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Mãe evangélica reescreve Harry Potter, com medo de seus filhos virarem bruxos

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Duda Delmas Campos, no Literatortura

No presente momento de frenesi eleitoral e acirradas discussões políticas, muito se diz a respeito do conservadorismo religioso, que não só no Brasil, mas mundo afora, afeta as vidas de muitas pessoas, assim como se debate acerca da validade do fundamentalismo. E é nesse contexto que surge Grace-Ann, nos EUA. A texana, amedrontada ante a possibilidade de seus filhos tornarem-se bruxos ao lerem Harry Potter, decidiu reescrever a saga, retirando-lhe as partes mágicas. Pois é.

A nota que precede essa releitura de Harry Potter, que você pode conferir aqui, lê: “Olá, amigos! Meu nome é Grace Ann. Sou nova nessa coisa de fanfic; mas, recentemente, encontrei um problema para o qual acredito que essa seja a solução. Meus pequenos têm pedido para ler os livros de Harry Potter, e é claro que fico feliz que estejam lendo, mas não quero que se transformem em bruxos! Então pensei… por que não fazer algumas pequenas mudanças para que esses livros sejam familiares? E depois pensei, por que não compartilhar isso com todas as outras mães que estão enfrentando o mesmo problema?”

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Segundo a autora, a história de Harry Potter tem muito potencial, já que trata de amizade e coragem, mas, pela existência de bruxaria, seus filhos não podem ler, de forma a ter sido necessário que ela a reescrevesse mantendo toda a aventura e a “boa moral”, mas eliminando todas as coisas ruins, ou seja, a magia. Você pode estar perguntando-se: e como ela simplesmente retira a magia de um livro que é fundamentalmente sobre isso? Bom, então vamos a uma breve sinopse desse novo mundo.

Basicamente, o bom e obediente órfão Harry Potter mora com seus tios, evolucionistas que negam a existência divina, até que um dia é visitado por Hagrid, um pregador cristão que bate na casa dos Dursley para perguntar se eles querem ser salvos. Harry, puro e pleno de “santa energia”, aceita e parte para a Escola de Orações e Milagres de Hogwarts, a fim de aprender a ser cristão. Lá é recebido pelo Reverendo Dumbledore e sua esposa, Minerva, pais de Hermione Granger. A menina lhe explica sobre Voldemort, um homem que deseja destruir tudo por que eles lutam, pressionando o Congresso a aprovar uma pauta que os impediria de expressar livremente sua religião.

Temos também Rony, um sonserino que deixa Harry bastante intrigado por estar rezando a uma estátua. O Rev. Dumbledore explica que, como tempos difíceis estão chegando, a escola é inclusiva em relação a todos aqueles que acreditam n’O Senhor, independentemente de como, de modo que as divisões do cristianismo funcionam como as Casas Grifinória, Sonserina, Lufa-Lufa e Corvinal. A esta última casa pertence Draco, que crê que mulheres são inferiores a homens, por isso não devem trabalhar, o que incomoda profundamente nosso herói Harry, para quem mulheres não devem ter uma carreira porque devem cuidar dos filhos. Já Luna pertence à Lufa-Lufa, pregando Mateus 7:1:“Não julgueis, para que não sejais julgados”.

Outra alteração é que Snape é o professor responsável pela Grifinória e defende que existem forças malignas que querem a derrocada dessa Casa, já que as outras ou estão conspirando com Voldemort, ainda que isso contrarie a 1ª Emenda Constitucional, ou simplesmente acreditam em tudo. E isso é o que temos até agora. Não há muita aventura ainda, contrariando o que a autora afirmou, mas quem sabe nos próximos capítulos? Talvez…?

Finda a nossa sinopse, é preciso constatar: claramente há alguns problemas aí. Pelo menos alguns. Dentre eles, os mais imediatos seriam: Dumbledore e McGonnagall, casados? E pais de Hermione? Rony, aluno da Sonserina? Pelas barbas de Merlin! Snape, professor da Grifinória??! Um pouquinho de verossimilhança com o mundo fictício, por favor! Já em termos de qualidade literária, a “obra” peca pela monotonia das cenas, sempre marcadas por discussões religiosas e pensamentos castos, corretos e puritanos do herói, tornando-a uma leitura bastante chata, principalmente se considerarmos o público alvo.

No entanto, a fanfic evidencia outros problemas muito mais graves, obviamente. Evidencia o quanto as artes ainda são censuradas e revisadas com intuito doutrinário. Evidencia como o fundamentalismo religioso não é restrito apenas a jihadistas do Oriente Médio. Evidencia como a intolerância religiosa é perigosa para a sociedade. E ratifica uma visão errada sobre a religião, perpetuando o equivocado estereótipo de instituição arcaica e ignorantemente extremista.

Em primeiro lugar, é preciso deixar bem claro que Grace-Ann tem todo o direito de fazer isso. Ela não está falando em nome de um governo ou instituição laica, nem mesmo obrigando ninguém a ler. Mas isso não quer dizer que possamos tão somente ignorar iniciativas como as dela, pois, assim como cabe a apologia por ela feita, cabe também a crítica. Crítica porque ela se utiliza de um discurso falacioso segundo o qual religião e Teoria Evolutiva são excludentes; crítica porque ela confunde religião com misoginia e esvazia o papel da mulher na sociedade; crítica porque ela hierarquiza as religiões de acordo com a proximidade de Deus ao invés de colocá-las em patamar de igualdade; crítica porque ela crê que ficção e magia possam ser demoníacas e não sensibilizantes, libertadoras e enriquecedoras (imagine o que ela deve não fazer com contos de fada). Enfim, como todo projeto polêmico, a Escola de Orações e Milagres de Hogwarts invariavelmente atrai críticas. E tanto a desaprovação quanto a defesa, você deve expressar nos comentários – vamos aquecer a discussão!

De todo modo, é muito interessante pensar que Harry Potter, de todos os livros, provoque reações desse tipo, já que a própria autora (cristã declarada, diga-se de passagem) frontalmente as ironizou em seu “Os Contos de Beedle, o Bardo”, nas notas de Dumbledore sobre a história “O Bruxo e o Caldeirão Saltitante”. Portanto, para fechar essa matéria, vou deixar aqui dois trechos para comparação: um de Grace-Ann e um de sua satírica e até profética equivalente fictícia, Beatrix Bloxam, que reescreve consagrados contos infantis do mundo mágico, tornando-os mais apropriados aos delicados ouvidos das crianças. A análise fica a critério do leitor.

“Então a panelinha dourada dançou de prazer – tim tirim tim! – batendo seus pezinhos rosados! Willyizinho tinha curado as barriguinhas dodóis de todas as bonequinhas, e a panelinha ficou tão feliz que se encheu de docinhos para Willyizinho e suas bonequinhas! ‘Mas não se esqueça de escovar seus dentinhos’ – gritou a panela.”.(Beatrix Bloxam)

“Hagrid irradiou de alegria. Havia rezado tanto para salvar uma alma aquele dia e estava tão feliz de ter salvado a alma de um pequeno tão sério e sensível. O pobre garoto, tendo sido criado por dois pais que não eram cristãos e que iam ambos trabalhar, deixando-o sozinho com a babá. Era uma coisa boa que Hagrid tivesse chegado lá em tempo. Cinco anos depois, Harry poderia ter se tornado um evolucionista fornicador e drogado!

(…)

‘Eu te perdoo, Tia Petunia, por causa de Lucas 23:34.’. Hagrid mais uma vez ficou espantado com a sabedoria dos pequenos. Ele não sabia se poderia perdoar alguém que o tivesse machucado tanto quanto aquela mulher havia machucado o pequeno Harry. Negá-lo a verdade? Quem seria tão cruel? Mas Harry nem pensou duas vezes. Perdoou-a simplesmente! Verdadeiramente, Hagrid ganhara um novo entendimento de Mateus 19:14 aquele dia.” (Grace-Ann)

Obs.: Este é um artigo de opinião, portanto, onde é opinativo é porque é opinativo mesmo, não possuindo qualquer caráter manipulador ou doutrinário. E também não possui a intenção de transformar nenhum leitor em bruxo contra sua vontade. 😉

Quarto de despejo – Diário de uma favelada: a escrita como válvula de escape

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Carolina Maria de Jesus, moradora da antiga favela do Canindé, em São Paulo, relatou em seu diário o cotidiano miserável de uma mulher negra, pobre, mãe, escritora e favelada.

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus

Estela Santos, no Homo Literatus

Introdução

Alguns escritores já escreveram sobre o cotidiano miserável das favelas, mas a grande maioria o fez de uma perspectiva de fora, isto é, sem viver, de fato em uma favela. Em Quarto de despejo temos uma perspectiva diferente: quem escreve é alguém que viveu na favela: a perspectiva é de Carolina Maria de Jesus, moradora da, agora, antiga favela do Canindé de São Paulo¹, uma catadora de papel e de outras sucatas, uma mulher negra, pobre, mãe, escritora e favelada.

O diário foi escrito na década de 1950 e conta a dura realidade dos favelados de Canindé e dos seus costumes. Trata-se de um diário relata e denuncia a violência, miséria e fome – bem como a dificuldade para se ter o que comer.

E como Carolina foi descoberta? O jornalista Audálio Dantas foi encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que vinha se expandindo próxima a beira do Rio Tietê, no bairro do Canindé. Em meio a todo rebuliço da favela, Dantas conheceu Carolina e percebeu que ela tinha muito a dizer, e logo desistiu de escrever a matéria.

A negra Carolina escreveu a (sua) história da favela em 20 cadernos encardidos, cadernos que ela encontrou em meio às suas andanças em busca de sustento para seus três filhos: João José, José Carlos e Vera Eunice. Como o próprio jornalista declara: “repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela”.

O livro conserva a escrita de Carolina, sua sintaxe, seu discurso. Audálio Dantas apenas alterou algumas vírgulas e palavras que seriam incompreensíveis aos leitores, também cortou excesso de repetições de certas situações, assim a leitura do diário não se torna exaustiva.

Quarto de despejo é atemporal. Os anos se passaram, mas a situação de quem ainda vive nas favelas e na miséria ainda é muito semelhante à situação de Carolina décadas atrás. Além disso, o livro foi traduzido para 13 línguas, sendo referência para os estudos sociais e culturais brasileiros.

O diário de uma favelada

Primeiramente, pensemos no diário, ou melhor, no que é um diário. Carolina escreveu um diário íntimo, que não é qualquer diário: é o diário de uma favelada, o diário de quem morou em uma das favelas assoladas pela miséria e violência na década de 1950, a Canindé.

O diário íntimo tem como característica central a escrita do eu. Essa escrita marca uma identidade, o que nos remete a pensar em: Quem é a pessoa se escreve? Quem é a pessoa que fala de si? A identidade da narradora, que é Carolina, é basicamente esta: mulher, negra, mãe – que cria seus filhos sozinha nos anos 1950 e 1960 –, escritora, pobre e favelada.

Este diário tem como característica forte a autobiografia “real”. Por que este real entre aspas? Porque não existe uma autobiografia sem elementos ficcionais. Nós não conseguimos representar o real pela escrita sem ficção, uma vez que nem mesmo temos acesso a todo real, de fato (um exemplo de autobiografia “real” é o romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, a diferença está em não ser exatamente Paulo Honório, o personagem principal, o autor da história, sua história ganha vida pelas mãos do escritor Graciliano Ramos).

De forma resumida, o diário de Carolina é uma espécie de literatura-verdade, que relata a cruel e triste vida na favela. Sua linguagem é ao mesmo tempo simples e rebuscada: simples pela forma que escreveu algumas palavras, aproximando-se da linguagem oral (como “iducada”) e rebuscada pelas palavras altamente cultas que utiliza (como “funestas”). Seu diário comove leitores devido a sensibilidade como conta os acontecimentos durante os anos que morou em Canindé. Percebemos que tudo que é narrado, Carolina sentiu, viu, vivenciou.

Carolina Maria de Jesus escreveu o diário entre 15 de julho de 1955 à 01 de janeiro de 1960. Não escreveu todos os dias, às vezes passava cerca de três a dez dias sem escrever. Percebemos, porém, que na maioria das vezes era porque estava doente e sentia-se fraca.

A formação educacional e escolar de Carolina

Carolina se mostra uma mulher educada e que se preocupa com a educação de seus filhos; embora não tenha tido estudado muito, relata que se preocupou em formar seu caráter, ser uma pessoa de bem. Através do diário, que possui inúmeras reflexões, fica evidente que ela tem uma imensa preocupação com a sociedade e a política.

Uma autodidata: aprendeu a ler e escrever com os cadernos, revistas e jornais que encontrava pelas ruas. Conforme conta: “Tenho apenas dois anos de grupo escolar” (JESUS, 2007, p.16). Sua mãe sonhava em vê-la professora, mas o destino e a vida de miséria não permitiram.

A escritora dava muito valor à formação escolar e preocupava-se, sobretudo com a formação de seus filhos. Mesmo tendo imenso medo da violência da favela, mandava-os à escola, fazia questão de que eles estudassem.

Carolina e seu Diário

Carolina e seu Diário

A fome e a cor da fome

Como citado anteriormente, Carolina coletava papelão e sucatas nas ruas de São Paulo. Esta era a forma como sustentava seus filhos. No entanto, o dinheiro nem sempre era suficiente, muitas vezes não havia nada para comer e ela e os filhos iam dormir com fome.

A fome permeia todo o diário. Carolina mostra a preocupação que tem em alimentar bem seus filhos, todo dinheiro é utilizado para comprar alimentos (ou sapatos para as crianças, pois se preocupava muito com os filhos e sentia pena ao vê-los descalços). O diário nos mostra a escritora contando dinheiro quase todos os dias no intuído de comprar alimentos: quando conseguia comprar arroz, feijão e carne, conforme conta, era um dia de festa, via a felicidade estampada no rosto de cada filho.

Também pegava verduras e legumes, que eram descartados nas feiras, fábricas e mercados. E quando ela e os filhos não tinham nada pra comer e estavam passando fome, comiam alimentos que encontravam no lixo. Às vezes Carolina também pegava ossos em um frigorífico e com eles fazia uma sopa para as crianças.

Carolina trabalhava demais e mesmo assim ainda não dava conta de comprar comida; muitas vezes passava mal, tinha tonturas por causa da fome. Declara que a tontura da fome é pior que a do álcool: “A tontura do álcool nos impede de cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago” (JESUS, 2007, p. 45).

Depois de pegar tudo que encontrou pelas ruas para vender, Carolina ganhou algum dinheiro e resolveu “tomar uma media e comprar um pão”, em seguida fala sobre a cor amarela da fome:

“Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.

… A comida no estômago é como o combustível nas maquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei a andar mais depressa. Eu tinha impressão que eu deslisava no espaço. Comecei a sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida” (JESUS, 2007, p.45-46).

A pobre Carolina demonstra nervosismo em vários dias narrados no diário. O(s) motivo(s) era(m) o fato de não ter dinheiro para comprar um pouco de arroz sequer: o medo da fome, o medo da enfermidade e o medo de morrer. Ficava ainda mais nervosa quando o fim de semana chegava e ficaria com os filhos em casa sem ter o que comer o dia inteiro: “Deixei o leito furiosa. Com vontade de quebrar e destruir tudo. Porque eu tinha só feijão e sal. E amanhã é domingo” (JESUS, 2007, p 108).

A favela: violência e alcoolismo

A favela do Canindé, como a própria Carolina relata, é extremamente violenta: homens batem em suas mulheres que, às vezes, saem correndo nuas de seus barracos, o que, para os favelados, é um espetáculo e não um absurdo; mulheres brigam por inúmeros motivos, inclusive por coisas banais; homens brigam com vizinhos também por inúmeros motivos; homens desafiam crianças. Tudo é motivo de briga.

A violência é muitas vezes causada pelo álcool. Carolina não bebe, diz que beber é um gasto desnecessário, que o vício no álcool gera violência e que prefere gastar seu dinheiro, conseguido com tanto esforço, comprando alimentos para seus filhos. Pais e mães bebiam na favela, o que acabava por causar mal aos seus filhos diretamente e indiretamente. Veja este relato:

“Assustei quando ouvi meus filhos gritar. Conheci a voz de Vera. Vim ver o que havia. Era Joãozinho, filho da Deolinda, que estava com um chicote na mão e atirando pedra nas crianças. Corri e arrebatei-lhe o chicote das mãos. Senti o cheiro de alcool. Pensei: ele está bêbado porque ele nunca fez isto. Um menino de nove anos. O padrasto bebe, a mãe bebe e a avó bebe. E ele é quem vai comprar pinga. E vem bebendo pelo caminho.

Quando chega, a mãe pergunta admirada:

— Só isto? Como os negociantes são ladrões!” (JESUS, 2007, p.109)

Como podemos observar no trecho acima, um menino de 9 anos, já é influenciado pelo costume de seus familiares, isto é, desde cedo bebe pinga e já pratica atos de violência, algo extremamente recorrente na favela, e ninguém se dá conta (ou não se importa), a não ser ela, Carolina. Esta costumava sempre separar brigas na favela ou chamar a polícia, e por essa razão era chamada de intrometida pelos vizinhos. Ela detestava violência e não queria aquelas cenas violentas na favela, cenas que as crianças viam e aplaudiam. Contudo, a violência em Canindé era pública, uma espécie de espetáculo ao ar livre que todos paravam pra assistir.

Relacionamentos amorosos

A moradora do Canindé dizia que não queria se casar, que preferia criar seus filhos sozinha, que não precisava de homem para criá-los. Além disso, fazia uma comparação com as mulheres da favela que apanhavam de seus homens/maridos: do quê adiantava não ser sozinha e apanhar de um homem (principalmente quando bebem)?

Durante o período do diário, passam pela vida da escritora dois homens: Manoel e Raimundo. Manoel um homem distinto, trabalhador e que insiste em casar com ela. Raimundo, um cigano, belo e sedutor. Mas Carolina não fica com nenhum dos dois, tem alguns envolvimentos, nada além. Sempre quis ficar sozinha, não queria um homem na casa em que vivia com seus filhos.

Questões políticas e sociais

A escritora sempre lia revistas e jornais, procurava sempre estar a par das questões políticas e sociais do país. Lembrando que em 1950 vivia-se no governo Juscelino Kubitschek (1955-1960), época do progresso, da expansão do país, período do “50 anos em 5”. Nesta época, Brasília era construída, o símbolo do desenvolvimento do Brasil, que representava a ideologia da época. E realmente foi um período de desenvolvimento no que fiz respeito a infraestrutura do país: grandes obras foram construídas; avenidas foram alargadas; pontes foram construídas; túneis foram feitos – tudo isto aumentou ainda mais a circulação de automóveis.

Em sua narrativa, Carolina dá um tom de sensibilidade ética no que diz respeito à política. Falava das condições de vida das pessoas pobres, falava da miséria, da fome, da falta de educação e instrução, da divisão de classes, exclusão social e ideologia da época. Carolina comparava a cidade como uma espécie de sala de visitas e favela, por sua vez, era o quarto de despejo:

“… As oito e meia da noite eu ja estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenha a impressão que sou um objeto fora do uso, digno de estar num quarto de despejo” (JESUS, 2007, p.38).

Se de um lado o país crescia, sobretudo a cidade de São Paulo, por outro mais pessoas iam para os quartos de despejo, repletos de miséria e violência. O motivo é: o governo e as grandes empresas, visando o progresso e o lucro, tomavam conta das terras onde havia as favelas, o que gerava ainda mais despejos, ainda mais exclusão social.

Breve conclusão (ou: por que Carolina escrevia todos quase todos os dias, afinal?)

1Como consta no título deste modesto ensaio, em Quarto de despejo a escrita é uma “válvula de escape”. Uma forma de fuga da realidade. E qual seria esta realidade? A realidade vivida por Carolina é permeada pela miséria, pela fome, pela violência, pela tristeza e por poucos momentos de felicidade.

Em entrevista, a escritora Carolina Maria de Jesus conta o que a motivava escrever:

“Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar, eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário” (JESUS, 2007, p. 195).

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¹ Em 1960, Canindé foi extinta para a construção da Marginal do Tietê.

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Dicas musicais:

Uma música dos anos 50, época em que se passa parte do Diário: Saudosa Maloca, de Adoniram Barbosa.

Ainda sobre a fome: Ronco da Cuíca, de João Bosco.

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Referências

BENEVENUTO, Silvana José. Quarto de despejo: A escrita como arma e conforto à fome. Revista online do Grupo de Pesquisa e Estudos em Cinema e Literatura. Disponível em: <http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/baleianarede/article/viewFile/1359/1184> Acesso em: 29 de set. 2014.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada. 9ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2007, (Sinal Aberto).

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