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Posts tagged ‘Madame Bovary’

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

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Douglas Pereira, no Cafeína Literária

Todos os livros que já li sobre teoria literária citam Madame Bovary. O que quer dizer muito sobre uma obra. Lançado em 1856, o livro abalou as estruturas da sociedade francesa do século XIX. E olha que nem há passagens de sadomasoquismo e sexo explícito… Por que então tamanho reboliço?

Bem, logo em seguida de Balzac, o livro é um dos grandes marcos na consolidação do gênero romance. Considerado por alguns, inclusive, como o primeiro romance (nota: não confundam romance e novela)

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Até então, os romances representavam historinhas do cotidiano da população burguesa – algo como neo-granfinos, um povo que tinha dinheiro, mas não tinha a classe da nobreza que, por sua vez, havia sido extinta pela revolução francesa uns poucos anos antes. Balzac e Flaubert entraram na jogada para mudar o tom da coisa, usando o romance como gênero para incutir análises sobre a psique humana.

Madame Bovary, quase em tom de zombaria, critica a sociedade burguesa de forma inexorável, mostrando uma protagonista que, ao mesmo tempo em que despreza a superficialidade da sua própria classe social, também se deleita descaradamente na colcha de pecados capitais por ela oferecida. Coisa que a maioria dos membros desta malta procurava manter nas sombras.

Emma Bovary, a heroína (está mais para anti-heroína) é uma mulher jovem e entediada com a vida conjugal. Quanto mais seu marido se esforça para dar à moça o luxo e o domínio sobre ele, mais ela o despreza e mais se enfada de tédio de não ter de se esforçar para nada. E, na tentativa de conseguir um antídoto para seu enfado, Emma envenena-se com os prazeres do flerte e das fantasias do amor. É uma mulher que não consegue aceitar a simplicidade da felicidade. Que deseja o ardor dos desafios, a adrenalina da sedução e a poesia do sofrimento.

Não conseguia agora convencer-se de que a calma que vivia fosse agora a felicidade que sonhava.

Hoje em dia qualquer Cinquenta Tons de Cinza – bem ou mal – fala sobre isso. Mas naquele tempo era uma afronta à moral. Flaubert foi processado e acusado de incitar as donas de casa (maioria entre o público leitor) com ideias libidinosas. Coisa que só fez o livro ficar ainda mais famoso. Sua forma de se defender por ter criado uma personagem “diabólica” foi a frase que ficou célebre: “Madame Bovary c’est moi!”

O que chama a atenção aos livros teóricos é, além da profunda análise psíquica dos personagens, o fato de Flaubert ter desenvolvido um novo formato de narrativa, desconhecido até então: a narração indireta livre. A técnica consiste em um narrador – apesar de estar em terceira pessoa – descrever os sentimentos dos personagens quase como se os assumisse. Como se, falando do outro, fosse capaz de senti-los e descrever com nitidez e carga emocional intensa.

Ia, afinal, possuir as alegrias do amor, a febre da felicidade de que já desesperara. Entrava em algo de maravilhoso onde tudo era paixão, êxtase, delírio; uma imensidão azulada a envolvia, os píncaros do sentimento cintilavam sob a sua imaginação, e a vida cotidiana aparecia-lhe longínqua, distante, na sombra, entre os intervalos daquelas alturas. Lembrou-se das heroínas dos livros que havia lido e a legião lírica dessas mulheres adúlteras punha-se a cantar em sua lembrança, com vozes de irmãs que a encantavam. Ela mesma se tornara como uma parte verdadeira 57 de tais fantasias e concretizava o longo devaneio de sua mocidade, imaginando-se um daqueles tipos amorosos que ela tanto invejara antes. Além disso, Emma experimentava uma sensação de vingança. Pois não sofrerá já bastante? Triunfava, todavia, agora, e o amor, por tanto tempo reprimido, explodia todo com radiosa efervescência. Saboreava-o sem remorsos, sem inquietação, sem desassossego. (Gustave Flaubert, Madame Bovary, p. 124-5.)

Esta técnica foi evoluída e adotada por muitos romancistas, inclusive a nobre Clarice Lispector.

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Obj : 2.8/80, # 16, t 1/60 secGraphit : Gén : 8.2 G : 7.2 D : 7.2

Como todo romance antigo, ao estilo da época, o livro exagera em algumas descrições mas que somam, sem dúvida, para ambientar o leitor. A mim, o que encantou, é o lirismo das figuras de linguagem de Flaubert, tão belos que quase tecem poemas:

(…) naquela multidão, todas as bocas estavam abertas como que para beber as palavras (…)

O autor levou cinco anos para escrever a obra. Era citado como um homem compulsivo por perfeição em seu texto. E, verdade ou não, entrou para a história com seu trabalho. E pensar que seu primeiro livro, As Tentações de Santo Antão, ficou engavetado durante anos, porque seus amigos o aconselharam, após lê-lo, a largar a literatura, pois achavam que não tinha talento…

Vale um Café Vienense

90 livros para ler antes de morrer

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Publicado por Catraca Livre

1Até o último dia em que você viver, haverá uma lista imensa de livros que podem ser lidos. No site Universia Brasil existem mais de 90 clássicos da literatura mundial. Tudo de graça, prontos para o download.

Na lista, obras como “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert; “Fausto”, de Goethe; “A Divina Comédia”, de Dante Alighier e muito mais. Veja a lista completa no site da Universia 

Baixe o livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Baixe o livro Fausto, de Goethe

Baixe o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Baixe o livro A Divina Comédia, de Dante Alighieri

O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde 

Baixe o livro Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoievski (em Inglês)

A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo

Baixe o livro Hamlet, de William Shakespeare

Mais um atestado de óbito da literatura. Mas este é literário

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Imagem Google

Sergio Rodrigues, no Todo Prosa

Nu na banheira, encarando o abismo (um manifesto sobre o fim da literatura e dos manifestos) é o prolixo título de um ensaio apocalíptico de Lars Iyer publicado no 12º número da revista “serrote”, que chega às livrarias semana que vem. Trata-se aparentemente de mais um aborrecido atestado de óbito da literatura, como aqueles que críticos sem conta vêm emitindo – para um departamento onde logo lhe carimbam “arquive-se” – há pelo menos um século. No entanto, o ensaio de Iyer se destaca da produção habitual dos apocalípticos por dois motivos. O primeiro é que é bem argumentado e bem escrito, com paixão e verve, característica respeitada pela tradução de Thiago Lins e que só um verdadeiro amante de literatura (um necrófilo, segundo o argumento do autor) poderia lograr.

O segundo motivo é mais interessante ainda: sendo também ficcionista – é professor de filosofia numa universidade inglesa e autor de dois romances – Iyer acaba deixando claro, na parte final do texto, que discute consigo mesmo. Sua preocupação principal é identificar aquilo que ainda pode ser escrito após a suposta morte da literatura, uma vez que, evidentemente, escrever continua sendo preciso, não apenas para ele como para muitos de nós. É isso que o leva a eleger como seus cicerones pós-apocalípticos três famosos escritores-legistas – Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas e Thomas Bernhard – e encerrar o ensaio com uma lista de conselhos a quem insiste em fazer literatura, que mais uma vez soam como lembretes a si mesmo e que vão reproduzidos abaixo. Tudo muito discutível, claro. Neste caso, isso é elogio.

Utilize uma clareza não literária. Sabe-se que o jogo acabou, que está tudo terminado. O estilo de ‘Os detetives selvagens’ é notavelmente não literário, quase deselegante, apesar de todo o virtuosístico desassossego de suas vozes narrativas. (…) O abismo necessita da clara constância de um testemunho, da sobriedade de uma testemunha no dia seguinte, para lembrar-se do que ocorreu antes. A literatura não é mais o objeto em si, e sim o objeto desaparecido.

Rejeite métodos encerrados, rejeite obras-primas. O anseio de criar obras-primas é uma espécie de necrofilia. A escrita deve estar aberta a todos os lados da vida para que seu esboço – a vida melancólica e farsesca – possa estar presente, saqueando suas páginas. Vila-Matas afirma ser necessário, para qualquer um que escreva um texto ficcional, mostrar a própria mão, permitir que uma imagem de si mesmo apareça. (…) Siga sua própria tolice como pegadas na areia.

Escreva sobre este mundo, independentemente do assunto sobre o qual esteja escrevendo, escreva sobre um mundo dominado por sonhos mortos. Ressalte a ausência de esperança, crença, compromisso ou seriedade elevada. Assinale o passado que nos arruinou e o futuro que nos destruirá.

Deixe claro seu sentimento de impostura. Você não é um autor, não no antigo sentido da palavra. (…) Não há nenhum prêmio para você na literatura, claro que não, nada para sua pompa insensata. Além disso, pouquíssimas pessoas estão lendo de verdade: atente para esse fato também. Ninguém está lendo, idiota! Existem mais romancistas do que leitores. Existem livros demais…

Dê vulto à sua melancolia. Deixe claro que o fim está próximo. A festa acabou.

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