O cantor Naldo e seu irmão Lula

O cantor Naldo e seu irmão Lula

Rafael Costa, na Veja

Naldo Benny enfrentou um ruidoso processo de divórcio para se casar com Ellen Cardoso, a Mulher Moranguinho, em uma celebração da qual seu filho se negou a participar. Mas as desavenças familiares são águas passadas – ao menos, nas páginas de Cada Vez Eu Quero Mais (Planeta, 91 páginas, 31,90 reais), autobiografia que o cantor de Amor de Chocolate lança na tarde deste domingo, na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, com título emprestado de um verso do seu maior hit. A obra, para ficarmos na mesma música, tem sabor de chocolate: nela, o cantor adoça tudo o que viveu, para contar da maneira mais positiva a sua trajetória, desde quando era conhecido como Ronaldo Jorge na Vila do Pinheiro, no Rio, até o momento em que se viu na varanda do Hotel Fasano, na praia de Ipanema, ao lado do ator Will Smith, ouvindo um bloco de Carnaval cantar, na rua embaixo, versos da sua canção.

A vida de Naldo, ao menos no livro, não foge daquela história conhecida do menino humilde que decidiu investir em seu talento para alcançar o sucesso. Uma atitude louvável, ainda mais para quem, como ele diz ter feito, conseguiu atravessar a juventude sem ceder ao crime organizado ou às drogas, elementos que o rodearam no percurso. O problema é que o orgulho do músico por sua travessia – sem falar no fato de ele se declarar uma pessoa do bem – é exagerado a ponto de dar ao livro um grosso verniz chapa-branca.

1Com poucas páginas e letras garrafais, Cada vez eu Quero Mais é uma leitura fácil, rápida e pobre em detalhes, tanto sobre a vida pessoal como profissional do cantor, elementos que colocam um tempero a mais em uma biografia. No caso de Naldo, grande parte das situações narradas no livro pode ser facilmente encontrada no Google. Faltam detalhes sobretudo ao desfecho de Lula, irmão e parceiro musical no início da carreira, assassinado em 2008. Seu corpo foi encontrado dois dias depois, carbonizado, no Instituto Médico Legal (IML). O episódio, desde a morte até o luto, é narrado em pouco mais de uma página, sem qualquer menção a quem poderia ter cometido o crime. É muito pouco, dada a importância do MC na vida do cantor. “Fiquei uns quatro meses deprimido, me forçava a sair do escritório apenas por achar que era o que Lula desejaria”, escreve Naldo, para já no parágrafo seguinte reaparecer restaurado, narrando a sua “volta por cima”.

Já o filho, Pablo Jorge, 16, fruto do casamento com Branka Silva, mal é citado e aparece apenas – com a metade de seu corpo – em uma foto quando bebê, no colo do pai.

Cada Vez Eu Quero Mais é uma leitura voltada exclusivamente para os fãs de Naldo Benny, que podem se comover com a história de superação e a batalha do cantor para sair do morro carioca e chegar à varanda do Hotel Fasano. E só. Já aqueles que procuram uma boa biografia, com histórias controversas e elementos inéditos, podem poupar trinta reais e meia-hora da vida com uma leitura de pouquíssima relevância.

A biografia de Naldo em cinco tópicos

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* Chapa-branca
Ao longo de todo o livro, Naldo exalta de maneira exacerbada sua história de superação e seu jeito de bom moço. A narrativa ofusca alguns fatos controversos de sua vida, como a briga judicial com sua ex-mulher, a produtora musical Elizete Pereira, mais conhecida como Branka Silva, em julho do ano passado, e a relação tortuosa com seu filho, Pablo Jorge, fruto do casamento com Branka, que tem apenas seu nome citado em poucos momentos da biografia. “Fui exposto desde cedo à realidade das drogas, assalto, roubo e crime, mas eu tinha muito medo de decepcionar minha mãe. E meu pai, que sempre nos ensinou que as conquistas vinham de trabalho e dedicação, também fez o que pôde para afastar desse cotidiano perigoso da gente”. Um dos – muitos – trechos em que Naldo destaca a importância de seus pais em sua vida e seu bom caráter.

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* Morte do irmão

A morte de Lula, seu irmão mais novo e parceiro musical no início da carreira, é citada brevemente, assim como muitos outros episódios da biografia. O episódio, desde o assassinato do MC, que é encontrado com o corpo carbonizado Instituto Médico Legal (IML), em 2008, até o luto vivido pelo cantor, é narrado ao longo de pouco mais de uma página, em que Naldo se limita a descrever que passou cerca de quatro meses deprimido e que acabou voltando ao trabalho com apoio da equipe da gravadora. “Mais bem cercado na época pelas gravadoras, tive apoio da equipe e dos empresários, que me trataram com carinho e não pressionaram para que eu voltasse logo a trabalhar”, escreve o funkeiro.

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* Busca pela fama

A busca pela fama é uma das partes mais interessantes da biografia, senão a única. Apesar de ser descrita sem muitos detalhes, Naldo fala sobre os “nãos” que recebeu de alguns produtores e o preconceito que sofria de muitos funkeiros pelo fato de tentar emplacar um estilo com mais melodia e letras românticas, que não citavam temas como crime, drogas e sexo. “O funk na época era mais pesado; as letras seguiam a linha da porrada ou sacanagem, não tinha sutileza ou romantismo. Não era exatamente a nossa praia, mas era o que fazia sucesso. Eu sempre tentava puxar os versos para ‘censura livre’. (…) O tal produtor nos recebeu supermal. A casa dele não tinha varanda, só um quintal para a gente atravessar e se molhar ainda mais. (…) Ao entrara na casa dele, a gente sentou e tudo estava molhado, e ele reclamou, grosseiro, desandando a falar que era responsável pela caravana tal, que administrava uns trinta MCs e blá-blá-blá”.

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* Historia de superação

A vida de Naldo contada em seu livro, não foge daquela história conhecida do menino humilde que decidiu investir em seu talento para alcançar o sucesso profissional, ou o estrelato. A história de superação, apesar de ser algo louvável, é citada em diversos momentos da obra, muitas vezes desnecessariamente. “Nessa hora, um filme passou na minha cabeça – uma história que começa como tantas outras, um moleque que desejava ter uma roupa de marca ou um tênis bacana, uma trajetória comum como a de qualquer garoto da favela. Ali, porém, no coração da praia mais famosa do mundo, na varanda de um hotel de luxo, esse menino da Vila do Pinheiro estava deixando o superstar de Hollywood de boca aberta”, escreve Naldo sobre o momento em que está ao lado de Will Smith na varanda do Hotel Fasano, no Rio de Janeiro, enquanto uma multidão na rua canta versos de sua música.

* Primeiro sucesso

Pouco depois da morte de Lula, Naldo se viu obrigado a seguir carreira solo e lançou o álbum Na Veia, em 2009. O disco foi produzido por uma gravadora independente e ganhou vida graças ao investimento do próprio cantor, que começou a ganhar uma “quantia razoável de dinheiro” como compositor. Uma de suas obras é a canção Depois do Amor, que viria a ser gravada por Belo e Perlla. As músicas, no entanto, foram todas compostas em parceria com o irmão, como o hit Como Mágica, primeira canção a fazer sucesso em nível nacional. “Peguei a grana que eu tinha juntado com os direitos autorais de Depois do Amor e Como Mágica, e banquei a gravação desse novo CD. A turma da música já conhecia a gente, os caras da rádio, locutores, diretores etc.”