira falar em nome do Brasil.

Você é muito traduzido hoje, e também estudado em universidades. Existe, inclusive, um bocado de teses de doutorado sobre você. Como você lida com esse processo de “canonização” do seu trabalho?

Bom, eu tenho uma ótima relação com a universidade. Na verdade, hoje, praticamente só há critica literária dentro da universidade. Fora da universidade não há crítica séria. Nos jornais, faz muito tempo que não tem. E eu gosto de ler o que se escreve. Enfim, minha única ressalva à universidade é que eles citam demais. As pessoas se defendem demais por detrás de outros autores. Por exemplo, o camarada precisa usar o Walter Benjamin (um teórico alemão) pra dizer aquilo que ele [o crítico] quer falar. Bom, eu já sei o que o Benjamin acha, quero saber agora o que ele [o crítico] acha (risos). Eu tenho o maior apreço pela crítica universitária. De verdade. Mas isso não influencia em nada o meu trabalho.

Você se considera um “homem de imprensa”? Sua formação e seu trabalho como jornalista influenciaram a sua escrita?

Eu sempre fui um péssimo jornalista. Não é modéstia, eu realmente era muito ruim. Sou muito tímido. Eu praticamente dediquei todo o meu trabalho jornalístico para (mais…)

Flip 2015 anuncia a programação da Flipinha, voltada ao público infantil

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Luiz Ruffato, Diléa Frate e Claudio Fragata estão entre os convidados.
13ª Festa Literária de Paraty acontece entre os dias 1º e 5 de julho.

Publicado no G1

O escritor Luiz Ruffato, convidado da Flipinha (Foto: Divulgação/Luciana Branco Comunica)

O escritor Luiz Ruffato, convidado da Flipinha
(Foto: Divulgação/Luciana Branco Comunica)

A organização da edição 2015 da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) anunciou nesta terça-feira (3) os autores convidados da Flipinha, programação voltada ao público infantil (veja a lista abaixo). Dentre os 14 escritores e ilustradores convocados, estão Luiz Ruffato, Diléa Frate e Claudio Fragata. A 13ª edição da Flip acontece entre os dias 1º e 5 de julho. O autor homenageado vai ser Mário de Andrade.

Mário também é tema de conversas na Flipinha. Dentre os convidados, estão Luciana Sandroni, autora de “O Mário que não era de Andrade” (Companhia das Letrinhas), e Odilon Morais, ilustrador do livro “Será o Benedito! ” (Cosac Naify).

Novidades
A 13ª edição da festa vai manter a gratuidade no show de abertura e nos telões externos. A Flip anuncia ainda a realização, em parceria com o British Council, de um intercâmbio de residências literárias para tradutores do Brasil e do Reino Unido em início de carreira, com até cinco traduções publicadas. O tradutor brasileiro selecionado passará três semanas na Inglaterra, em Norwich. Além disso, poderá participar de debates e fazer contatos profissionais na London Book Fair, em abril. Por sua vez, o tradutor britânico passará três semanas no Brasil, em Paraty, entre junho e julho.

Mesma curadoria
No início de outubro, a Flip já havia comunicado que o jornalista e editor Paulo Werneck, 36, continuaria como curador. Ele já exerceu a função neste ano, que ficou marcada pela forte presença de humoristas e de convidados que não escritores. Sintomaticamente, o evento se encerrou com um manifesto do líder ianonâmi Davi Kopenawa.

Sobre os planos para a próxima Flip, Werneck afirmou, por meio de nota que “em 2014, a Flip se abriu, ao mesmo tempo, para a cidade e para o público que estava fora de Paraty”. E antecipou: “Esse é um movimento sem volta. Em 2015, vamos conservar esse espírito livre e afetuoso que é a marca dos grandes momentos de todas as Flips”.

Veja, abaixo, a lista de convidados da Flipinha e os perfis divulgados pela organização:

Alessandra Pontes Roscoe
Mineira, moradora do Distrito Federal, teve seu primeiro conto publicado, aos nove anos, numa antologia poética organizada pela Fundação Educacional do DF. Possui 25 livros publicados, entre eles “Histórias pra boi casar” e “JK, o lobo-guará”. Em 2013, foi finalista do Prêmio Jabuti e coordenou o Festival Itinerante de leitura que percorreu 20 Regiões administrativas do DF.

Claudio Fragata
Paulista de Marília, foi jornalista e editor antes de se dedicar integralmente à literatura. Passou parte da infância como menino de apartamento em São Paulo, onde seus companheiros eram os livros e o seriado “Sítio do Pica-pau Amarelo”, baseado na obra de Monteiro Lobato. Autor dos livros “Alfabeto escalafobético” (Jujuba) e “A princesinha boca-suja” (Ática/Scipione).

Dilan Camargo
Gaúcho, publicou, em cerca de 30 anos de carreira, mais de 20 livros de poemas e contos infantis, juvenis e adultos, além de peças teatrais e letras de canções. Vencedor de prêmios em literatura e música, com longo histórico de publicações em jornais e participações em feiras de livro, Dilan é também um dos fundadores da Associação Gaúcha de Escritores e apresenta um programa de entrevistas em uma TV pública gaúcha.

Diléa Frate
Paulista, é jornalista e escritora. Foi diretora e redatora do Programa do Jô durante 20 anos. Publicou sete livros infantis. “Procura-se Hugo” (Ediouro) virou peça de teatro. Um de seus últimos livros, “A menina que carregou o mar nas costas” (Nova Fronteira) acaba de ser transformado em um curta-metragem dirigido e roteirizado por ela. Foi premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte e recebeu a menção honrosa da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Criadora do programa Tv Piá, eleito pelo júri infantil do Festival Comkids Iberoamericano como o melhor programa infantil de não ficção para crianças de 7 a 11 anos.

João Anzanello Carrascoza
Paulista, é graduado em Publicidade e Propaganda pela Universidade de São Paulo (USP), onde é professor desde 1993. Em 2013, concluiu, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sua pesquisa de pós-doutorado sobre a interface entre a publicidade e a literatura. É autor de contos e romances, além de obras para crianças e jovens. Possui mais de 30 livros publicados, que lhe valeram alguns dos mais importantes prêmios literários do país: Jabuti, Guimarães Rosa/Radio France Internationale, Fundação Biblioteca Nacional, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e APCA. Escreveu para o público infantil as obras “Prendedor de sonhos” (Ática/ Scipione), “Ladrões de histórias” (Formato/ Saraiva) e “O homem que lia as pessoas” (Edições SM).

Luciana Sandroni
Carioca, formou-se em letras e fez mestrado em comunicação e semiótica. Autora de vários livros infantis e juvenis premiados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Luciana também recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil por Minhas Memórias de Lobato, e indicação para a lista de honra do Ibby, International Board on Books for Young People. Autora da biografia “O Mário que não era de Andrade” (Companhia das Letrinhas).

Luiz Ruffato
Trabalhou em diversos jornais até que, em 2003, abandonou a carreira de jornalista para se tornar escritor em tempo integral. Tem treze livros publicados, entre romances, ensaios e coletâneas de poemas. Seus livros já receberam traduções para o alemão, o finlandês, o inglês, o espanhol, o francês e o italiano. Escreve semanalmente para o “El Pais Brasil”. Tem dois livros infantis publicados: “A história verdadeira do sapo Luiz” (DSOP) e “e mim já nem se lembra” (Moderna/ Salamandra).

Odilon Morais
Paulista, cursou arquitetura, mas sua paixão por livros e desenhos (bem como uma boa dose de acasos) o levou a trabalhar com ilustração de livros. Recebeu prêmios como o Jabuti e o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores. Hoje, Odilon divide suas atividades entre a produção e os cursos que ministra no Instituto Tomie Ohtake e em outras instituições. Ilustrador dos livros “Será o Benedito!” (Cosac Naify, 2008), a partir da obra de Mário de Andrade, e Germinal, de Émile Zola.

Ondjaki
Ondjaki é africano de Luanda. Prosador, poeta e roteirista de cinema. É membro da União dos Escritores Angolanos e da Associação Protectora do Anonimato dos Gambuzinos. Seus livros foram traduzidos para diversos idiomas, como espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco e polaco. Publicou os livros “O voo do golfinho” (Companhia das Letrinhas) e “Uma escuridão bonita” (Pallas), entre outros.

Rita Carelli
Paulista, é escritora e ilustradora, além de atriz e cineasta. Viveu parte de sua infância entre aldeias de índios, acompanhando seus pais em filmagens e pesquisas. Seus livros são uma forma de compartilhar com as crianças não indígenas e suas famílias as alegrias e dificuldades das crianças indígenas do Brasil. Autora da coleção “Um dia na aldeia” (Cosac Naify).

Simone Matias
Formada em jornalismo, estudou desenho e pintura nos EUA, no Brasil e na Itália. É ilustradora e professora de desenho, pintura e ilustração. Lançou seu primeiro livro em 2006 e hoje tem mais de 40 livros publicados. Fez ilustrações para a “Folha de S.Paulo”, “Folhinha” e para a revista “Crescer”.

Stella Maris Rezende
Mineira, Stella Maris Rezende é mestre em Literatura Brasileira, escritora, dramaturga, artista plástica, cantora e atriz. Publicou romances, novelas, crônicas, contos e poemas, para o público adulto, juvenil e infantil. Recebeu prêmios importantes, entre eles o Prêmio Nacional de Literatura João-de-Barro, o Jabuti e o Prêmio Barco a Vapor/Fundação SM.

Tiago Hakiy
Amazonense, descende do povo sateré-mawé. Poeta, escritor e contador de histórias tradicionais indígenas. É autor de vários livros sobre a temática, voltados para o público infantil, como “CurumimZice” (Leya) e “Guaynê derrota a cobra grande” (Autêntica). Em 2012, foi vencedor do Concurso Tamoios de Textos de Escritores Indígenas. Formado em Biblioteconomia pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas), mora no coração denso da floresta amazônica.

Tino Freitas
Cearense, morador de Brasília, é um artista múltiplo: escritor, músico, jornalista, e também mediador de leitura do projeto Roedores de Livros, que, desde 2006, desperta o prazer de ler junto a crianças no entorno de Brasília. Seus livros já estiveram entre os finalistas do Prêmio Jabuti de Literatura Infantil (2011, 2013 e 2014) e ganharam o Selo Altamente Recomendável para Crianças pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil). Entre suas obras estão “Os invisíveis” (Casa da Palavra) e “Três porquinhos de porcelana” (Melhoramentos).

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